1136 – Claudette Soares e Alaíde Costa rememoram 60 anos de Bossa Nova em álbum imperdível da Kuarup

Antologia produzida por Thiago Marques Luiz reúne 25 músicas, revisitadas em 18 faixas emblemáticas, do movimento até hoje é respeitado no mundo inteiro

Está rolando hoje aqui no cafofo do Barulho d’água Música na aprazível, mas abafada São Roque (SP), em mais uma audição matinal de sábado, o extraordinário e gostoso álbum 60 Anos de Bossa Nova, gravado em março no luxuoso Teatro Itália, em São Paulo, pelas divas Claudette Soares e Alaíde Costa. Mais uma joia do catálogo da gravadora Kuarup, o exemplar do álbum que está na vitrolinha nos foi cedido, gentilmente, pelos amigos Beto e Moisés, da Tambores Comunicações, aos quais mais uma vez somos gratos; estendemos nossa gratidão também a Rodolfo Zanke, que à frente da gravadora vem promovendo lançamentos e resgates que passam longe dos mais comuns que infestam o mercadão e com os quais certos programadores e agentes adoram torturar nossos ouvidos.  Então fica a dica: para quem ainda não conhece 60 Anos de Bossa Nova, corra atrás, aproveite a época de festas, peça ao ou presentei o amigo oculto com esta maravilha que pode ser curtida pelo linque abaixo.

O álbum que marca a amizade das duas intérpretes de mais prestígio na música brasileira traz sucessos de Johnny Alf, Tom Jobim, Carlos Lyra e Roberto Menescal, entre outros, alguns dos gurus da Bossa Nova. Alaíde Costa estava presente no movimento desde o começo dele e conta que “João Gilberto me ouviu cantar e me convidou para conhecer uns ‘meninos’ que estavam fazendo um ‘som’, que tinha tudo a ver com minha voz. E me levou a um apartamento onde conheci Menescal, Bôscoli, Oscar Castro Neves e outros. Me identifiquei na hora com o que ouvi.”. Claudette Soares também era da patota, mas antes até da consagração do novo estilo. “Antes mesmo de se chamar  ‘bossa nova’, este estilo de uma música brasileira combinada com jazz já estava sendo praticado por João Donato, Durval Ferreira, Tom Jobim e outros no Bar do Hotel Plaza, no Rio. Fui lá cantar, a convite da Silvia Teles, e me apaixonei. Depois foram chegando músicos cada vez mais talentosos e surgiu o movimento que se internacionalizou e até hoje tem o respeito de músicos e público do mundo inteiro. A gente só tem a comemorar”.

Produzido por Thiago Marques Luiz, 60 anos de Bossa Nova é uma antologia muito bem selecionada  de 25 músicas, revisitadas em 18 faixas. Para celebrar seis décadas da Bossa Nova,  entre elas estão Garota de Ipanema, Ela é Carioca ou Só Danço Samba, passando por músicas tão importantes para o movimento como Sem Você, Chora tua tristeza, Os grilos e Vem balançar, por exemplo.

A voz inconfundível de Claudette Soares já cantou de tudo e um pouco mais. Ainda adolescente, mas já atuante em programas de rádio, foi apelidada de ‘princesinha do baião’ pelo ‘rei’ Luiz Gonzaga, na década dos anos 1950. Mais tarde fez parte do histórico show de Bossa Nova A noite do amor, do sorriso e da flor (Rio de Janeiro/ 1960). Passou pelo protesto dos festivais, lançou o compositor Taiguara, teve músicas compostas para ela por Vinícius de Moraes e Baden Powell (Apelo) e Roberto e Erasmo Carlos (De tanto amor, que ficou 56 semanas nas paradas de sucesso em 1971). Claudette foi uma das primeiras a apostar no sangue novo de Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso, quando, em 1968, com arranjos de Rogério Duprat, gravou um disco com músicas dos trio. Gravou dois álbuns históricos com Dick Farney e, em 2006, voltou a ser notícia com o lançamento da coletânea dupla A Bossa de Claudette Soares, que faz retrospecto da carreira e mostra o quanto esteve adiante de seu tempo.

Alaíde Costa tem mais de seis décadas de carreira e é referência de intérprete no Brasil. Carioca, radicada em São Paulo, tinha 16 anos quando começou a cantar em programas de calouros. No fim dos anos 1950 já era profissional respeitada. Com João Gilberto passou a frequentar a turma da Bossa Nova, encontro dos mais felizes: Alaíde, com sua sensibilidade abraçou a nova concepção musical de artistas como Tom Jobim e Johnny Alf, por exemplo. É desse período uma das suas marcantes gravações: Onde Está Você (Oscar C. Neves e Luvercy Fiorini). No fim dos anos 1960 afastou-se do meio artístico por problemas particulares, mas voltou em 1972, quando participou do disco Clube da Esquina, cantando com Milton Nascimento Me deixa em Paz (Monsueto Menezes). A partir daí vieram vários álbuns, entre eles, Águas Vivas (1982), Canções de Alaíde (2014) e Porcelana (2016), com Gonzaga Leal.

 

Ouça o meu conselho

Embaixadoras da Bossa Nova em São Paulo, Claudette Soares e Alaíde Costa celebram 60 anos do movimento e da amizade que as uniu neste álbum gravado ao vivo na cidade que as acolheu carinhosamente. Quem sabe da conexão entre elas se questiona por que este projeto não foi realizado antes. Oportunidade não faltou.

Claudette, a “mando” de Ronaldo Bôscoli, foi a primeira a chegar a São Paulo. O compositor disse a ela que a cidade precisava de uma cantora para divulgar a Bossa Nova. “Você vai criar uma história lá”. Estava certo. A carioquíssima Claudette adaptou-se rapidamente à Capital paulista, com casas que sempre pagaram bem, e muito bem, os artistas.

A convite da amiga, Alaíde veio na sequência. Cantando pela noite, ela e Claudette encontravam amigos e ainda eram abordadas por novos talentos como um certo Chico Buarque, presente no repertório deste álbum com Sonho de Um Carnaval, canção que Alaíde escolheu para abrir o disco que lançou em 1965.

Neste projeto, elas fazem uma antologia da Bossa Nova, ao modo de cada uma. Cheia de balanço. Claudette percorre o lado “sal, sol, sul” do estilo por meio de clássicos e pérolas como Crediário do Amor. Pouco gravada, a música de Theo de Barros é lembrança do LP de estreia da cantora Claudette é Dona da Bossa (1964). Alaíde, sempre segura, é intensa nas canções de amor que defendeu vida afora, como Chora Tua Tristeza e Morrer de Amor.

Simbolicamente, o álbum foi gravado em show no Teatro Itália, bem no centro da cidade que acolheu carinhosamente Claudette e Alaíde. O teatro não está muito longe de onde ficavam pontos bem conhecidos das duas, como os históricos Juão Sebastião Bar, Djalma’s e Ela Cravo e Canela. Mas chega de saudade. Se depender delas a bossa continua pulsando em São Paulo.

Renato Vieira

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