1132 – Chico Maranhão (MA): símbolo musical da década de 1960 lança CD duplo

Autor do frevo Gabriela, destaque em um dos festivais da TV Record,  apresenta Contradições, álbum de canções inéditas e autorais, pela Kuarup

A tradicional audição matutina dos sábados aqui na redação do Barulho d’água Música excepcionalmente a fizemos no domingo, 2, colocando para rodar na vitrolinha Contradições, álbum duplo do maranhense Chico Maranhão, gentilmente cedido ao blogue pela gravadora Kuarup, a quem, em nome do amigo Rodolfo Zanke, agradecemos. Compositor, violonista, tocador de tambor de crioula, escritor e arquiteto nascido em São Luís, Chico Maranhão (Francisco Fuzzetti de Viveiros Filho) emplacou a canção Gabriela no festival de 1967, defendida pelo grupo MPB-4, e agora está estreando na Kuarup com o projeto que resgata canções inéditas compostas nos últimos anos, reunindo 22 faixas gravadas na cidade natal, pela Sonora Estúdio. Os arranjos, produção e direção musical foram comandados pelo violonista Luiz Júnior. Na capa do disco destaca-se a arte que desmembra a palavra contradições recriando outros significados em um jogo de letras com a criação gráfica e artística do pintor e desenhista Cláudio Tozzi.

O primeiro registro da obra de Chico Maranhão se deu em 1969 em um disco brinde gravado pelo selo Marcus Pereira junto com o compositor Renato Teixeira. De lá para cá, quase 50 anos, Chico Maranhão lançou várias obras como a criação da ópera Boi e um livro dedicado à arquitetura chamado Urbanidade do Sobrado, sendo o atual disco o 10º projeto da carreira, no qual há somente duas parcerias, uma com o saudoso poeta ludovicense, Nauro Machado, na faixa Quando Baixa o Crepúsculo. A outra é com o cantor Chico Teixeira, em Roça Brasil. Na casa de Renato seu filho Chico me mostrou uma melodia ao violão. Isso gerou em mim uma letra sobre o tema de uma casinha na roça. Estava criada uma nova parceria.

O som do músico traz elementos da cultura maranhense como o Bumba-Meu-Boi, baiões, modinhas, frevos ou uma mistura de todos estes ritmos, mas foge desses padrões estigmatizados. “Minha obra tem um aspecto que gostaria de chamar atenção: Sou muito eu e meus sons, minhas canções, minhas ilusões, eu e meu violão! Acho que sou um criador de sons ligados intrinsecamente às palavras da minha cultura, dentro de uma sintaxe especificamente maranhense e seus maneirismos.

Maranhão é um artista múltiplo que não se rende à pressa e procura conservar em sua obra elementos da cultura popular e do estado natal (Foto: Pierre Ives Refalo)

No repertório canções compostas ao longo de anos como o baião Mandioca Pinga Sushi, cuja letra foi feita em resposta a um trecho do conhecido discurso de Caetano Veloso no III Festival Internacional da Canção, de 1968, citando Maranhão. Há também algumas pérolas que enaltecem a sua veia arquitetônica como a poética Os Telhados de São Luís e o choro Sobrado. O samba humorado Filho d’uma égua e a divertida A Vida é Uma Festa, também merecem destaque.

Conhecido por canções que trazem referências do Bumba-Meu-Boi, o músico alega que neste projeto ele não está presente explicitamente. Entretanto, traços deste personagem marcante do folclore brasileiro estão presentes em canções como Pé-de-vento e Gritos.As vibrações do boi neste projeto estão implícitas, menos perceptivas, intra-emoção ou até se quisermos, de uma forma ‘complexa’, que podemos dizer: um boi complexo.”

O que se pede refletir de forma mais imediata ao observar o conteúdo das letras é que se trata de uma obra reivindicatória. Este álbum clama por discutir questões mais históricas de uma visão mais profunda da trajetória do artista na música popular brasileira. Por isso seu título: Contradições. Há contradições de temas, de ritmos, de enfoques, etc.”

Sobre a questão de canções com temas tão diversos, Chico explica que gosta de ter à mão várias composições antes de entrar em estúdio e, geralmente, registra trinta ou mais músicas de uma só vez e vai distribuindo em possíveis projetos. As canções pertencem muitas vezes a períodos distintos da vida do artista. “Prefiro ficar muito tempo compondo até satisfazer meus anseios. Vou costurando ponto a ponto momentos internos, externos, situações do passado, do presente e talvez do amanha“.

Chico Maranhão começou a carreira em 1960,  em  São Luís, de onde saiu para cursar a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). Tocou  violão na peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto com música de Chico Buarque, no Teatro da Universidade Católica (Tuca/SP),  premiada no Festival Internacional de Teatro Amador em Nancy, França. Gabriela, frevo de sua autoria  defendido pelo MPB 4, foi considerado a música Revelação e alcançou o quinto lugar no III Festival de Música Popular Brasileira promovido em 1967 pela TV Record .

Chico Maranhão gravou quatro discos pelo selo Marcus Pereira, um dos quais com Renato Teixeira, prestes a completar meio século!

Na mesma sequência dos festivais participou e revelou entre outras músicas Descampado Verde (novamente defendida pelo MPB4, em 1968) e Dança da Rosa (defendida pelo conjunto Quarteto 004, Traditional Jazz Band e o próprio Maranhão no Festival Internacional da Canção, Sessão São Paulo, 1968). Pelo selo Marcus Pereira lançou Maranhão e Renato Teixeira ( 1969), Maranhão (1974), Lances de Agora (1978) e Fonte Nova (1980).

CD 1:  1. Mandioca Pinga Sushi/2. Os Telhados de São Luís/3. Sobrados e Trapiches/4. Sobrado/5. Roça Brasil/6. Hino Do Vira Vila/7. Ponto de Fuga/8. Meu Vovô/9. Bom Dia, Dia/ 10. Manguezal de Sal/11. A Vida É Uma Festa

CD 2:  1. Filho d’uma Égua/ 2. Sós/ 3. Stradivarius Malúdico/4. Prostituta /5. Doce de Espécie/6. Quando Baixa o Crepúsculo/7. Contador de Lágrimas/8Pé-de-vento/9. Gritos/10 Passando a Vida/11.Sonhar.

Sobre a Kuarup

A gravadora Kuarup foi fundada no Rio de Janeiro em 1977 pelo produtor Mario de Aratanha e o saudoso fagotista Ailton Barbosa, do Quinteto Villa-Lobos, Hoje, é uma das principais gravadoras independentes do país. Especializada em música brasileira, possui mais de 200 títulos em seu acervo, além de ter a maior coleção de obras de Villa-Lobos em catálogo no Brasil. O repertório traz choro, música nordestina, caipira, sertaneja MPB, samba e instrumental, entre outros gêneros. A gravadora passou a atuar na edição de músicas e no mercado editorial de livros.

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