1151 – “Pérola Negra”, álbum de estreia de Luiz Melodia, é o primeiro Clássico do Mês de 2019

Disco que agradou a crítica, mas não caiu imediatamente no gosto popular,     ‘   46 anos depois do lançamento é apontado entre os cem melhores do  país  conforme lista elaborada pela revista Rolling Stone Brasil

O Barulho d’água Música, dando sequência à série Clássico do Mês, dedica esta atualização a Pérola Negra, disco de estreia do saudoso Luiz Melodia. O cantor e compositor lançou o álbum em 1973, sob direção musical de Péricles Albuquerque. O convite para a gravação veio após o sucesso das interpretações de Gal Costa e Maria Bethânia, em 1971 e 1972,  das canções Pérola Negra e Estácio, Holy Estácio, incluída por Melodia entre as 10 faixas do seu trabalho de estreia.

O disco agradou em cheio à crítica, mas não teve o mesmo êxito comercialmente. De qualquer forma, 46 anos depois,  os menos de 30 minutos dos lados A e B de Pérola Negra seguem entre os melhores da MPB (o disco o 32º da famosa lista dos 100 maiores elaborado pela revista Rolling Stone Brasil) por que mescla diversos elementos ao universo sambista que caracteriza as origens de Melodia,  com saborosas pitadas de blues, rock, soul, choro, baião e até samba-canção — um universo habitado por Billie Holiday, B.B. King, o tecladista e arranjador Taj-Mahal, The Beatles, Jorge Ben e Maria Bethânia. Pérola Negra também ficou famoso pela participação especial do reclusivo músico marginal Daminhão Experiença, que foi convidado para contribuir com o backing vocal na faixa Forró de Janeiro.

A faixa-título é um bom exemplo do cuidado com os arranjos neste trabalho. A música já aparecera no show de Gal Costa — Fa-tal-A todo vapor  — e  ganhou o requinte da voz suave de Melodia, acompanhada apenas por piano, baixo acústico e sopros poderosos, no bonito arranjo de Perinho Albuquerque.

Desobediência estimulada

Luiz Melodia nasceu no morro de São Carlos (Estácio)bairro da cidade do Rio de Janeiroem 7 de janeiro de 1951. Único filho homem do compositor Oswaldo Melodia e Eurídice, apaixonou-se por música ao ver o pai tocando, em casa: “Fui pegando a viola dele, tirando alguns acordes, observando. Ele não deixava eu pegar a viola, que por ser de quatro cordas era uma relíquia, muito bonita, mas nela aprendi a tocar umas coisas.”

Por conta desta precoce afinidade com a música, Luiz Melodia terminou por contrariar Seu Oswaldo, que planejava ter na família um “doutor” formado: “Ele não me apoiava, mas não adiantou ficar contra, até porque as coisas foram acontecendo. Depois, ele me curtia pra caramba e quando faleceu perdi um grande fã”, contava o autor de Pérola Negra.

Melodia começou a carreira musical em 1963. Inicialmente, dividia as atenções com o cantor Mizinho encarando, simultaneamente, trampos de tipógrafo, vendedor, caixeiro e músico em biroscas noturnas. Em 1964, formou Os Instantâneos, com Manoel, Nazareno e Mizinho. Abandonou o ginásio na adolescência e se dedicou a compor e a tocar músicas que embalariam a Jovem Guarda e a Bossa Nova, sempre com o grupo Os Instantâneos. Essa experiência, juntamente com a atmosfera do tradicional samba dos morros cariocas, resultaram em uma mescla de influências que renderam a Luiz Melodia um estilo único que passeou do blues ao hip-hop que logo menos chamou a atenção de dois assíduos frequentadores do morro do Estácio: os poetas Wally Salomão e  Torquato Neto.

Wally Salomão, de cara, apresentou-o a Gal Costa —  que, desta forma, passou a dizer que conheceu um dos seus compositores prediletos. A amizade permitiu a gravação da clássica Pérola Negra no bolachão Gal a todo vapor (1972). Pouco depois, era vez de Estácio, Holly Estácio cair no coração de outro ícone baiano e ganhar consagrada interpretação, agora por intermédio de Maria Bethânia.

Foi nesta época que o compositor incorporou ao nome artístico a homenagem ao pai, utilizando Luiz Melodia já ao lançar, em 1973, o antológico Pérola Negra. A partir daí, com temperamento irreverente e inquieto — características que já o faziam se sobressair quando, ainda garoto, tocava iê-iê-iê nos terreiros das cuícas, surdos e pandeiros –, gradativamente foi amalgamando seu estilo musical inconfundível sem dar bola aos chatos de plantão que o rotulavam como “maldito”, julgando que seria ofensivo ao carioca ser guindado ao mesmo escaninho do cearense Fagner e do mineiro João Bosco, dois exemplos para os quais a intelectualia também espichava beiçinhos. “Ah, cara: não éramos pessoas que obedeciam, sabe como é!”, declarava Melodia. “Burlávamos, pode-se dizer assim, todas as ordens da casa, da gravadora; rompíamos com situações que não nos convinham”, completava. “É que sempre acreditei naquilo que fiz e faço!”, arrematava.

Críticas à parte, a carreira já havia se afirmado e só se fortaleceu em 1976, quando o disco Maravilhas contemporâneas chegou às paradas, sucedido com a mesma aceitação do público por Mico de circo (1978). Nas décadas seguintes, novos álbuns o conduziriam ao estrelato nacional, a ter músicas incluídas em trilhas sonoras de novelas de grande audiência (vide Juventude Transviada, em 1975, sucesso em horário nobre platinado como um dos temas de Pecado Capital) e à fama para além do país — abrindo, entre outras, as portas de casas de espetáculos europeias e de eventos gringos de responsa como o  III Festival de Música de Folcalquier (1992), na França e, em 2004, do Festival de Jazz de Montreux à beira do lago Lemánonde arrancou aplausos entusiasmados no Auditorium Stravinski, palco principal do festival.

Já aclamado pelo público e com espaço consolidado no cenário artístico tupiniquim, Luiz Melodia lançou Nós (1980), incluindo entre as faixas Codinome beija-flor , do poeta, cantor, compositor e amigo Cazuza. Cinco anos depois Relíquias trouxe novos arranjos para sucessos como Ébano (música que defendeu na final do festival  Abertura, exibido pela TV Globo, em 1975) e Subanormal, fórmula repetida em intenso tom intimista por Acústico – ao vivo (1999), em que Melodia revisitava novamente a própria obra, agora amada tanto pelo público, quanto pela crítica.

Até Zerima, que saiu em 2014 e rendeu a Luiz Melodia no ano seguinte o troféu do 26º Prêmio da Música Brasileira (PMB) na categoria melhor cantor de MPB, a discografia registra 16 títulos autorais — sem contar inúmeras participações em trilhas sonoras de novelas e de minisséries, além de álbuns de amigos e parceiros, entre os quais o solo do titã Sérgio Britto, lançado em setembro de 2011. Melodia era casado desde 1977 com Jane Reis, cantora, compositora e produtora, com a qual teve o filho rapper Mahal Reis, nascido em 1980.

Cantada rascante

Ainda sobre a gravação por Melodia da própria faixa título, vale a pena compartilhar do livro 101 Canções que Tocaram o Brasil, de Nelson Motta (Estação Brasil, 2016) o seguinte trecho que se lê à página 118:

“A bela gravação de Gal foi um perfeito lançamento, mas Pérola Negra ganhou sua versão definitiva como canção-título do disco de estreia de Melodia, em 1973. Em vez da roupagem roqueira de Gal (arranjo do tropicalista Lanny Gordin, mas com a guitarra nas mãos de Pepeu Gomes, que o substituiu no show), na versão do autor a música ganhou uma embalagem luxuosa jazzy & bluesy em clima de big band. Um tratamento mais lírico, centrado na voz rascante e aveludada de Melodia, no piano de Antonio Perna, no baixo de Rubão Sabino e no fraseado dos sopros. A letra é uma cantada meio desesperada do compositor tentando seduzir sua musa, que chama de ‘Pérola negra’ , inspirado pelo nome de guerra de um travesti do morro de São Carlos.

Na verdade, a pérola negra da música brasileira é Luiz Melodia.”

Discografia de Luiz Melodia

  • 1973 Pérola Negra
  • 1976 Maravilhas Contemporâneas
  • 1978 Mico de Circo
  • 1980 Nós
  • 1983 Felino
  • 1987 Decisão
  • 1988 Claro
  • 1991 Pintando o Sete
  • 1995 Relíquias
  • 1997 14 Quilates
  • 1999 Acústico ao Vivo
  • 2001 Retrato do artista quando coisa
  • 2003 Luiz Melodia Convida
  • 2007 Estação Melodia
  • 2008 Especial MTV – Estação Melodia Ao Vivo
  • 2014 Zerima

 Participação em trilhas sonoras de novelas e minisséries

 

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