1146 – “Tardhi”, álbum autoral mais pop do músico das montanhas, completa trilogia de Bernardo do Espinhaço (MG)

Disco traz nove faixas  com arranjos e composições apuradas que  transitam entre a MPB, o indie e o folk, todas autorais, e está disponível para ser baixado juntamente com os dois primeiros no portal do cantor e compositor.

A tradicional audição matinal dos sábados aqui na redação/cafofo do Barulho d’água Música começou neste dia 19 com Tardhi, nome do terceiro álbum do cantor e compositor mineiro Bernardo Puhler, que adotou o nome artístico Bernardo do Espinhaço. As nove faixas do disco, todas de autoria de Bernardo, completam a trilogia que o caracteriza como autoridade da Música Popular da Montanha (MPM), conforme bem foi definido por um jornalista crítico musical. Os outros dois álbuns da trindade chamam-se  Manhã Sã (2015) e O Alumbramento  de um Guará Negro em uma Noite Escura (2014), temas da nossa atualização 981, e estão disponíveis para serem baixados, gratuitamente, junto com Tardhi, no portal do músico cujo endereço é http://www.bernardodoespinhaco.com.br.  

Há quase 100 anos, o alemão Hermann Hesse contou em seu livro mais clássico a vida de um deslocado que se denominava Lobo da Estepe. Bernardo do Espinhaço, igualmente, define-se como “alma rebelde”, mas não por desajuste, e sim pela liberdade, como comprova Tardhi.  O autor declara que gosta da denominação Música Popular de Montanha, mas observa que os estilos que mais o agradam, inspiram e poderiam melhor definir a obra que assina transitam entre a MPB, o indie e o folk. Por Música da Montanha, ele observou, não imagine arranjo de sonoridades da natureza: a música de Bernardo do Espinhaço enaltece a vida de montanhista que leva – não à toa ganhou a alcunha de cantor dos montanhistas/mochileiros -, em odes à liberdade do vento sobre arranjos tão belos quanto intricados.

Quem o ouve escuta muito de MPB (tradicional e contemporânea), indie rock, influências da igual liberdade que pregava o Clube da Esquina (ele possui parceria com Marcio Borges, do Clube, e já fez shows com Lô Borges). A versatilidade vem de sua capacidade de multiinstrumentista. Em Tardhi, ele toca violão, acordeon, piano e flauta, e o enriquece com viola caipira, ukelele e o que mais couber na canção.

Seus dois discos anteriores ficaram em diversas votações especializadas entre os melhores trabalhos de seus respectivos anos de lançamento. Já Tardhi ele mesmo considera o mais pop, mas longe de ser meramente comercial: as canções continuam com o mesmo apuro em arranjos e composições. E em uma das faixas, a #8, De Repente Cabeça de Boi (versão curta), ouve-se ao final, entremeado a um berrante, o som da gaita de foles de Nicolas Venâncio tocando Baião e Asa Branca, sucessos de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

A mistura pop, indie rock com MPB e Clube da Esquina causa uma crocância especial logo de cara, em Boralá (#1): um ukelele dita o tom e uma guitarra em slide e acordeon ornam a melodia. Um inusitado clipe da música, aliás, foi lançado de maneira inovadora no stories do Instagram em colaboração coletiva de 100 pessoas espalhadas pelo globo.

Na mesma linha vem Sobre os Montes, enquanto as duas anteriores, Que é Para Você Saber e Rasgue o Céu, flertam com o pop rock orgânico de guitarra, baixo e bateria.

Como o próprio Bernardo explicou: a música que produz é um processo de cura, tanto para ele quanto tem a expectativa de que seja para o ouvinte, com textos belamente arranjados como em A Trilheira (esta, no final, torna-se quase um rap, com a participação de Miss Garandi).

Belas baladas também compõem o cardápio, como Benjamim, que narra a história do casal amigo Guilherme e Juliana, do Montanha para Todos, pelo filho pequeno desses, ou na que fecha o disco, Os Senhores, com a participação especial do músico Marcus Viana, ícone da canção progressiva brasileira, da banda Sagrado Coração da Terra e compositor de trilhas de novelas como Pantanal.

Tardhi traz muito arranjo vocal na linha do Clube da Esquina, como em O Homem que Curva, e sons mais entre world music e regionais, caso de Cabeça de Boi. O que sobra é uma mensagem bonita de apologia à liberdade como é a filosofia do trabalho depositada nos versos da canção de abertura, Viver não tem manual/É movimento autoral.  Isso vindo de quem se define não como músico, exatamente, mas como “um lobo guará que escreve livros musicais sobre sua vivência na montanha”, diz muito sobre o autor (autorretratado como um guará no desenho da capa deste terceiro álbum) e sua obra.

Por fim, vale a pena, ainda, destacar o encarte de Tardhi. Emoldurando as letras das canções, há fotos de tirar o fôlego que do plano geral ao close revelam a beleza do ambiente que inspira Bernardo do Espinhaço. Captadas por Robson de Oliveira, as imagens comprovam a comunhão entre Bernardo e seu violão com a natureza exuberante que se revela aos olhos felizes de quem pode desfrutar de cenários majestosos e apaziguadores, seja uma cadeia de montanhas ao fundo — na qual, no topo de um conjunto de pedras, tanto ele parece render graças, quanto estar em contemplação –, como nas pequenas flores que pelas trilhas vão descortinando as alturas e comprovam os versos dele: “[é] mais alto [é] o homem que [se] curva”.

A  poesia dos raros cenários

Nascido num alto de serra entre as águas mansas da Cordilheira do Espinhaço, em Santana do Riacho (MG) –– cidade situada entre as serras do Cipó e a do Espinhaço, esta segunda cadeia montanhosa localizada no Planalto Atlântico que se estende por Minas Gerais e Bahia e é formada por terrenos proterozóicos ricos em jazidas de ferro, manganês, bauxita e ouro — Bernardo Puhler assina o nome das montanhas que permeiam suas canções. Paisagens de pedras, flores, rios e os povos isolados do sertão ocupam a linguagem do músico também apelidado de “cantor dos montanhistas” ou “músico dos mochileiros”.

Bernardo é um homem interessado pelas lonjuras [algo bem apropriado para quem tem nome de uma personagem do poeta matogrossense Manoel de Barros], desde novo se dedica a caminhos e travessias, redescobrindo cenários raros. De lá ele traz a poesia, o violão, o piano, a viola caipira, o acordeão e a flauta transversal. Mas sua linguagem musical converge pra contemporaneidade, e o músico soma sem temor programações eletrônicas, guitarras e toda parafernália capaz de distorcerem e modificar o som, tornando-lhe visceral e próprio.

Entre 2003 e 2013 foi o criador e principal compositor do Músicas do Espinhaço, banda que lançou três discos e teve o maior número de apoiadores e recursos recolhidos por um projeto de música na história das vaquinhas eletrônicas (crowdfunding) em Minas Gerais. Bernardo é parceiro de artistas como o fundador e letrista do Clube da Esquina, Marcio Borges, seu irmão Lô Borges e o cantautor cearense Joaquim Izidro. Está também muito relacionado às causas ambientais, participando ativamente de diversos movimentos pela criação de parques e projetos de sustentabilidade nas montanhas brasileiras.

Leia também no Barulho d’água Música:

981 – Clareza, despretensão e singularidade são marcas de Bernardo do Espinhaço (MG), compositor das montanhas e dos sertões

850 – Joaci Ornelas (MG) lança álbum que evoca tradições e hábitos do lugar onde o dia chega mais cedo e o céu quase nunca escurece

 

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