1159 – Conheça Adiel Luna (PE), coquista autor de “Baionada” e “Onde as violas se encontram”

Repertório dos dois álbuns do músico residente  em Recife resgatam ritmos que animam cantigas de trabalho e festas dedicadas ao baião, ao improviso,  à pisada de coco e à  cantoria de viola no sertão, além de rimas de cordel e o repente

As tradicionais audições na redação do Barulho d’água Música nas manhãs de sábado começaram neste dia 23 de fevereiro, a uma semana do Carnaval, com o álbum Baionada (2015), do pernambucano Adiel Luna, autor, ainda, de Onde as violas se encontram, gravado com o pai, o premiado Coco Camará, também tocado aqui no cafofo. Em sua página eletrônica, na guia de apresentação, consta que a relação de Luna com a música vem de berço: a bisavó era cantadeira de casa de farinha e conheceu o marido animando uma farinhada. O avô, por sua vez, foi entusiasta da cantoria de viola, enquanto o pai – assim como alguns tios e primos – é poeta e repentista.

Neste rico meio, o menino Adiel cresceu às madrugadas de cantoria no sítio da família onde brincadeiras e festas comiam soltas de forma genuína. À medida que foi se apaixonando pela poesia tradicional e se debruçando sobre ela, Adiel Luna descobria outros tipos de manifestações que não se ouviam no terraço de casa, mas que acabaram sendo levadas por cantadores com os quais esbarrou por lá. “É assim — ele apontou: tem cantador que é também maracatuzeiro. Tem cantador que é também coquista. Outro que mexe com as toadas de gado. E assim ampliava-se aquele universo.”

Abraçado à poesia e à música como paixão e profissão, Adiel Luna sempre esteve atento e disposto a assimilar, a aperfeiçoar e a aprender modalidades novas da poética tradicional cantada e de suas variações regionais. Hoje é coquista, mestre de baque solto, violeiro, cantador repentista e cordelista. A bagagem que já carrega como brincante e seu diálogo constante e respeitoso com os mestres, as práticas, os terreiros tradicionais e as oralidades destas manifestações marcam seu diferencial, permitindo-o passear com agilidade ímpar no improviso.

A este baú ele acrescenta uma renovação típica de quem saiu do campo para a cidade e que não pode – nem quer – desconsiderar as influências urbanas. O contato entre esses dois domínios resultou num trabalho extremamente original e sofisticado. O repertório autoral viaja por contextos nordestinos e elementos singulares de sua identidade – paisagens, religiosidade, cotidiano, histórias, sonoridades –, numa dinâmica rara, refinada e bastante rica, permitindo uma viagem no tempo que mostra  manifestações como o coco desde sua forma mais pura e encantadora – enquanto cantiga de trabalho – até como modalidade mais elaborada de rimas e métrica.

Baionada é um daqueles álbuns que quando rolam na vitrolinha a gente não quer mais tirá-lo. Baionada quer dizer festa, comemoração, brincadeira de improviso, nas quais cantadores e público se reúnem no Sertão para uma noite de baião de viola. É, de acordo com o autor, “o equivalente ao que chamamos na Zona da Mata de sambada”.

Neste projeto, a viola sertaneja conduz as linhas melódicas das músicas em diálogo com a rabeca, ressignificando um dueto antigo da musicalidade nordestina e, principalmente sertaneja. A liga harmônica fica a cargo do violão de sete cordas. Cocos, baiões e sambas dão a base rítmica das 12 faixas. Baionada conta, ainda, com a participação dos experientes músicos Juliano Holanda e Areia, na produção. Nas canções, está presente a musicalidade da viola, as rimas de cordel e ainda da pisada do coco.

Onde as violas se encontram — com o pai Coco Camará –, apesar de ter a mesma matriz – o samba, a festa e a arte do improviso –, o coco de Pernambuco possui estilos distintos, típicos das regiões onde é brincado: Litoral, Zona da Mata, Agreste e Sertão. Quando leva aos palcos essa mistura e convida o público a fazer uma imersão na geografia da manifestação, Adiel Luna trabalha a mazurca (do agreste e sertão), o trupé (do sertão e da mata), a embolada de pandeiro e de viola, o coco de engenho (mata), o coco de sala e o coco de obrigação (agreste, mata e litoral). Nas apresentações, ele brinca, improvisa e explora os toques, as pisadas e os versos nas mais diversas métricas e melodias, cantando e encantando todos os presentes.

Adiel Luna já participou das principais sambadas de Pernambuco e é considerado, hoje, o único representante da renovação do coco de São João. Com seu trabalho ganhou o primeiro lugar no Festival Pré-Amp (2010); o segundo no Prêmio Saraiva de Música (2014) e, de novo, o primeiro como Compositor Popular representando o Brasil no Ibermúsicas (2016).  Ele protagonizou dois documentários: O Improviso e a Poesia Solta no Vento – que conta sua relação com seus principais mestres dentro dessa manifestação e seu trabalho em preservar o conhecimento deles – e A Matinada – documentário sobre as variantes do coco de improviso no estado de Pernambuco e um show ao vivo no Teatro de Santa Isabel do encontro entre ele e os mestres Zé de Teté, Galo Preto, Bio Caboclo e Ciço Gomes, traçando um passeio pela geografia do coco pernambucano.

Em setembro de 2014, Luna foi atração do projeto Arreuni, iniciativa do cantor e compositor João Arruda, em rodada que buscou entrelaçar as tradições artísticas do Nordeste e do Sudeste do país, com as presenças, além do pernambucano, dos paulistas Noel Andrade (cantor e violeiro) e Sinhá Rosária (cantora e compositora), no Centro Cultural Casarão do Barão, situado no bairro Barão Geraldo, em Campinas (SP).

Leia mais sobre Adiel Luna e o álbum Baionada em:

Adiel Luna: a música do sertão, sem purismo, nem pretensão

 

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