1175 – “Violas ao Sul” estreia em álbum que reúne músicas do cancioneiro gaúcho e brasileiro

O quarteto difunde a versatilidade da viola de 10 cordas como instrumento musical e de manifestação cultural empregada para tocar desde canções folclóricas a músicas contemporâneas de qualquer região do país e do mundo, com foco especial àquelas que trazem marcas de pertencimento à cultura gaúcha

A audição matinal dos sábados neste 6 de abril, aqui no boteco do Barulho d’água Música, finalista do 5° Prêmio Profissionais da Música, começou pelas 13 faixas do álbum de estreia do quarteto Violas ao Sul. O disco nos foi enviado gentilmente por Valdir Verona, um dos seus integrantes e querido amigo, ao qual em nome dos parceiros Angelo Primom, Mário Tressoldi e Oly Júnior somos gratos. O disco foi gravado entre outubro de 2018 e janeiro, com produção geral de Tressoldi.

O Violas ao Sul está junto desde meados de 2015, a partir de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Os primeiros passos foram dados durante uma semana com apresentações temáticas sobre a viola, promovidas pelo Sesc/RS. Primon, Tressoldi, Júnior e Verona lançaram-se à ideia da reunião de quatro violeiros com distintas estradas, formações e representações musicais no cenário sulista do instrumento. A Fundação Ecarta acreditou no projeto e logo reservou o palco onde está acostumada a receber em Porto Alegre grandes talentos da resistência cultural gaúcha para protagonizarem o primeiro concerto, transcorrido  em 25 de junho de 2016.

No palco, a reunião de quatro violeiros, quatro vertentes, quatro mentes e quatro corações que se dedicam à guerrilha artística por meio da música arrancou vigorosos aplausos e elogios. O concerto embalado pela viola de 10 cordas permeando o trabalho solo de cada um ao longo dos anos trouxe canções autorais, clássicos do cancioneiro gaúcho e brasileiro, além de música contemporânea.

No programa de estreia constaram Milonga Blues e Desculpe Meu Filho (Oly Júnior), Das Bandas do Poente Chamamé Blues (Valdir Verona), 10 de Fole (Angelo Primon), Violas do Sul do Brasil (Chico Saga/Mário Tressoldi), Na Volta que o Mundo Dá (Vicente Barreto/Paulo Cesar Pinheiro), Lamento (Fernando Reis Júnior), Maré Baixa (Ivo Ladislau/Mauro Moraes), Portas dos Sonhos (Mário Barbará/Sérgio Napp), Cantiga de Eira (Barbosa Lessa) e Os Homens de Preto (Paulo Ruschel), algumas das quais incluídas no disco de estreia que trouxe, ainda, uma releitura de Canção da Meia-noite (Zé Flávio), gravada pelos Almôndegas ¹ e que fez sucesso como trilha da primeira versão da novela Saramandaia, que a Rede Globo exibiu em 1976.

O quarteto difunde a versatilidade da viola de 10 cordas como instrumento musical e de manifestação cultural empregada para tocar desde canções folclóricas a músicas contemporâneas de qualquer região do país e do mundo, com foco especial àquelas que trazem marcas de pertencimento à cultura gaúcha. Popular em São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, a viola também ocorre no Nordeste, mas tem pouco aproveitamento nos estados sulistas. O Rio Grande do Sul, por exemplo, é mais fortemente representado pelo violão e pelo acordeão, mas coube à viola o protagonismo durante as primeiras manifestações nativas, pois se trata de instrumento trazido pelos portugueses e disseminado pelos padres jesuítas.

A viola animava missas, mas também acompanhava danças indígenas. Simultaneamente, viajava em garupas dos tropeiros nas rotas para São Paulo ². Gradativamente, acabou substituída por outros instrumentos em algumas regiões do nosso país, a partir do século XI, e, consequentemente, também rareou nas terras meridionais. No início do século XX, mais precisamente em 1912, temos a publicação do livro Assumptos do Rio Grande do Sul, de autoria do major João Cezimbra Jacques, que nos traz preciosas informações a respeito da viola neste estado:

“A poesia popular no Rio Grande do Sul começou a definhar com o injusto abandono da viola, da qual tivemos exímios tocadores. […] Devemos notar que as senhoras daqueles tempos também cultivavam vantajosamente e com frequência esse instrumento tradicional. […] O motivo do abandono da viola na nossa campanha uns atribuem à invasão de outros instrumentos dentro dela e outros à péssima qualidade das cordas de arame próprias para encordoar esse instrumento, as quais apareciam ultimamente no comércio, sendo tão fracas que não resistiam a uma afinação sem se partirem. […] na nossa campanha, dizem que a gaita é a assassina da “viola”, instrumento entre nós tradicional e cremos que entre todos os latinos, pelo menos entre o povo Ibérico. E a par da viola, tendo quase que desaparecido outros objetos de uso dos nossos antepassados, apareceu entre a nossa população rural a seguinte quadra: A gaita matou a viola, / O fósforo matou o isqueiro; / A bombacha o xeripá; / A moda, o uso campeiro.”. (JACQUES, 1979 [1912], p. 47).

Ainda a respeito da viola no Rio Grande do Sul e por descrever o instrumento com cordas metálicas afinadas em oitavas, temos o relato do viajante alemão Avé-Lallemant, quando de sua viagem para Alegrete. O acontecido passa-se em uma venda à margem do Toropasso, quando da chegada de um rapaz com enormes esporas de prata:

Pela porta aberta da venda, que deitava para o interior da casa, vi-o pouco depois sentado aos pés de uma jovem tocando uma guitarra de cordas metálicas, cada corda acompanhada de sua próxima oitava, o que soa muito bem.” (Avé-Lallemant, 1980, p. 313-314).

O projeto Violas ao Sul é, portanto, tentativa de retomar essa tradição violeira há muito esquecida no Rio Grande do Sul, integrar e destacar o estado no circuito violeiro brasileiro, por intermédio dos quatro ases que têm a viola de 10 cordas norteando seus trabalhos autorais, no intuito de manter viva essa cultura e enriquecer ainda mais as possibilidades musicais recebidas por herança cultural.

A ideia de reunir o quarteto que trabalha separadamente no cenário musical para exprimir um conceito em comum não é nova, basta ver como exemplos os projetos: Juntos (Bebeto Alves, Totonho Villeroy, Nelson Coelho de Castro e Gelson Oliveira), Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa); Crosby, Stills, Nash & Young; e em São Paulo o 4 Cantos (Cláudio Lacerda, Luiz Salgado, Rodrigo Zanc e Wilson Teixeira), entre outros. O Violas ao Sul difere-se pelo ineditismo no que diz respeito à reunião de violeiros sulistas, compositores de obras essencialmente violeiras, e que, invariavelmente, vertem músicas do cancioneiro gaúcho e brasileiro para arranjos a partir da viola de 10 cordas.

Valdir Verona é natural de Caxias do Sul, músico com mais de 30 anos de carreira profissional. Faz apresentações solo e em grupo, é músico acompanhante, ministra aulas de música, bem como faz produções e direções musicais. Forma com Rafael De Boni o Duo Viola e Acordeon.

Mário Tressoldi, arranjador, compositor, produtor musical e pesquisador da cultura litorânea do Rio Grande do Sul, reside em Tramandaí. É bacharel em Música (cordas) pela UFRGS, professor de violão, técnica vocal, teoria e harmonia funcional. Participa do grupo Chão de Areia.

Angelo Primon é compositor e produtor com mais de duas décadas de trajetória dedicadas à música. Atuou ao lado de inúmeros artistas do Brasil e do Uruguai e recebeu o Prêmio Açorianos de Melhor Instrumentista, em 2006 e em 2008. Pesquisa as sonoridades orientais e populares de instrumentos como a viola de 10 cordas, a viola de cocho, o oud árabe e o sitar indiano. Reside na capital dos pampas, Porto Alegre.

Oly Júnior é atuante cantautor desde 1998 e gosta de fundir milongas com blues. Tem onze discos lançados e quatro Prêmios Açorianos de Música. Participou de festivais nacionais e internacionais de blues e de coletâneas musicais do gênero. Também é de Porto Alegre. Integrado aos três parceiros, Júnior tem ajudado a promover o encontro conectado com as particularidades da porção Sul do Brasil e, ao mesmo tempo, universal pelo diálogo com a ancestralidade a partir deste maravilhoso instrumento: a viola!


1 Os Almôndegas surgiram oficialmente com a gravação do primeiro LP, em 1975, mas desde quatro anos antes os irmãos Kleiton Ramil Kledir Ramil, o primo Pery Souza e os amigos Gilnei Silveira e Quico Castro Neves lideravam uma gurizada que se reunia num apartamento no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, para cantar. Músicos de formação eclética, eles só pensavam em se divertir quando venceram o I Festival Universitário da Canção Catarinense com a música Vento Negro.

Em 1974, realizaram sua primeira gravação: a música “Testamento”, com letra de José Fogaça, música que virou trilha sonora de um programa (Opinião Jovem) que o próprio José tinha na rádio Continental 1120 AM.

A mescla de regionalismo com música pop, espécie de marca registrada dos Almôndegas, surgiu meio por acaso. Em um show no antigo Encouraçado Butikin, o grupo cantou Amargo, de Lupicínio Rodrigues, e a reação da plateia foi calorosa. Com o aval do público, os músicos passaram a repetir a apresentação em outros shows e levaram a experiência para o primeiro disco. Zé Flávio, autor de Canção da Meia Noite, era um dos integrantes dos Almôndegas.

 A telenovela Saramandaia, de Dias Gomes,  foi exibida na Rede Globo às 22h, entre 3 de maio e 31 de dezembro de 1976, tendo 160 capítulos, como a 23ª “novela das 10” exibida pela emissora. Escrita por Dias Gomes, foi dirigida por Walter AvanciniRoberto Talma e Gonzaga Blota. Contou com Juca de OliveiraSônia BragaAntônio FagundesYoná MagalhãesDina SfatAry FontouraMilton MoraesWilza Carla e Castro Gonzaga nos papéis principais.

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