1170 – Rock, baião e psicodelia fervem no caldeirão de “Paêbiru”, bolachão mais caro da MPB

Quase todo o lote da única prensagem do disco lançado em 1975 por Lula Cortês e Zé Ramalho, tema de março da série  Clássico do Mês, além da fita master, foi destruída por uma enchente em Recife. Os álbuns que sobraram estão em poder de colecionadores ou fora do pais a preço de ouro, por não menos de R$ 4 mil

O Barulho d’água Música retoma neste final de março a série Clássico do Mês, dedicada a um álbum que marcou época na música brasileira. Nesta atualização o disco escolhido é Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol¹ também conhecido simplesmente por Paêbirú ou Peabiru, bolachão duplo de Lula Côrtes Zé Ramalho lançado em 1975 pela extinta gravadora Rozenblit. Paêbiru é o único trabalho lançado em parceria entre os dois, o segundo de Lula Côrtes e o primeiro de Zé Ramalho. Contém uma miscelânea de gêneros musicais como o rock psicodélicojazz, e ritmos regionais do Nordeste e é considerado um dos primeiros discos não declarados da psicodelia brasileira. Chegou a ser o vinil com maior valor comercial no Brasil: bem conservado, um disco da edição original na mão de colecionadores não custaria menos que R$ 4 mil ou até mais. Paêbiru vem acompanhado de um livro que traz estudos sobre a região e informações sobre a lenda do Caminho da Montanha do Sol.

A principal inspiração dos músicos na criação do disco foi a Pedra do Ingá, situada no município de Ingá, no interior da Paraíba, hoje um dos monumentos arqueológicos mais significativos do mundo. No decorrer da criação de Paêbiru, a variedade de lendas sobre Sumé – entidade mitológica na qual indígenas acreditavam antes da colonização portuguesa – inspiraram além da faixa de abertura diversas passagens do álbum. Outras entidades importantes da cultura brasileira como Iemanjá também são citadas.

As faixas são composições dos próprios músicos, com valiosas contribuições para a gravação de Alceu Valença, Robertinho do Recife  e Geraldo Azevedo, entre outros expoentes da música nordestina. O álbum original teve prensagem única de 1.300 exemplares. Deste lote, em torno de 1.000 se perderam em uma enchente que assolou a cidade do  Recife (PE), em 1975 ². Junto com os exemplares que a água deteriorou também foi destruída a fita master, motivo para que uma das 300 cópias salvas tenha o valor comercial médio de 4 paus, desbancando Louco por Você, de Roberto Carlos.

A parte gráfica do disco ficou por conta de Katia Mesel, então esposa de Lula Côrtes. O encarte e capa resultaram de várias idas até a Pedra do Ingá. Paêbiru ganhou relançamento em 2005, de novo  em vinil, e em cedê na Europa pelo selo Mr. Bongo. A versão  digital brasileira saiu já em 2012.

Considera-se este álbum como o fundador de uma  genuína psicodelia brasileira, com elementos da cultura indígena. O disco duplo é dividido em quatro lados, dedicados aos quatro elementos da natureza: Terra, Ar, Fogo e Água, respectivamente. Cada um tem uma sonoridade própria e além dos longos instrumentais psicodélicos e ritmos regionais, também foram adicionados sons sintéticos paralelos ao tema dos lados

Fogo é o lado mais “pesado”, com o rock e psicodelia em evidência, destacando  guitarra elétrica distorcida, órgão e um som menos acústico. Raga dos Raios é até hoje considerada a melhor peça de guitarra fuzz gravada do rock nacional.

Ar traz músicas mais etéreas, mescladas a conversas, risadas, e suspiros, além de harpas e violas.

Água tem uma parte que faz louvores a Iemanjá. Neste lado foram adicionados fundos sonoros de água corrente e letras em devoção às entidades que representam o elemento, além da incorporação de gêneros dançantes como o baião.

Na banda Terra os resultados foram conseguidos com a utilização de instrumentos como tambores, flautas, congas e sax alto. Efeitos como de aves em voo também foram produzidos, porém não de forma eletrônica. Outros instrumentos típicos como o berimbau também entraram.

Documentário                                                                            

Em 2009 começou a ser produzido o documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, dirigido pelo cineasta gaúcho Cristiano Bastos, resgatando histórias sobre a gravação do álbum por meio de entrevistas com artistas envolvidos direta e indiretamente no projeto. Em 2011 ele finalmente foi lançado em vários festivais de cinema, e depois em DVD pelo selo goiano Monstro Discos, que em 2016 liberou-o na íntegra na internet por meio do YouTube. 

Baú de raridades

Luiz Augusto Martins Côrtes (9 de Maio de 1949 – 26 de março de 2011) foi cantor, compositor, pintor e poeta, um dos primeiros a fundir ritmos regionais nordestinos com rock, juntamente com Zé Ramalho e outros artistas. Em dupla com Lailson, lançou no início de 1973 o álbum instrumental Satwao primeiro disco independente da música brasileira moderna, com a participação de músicos que depois ficariam consagrados, como Robertinho de Recife. O álbum chegou a ser relançado na década dos anos 2.000, nos Estados Unidos, pela gravadora Time-Lag Records.

Em 1975, Lula Cortês lançou o raro e cultuado Paêbirú em dupla com Zé Ramalho. Quase todas as cópias do álbum foram destruídas em uma inundação, tornando-o muito difícil de ser encontrado. O álbum foi relançado em 2.005 pela gravadora alemã Shadoks Music e, em 2008, na Inglaterra, pelo selo Mr. Bongo. Ainda em 1976, Cortês fez parte da banda de Alceu Valença. Depois gravou álbuns solos pela gravadora Rozenblit que nunca foram ou demoraram a ser lançados — entre eles Rosa de Sangue, que em 2009 saiu pela gravadora estadunidense Time-Lag Records (Time-Lag 041).

Em 1980, finalmente, os amigos e fãs ganharam O Gosto Novo da Vida, pela gravadora Ariola. Durante aquela década  a maioria de seus trabalhos foi produzida com a banda Má Companhia. Côrtes também não deixou de fazer colaborações a Zé Ramalho em outros álbuns, incluindo o de estreia do cantor, Zé Ramalho (1978); De Gosto de Água e de Amigos (1985), e Cidades e Lendas (1996).

Hoje, 26/3, completam-se oito anos da morte de Lula Cortês, vítima de um câncer, na garganta. A discografia informada abaixo está disponível para ser baixada em formato Mp3 no blogue Quadrada dos Canturis.

[1973] Satwa
[1975] Nordeste – Cordel, Repente e Canção
[1975] Paêbirú
[1981] O Gosto Novo da Vida
[1981] Rosa de Sangue
[1988] Bom Shankar Bolenajh
[1996] Lula Côrtes & Má Companhia
[2004] A Turma do Beco do Barato
[2006] A Vida Não é Sopa
[2008] Ao Vivo no Curupira

Pelejas e cordel

Zé Ramalho (José Ramalho Neto) até hoje é cultuado como um dos mais originais compositores brasileiros. Entre álbuns solo, coletâneas e participações a discografia inclui trinta álbuns entre 1978 e 2014 (quando gravou Fagner & Zé Ramalho) e reúne sucessos consagrados como Avohai, Vila do Sossego, Chão de Giz, Frevo Mulher, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, Entre a Serpente e a Estrela e tantos outros. É natural de Brejo do Cruz (PB), de 3 de outubro de 1949.

Paêbiru, curiosamente, não é mencionado por Zé Ramalho em sua extensa discografia . O músico paraibano, aliás, não quer nem saber da obra — conforme  declarou em entrevista ao jornal de Curitiba (PR) Gazeta do Povo em 2012 –, provavelmente um dos mais fascinantes exemplos do desbunde na música brasileira dos anos 1970 – no caso do Paêbirú, inscrita mais especificamente num cenário underground de Pernambuco que estava em uma inventiva conversa entre a música nordestina, a psicodelia e o rock and roll internacional.

“Não falo mais sobre esse trabalho, a mídia deveria ter descoberto este disco há 40 anos atrás. Nem me interessa ir atrás do meus devidos direitos autorais, pois ingleses – e, antes deles, os alemães – , já haviam editado esse disco”, observou Zé Ramalho  à Gazeta do Povo quando perguntado sobre a reedição do álbum pela gravadora inglesa Mr. Bongo, que estava recolocando nas prateleiras o vinil que havia se tornado o mais raro (e caro) do Brasil .

Além de cantor e compositor, é autor de livros como Carne de Pescoço, Encontro de Zé Ramalho com Raul Seixas na Cidade de Thor, e Pássaro Cativo, e personagem em vários títulos da literatura de cordel tais quais Peleja de Severino Noé com Zé Ramalho na terra de Avôhai (Afonso Costa – Campina Grande/Paraíba) e Peleja de Zé Limeira com Zé Ramalho da Paraíba (Arievaldo Vianna – Fortaleza, Tupynanquim Editora).

De acordo com a agenda disponibilizada na página eletrônica do autor de Sinônimos e Garoto de Aluguel (Táxi boy), Zé Ramalho estará em Juiz de Fora (MG) no próximo sábado, 30/3, celebrando 40 anos de carreira em apresentação da turnê 2019 prevista para começar às 23h50 no Terrazzo Centro de Eventos, situado na avenida Deusdedith Salgado, 5.050 , Salvaterra.

 

Paêbirú

Álbum de estúdio de Lula Côrtes e Zé Ramalho
Lançamento: 1975
Gravação: Outubro-dezembro, 1974 no Estúdio Rozemblit, em Recife
Gêneros: Rock Psicodélico, Free Jazz
Duração:55:30
Gravadora: Rozenblit
Músicos: Lula Côrtes, Zé Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Ivson Wanderley (Ivinho), Zé da Flauta, Paulo Rafael, Lailson, Israel Semente, Dikê, Agrício Nóia, Don Tronxo, Jarbas Mariz, Babi, Hugo Leão, Marconi Notaro


¹ O Caminho da Montanha do Sol  (ou “Caminho do Peabiru”) é uma estrada construída pelos índios há mais de 1.000 anos, que ligava os Oceano Pacífico e Atlântico e que passa pelo Vale do Ivaí.
² O disco Paêbiru tornou-se lendário e conforme texto publicado originalmente na revista ShowBizz (setembro/2000) ficou mais interessante ainda pelas situações que envolveram a gravação. A gravadora Rozenblit ficava à beira do rio Capibaribe, e o disco, depois de gravado, foi levado por uma das enchentes que assolavam a região. Conta o povo que sobraram umas trezentas cópias do disco, hoje nas mãos de poucos e felizardos colecionadores, muitas das quais no exterior, onde foram parar a preço de ouro. Contando com a coprodução do grupo multimídia Abrakadabra, o disco trazia um rico encarte, que também sucumbiu ao aguaceiro.

Leia mais sobre Paêbiru em:

http://www.cartapotiguar.com.br/2011/11/02/paebiru-caminho-da-montanha-do-sol/

 

Leia também no Barulho d’água Música:

1160 – “Álibi”, de Maria Bethânia, é o tema de fevereiro da série “Clássico do Mês”
1151 – “Pérola Negra”, álbum de estreia de Luiz Melodia, é o primeiro Clássico do Mês de 2019

 

Próximo Clássico do Mês:

Em abril continuaremos no Nordeste e no diapasão da psicodelia pernambucana para trazer o memorável disco único da banda Ave Sangria, lançado em 1974 e, felizmente, relançado, posteriormente, também em CD. Aguardem e até lá!

 

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Uma resposta para “1170 – Rock, baião e psicodelia fervem no caldeirão de “Paêbiru”, bolachão mais caro da MPB”

  1. Boa noite Marcelino.
    Ótima matéria do grande Lula cortes.
    Parabéns!!!
    Marcelino estou atrás de qualquer disco da dupla João Carlos e Mauricio ou João Carlos e Carlos Leite mais recente.
    Ótimos cantadores da cidade de Poços de Caldas .
    Se tiver algum arquivo poderia me ajudar nessa empreitada.
    Desde já agradeço.
    Abs
    Daniel (blog canto sagrado)

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