1161 – Último disco gravado por Tavito, do selo Kuarup, traz releituras de clássicos como Rua Ramalhete e Casa no campo

Cantor e compositor nascido em Beagá, ex-integrante do Clube da Esquina e do Som Imaginário, gravou clássicos do rock rural com Guarabyra, Tuia, Ricardo Vignini e Zé Geraldo em álbum lançado no Sesc Pinheiros

Dez dias antes de Tavito partir cumprindo o ciclo natural de toda a vida, mas deixar no peito de familiares, amigos, parceiros e fãs o buraco que a saudade sempre provoca — e, no caso dele, um vazio que não tem como ser preenchido no universo da cultura, em um período no qual, sobretudo no segmento da música, grassam porcarias –, a unidade Pinheiros do Sesc, em São Paulo, promoveu na noite de 17 de fevereiro o lançamento de Nós do Rock Rural – Encontro de Gerações. O álbum gravado pela Kuarup e lançado há dias no palco do Teatro Paulo Autran é resultado de outra apresentação, ao vivo,  que fora captada um ano antes. Naquela ocasião, Tavito, Guarabyra, Zé Geraldo, Tuia e Ricardo Vignini protagonizavam mais um show do projeto homônimo que, para a noite de festa no Sesc Pinheiros, já infelizmente sem ele, contou ainda com a participação do guitarrista Fábio Santini.

Tavito não pode comparecer por que ainda batalhava contra o câncer que o derrotou na manhã de terça-feira, 26 de fevereiro, aos 71 anos, completados exatamente um mês antes, em 26 de janeiro, dia em que nascera no ano de 1948. No álbum recém-lançado pela Kuarup encontra-se entre as faixas um dos maiores sucessos de todas as épocas do cancioneiro nacional, Rua Ramalhete — que Tavito compôs em 1979, em parceria com Ney Azambuja –, mais a lendária Casa no campo (1971) — outra joia dele, esta em dupla com Zé Rodrix, que estourou e virou clássico com Elis Regina.

Além destas musicas que já embalam sucessivas gerações, ele, os veteranos Guarabyra e Zé Geraldo, Tuia e o virtuoso violeiro Vignini ainda promoveram primorosas releituras de Espanhola (Flávio Venturini e Guarabyra, 1977), Começo, meio e fim (Tavito, Ney Azambuja e Paulo Sérgio Valle, 1979), Dona (Luiz Carlos Sá e Guarabyra, 1982), Senhorita (Zé Geraldo, 1981), Galho seco (Zé Geraldo, 1990) e Flor, esta composta em 2013 por Tuia, que assina a direção artística do disco.

Um dos mais emblemáticos hits do movimento Rock Rural¹, Casa no campo remete a uma utopia — embora, concretamente, existam muitos lugares recônditos e bucólicos como o descrito na letra onde podemos receber amigos do peito, cercados de livros e discos, paz e nada mais. Já Rua Ramalhete remete a um logradouro que existe entre os bairros Anchieta e Serra, em Belo Horizonte, capital mineira onde Tavito nasceu, conforme matéria assinada por Elian Guimarães, publicada na quinta-feira, 28/2, pela versão eletrônica do jornal O Estado de Minas (EM)

A Ramalhete da música romântica e do amor anotado em bilhetes “é uma antiga rua de terra, cercada de casas que abrigavam muitas crianças brincando de bola, bicicleta, roda e queimada, entre ramalhetes”, cenário que inspirou Tavito e Azambuja, relatou Guimarães. Hoje, ainda de acordo com o jornalista, no local sobraram três ou quatro residências que abrigam moradores de gerações mais recentes. “Os prédios tomaram conta de todos os espaços e substituíram os velhos casarões”, mas na esquina das ruas Ramalhete e Caracol, desde 2005 há afixada uma placa que reproduz os versos carinhosos dedicados à vila pelos compositores.

Guimarães recolheu ali histórias de pessoas que conheceram ou conviveram com Tavito e uma delas é Edelweiss Paiva Santos, jornalista, professora de Inglês e Português, geógrafa, historiadora e assistente social, de 86 anos. Ao autor da matéria do portal do EM, Edelweiss, cujo nome significa “flor dos alpes”, relatou algumas das “molecagens” promovidas pela “turminha” da qual faziam parte os seis filhos dela e muitas outras crianças, Tavito entre elas. “Elas faziam todas as estripulias da época de criança, a rua não tinha calçamento e todas brincavam sem qualquer resguardo. Não passava carro e elas jogavam pedrinhas nas vidraças para chamar a atenção dos adultos.”

Bem no início da rua Ramalhete, apontou também Elian Guimarães, avista-se a Casa Ramalhete, construída pelo arquiteto Carlos Noronha com características arquitetônicas da década dos anos de 1950, a qual abriga hoje espaço de arte compartilhada — o que dá ao lugar uma aura ainda mais especial. Suka Braga, design, ocupa espaços da Casa Ramalhete e, apesar de não ter conhecido Tavito, afirmou que gosta muito da música que tornou a rua tão conhecida. Suka contou, ainda, que a Ramalhete já abrigou gente influente nas artes e na política como Rui Lage, ex-prefeito de Beagá.

A matéria sobre a rua Ramalhete resgata outras além destas  histórias. A professora aposentada Cristiane Penna, por exemplo, disse para Guimarães que se mudou para lá há 37 anos, logo que se casou com Marcus Penna. O marido, que era ‘parça’ de Tavito, participava da turma que se reunia todo fim de tarde para as brincadeiras da época. “Ele contava muitas histórias, inclusive de uma garota que tinha como apelido Musa, mas não sei se foi a que inspirou a música”, observou.

A placa que traz os versos da música de Tavito e Azambuja, na foto acima, e a vista da rua Ramalhete, no bairro Anchieta, imortalizada na canção de 1979 (Foto: Gladyston Rodrigues/O Estado de Minas)

Já o porteiro do Edifício Ramalhete, Raul Calixto, lembrou-se do filme que fizeram na rua com Tavito, há mais de 10 anos, para a votação do símbolo da cidade de Belo Horizonte.“Ele foi trazido para cá com vários colegas de sua época e filmaram em vários pontos da rua”, afirmou Calixto. Neste momento, enquanto o fotógrafo Gladyston Rodrigues procurava o melhor ângulo para o registro fotográfico na Rua Ramalhete com Caracol, uma senhora passou de carro e gritou: “O Tavito está eternizado em nossos corações!”.

Jingle da Copa do tetra

Ex-integrante do Clube da Esquina,  entre as participações no conjunto Som Imaginário² e a carreira solo, Tavito gravou em sua trajetória oito discos — incluindo Nós do Rock Rural-Encontro de Gerações, e também ficou conhecido pela composição, ao lado de Aldir Blanc, do jingle que virou tema nas transmissões da Rede Globo da vitoriosa campanha da  seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1994,  nos Estados Unidos, quando e onde o escrete canarinho se sagrou tetracampeão. Aos 13 anos ganhou o primeiro violão e como autodidata começou a participar de serenatas e festas até se tornar companheiro de geração de Milton Nascimento e de outros músicos mineiros, tais como Toninho HortaTavinho Moura e Nelson Angelo.

Em 1965, Tavito conheceu Vinícius de Morais, que o convidou a participar de suas apresentações na capital mineira. Já no final de 1970 ele deixou o Som Imaginário para seguir a carreira solo e, além de cantor e compositor, produziu discos de amigos como Marcos ValleRenato TeixeiraSelma Reis e Sá & Guarabyra. Entre 1992 e 2004 dedicou-se às composições, aos arranjos e à publicidade, voltando a gravar Mineiro apenas em 2014, álbum no qual exibe a verve eclética e multifacetada que possuía e para o qual trouxe parceiros novos e consagrados.

Tavito estava internado no Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, quando perdeu a batalha para a doença. O velório transcorreu no Cemitério do Araçá, na zona Oeste de São Paulo, e o corpo foi cremado no cemitério da Vila Alpina, na Leste, na quarta-feira, 27. Além de Rua Ramalhete, Casa no Campo e do jingle Coração Verde Amarelo, é autor da canção Meu Lugar, tema da Rede Vanguarda, afiliada da Rede Globo no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo. No Clube da Esquina conviveu com Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, Toninho Horta, Wagner Tiso e Tavinho Moura, entre outros e entre artistas que gravaram suas composições estão Zé Rodrix, Amelinha, Roupa Nova, Zizi Possi, Ronnie Von, Erasmo Carlos e Zé Ramalho. Atualmente mantinha a produtora TavMusic em parceria com a esposa, Celina. Juntos, compunham vários jingles para o mercado publicitário.

¹ De acordo com o jornalista Mauro Ferreira, do blogue G1, Rock rural foi um rótulo criado em 1972, a partir do sucesso feito pela gravação de Casa no campo (Zé Rodrix e Tavito, 1971) na voz da cantora Elis Regina (1945 – 1982), para designar uma música brasileira que combinava elementos de folk, country e sons de diversas regiões do Brasil com a linguagem do rock, com o toque da viola e com um ideal hippie.
O batismo foi feito por conta de um verso da letra de Casa no campo citar nominalmente “rocks rurais”.
Em atividade entre 1971 e 1973, o trio Sá, Rodrix & Guarabyra foi quem primeiro personificou na música brasileira o chamado rock rural, abrindo caminho para outros cantores do gênero então recém-rotulado.
²No blogue Criatura de Sebo, que disponibiliza em Mp3 os três álbuns do Som Imaginário, consta que segundo a página Rolling Stone, o grupo foi “formado na década de 70 originariamente para acompanhar Milton Nascimento, (… )responsável por uma sonoridade inclassificável dentro da chamada linha evolutiva da música popular brasileira. Nos três discos, um soando totalmente distinto do outro, delineou-se um estilo único e jamais repetido posteriormente. A formação inicial contava com Wagner Tiso (piano e órgão), Tavito (violão), Luiz Alves (baixo), Robertinho Silva(bateria), Frederyko (guitarra) e Zé Rodrix (órgão, percussão voz e flautas). Em diversas épocas de seu curto espaço de existência (de 1970 a 1975), outros músicos passaram pela banda: Laudir de Oliveira e Naná Vasconcelos (percussão), Nivaldo Ornelas (saxofone e flauta), Toninho Horta (guitarra), Novelli (baixo), Paulinho Braga (bateria) e Jamil Joanes (baixo)

 

Com Tavito ao centro, Vignini (de vermelho), Zé Geraldo, Tuia e Guarabyra, os astros do projeto Nós do Rock Rural (Foto: Ernane Galvão)
638 – Tavito anima mais uma rodada em Poços de Caldas do projeto Composição Ferroviária
990 – Casa Natura Rock adia para setembro show com Tuia, Tavito, Guarabyra e Ricardo Vignini

 

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