1154 – Sutileza e contundência, sem firulas, marcam novo disco de Ayrton Montarroyos (PE)

Pernambucano que vem recebendo diversos elogios da crítica pelo trabalho de pesquisa e interpretação da canção popular brasileira lança seu segundo disco, em parceria com o violonista do Sr. Brasil Edmilson Capelupi

A gravadora Kuarup está lançando Um mergulho no nada, segundo álbum do cantor de Recife (PE) Ayrton Montarroyos (Ayrton José Montarroyos de Oliveira Pires), no qual acompanhado pelo violonista Edmilson Capelupi interpreta por meio de um bem elaborado repertório clássicos da MPB e de contemporâneos como Ylana e Yuru Queiroga. E que ninguém se perca pelo nome escolhido por Ayrtinho — como é chamado por familiares como a avó Célia o jovem pernambucano nascido em 1995 – para batizar o álbum gravado em uma única apresentação no glamouroso Teatro Itália em 1º de abril de 2018, na cidade de São Paulo: pare o mundo por meros 35 minutos, menos que um dos dois tempos de pelada, e faça o julgamento apenas após terminar a última das 10 faixas — se é que pelo meio da audição o amigo ou seguidor já não estiver tomado por um “magnetismo inescapável”, como escreveu o crítico e jornalista Lucas Nobilo, que ouviu Um mergulho no nada “quatro vezes de enfiada” e também estamos fazendo desde que o disco chegou à redação, gentilmente cedido ao Barulho d’água Música por Rodolfo Zanke, a quem mais uma vez somos gratos.

Ayrton Montarroyos começou a ficar famoso em 2015, quando foi o vice-campeão do programa de talentos The Voice Brasil,  da Rede Globo. Antes, já possuía indicação ao Grammy Latino pela participação no disco Herivelto Martins – 100 Anos, dando corda ao talento que demonstra ter descoberto aos 11 anos. Aos 16 anos, em 2011, Ayrtinho subiu pela primeira vez a um palco já como profissional (o do Teatro Beberibe, em Recife, com agenda de dois dias), após divulgar vídeo caseiro com a interpretação de Olhos nos olhos, de Chico Buarque, que abriu as portas para ele ser atração em locais como shoppings e receber convites de orquestras e coros de igreja.

Riacho do Navio clássico de Luiz Gonzaga com Zé Dantas, gravado para o álbum 100 Anos de Gonzagão, é o primeiro registro fonográfico da voz de Ayrton Montarroyos. O álbum idealizado e produzido por Thiago Marques Luiz é um tributo ao centenário de Luiz Gonzaga e contou, também, com participações de Elba Ramalho Zeca Baleiro. Em Herivelto Martins – 100 Anos, ele dividiu a faixa Dois Corações com Ylana Queiroga e o álbum acabou indicado como Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.

O pernambucano não é parente do trompetista carioca Márcio Montarroyos — falecido na cidade do Rio de Janeiro em 2007 — mas faz parte de uma família na qual a música sempre foi um hábito, conforme revelou a avó dele Célia, apaixonada por música clássica e que não esconde o orgulho que tem do neto, conforme a matriarca revelou em entrevista concedida à jornalista Gabriela Canário, da TV Grande Rio e portal GShow, em 2015. “Acho ele o máximo, mas nunca imaginei que iria ter um membro de minha família cantando”, afirmou. “Pensei que ele seria jornalista porque escreve e fala muito bem”, emendou. “Os professores sempre diziam da capacidade dele para a escrita, mas de uma hora para outra ele começou brincando de cantar na escola.”

Dona Célia trabalhou com música ao longo da vida inteira. Ex-funcionária de uma gravadora no Recife, disse que perdeu a conta de quantos discos adquiriu a partir de 1965. “Comprei praticamente uma carreta fechada de discos”, brincou, revelando uma das fontes que ajudou o neto. E a música clássica, diga-se de passagem, é uma característica marcante dos Montarroyos. Apesar de nenhum membro ter seguido a carreira profissionalmente, Ayrton parece ter herdado a vocação dos familiares mais antigos, alguns que ele nem mesmo conheceu.

“Quando o Ayrtinho começou a cantar em serenatas que fazíamos no condomínio, ficava pensando a quem ele teria puxado”, relembrou a avó. “Meu avô morreu em 1930, era do exército e também maestro. Já minha mãe cantava muito bem, mas meu pai não a deixou continuar cantando com ciúmes. Todo mundo é afinado em casa!”

Como quem sai aos seus não degenera, os antepassados devem estar dando vivas no Plano Espiritual à medida à qual Ayrtinho conquista seu espaço no seleto meio da MPB. O rapaz se considera amante dos clássicos mais antigos do cancioneiro nacional e sempre dá de ombros quando perguntado sobre quando inaugurará seu “trabalho autoral”. Em entrevista concedida em abril de 2017 a Fellipe Torres , do Diário de Pernambuco, queixou-se da patrulha e rejeitou rótulos e posturas como “fazer cover”, apontando: “Nos anos 1970 e 1980 não se falava nisso. Há um esfacelamento da canção brasileira em curso, cada vez mais norte-americana e menos latina”. 

Capa do primeiro álbum, de 2017

Ele frisou durante o papo com Torres que gosta de pesquisar músicas e que procura fazer as pessoas entenderem suas pesquisas. “Hoje, muitos só se interessam em gravar as próprias músicas. É difícil.” Mergulhado em um processo que durou quatro anos, Ayrton burilou há menos de um ano o primeiro disco da carreira, Ayrton Montarroyos (disponível nas plataformas Spotify, Deezer, iTunes e Tidal), testando cada uma das faixas perante o público antes de entrar no estúdio. Neste ínterim, incluiu canções e retirou várias até ter o “estalo” de como deveria ser o álbum de estreia em São Paulo, quando interpretava compositores pernambucanos. “Fiquei com aquilo na cabeça, muito feliz. Decidi que seria assim”. 

A relação com artistas do estado não se limitou aos compositores – Ayrton convocou instrumentistas, arranjadores e outros parceiros para a empreitada. O resultado que tempera o primeiro álbum transmite maturidade musical e soa como lufada de ar fresco na hoje amorfa MPB, julgou Fellipe Torres. No repertório há de Zeca Pagodinho (Alto lá) a Lula Queiroga (Portão), de Caetano Veloso (Não me arrependo) a Zé Manoel (Tu não sabias), de Zeca Baleiro (À porta do edifício) a Graxa (Tudo em volta de mim vira um vão). O álbum conta a história do eu-lírico do disco, um amante compulsivo e passional. A narrativa é costurada por letras e interpretações contundentes, além de faixas instrumentais. 

“Cantar sempre foi muito fácil para mim. Nunca quis ficar mostrando minha voz, mas tive a preocupação de que o disco fosse uma experiência, um momento de pausa. São 35 minutos divididos em 11 músicas para você ouvir tudo… e depois ouvir de novo”. 

Foto: Milton Gevertz

Autodidata

Em Um mergulho no nada se soma à voz arrebatadora e de timbre que por vezes lembra o de Caetano Veloso, em outros o do saudoso Wander Lee, a levada do violão de 7 cordas de Edmilson Capelupi, em solos magistrais. Quem assiste ao programa Sr. Brasil, apresentado por Rolando Boldrin, na TV Cultura, sabe o quanto Capelupi é craque. Um dos músicos cativos de Boldrin, Capelupi é autodidata influenciado desde cedo pelo pai “chorão”, Haroldo, e pelas rodas de choro que desenvolveu o gosto pela música brasileira, mais especificamente pelo choro e sua sonoridade.

Além de tocar violão de 6 cordas, viola e cavaquinho, especializou-se no de 7 cordas e na gravação de 1º de abril de 2018 no Teatro Itália provou que Ayrtinho acertou ao escolhê-lo como par. Capelupi é, ainda, compositor, arranjador, produtor e professor e no mercado publicitário desenvolve jingles e arranjos em trilhas para rádio e televisão. Participou da trilha de filmes como Cidade de Deus (é coautor da música Convite à vida), Não por acaso, Cidade dos Homens, e da minissérie Filhos do Carnaval (HBO) e Sob pressão (Rede Globo).

Em shows e apresentações, Capelupi já acompanhou Beth Carvalho, Zizi Possi, Nana Caymmi, Paulinho da Viola, Altamiro Carrilho, Zé Luis Mazziotti, Roberto Silva, MPB 4, Paulo Moura, Alaíde Costa, Cristina Buarque de Holanda, Dona Ivone Lara, Célia, Zezé Gonzaga, Zé Renato, Leila Pinheiro, Eduardo Dussek, Hermínio Bello de Carvalho, entre muitos outros. O violonista goza, ainda, de reconhecimento no mercado fonográfico e é convidado constantemente para vários trabalhos de grandes nomes da MPB, destacando-se Ivan Lins, Beth Carvalho, Jair Rodrigues, Jair Oliveira, Luciana Mello, Antonio Nóbrega, Toquinho, Zizi Possi, Jane Duboc, Dominguinhos, Monarco, Nelson Sargento, Demônios da Garoa e Tom Zé.

Entre expoentes da música instrumental, formou parcerias com Toninho Carrasqueira, Heraldo do Monte, Proveta e Edson José Alves. Como produtor, Capelupi assina arranjos de diversos álbuns, como Nove de fevereiro II, de Antonio Nóbrega, Leite preto, Do meu jeito e Enquanto fizer canção, de Carmen Queiroz, Carlinhos do cavaco e Mensagem de bamba, de Carlinhos do Cavaco, Direito de sambar, de Adriana Moreira, Papo de anjo – choro e Sarambeque – 150 anos de Nazareth, do grupo Papo de anjo e para Avarandado e Alma cabocla, de Ana Salvagni, Anjo torto, de Carlos Henry, 180 anos de samba cantando Adoniran e Noel, com grupo Vésper, MPB 4 e Roberto Silva, Cantando para viver. Atualmente, é professor de violão de 7 cordas da Escola de Música Tom Jobim, diretor musical de Antonio Nóbrega e integra o grupo Papo de Anjo (como diretor, músico, arranjador e compositor)

Lucidez e  personalidade

Lucas Nobilo, jornalista e escritor

Não é de hoje que boas safras de artistas brasileiros têm se voltado a fazer trabalhos autorais, criando e cantando as próprias composições. Isso, inegavelmente, não deixa de ser rico e louvável. Nos últimos tempos, porém, quando alguém aparece com um “disco de intérprete”, quase que de bate-pronto já se torce o nariz. Compreensível. Afinal, é risco imenso. A arte da (re)interpretação, por si só, desafia cantores e cantoras a trazer algo de novo, senão, qual o sentido de regravar uma canção se for somente para copiar, apenas para brincar de papel-carbono vocal?

Sabedor disso, cheio de lucidez e de personalidade, surge Ayrton Montarroyos com seu novo álbum. Em dueto com o experiente Edmilson Capelupi (violão 7 cordas), Ayrton gravou este disco em uma única apresentação no Teatro Itália. Não pude assistir ao show, mas ao ouvir essas dez faixas a sensação é a de estar lá, na plateia, colado ao palco. Quando o álbum chegou às minhas mãos, tive a mesma reação de Chico Buarque quando recebeu a fita para escrever o texto da contracapa do LP Todo o Sentimento, de Elizeth Cardoso e Raphael Rabello. Tal qual Chico diante do trabalho de Elizeth e Raphael, ouvi o disco de Ayrton “quatro vezes de enfiada”.

Nos dias seguintes, por um magnetismo inescapável, tornei e retornei ao álbum por muitas vezes. Por que evocar Elizeth e Raphael aqui? Simples. Desde aquele duo, registrado no início da década de 1990 – e, justiça seja feita, também das parcerias entre Rabello e Ney Matogrosso, no mesmo período, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina e do encontro entre encontro entre Mônica Salmaso e Paulo Bellinati -, não se ouvia disco no formato voz e violão.

Já que estamos falando de um álbum de intérprete, é bom lembrar que o primeiro passo para escapar do lugar-comum é a escolha do repertório. Neste sentido, apesar da curta idade, Ayrton Montarroyos dá uma aula. Vai de contemporâneos seus, como Ylana Queiroga e Yuri Queiroga (Pé Na Estrada), Lirinha, Junio Barreto e Bactéria (Jabitacá) a veteranos como Djavan (Açaí), Tom Jobim e Vinicius de Moraes (Brigas Nunca Mais), Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho (Doce de Coco) e Chico Buarque (Mar & Lua e Cálice, esta em parceria com Gilberto Gil).

O repertório de Um mergulho no nada escapa do lugar-comum e ajuda Ayrtinho a se firmar na MPB

Somado a isso, há ainda um sem-fim de virtudes – e não virtuosismos e firulas — nas interpretações enriquecedoras de Ayrton e Capelupi. Basta ouvir o que a dupla faz ao desencravar joias como Sem Pressa de Chegar (em rara parceria de Capiba com Delcio Carvalho), Sodade Matadera (gravada originalmente por seu próprio autor, 70 anos atrás; e, agora, com o violão lembrando Passaredo, de Chico e Francis Hime, na introdução, e Dona Divergência (punhal poético de e Felisberto Martins, gravado anteriormente por nomes como Janelão, Jards Macalé, Linda Batista e Tom Zé, e, desta feita, com Montarroyos sábia e corajosamente transmitindo a densidade dos versos da canção).

Não é toda hora que se escuta um disco capaz de combinar simultaneamente tanta sutileza e tanta contundência. Ouvir o álbum de Ayrton Montarroyos com Edmilson Capelupi é como entrar num caleidoscópio de passado, presente e futuro. E, aqui, falar de futuro significa já ansiar por um volume 2 deste duo tão espontâneo quanto sobrenatural,

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