1153- Rainha do Mar, Iemanjá é festejada em várias cidades do país; ouça músicas que a homenageiam*

*Com Camila Moraes  (da surcusal brasileira do portal El País) e blogues SignificadoConexão Planeta e iQuilibrio

Odoyá!

Hoje, 2 de fevereiro, cidades como Salvador (BA), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e Rio Grande (RS), entre outras, celebram cultos e promovem festas, entre outras iniciativas de louvor, a Iemanjá, orixá feminino de origem africana e presente nas religiões Candomblé e Umbanda. Por sincretismo, entre os católicos é tratada por Nossa Senhora da Conceição — em São Paulo — das Candeias (celebrada, também em 8/12) — na Bahia –, e dos Navegantes — no Rio Grande do Sul. Em Belém, capital do Pará, e São Paulo, devotos organizam procissões e cultos em 8 dezembro, o que demonstra a popularidade desta divindade cujo nome também ocorre iniciado pela letra Y: YemanjáNa África,o nome tem origem nos termos do idioma Yorubá “Yèyé Omo Ejáque significa “Mãe dos filhos-peixe”. 

Mãe-d’água dos yorubatanos no Daomé, de orixá fluvial africano passou a marítimo no Brasil, onde tem também vários nomes e apelidos já evocados na música brasileira: Inaé, Ísis, Janaína, Maria, Mucunã, Princesa de Aiocá, Princesa do Mar, Rainha do Mar e Sereia do Mar. A música dedicada à orixá é entoada na voz de grandes intérpretes e compositores nacionais — como os cariocas Marisa Monte e Baden Powell, os baianos Pepeu Gomes, Maria Bethânia e Dorival Caymmi e a mineira Clara Nunes .  

Em meio a batuques, sons de ondas do mar e de conchas na água, a maioria das canções que celebram Iemanjá evocam seus poderes de fecundidade e união e pedem proteção. Caymmi em Dois de fevereiro, por exemplo, observa: “Escrevi um bilhete pedindo pra ela me ajudar/Ela então me respondeu/Que eu tivesse paciência de esperar”.

Marisa Monte (ao lado de Paulinho da Viola) é uma das cantoras em cujo repertório a tributo à Rainha do Mar (Foto: João Luiz Soares)

Outros cantores vão além, como o fez Pepeu Gomes em Sexy Yemanjá – tema de abertura da novela Mulheres de areia, levada ao ar nos anos 1990 na TV Globo. Pepeu Gomes convoca a figura de Iemanjá para apresentar ao público uma mulher sensual e de “um amor que incendeia”.

Cantada em versos, a Rainha do Mar protagoniza ritmos variados — extrapolando os limites da MPB, indo do soul ao reggae e passando pelo pagode — e inspirando não só a Bahia, berço das religiões afro-brasileiras, mas toda a nação, conforme pode se conferir na seleção abaixo, uma das disponíveis em streaming (clique na palavra em laranja). A banda gaúcha Chimarruts, do Rio Grande do Sul, gravou o reggae Iemanjá.

Músicas dedicadas a Janaína

Rio que corre para o mar

Para além das manifestações artísticas, Iemanjá, tanto na Umbanda, quanto no Candomblé, é considerada a mãe de quase todos os orixás. Sua representatividade está muito ligada à fecundidade – por isso foi destinado à ela o Mistério da Geração. É filha de Olokum, soberano dos mares e tomou – ainda quando criança – uma poção que a ajudaria a fugir de todos os perigos. Quando cresceu, casou-se com Oduduá, com quem teve dez filhos Orixás. Rezam lendas que seus seios se tornaram maiores e mais fartos devido à amamentação da prole, característica que gerou à ela grande vergonha.

Desgastado o casamento, Iemanjá decidiu deixar o esposo e seguir em busca de sua própria felicidade. Após algum tempo, apaixonou-se pelo rei Okerê, com quem viveu uma história nada feliz. Contos revelam que, certo dia, após beber demais, Okerê se referiu aos seios de Iemanjá de maneira grosseira, o que fez com que ela fugisse, decepcionada.

Para escapar da perseguição de Okerê, Iemanjá fez uso da poção dada por seu pai. Assim, a Rainha do Mar se transformou em um rio que encontra o mar. Mas, para recuperar a esposa, Okerê decidiu interferir no curso do rio, ao se transformar em uma montanha. Com a ajuda do filho Xangô (que abriu passagem no meio dos vales criados por Okerê), Iemanjá, entretanto, conseguiu seguir seu caminho, tornando-se então a Rainha do Mar.

Qualidades de Iemanjá

Iemanjá possui características muito particulares e próprias. Regente da inteligência humana, as qualidades de Iemanjá são muito importantes, pois a transformam praticamente em Orixás individuais, conforme estudos e pesquisas, muitos ainda em curso para tentarem provar a tese. Enquanto isto, muitas nações continuam a considerá-la como Orixá única:

Como Iemanjá Asagba ou Sobá: ligada a Airá, lufã e Orunmilá, é responsável por fiar algodão. Usa corrente de prata no tornozelo e carrega consigo um Abebé. Sua energia está ligada à espuma branca do mar e dos rios, e é vista sempre vestindo branco e prata;

Iemanjá Akurá: vive nas espumas do mar, aparece vestida com lodo do mar e coberta de algas marinhas. Muito rica e pouco vaidosa. Adora carneiro e possui forte ligação com Nanã;

Iemanjá Iyá Odo: Para alguns é a considerada mãe de Oxun. Vive às margens de todos os rios, representando o Ajubó ancestral. Além disso, é ligada ao Orixá Oxalufan;

Iemanjá Iya Awoyò: Orixá mais velha do panteão, possui ligação com Oxalá, Oxumarê e Xangô. Sempre vista vestindo branco perolado e cristal, é responsável pelas marés;

Iemanjá Malèlèo ou Maylewo: Vive nos grandes lagos e é considerada muito tímida. Segundo a lenda, não se pode tocar no rosto do Iyawò, veste verde claro e branco prateado;

Iemanjá Iyá Ógunté: Mãe do rio Ógun, é considerada grande guerreira. Usando uma espada e carregando um Abebé, tem ligação com Ogum e Oxaguian. Veste sempre azul claro e branco perolado;

Iemanjá Sessu, Iyasessu: Ligada a Babá e Olokun, é considerada muito voluntariosa e respeitável. Vive nas águas agitadas da costa e está sempre vestida de verde e branco;

Iemanjá Olossá ou Oloxá: Ligada a com Oxum e Nanã, é a mais velha da terra de Egbado. Vestindo verde-claro e com suas contas branco cristal, está orixá não possui iniciados no Brasil;

Iemanjá Iya Massê: Mãe de xangô.

Oferendas

Oferendas devem ser orientadas por alguém responsável do Candomblé ou da Umbanda, pois cada Orixá possui suas peculiaridades que devem ser respeitadas e guiadas por quem os conhecem após anos de prática na religião. Os pedidos feitos à Iemanjá, geralmente, são acompanhados de roupas, velas, alimentos e flores como rosas, palmas brancas, orquídeas e crisântemos brancos e entregues em barcos de isopor,  preferencialmente à beira mar. No caso de alimentos ou produtos perecíveis, em um local como um campo ou mata.

 Oferendas são lançadas ao mar em barcos de isopor  Foto: Alexandre Macieira/ Riotur

Alguns ingredientes são muito característicos nestas oferendas. Geralmente levam peixe, camarão, arroz, canjica, manjar e mamão.

Alguns pratos tradicionais da cozinha ritualística:

Canjica Branca: preparar a canjica em uma tigela de louça branca, acrescentar leite de coro, mel e, opcionalmente, uvas brancas;

Canjica Cozida: a canjica é refogada com azeite de dendê, cebola e camarão.

Manjar do Céu: preparado com leite, amido de milho, leite de coco e açúcar.

Sagu de Leite de Coco: Depois do sagu inchado, refoga-se com leite de coco de modo a fazer um mingau grosso. Em seguida, é colocado em uma tigela de louça branca.

Peixe de Iemanjá: Cozido com cheiro verde, coentro, tomate e cebola, não leva sal e não desmanchar.

Dia de Iemanjá

A maior festa em homenagem à Iemanjá costuma agitar Salvador nos dias 2 de fevereiro (milhares de pessoas trajadas de branco fazem uma procissão até ao templo de Iemanjá, localizado na praia do Rio Vermelho, onde deixam os presentes que vão encher os barcos que os levam para o mar), mas a da cidade do Rio de Janeiro não fica atrás e o tradicional Banho de Pipoca é acompanhado por pessoas de diversas religiões.

As celebrações em homenagem a Iemanjá também ocorrem em 15 de agosto, 8 de dezembro e 31 de dezembro.. O dia da semana reservado a Iemanjá, independentemente de datas nos diversos calendários, é o sábado, quando se veste predominantemente azul claro, branco e prata. As três cores, que estão quase sempre presentes nas vestimentas e adornos de Janaína, representam todo seu mistério (associado ao fundo do mar) e também a sua vaidade.

 

Sincretismo 

Iemanjá é a padroeira dos pescadores. É ela quem decide o destino de todos aqueles que entram no mar. Também é considerada como a “Afrodite brasileira”, a deusa do amor a quem recorrem os apaixonados em casos de desafetos amorosos.

No Brasil, Iemanjá é considerada a divindade das águas doces e salgadas. Na igreja católica está associada à Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Piedade e à própria Virgem Maria.

O sincretismo de Iemanjá com Nossa Senhora dos Navegantes teve sua origem no século XVIII, como resultado de um conflito ocorrido pelo choque entre as religiões dos negros trazidas da África com o catolicismo já instituído no Brasil.

Leia também no Barulho d’água Música:

1002 – Culto à Padroeira do Brasil, consagrada em “Romaria”, remonta à pescaria milagrosa no Vale do Paraíba (SP)
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