1128- Mesclando tradição e experimentalismo, “Expresso 2222” crava o nome de Gilberto Gil na MPB*

O quinto álbum de estúdio do tropicalista é considerado um dos mais marcantes da longa carreira e em sua ode futurista traz blues temperado com toques psicodélicos e a Banda de Pífanos de Caruaru botando dendê no rock
*Com Daniel Tozzi (21/7/2017), do blog A Escotilha

O Barulho d’água Música retoma a série Clássico do Mês e nesta que é a 11ª matéria dedica a presente atualização ao quinto álbum da carreira do genial Gilberto Gil, o icônico Expresso 2222, que o baiano de Salvador gravou em abril e lançou em julho do — ainda turbulento — ano de 1972, seis meses depois de regressar do exílio ao qual fora forçado em  Londres. Em 1969, ele e seu  parceiro musical nas peripécias tropicalistasCaetano Veloso, foram presos, acusados de subversão pelo regime militar. O local escolhido para se exilar foi a efervescente Inglaterra da virada da década dos anos de 1960 para a dos anos 1970. Por lá, o músico baiano entrou em contato com diversos elementos da cena de rock e do psicodelismo da terra da rainha (de The Beatles a Jimi Hendrix) que foram devidamente incorporados em seus trabalhos lançados aqui no Brasil posteriormente.

De acordo com matéria publicada no blogue  Escotilha, o primeiro dos discos foi Gilberto Gil, quarto álbum de estúdio do cantor e o terceiro a ser batizado de forma homônima. Gravado no Chapel’s Studio, na própria capital britânica, o disco é inteiramente cantado em língua inglesa e apresenta um Gil bastante folk e experimental. Faixas como Volkswagen Blues, um blues com toques psicodélicos de voz e violão, e a eletrificada e animada Crazy Pop Rock, composição feita por Gil em parceria com Jorge Mautner, dão o tom do trabalho lançado em 1971.

No entanto, foi com o disco seguinte, Expresso 2222, que Gilberto Gil alcançou enorme sucesso e reconhecimento ao mesclar com maestria a raiz musical nordestina e o rock’n’roll. No álbum, Gil regravou em arranjos modernos e mais experimentais canções tradicionais da cultura brasileira e apresentou novas faixas, que reafirmaram suas qualidades como compositor.

No álbum, Gil regrava em arranjos modernos e mais experimentais canções tradicionais da cultura brasileira e apresenta novas faixas, que reafirmam suas qualidades como compositor.

Tudo isso num verdadeiro hibridismo musical dialogando passado com presente; baião com rock; tradicionalismo e experimentação. Puxando seus cabelos, nervoso, saudosista com a brasilidade e querendo ouvir Celly Campelo, a voz do cantor baiano ecoa seus desesperos do exílio: Naquela falta de juízo/ Que eu não tinha nenhuma razão pra curtir/ Naquela ausência de calor, de cor/ De sal, de sol, de coração pra sentir”, como diz a letra de Back in Bahia, grande sucesso presente no disco.

A abertura do álbum se dá com Pipoca Moderna, composição de Caetano, sendo executada por nada menos que a Banda de Pífanos de Caruaru. O tradicional grupo pernambucano presente logo na primeira faixa do disco escancara a volta às raízes brasileiras de Gilberto Gil. Diálogo com o tradicionalismo igualmente perceptível com a clássica Chiclete com Banana, sucesso de Jackson do Pandeiro feito por Gordurinha ao qual Gil deu uma nova roupagem, à la samba-rock de Jorge Ben, mas sem deixar de lado a brasilidade: “Eu só boto bebop no meu samba/ Quando Tio Sam tocar um tamborim/ Quando ele pegar no pandeiro e na zabumba/ Quando ele aprender que o samba não é rumba/ Aí eu vou misturar Miami com Copacabana/ Chiclete eu misturo com banana”.

Na regravação de Canto da Ema, Gil transforma a composição de João do Vale em um rock dançante moderno com toques de baião. Os amigos de sempre, Caetano e Gal Costa, juntam-se a Gil e cantam, respectivamente, Sai do Sereno, forró de Onildo Almeida, devidamente relido com riffs de guitarra e solos de bateria, e Cada Macaco no seu Galho, composição do tradicionalista sambista baiano Riachão, que funciona como um ode à Boa Terra, da qual Gil ficou distante e tinha tanta saudade.

Na faixa-título, Gilberto Gil canta sobre o futuro “pra depois do ano 2000”, com um violão marcado e o triângulo dando o tom do otimismo futurista a partir da metáfora com a linha de trem que se embrenhava Nordeste brasileiro adentro rumo à Salvador. Em O Sonho Acabou, o compositor baiano aproveita para despertar sua geração dos devaneios da utopia sessentista e alfineta os companheiros que “dormiram no sleeping-bag e preferiram o comodismo ao ativismo nos anos de maior repressão militar: “Foi pesado o sono pra quem não sonhou”, canta. Buscando o reconforto espiritual e carregado de misticismo, o disco conta ainda com faixas compostas pelo próprio Gil, que dialogam com essas temáticas, como Oriente, Vamos Passear no Astral Está na Cara Está na Cura.

Após este disco, Gil apostou no lançamento da ousada trilogia Refazenda, Refavela Refestança, ainda na década dos anos 1970. Flertando novamente com as raízes nordestinas e inovando com as influências da música africana, estes trabalhos reforçam as qualidades artísticas de um dos mais completos nomes da nossa música, que teve no período Expresso 2222  um divisor de águas em sua carreira. Com ele, Gilberto Gil fez sucesso e cravou seu nome na MPB, reafirmando, de certa forma, sua independência do movimento Tropicalista e mostrando ser capaz de fazer música com identidade própria, ousadia e tradicionalismo mesclados na medida certa.

 Expresso 2222 foi gravado em abril de 1972, em 16 canais, no estúdio Eldorado, e lançado em julho do mesmo ano, com produção de Roberto Menescal. A faixa-título tornou-se bastante conhecida, e viria a ser usada para nomear um trio elétrico coordenado por Gil desde 1998 na Bahia. Em outubro de 2007, a revista Rolling Stone Brasil divulgou uma lista dos 100 maiores discos da música brasileira, na qual o álbum  ocupa na 26ª posição. O nome Expresso 2222  faz referência  a um trem pego por Gil para sair de sua cidade natal em direção a Salvador.

Beagá, Sampa e Fortaleza

Gilberto Gil já completou 76 anos de idade e ainda em plena forma protagoniza turnê para apresentação do 59º (!) álbum da carreira, OK OK OK. E uma destas apresentações poderá ser apreciada pelo público paulistano e cidades do entorno, no requintado Teatro Bradesco, situado dentro do Bourbon Shopping, no bairro de Perdizes.

Depois de passar por Beagá (MG) hoje, 24/11, em Sampa Gil subira ao palco a partir das 21 horas com uma banda que reúne metais, teclados, guitarras e percussões para cantar  Sol de Maria, Prece, Afogamento, Na Real, além da faixa-título.  OK OK OK já toca muito aqui no cafofo-redação do blogue e no show que celebra as seis décadas de Gil  o repertório vem temperado com clássicos como Andar com fé, A Paz, Aquele abraço, Drão, Esperando na Janela, Não Chore Mais, Palco, Toda Menina Baiana, Vamos Fugir.

OK OK OK encerra hiato de oito anos sem gravar,  já que Gil estivera pela última vez em estúdio em 2010,  ano no qual lançou Fé na Festa. O conceito tropicalista mesclado a ritmos como bossa, rock, samba, pop e afoxé é mantido também neste novo disco, mas Gil nunca erra a mão mesmo quando, aparentemente, apenas requenta a sopa. Para começo de conversa, a produção musical foi confiada ao filho Bem Gil e em algumas faixas Roberta Sá, João Donato e Yamandu Costa atuam como convidados.

O ingresso para o show no Teatro Bradesco já está à venda na bilheteria, tem um valor meio salgado — entre $ 50 a R$ 240 —, mas estamos falando de um astro rei da Word Music digno de se apresentar em templos como o que há a apenas poucos metros do Bourbon e por onde  passaram, recentemente, tanto um tal de Roger Waters (deixa quieto, os bozos piram!) e um tenor conhecido por Andrea Bocelli,  contudo também já topou por várias causas — das ambientais às humanitárias — fazer muito show de graça — um dos quais com bateria de  escola de samba e tudo, como ocorreu em janeiro deste ano ao lado de membros da Vai-Vaiem celebração aos 464 anos de São Paulo, no Bar Brahma!

Gilberto Gil, portanto, é o cara: vida longa ao “punk” de todas as freguesias!

Em 9/12, a partir das 19 horas, será a vez de Fortaleza (CE) ser contemplada pela turnê OK OK OK. O show está marcado para o Cineteatro São Luiz.


Sobre o jornal cultural/portal Escotilha:

Estamos publicando esta atualização do Barulho d’água Música utilizando texto publicado no portal paranaense Escotilha, estabelecido em Curitiba, cuja equipe de articulistas de diversas áreas culturais é coordenada pelos conterrâneos Maura Martins, Alejandro Mercado e Paulo Camargo. O endereço para navegar pela Escotilha  é http://www.aescotilha.com.br.

Conforme consta na tela de apresentação do jornal eletrônico:

“Viver e consumir a cultura é inevitável. Ser humano é, necessariamente, ser alguém que reflete e se vê refletido pelo seu entorno – por aquilo que produzimos e consumimos, discutimos e ignoramos. As manifestações culturais e artísticas que nos cercam, portanto, falam muito sobre nós e revelam quem somos hoje.

Nossa proposta no portal Escotilha é ampliar a visão sobre a cultura a partir de diferentes olhares. Estamos menos interessados na atualidade dos lançamentos e mais empenhados a acrescentar nuances no consumo de cultura de nossos leitores.

Contamos hoje com várias editorias com o objetivo de facilitar sua navegação pelo site: em “Cinema & TV”, refletimos sobre as facetas da produção audiovisual; em “Literatura”, ensaios e resenhas sobre a aventura do livro; em “Música”, colunas que analisam a cena musical atual e os movimentos passados; em “Teatro”, um olhar sobre espetáculos paranaenses e nacionais; em “Artes Visuais”, reflexões e análises sobre obras de artes visuais e plásticas em suas várias nuances; na categoria “Crônica”, nossos colunistas trazem leituras do cotidiano, em textos sempre marcados pela leveza típica deste formato; e ainda encontramos espaço para algumas colunas que dialogam de forma plural com várias linguagens.”

No último parágrafo, eles acrescentam:

“Você também faz parte da Escotilha: o intuito deste portal é promover a reflexão e o diálogo sobre os produtos culturais. Assim, esperamos sempre contar com a sua participação, para que suas visões também componham este debate.”

Então, amigos e seguidores, fica a dica! Conheçam, sigam e procurem esaber como colaborar com o portal Escotilha!

Leia também no Barulho d’água Música:

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1122 – “O Banquete dos Mendigos”: disco duplo de Jards Macalé e um coletivo de artistas que peitaram a ditadura completa 45 anos
1114 – Clássico do Mês: “Tropicália ou Panis et Circensis” completa 50 anos sob o signo da insolência

 

Próximo Clássico do Mês, no final de dezembro: Revolver, segundo álbum de Walter Franco (1975)

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