1131 – Dia Nacional do Samba, comemorado em 2 de dezembro, exalta gênero de origem controversa e marginalizada

Data tem duas fontes que se referem a documento redigido na Guanabara, na década dos anos 1960, instituindo o Dia Nacional do ritmo que antes de se tornar popular era motivo de perseguições e de forte repressão

Vários eventos em todo o país estão programadas para comemorar neste domingo, 2 de dezembro, o Dia Nacional do Samba, ao qual são atribuídas pelo menos duas origens, próximas, na década dos anos 1960, no antigo estado da Guanabara e em Salvador (BA). A data apareceu mencionada pela primeira vez em documento conhecido como Carta do Samba, redigido ao término do Primeiro Congresso Nacional do Samba,  entre 28 de novembro e 2 de dezembro de 1962, no Palácio Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, e, mais tarde, ressurgiu por iniciativa de Luiz Monteiro da Costa, vereador soteropolitano. Costa conhecia a Carta do Samba e apresentou à Câmara Municipal de Salvador, em 3 de outubro de 1963, o Projeto de Lei n° 164/63, cuja redação “institui o Dia do Samba, manda preservar as características da música popular e dá outras providências”.

O Congresso reuniu o patrocínio da Confederação Brasileira das Escolas de Samba (CBES), da Associação Brasileira das Escolas de Samba (ABES), de representantes da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, o Conselho Nacional de Cultura e da Ordem dos Músicos do Brasil. Edison Carneiro, presidente daquele encontro, foi o redator da Carta do Samba, e à página 6 observou que “foi sancionada lei estadual declarando o dia 2 de dezembro Dia do Samba”, seguindo projeto apresentado pelo deputado Frota Aguiar à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Carneiro já contava, portanto, com o ovo da galinha antes de ela botá-lo — ou seja, esperava que o governador fluminense Carlos Lacerda sancionasse o PL n° 681, de 19 de novembro de 1962 –publicado no Diário daquela câmara já no dia seguinte à sua apresentação por Aguiar –, no qual o artigo 1° dispunha: “Fica 2 de dezembro oficialmente considerado como o Dia do Samba”.

Lacerda, entretanto, desafinou e atravessou o ritmo: cortando o barato dos congressistas, vetou a matéria, integralmente. A canetada do político só viria a ser rejeitada mais tarde e parcialmente na Alerj, com o voto de 29 deputados, transformando o PL 681/62 na Lei 554, de 27 de julho de 1964. Assinada em dia 29 de julho pelo deputado Vitorino James, presidente da Alerj, a 554 foi publicada no Diário Oficial do Estado da Guanabara no dia 7 de agosto de 1964. Neste ínterim, entre o veto de Lacerda e a publicação que veio com a assinatura de James, é que o baiano Luiz Monteiro da Costa levou sua ideia ao plenário da Câmara de Salvador, em outubro de 1963, mais tarde consubstanciada na lei municipal 1543/63.

A iniciativa do vereador teria ainda outra razão: homenagear Ary Barroso (Ubá/MG), “Cidadão Baiano” desde 1956 por iniciativa de estudantes e de professores universitários da capital da Boa Terra, já que, apesar de mineiro, o autor de Aquarela do Brasil tinha grande identificação com as manifestações populares da Bahia e compôs em nome deste amor, por exemplo, Na Baixa do Sapateiro, canção que expressa sua paixão pelo estado nordestino. “Eu me descobri na Bahia”, informou Barroso em entrevista em 1962.  “Os seus ritmos, seus candomblés, suas capoeiras, sua gente (…) foram uma revelação pra mim”, emendou o compositor. “Fiquei de tal modo impressionado que o jeito foi exteriorizar a minha admiração por meio da música.”

Hoje disseminado como um dos ritmos mais populares do Brasil e cultuado ao redor do globo, o samba embala a maior festa popular do país, o Carnaval, e ocorre na maioria dos estados nacionais, com acentuada predominância no Rio de Janeiro, na Bahia, em Pernambuco e em São Paulo – que, curiosamente, ganhou a alcunha de “túmulo do samba” por conta de uma controversa e mal interpretada fase de Vinicius de Moraes¹ pecha que obviamente não resiste diante das ricas contribuições entre outros de Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini, autores de joias como Trem das Onze, Saudosa Maloca, Ronda e Volta por cima. E tem diversas variações em suas formas de expressão cuja raiz é proveniente de um tipo de dança trazida por escravos africanos, a semba, que sofreu forte influencia de estilos que já eram apreciados no país, como o xote, polca e o maxixe. Dentro do próprio gênero se multiplicam subgêneros como samba de roda, samba exaltação, partido alto, samba de breque, samba de gafieira, samba rock ² e samba enredo, variações que refletem tempos e influência de diversas regiões do Brasil, além da mistura com outros tipos de música.

Em Água de Minha Sede, um dos melhores álbuns de Zeca Pagodinho, lançado em 2000, ele canta uma música de Tio Hélio (fundador da Império Serrano e primo de Dona Ivone Lara) e Nilton Campolho, Delegado Chico Palha (#3), que conta as maldades e o fim trágico de um policial que descia a madeira em quem curtia samba e curimba, acabando a festa a pau e ainda quebrando os instrumentos.

Chico Palha era um homem muito forte, com o gênio violento que, de acordo com o refrão, “não prendia, só batia”. A letra faz referência à perseguição ao gênero em seus primórdios, quando o samba, de fato, era marginalizado e encarado pelas autoridades e membros da elite, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro, como malandragem e manifestação quase considerada criminosa, o que turbinou preconceitos e gerou muita perseguição e invasão a terreiros e praças até, sem cerimônia, penetrar pelos salões da sociedade, e, vitorioso, com a mesma roupagem que saiu daqui, exibir-se para a duquesa de Kent, no Itamaraty, como canta em Tempos Idos o genial Cartola apresentado a forra obtida pela inspiração de geniais artistas.

E em sua origem, o samba já causou. Pelo Telefone é considerado o primeiro samba a ser gravado no Brasil segundo a maioria dos autores, a partir dos registros existentes na Biblioteca Nacional. A composição é atribuída a Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e ao jornalista Mauro de Almeida, registrada em 27 de novembro de 1916. Este vestuto senhor, portanto, já com 102 anos, acabou sendo anotado, primeiro, como de autoria apenas de Donga, mas depois este incluiu incluir Mauro como parceiro. Mas o samba foi concebido em um famoso terreiro de candomblé daqueles tempos, a casa da Tia Ciata, frequentada por grandes músicos da época e, por ter sido um grande sucesso e devido ao fato de ter nascido em uma roda de samba, de improvisações e criações conjuntas, vários foram os músicos que reivindicaram a autoria da composição.

A canção foi composta em 1916, no quintal da casa da Tia Ciata, na Praça Onze/XI. A melodia, originalmente, intitulava-se Roceiro e foi uma criação coletiva, com participação de João da Baiana, Pixinguinha, Caninha, Hilário Jovino Ferreira e Sinhô, entre outros. A letra original da canção, que era “O chefe da folia/ Pelo telefone / Mandou me avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar”, foi alterada para a versão mais conhecida hoje em dia, “O Chefe da Polícia / Pelo telefone/ Manda me avisar/ Que na Carioca / Tem uma roleta/ Para se jogar”.

Segundo depoimento de Donga para o Museu da Imagem e do Som (MIS), “O Chefe da Polícia…” foi uma paródia feita pelos jornalistas de A Noite. Repórteres do jornal tinham, em 1913, posto uma roleta no Largo da Carioca, para demonstrar a tolerância da polícia com o jogo. Em abril de 1913, o chefe de polícia da cidade do Rio de Janeiro havia declarado que o jogo permaneceria liberado “até que o governo resolvesse o contrário”. Henrique Foréis Domingues, o Almirante, em matéria no jornal O Dia, em 13 de fevereiro de 1972, também confirma essa versão: “alguém lá na redação de ‘A Noite’, inspirando-se nos episódios em questão, criou a famosa paródia”.

Existem controvérsias quanto à autoria e quanto à data da composição. O Jornal do Brasil, em 4 de fevereiro de 1917, publicou uma nota do Grêmio Fala Gente comunicando que o verdadeiro tango Pelo Telefone”, seria de João da Mata, Germano, Tia Ciata e Hilário, cantado na Avenida Rio Branco, dedicado “ao bom e lembrado amigo Mauro”. O próprio Almirante acusou Donga de se ter apropriado de uma criação coletiva. Donga respondeu que as músicas eram diferentes. Mas concordou que não foi o autor da letra de Pelo Telefone, que é de Mauro de Almeida. Culpou a gravadora por ter omitido o nome do parceiro. “A omissão do nome de Mauro na gravação da Casa Edison não pode ser atribuída a mim”, disse.

Imagem da Praça XI, na cidade do Rio de Janeiro, nas primeiras décadas do século XX, um dos berços do samba no Brasil

Sinhô, por sua vez, também reclamava direitos autorais. Sinhô é o carioca José Barbosa da Silva, que revelou-se surpreso quando Donga registrou p samba como seu. A canção, que virou motivo de discussões, gerou uma das maiores polêmicas da história da música brasileira, justamente em torno da suposta autoria. Para alimentar a pinimba, Sinhô compôs, em 1918, Quem são eles, numa clara provocação aos parceiros de Pelo telefone e tomou chumbo. Exclusivamente para ele, foram compostas Fica calmo que aparece, de Donga, Não és tão falado assim, de Hilário Jovino Ferreira, e Já te digo, de Pixinguinha e seu irmão China, que lhe traçaram um perfil nada elegante: “Ele é alto e feio/ e desdentado/ ele fala do mundo inteiro/ e já está avacalhado…”. Depois, Sinhô pagou a ambos com a marchinha O pé de anjo, primeira composição gravada com a denominação marcha.


¹ O jornalista , compositor e crítico paulistano Nelson Motta, em seu livro 101 Canções que tocaram o Brasil (2016, Estação Brasil), ao escrever sobre Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, comenta na página 81 o episódio no qual o Poetinha utilizou a frase “São Paulo é o túmulo do samba”

² No mesmo livro, à página 76, Motta discorre sobre Mais que nada, de Jorge Ben (ainda não Ben Jor), de 1973, de composição taxada no início até como “infantil”, tornou-se uma das precursoras do estilo samba rock

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