1127 – Novo álbum de Arthur Noronha (GO) já está disponível em streaming e explora lado oculto da viola caipira

Viola Cancioneira, que sucederá o excelente De tudo de mim , alia as composições do jovem músico e traços de artista plástica goiana com quatro diferentes afinações e violas para realçar o passeio pelo mundo das lendas

O cantor, compositor e violeiro Arthur Noronha, jovem talento da região Centro-Oeste do Brasil que nasceu e reside em Goiânia (GO), com bala na agulha para ter logo menos seu nome consagrado entre os maiorais do país que tocam o instrumento, está prestes a lançar seu novo álbum, Viola Cancioneira, que sucederá o excelente De tudo de mim e já pode ser ouvido em plataformas de streaming. O primeiro disco, tema da atualização 1058 do Barulho d’água Música (1º de maio de 2018), reúne 11 faixas, das quais apenas a que fecha o trabalho, Viola Destoada, não é cantada. Já o novo, com 10, é totalmente instrumental e revela o quanto Arthur Noronha é fera tanto na arte de compor, quanto na do ponteio das cordas.

O músico emprega em Viola Cancioneira quatro violas e recorre a quatro afinações diferentes (Rio Abaixo/Boiadeira/ Cebolão em E/Cebolão em D) com a intenção de ir além de apenas gravar mais um disco. Apoiado nas músicas e em elementos como as imagens do encarte, Arthur e seus amigos músicos trazem à luz (com o perdão do trocadilho!) um projeto artístico com primorosos elementos gráficos, dedicado aos amantes da viola caipira instrumental.  A proposta é explorar o misticismo que há por trás da viola, o lado dela que penetra os terrenos do oculto e do cinematográfico, com reforços do baixo elétrico e acústico de Sardinha, da percussão de Sinho e do violão aço de Túlio César.

 O blogue está em contato com Arthur Noronha trocando informações, ideias e impressões sobre Viola Cancioneira nestes dias que antecedem a chegada do compacto. Os 10 arquivos fonográficos já tocam na redação em formato MP3, gentilmente enviados por ele. As faixas passeiam por ritmos que vão da guarânia à folia (passando ainda por um blues que reverencia o maluco beleza Raul Seixas), toada e moda para dar ao disco uma atmosfera que visita lendas,  mistérios e fenômenos que ocorrem à noite (quem já viu ou ouviu, por exemplo, um banquete de sapos?) e seres e animais que se embrenham nos sertões, vivem mocozados/malocados nas “Terras Distantes” deste Brasil profundo nos quais, por exemplo, habita a bandoleta —  graciosa ave de no máximo 16 cm, com cara de andorinha, cujo canto geralmente emitido em dueto pelo macho e pela fêmea ao amanhecer constitui-se uma das vozes mais encantadoras do Cerrado.  

 Bandoleta, que pode ser também o nome que se dá a um pequeno bandolim, é também o título da faixa 4, a que Arthur Noronha revelou mais apreciar. Foi gravada com afinação Rio Abaixo — para quem não sabia a mesma utilizada pelo pirangueiro que, descendo o Urucuia (MG) “rio abaixo” em uma canoa improvisada, às noites de sexta-feira, tocava  viola utilizando uma afinação cujos toques — — até então — ninguém conhecia, enfeitiçando e assustando os ribeirinhos, que, incontinentis,  fechavam as janelas de suas casas e tapavam os ouvidos das mocinhas casadoiras , fazendo o em-nome-do-Pai e proferindo pragas e orações ¹ .

Desenhos de Amanda Chris com temática Música

Arthur Noronha afirmou que Viola Cancioneira não será “intimista, como a maioria propõe,  executado apenas com viola e com violão, pois além do rolê pelo lado místico com suas quatro parceiras caipiras, acompanhado pelos músicos do seu time, buscou dar às melodias  um quê de trilhas cinematográficas, como se o sugerisse temas para algum filme, série ou documentário. E este efeito virá reforçado pelas iconográficas fotografias e imagens do encarte a partir de ilustrações de Amanda Cristina (Amanda Chris), artista plástica de Goiânia que desenvolve traços de temática surrealista.

 Quem reparar na imagem da capa, por exemplo, observará que as mãos de Arthur, sobretudo a destra (com cujos dedos ele ponteia suas violas), parece maior que o natural e tem vestígios de terra, distorção que, embora mais sutil, também pode ser percebida na caixa de ressonância da viola com a qual posou. Esta viola, por sinal, merece citação à parte: dinâmica, seria o principal instrumento a ser utilizado no projeto devido à sua sonoridade metálica. Durante os ensaios ela jamais deu xabu, mas negou fogo e apresentou estranhos problemas técnicos justamente no estúdio e, assim, acabou posta no canto.    

Lado B

 Ocorrências à parte, o repertório de Viola Cancioneira explora, portanto, uma das facetas atribuídas à viola caipira e que é responsável por vários “causos” contados por artistas — entre os quais muitos põem à mão no fogo para garantir que não se tratam de lendas. Introduzida segundo alguns autores e pesquisadores no Brasil pelos jesuítas ainda no período colonial, quando era utilizada durante rituais de catequização das tribos por meio de cantigas católicas que os portugas ensinavam aos índios — à mesma medida na qual os religiosos procuravam aprender e acompanhar com ela as cantigas indígenas ² –, a viola encontrou com o passar do tempo seu lugar de destaque nas manifestações e tradições da cultura popular que evocam o divino e celebram a fé, mas tem lá seu, digamos, lado B.

Tela da série Traços do Brasil, de Lu Paternostro, retrata a Folia de Reis, com o violeiro ao centro. Conheça mais sobre a artista plástica em http://lupaternostro.com/blog/tracos-do-brasil-folias-de-reis-lu-paternostro/

 Além de admirada por um santo que entre suas virtudes domina a arte de ponteá-la para fins redentores — razão pela qual São Gonçalo do Amarante é considerado o padroeiro dos violeiros e protetor das moças da noite –, a viola é condutora de cânticos e de rezas que animam as Folias de Reis. O instrumento, portanto, pode desempenhar papel de mediador dos contatos do homem em sua busca por e em conexões com Deus, tornar-se algo como um rosário, um signo capaz de conduzir as preces e que confere a ela um indelével perfil sagrado, funcionando não apenas como amplificador do que se pede ou pelo o que se agradece, mas também como amuleto que protege contra ziquiziras e infortúnios.

Muitos violeiros aderem ao tampo de suas violas imagens de santos dos quais são adeptos e penduram nos braços das violas fitas coloridas, dando a cada tom um sentido que pode ser tanto de louvor ou gratidão por uma graça alcançada, como de pedido de guarda contra doenças ou malquerenças. O significado de cada uma, as cores e a quantidade de fitas podem mudar de região para região ou conforme a crença, mas, para dar um exemplo, recordemos a classificação apresentada em uma edição do programa Viola Minha Viola – Especial de Reis, um dia depois de encerrado o período de festas natalinas e dos giros das Folias, em 7 de janeiro de 1996, por Inezita Barroso, e que guarda relação com a Sagrada Família e o nascimento de Jesus e o padroeiro dos violeiros: azul claro (Virgem Maria e São Gonçalo, este em alguns casos representado por azul escuro); branco (Deus e Jesus); verde (a mirra trazida por Gaspar para Jesus); rosa (São José); amarelo (o ouro de Melquior/Belchior para Jesus);  vermelho (o incenso de Baltazar para Jesus).

A maioria dos que gostam de e tocam viola conhece esta face sacra dela, mas também sabe: para além de sua representação no universo do sagrado e da fé, ela tem outro caráter – oposto –, que acaba por fazer dela um objeto dualizado, secularizado, com ligações também íntimas com o profano; nesta alternância, acaba associada ao Capiroto — uma das alcunhas que se dá ao Diabo no folclore e entre os próprios violeiros³.  Ao Capeta é atribuída a maestria de tocá-la em todas as suas afinações (e uma em especial)  e ritmos possíveis, habilidade que, inclusive, utiliza como aliada nas artes da sedução quando toma parte em alguma festa humana, nas quais, obviamente, procura estar sob disfarces, trajes que inclui um chapéu de aba larga que  mal deixa ver seu rosto, embora tenha os pés, digamos, um tanto curvados para um vivente comum e mais um estranho volume que se sobressai marcando a parte traseira de suas vestes, o qual de vez em quando espeta seus pares.

O filme Crossroad, traduzido para Encruzilhada, em Português, que John Fusco escreveu inspirado na lenda de Robert Johnson e tem música de Ry Coorder, gira em torno de um pacto que o lendário bluesman teria firmado com o Capiroto para dominar as cordas do violão, que ele afinava em Rio Abaixo. Em seu novo álbum, Arthur Noronha toca um blues em homenagem a Raul Seixas

Mais do que cativar corações de donzelas incautas, entretanto, o Coisa-Ruim, em outros momentos e em lugares mais recônditos, gosta de utilizar estas manhas para amealhar seguidores e repovoar suas profundezas, conquistando “parceiros” que abrigará quando estes baterem as botas.

Vadê retro, sô!

 Violeiro nenhum gosta muito deste papo, mas todos conhecem uma história (ou alguém!) que, ainda na condição de aprendiz ou já com mínimo domínio técnico das dez cordas, topou, sim, consorciar-se com o Dito-Cujo, oferecendo ao Cascudo neste pacto a própria alma em troca de talento e de de destreza para virar um virtuose, além de gozar enquanto viver de “luxo e folgança”4. “As narrativas sobre o tema são cheias de detalhes assustadores e costumam ser contadas pelos violeiros mais velhos em rodas de viola, geralmente à penumbra e em torno de uma fogueira”, escreveram Fábio Sombra e Chico Lobo no capítulo 5 do livro Conversa de Violeiro, que ambos lançaram em 2015 pela Kuarup Produções Ltda, e,  que, apesar de terem entrado no assunto, juntam pés e mãos para deixar claro: apenas compartilham as histórias  ouvidas e  recolhidas aqui e acolá, sem jamais terem testemunhado algo neste sentido. “E é visível o interesse dos mais novos, ainda que jurem [assim como ambos] não acreditar neste tipo de coisa”.

 No capítulo referido, Pactos com o Capiroto, Sombra e Lobo narram como, conforme a tradição popular, o violeiro assina o recibo com o Cachorrão (a descrição está à página 47, anterior à que ambos começam a elencar as 210 alcunhas pelas quais o Tribufu é conhecido — de Anhangá a Zarapelho, passando por Caga-Brasa, Diangas, Farrapeiro, Maioral,  Pé-Redondo, Sapucaio e Tisnado, entre outras), um laço que jamais poderá ser desfeito e que condenará o pactário a no mínimo arder eternamente.

O livro da dupla escritor-violeiro também menciona simpatias que têm ligações com o oculto — às quais os violeiros podem recorrer para pegar os toques e ficar craque com os dedos — mantendo assim a viola como instrumento que se liga por diversas maneiras ao sobrenatural – como, por exemplos, a da palheta de chifre de boi, polida na Sexta-Feira da Paixão (para funcionar, impõe-se terminar o serviço antes de o sol nascer), a do cemitério e a do “óquio”, relatadas também por Sombra e Lobo, agora no capítulo 6 (Simpatias e outras esquisitices) de Conversa de Violeiro.

 A viola, portanto, independentemente para qual lado soe, se ponteada pelo bem ou pelo mal (ou para ambos) e da causa que a faz estar em cena, ainda que não seja varinha de condão, pode exercer magia,  provocar encantamento (tanto no sentido de arrebatamento, como de feitiço) e mesmo epifanias.  Assim, se vista suas funções e ouvidas a sua musicalidade sem juízo de valor, apenas pelo prazer de “degustá-la”, a viola consegue despertar emoções e aguçar sensibilidades — cada qual como Deus o fez 5,  à sua maneira, é bem verdade — e tais reações tendem a aflorar quanto maior e mais indubitável forem o talento e a técnica de quem a ponteia.

Se esta condição é mister, quem ouve Arthur Noronha fica diante de todo este conjunto de reações, aposta que pela elegância, aparente facilidade e maestria com que toca, o rapaz ou pode até ter passado por mais de uma vez pela fila quando estavam distribuindo predicados no Além ou — vai quê? — em noites de Sexta-Feira da Paixão, quando menino, talvez pouco interessado na lenda do coelho que poria ovos enfeitados, ele tenha preferido lambuzar os dedos, sim, mas não com chocolate!  Na dúvida, quando prestigiar um show de Noronha — que em breve  deverá ser atração em muitas cidades –, quando ele estiver no palco (fique atento se a figura dele projetará alguma sombra no assoalho ou na cortina ao fundo) e se espalhar pelo recinto o som da primeira nota emitida pela sua viola, é bom fazer o sinal da cruz. Mas, depois, feche os olhos, comungue com o que ouvirá e entregue-se aos prazeres despertados por um músico que nos parece abençoado e que tem longa estrada pela frente — ainda que com solavancos e encruzilhadas– para conquistar pelos seus dons falanges de fãs.  

¹ Consulte http://www.assombrado.com.br/2014/02/a-lenda-do-violeiro-que-tocava-rio.html.

Da revista Campo e Cidade: Uma das afinações possíveis na viola é a conhecida Rio Abaixo. Diz a tradição que o termo dado à afinação da viola em sol maior originou-se na lenda de que o diabo costumava tocar viola com essa afinação. O violeiro e escritor Paulo Freire apresenta esse famoso causo num vídeo de sucesso na internet. Paulo conta que “o cão, o coisa ruim, o cujo, o pé-redondo, o pé de pato, o tinhoso, o demo, o capeta, vinha descendo o rio sentado num caco de cuia, na forma de um moço bonito”. Com sua forma virtuosa de tocar o instrumento o capeta conquistou todas as pessoas do vilarejo por onde passou e seguiu viagem rio abaixo. Conta-se ainda que o diabo costumava seduzir e carregar consigo as moças rio abaixo. Por isso, muitas vezes se acredita que o violeiro que utiliza essa afinação pode estar enfeitiçado ou ter feito um pacto com o “cramulhão”.  Em muitas regiões o diabo é considerado o maior violeiro que já existiu. A crença explica a quantidade de histórias de violeiros que teriam feito pacto com ele para tocar bem. Entretanto, as crendices afirmam que o violeiro que faz esse tipo de pacto não vai para o inferno, já que “todos no céu querem bons violeiros por lá”.

² Consulte http://www.violaurbana.com/pesquisa/49

³ Consulte Conversa de Violeiro, de Fábio Sombra e Chico Lobo (Kuarup Produções Ltda., 2015)

4 Expressão retirada de Conversa de Violeiro, de Fábio Sombra e Chico Lobo (Kuarup Produções Ltda., 2015)

5 Expressão emitida pelo Hermógenes para sugerir a um garoto que tentava chamar a atenção da mãe, seduzida pelo rapaz vistoso que a atraíra em uma festa, para as estranhas feições do Dom Juan;  Hermógenes é o nome do temido personagem de Guimarães Rosa em Grande Sertão, Veredas, jagunço de modos pouco comuns que termina por rivalizar com Riobaldo após aquele assassinar Joca Ramiro, um dos líderes dos bandos ao qual ambos pertenciam, ao qual Riobaldo jurara fidelidade e pai de Diadorim. 

6 Encruzilhada (em inglês: Crossroads) é um longa-metragem de 1986 estrelado por Ralph Macchio, Joe Seneca, Jami Gertz; escrito por John Fusco e dirigido por Walter Hill; com música de Ry Cooder e participação do guitarrista Steve Vai e do gaitista Sonny Terry. É, ao mesmo tempo, um sucesso de público e crítica e um cult movieTrata-se de um filme do tipo coming-of-age de drama musical inspirado na lenda do músico de blues Robert Johnson. Fusco era um músico itinerante de blues antes de frequentar a Escola de Artes Tisch da Universidade de Nova York, onde escreveu este filme como uma tarefa em uma master class liderada pelos gigantes do roteiro Waldo Salt e Ring Lardner Jr. O roteiro estudantil conquistou o primeiro lugar do FOCUS Awards nacional (Films of College e University Students) e foi vendido para a Columbia Pictures, enquanto Fusco ainda era um estudante.

Leia também no Barulho d’água Música:

1058 – Violeiro Arthur Noronha busca afirmação além de Goiânia com primeiro disco autoral
Chico Lobo (MG) lança álbum e livro que conta causos e histórias sobre a viola caipira, em Sampa

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s