1186 – Conheça o autor de “Luar do Sertão”, poeta admirado nos palácios e aclamado nas ruas

Ao apostar na temática popular e cantar a dor de amores contrariados, Catulo da Paixão Cearense levou a música da boemia para os salões da aristocracia carioca, com um toque de regionalismo, consagrando-se como um dos nossos mais criativos autores e compositores

Linques originais das matérias que ajudaram a produzir este texto:

https://www.sescsp.org.br/online/artigo/12103_SERESTAS+AO+LUAR

https://www.sescsp.org.br/online/selo-sesc/608_A+PAIXAO+SEGUNDO+CATULO#/tagcloud=lista

O Barulho d’água Música recorreu mais uma vez às páginas da Revista E, do Sesc de São Paulo, para trazer aos amigos e seguidores esta atualização sobre Catulo da Paixão Cearense, autor de joias memoráveis do nosso cancioneiro — algumas que há mais de cem anos embalam sucessivas gerações, como Luar do Sertão –, rememoradas em álbum do Selo Sesc lançado em 2013 e em matéria publicada na edição de junho de 2018 da Revista E, conforme disposto nos linques acima deste texto.

Hoje, 10 de maio, completam-se 73 anos que o Brasil parou para acompanhar em 1946 os funerais do violonista e seresteiro, poeta e compositor dos mais geniais e que costumava dizer: o violão o conduziu à poesia e sua sensibilidade foi formada pelo contato com a natureza nordestina. Catulo nasceu em 8 de outubro de 1863, mas diferentemente do que sugere o próprio nome, veio ao mundo na cidade de São Luiz, capital do estado do Maranhão, de onde a mudança com a família para o Ceará ocorreu quando ainda era criança. Além de alimentar as lembranças da infância, a região do novo lar entrou em seu repertório por meio da literatura de cordel e de cantadores como Manoel Riachão.

Aos 17 anos, novamente com os pais, seguiu para a cidade do Rio de Janeiro. Morou no bairro de Botafogo, onde também ficava a relojoaria do pai, que trabalhava como ourives. Na Cidade Maravilhosa, na década dos anos 1880, mergulhou na boemia e no ritmo do choro, logo se enturmando com os artistas locais em Copacabana – tudo a contragosto do pai, que não via com bons olhos as escolhas do filho. Nem o dia a dia puxado como estivador, organizando as cargas de navios no porto, afastava-o das serestas. Foi também por essa época que Catulo deixou o entusiasmo por seu primeiro instrumento, a flauta, e se rendeu ao violão.

O músico não chegou a completar o ensino formal, contudo, era autodidata e acabou acumulando mais uma função: a de professor. Além do português, Catulo aprendeu francês.Estudava, por mim, tudo o que me interessava. Livrei-me, por milagre, de não ser hoje um doutor”, afirmou em certa ocasião. O convite para lecionar se fez com o violão em mãos, numa época efervescente da história brasileira.

A cidade do Rio de Janeiro, no fim do século 19, fervilhava com a Proclamação da República. Numa noite, ao apresentar-se na casa do senador Gaspar da Silveira Martins, não ouviu só os aplausos merecidos. Daí em diante, trabalhou como “explicador”, um orientador informal para os filhos do senador.

Fora da caixinha

O violão chegou longe com Catulo e vice-versa. Instrumento um tanto marginalizado naqueles tempos, acompanhou o poeta em recitais no Palácio do Governo. Apresentou-se para Hermes da Fonseca, Nilo Peçanha, Epitácio Pessoa, Arthur Bernardes e Getúlio Vargas, todos presidentes da República. Da música à palavra, Catulo apostava na diversidade temática de seus poemas, explicou o professor de Literatura e membro da Academia Maranhense de Letras José Neres. O escritor produzia textos leves e lúdicos e outros sobre “amores contrariados”, que, segundo Neres, eram sucesso total nas modinhas da época. O especialista ressaltou ainda “o desejo de atingir a alma do homem do campo com suas palavras simples, seu ritmo cadenciado e suas imagens poéticas que reproduzem as cores e as formas do sertão, que tantas vezes é cantado em sua obra”.

Outro episódio simbólico para Catulo foi o recital na Escola Nacional de Música, em 1908. A apresentação foi um racha para a divisão rígida existente entre cultura popular e erudita, a qual não permitia tamanha ousadia. O violão era um instrumento popular, da boemia, e das ruas foi ganhando os palácios. Seguiram-se diversos saraus do tipo, como o do Palácio do Catete, respondendo a um convite do presidente Hermes da Fonseca. A noite ficou conhecida como Corta-jaca, nome do maxixe de Chiquinha Gonzaga, amiga de Catulo. No entanto, os holofotes miraram a primeira-dama, Nair de Teffé. Ousada, a jovem artista pegou o violão e tocou no meio do salão, entre os convidados embasbacados.

Centro das atenções

Dono de inúmeras habilidades, Catulo se via, muitas vezes, no centro das atenções, de acordo com o jornalista Gonçalo Júnior, organizador do livro Música e Boemia – A Autobiografia Perdida de Catulo da Paixão Cearense (Noir, 2018). “Tinha orgulho de se autodenominar o maior de todos os poetas populares vivos, com seu estilo fanfarrão e mal-humorado. Todos o conheciam de vista, saudavam-no nas ruas, o reverenciavam como um grande artista ‘do povo’, de modos simples, porém dono de uma obra que orgulhava a todos”, descreveu o jornalista. “No seu cotidiano, era o seresteiro beberrão, que andava como gato vira-lata, sem dono, pela madrugada, a fazer serenatas debaixo das janelas das donzelas, depois de longos porres com a turma da boemia – apaixonados em desespero sempre recorriam a ele e sua trupe de músicos, a implorar ajuda para conquistar a moça virgem desejada”, complementou.

Prosa e verso

Catulo também se consagrou pela autoria de Luar do Sertão, gravado originalmente em 1914 pelo cantor Eduardo das Neves. A música, vista por muitos como o segundo hino do país, tamanha sua popularidade, ficou marcada pela interpretação de grandes nomes da Música Popular Brasileira, entre os quais Luiz Gonzaga, Maria Bethânia e Milton Nascimento.

Em 2000, Marisa Monte apareceu com a releitura elétrica de Ontem ao Luar, cuja letra é de Catulo, e a melodia do flautista Pedro Alcântara. Desde a primeira gravação, de Vicente Celestino, em 1918, esta música fez parte do repertório de artistas como Paulo Tapajós, Altemar Dutra e Fafá de Belém, percorrendo um arco de interpretações das mais tradicionais ao pop.

O centro da produção de Catulo até sua morte, em 1946, configura-se na palavra. Se é difícil rotular o trabalho segundo correntes estéticas da literatura brasileira, com seus 15 livros publicados, é possível notar que ele bebeu de diversas fontes literárias. “Desde o romantismo (pelo teor de seus temas) até a linguagem modernista, passando pelas imagens de sugestão impressionista, a preocupação formal do parnasianismo, as motivações do bucolismo árcade e as metaforizações de caráter simbolista”, afirmou o professor de Literatura José Neres. “Catulo, assim como Augusto dos Anjos, Sousândrade e outros autores, é inclassificável dentro da linha temporal de nossa literatura”.

Acervo Luiz Antonio de Almeida

Cantarole por ai

O jornalista Gonçalo Júnior fez uma seleção das músicas mais conhecidas de Catulo da Paixão Cearense:

Flor Amorosa (1880): Último registro musical de Joaquim Antonio Callado (veio a público um mês após sua morte), a música ganhou letra de Catulo anos depois, consagrando-se no cancioneiro.

Caboca de Caxangá (1913): Apontada como a primeira música caipira gravada, ela é exemplo do pioneirismo de Catulo.

Luar do Sertão (1914): Luiz Gonzaga transformou-a na mais conhecida composição de Catulo. A música já fazia parte, havia bastante tempo, do imaginário popular quando ele a gravou. O primeiro registro de que se tem notícia é de 1914, na voz de Eduardo Neves. Considerada por muito tempo o hino nacional informal brasileiro, soma mais de mil gravações em todo o mundo.

Ontem ao Luar (1914): Ganhou status por sua beleza melódica e poética, que a tornou bastante popular. Foram feitas dezenas de regravações. Uma das últimas, com Marisa Monte, é acompanhada por um solo de guitarra.

Fertilidade poética

Quando se completaram 150 anos do nascimento de Catulo da Paixão Cearense, o selo Sesc, cumprindo a missão de preservar e divulgar o nosso manancial infindável de cultura, colocou na praça o álbum A Paixão Segundo Catulo, no qual Mário Sève arregimentou novas e consagradas vozes do cancioneiro nacional para fazer jus à poesia de Catulo. No texto abaixo, Zuza Homem de Melo introduz o mestre ao público, observando:

Os jornais da época deram destaque amplo aos funerais de Catulo da Paixão Cearense: “Apoteose”

Catulo da Paixão Cearense foi o mais popular letrista brasileiro no início do século XX, embora ‘incapaz de escrever uma célula melódica que fosse’, segundo O maestro Heitor Villa-Lobos. Um certo preconceito, já que Catulo aprendeu violino e se acompanhava ao violão. Paixão era o sobrenome de seu pai, um ourives cearense que, vivendo em São Luís, acrescentou o adjetivo de sua origem formando o novo nome da família que, ao se transferir para o Rio, propiciou a Catulo tornar-se conhecido no meio musical carioca.

Imaginoso e de uma fertilidade poética incessante, admitiu, com razão, que peças instrumentais da época pudessem ganhar fama se devidamente letradas. Ou seja, Catulo detectou que canções seriam muito mais populares que temas puramente instrumentais, alguns dele tão bem elaborados que estavam como que a pedir uma letra para cair na boca do povo.

Catulo se constituiu numa personalidade original e controvertida de grande sucesso na música popular brasileira nos recitais que o consagravam e, sobretudo, por meio de sua inegável intuição em poetar melodias.

Poetar melodias sintoniza-se com expressões frequentes em seus versos ostentosos, excessivos em metáforas e abundantes em elocuções pernósticas – níveas lágrimas, travor do seu dulçor, odor de resedá, antera da flor, flóreas sendas sempre ovantes ou lenir o seio – espalhadas pelas composições de grandes músicos como João Pernambuco, Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Joaquim da Silva Callado e outros que se ouvem neste disco.

Imagem extraída a partir do fôlder da série A Paixão Segundo Catulo – Um Olhar Sobre a Modinha e a Canção Brasileira, que o Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro promoveu entre 28/3 e 18/4 de 2016 para marcar os 150 anos do nascimento do poeta

Vaidoso como ele só, Catulo é o intrigante personagem central do CD, a figura de vida própria para enredo de cinema nos seus altos e baixos: ovações consagradoras no Palácio do Catete diante de plateia culta que incluía o presidente da República e, no outro extremo, o trabalho braçal como estivador no cais do porto.

Amparadas na maior parte das vezes por arranjos do saxofonista e flautista Mário Sève, o produtor deste trabalho do Selo Sesc, ouvem-se vozes cuidadosamente escolhidas no cenário da música atual. Joyce Moreno, Leila Pinheiro, Claudio Nucci, Carol Saboya, Lui Coimbra, Rodrigo Maranhão, Alfredo Del-Penho e Mariana Baltar formam o elenco de intérpretes que dão vida às canções representativas da essência da obra de Catulo.

Nesse conjunto destacam-se composições que deram a Catulo a alcunha de “poeta do sertão” ao estabelecer um verdadeiro parâmetro da poesia cabocla quando introduziu em sua poética a linguagem herdada do que ouvia na adolescência vivida no Nordeste.

Assim, se entende porque sua mais conhecida composição, Luar do Sertão, chegou a ser quase um segundo hino brasileiro (“Não há ó gente, oh não / luar como esse do sertão…. Se a lua nasce por detrás da verde mata / mais parece um sol de prata / prateando a solidão…) abafando o nome do compositor da bela melodia de origem folclórica, o violonista João Pernambuco, além de soterrar o título original, Engenho de Humaitá. No pioneirismo de letras extensas no estilo caboclo está Cabocla de Caxangá (Caboca di Caxangá / minha cabôca vem cá / Quiria vê si essa gente também senta tanto amô…) em que Catulo abre mão de seu estilo pomposo em favor da simplicidade da fala do homem do sertão.

O estilo está presente na maior parte de sua obra, cerca de 150 composições, nem sempre mantidas com o título original, em que incorpora versos que as consagraram. Assim Choro e poesia, conhecida como Ontem ao Luar, se inicia com versos que seresteiros saboreiam ao cantar “Ontem ao luar, nós dois em plena solidão…..”. Terna saudade, que foi re-intitulada como Por um beijo e extensamente gravada, termina com estes versos valseados: “Se tu velada no mais casto véu, concederes-me a vitória, a suprema gloria de um só beijo teu”. Enquanto Rasga coração tinha melodia de Iara; Talento e formosura: assumiu o lugar de Nair com versos sarcásticos já no início: “Tu podes bem guardar os dons da formosura/que o tempo um dia há de implacável trucidar….. E quanto a mim, irei cantando meu ideal de amor……..Mas quando a morte conduzir-te à sepultura/o teu supremo orgulho em pó reduzirá”.

Construções invertidas, frases hiperbólicas, versos em métrica correta, palavras fora de moda permeiam esse universo de arrebatadas declarações de amor purificado que nos dias de hoje parecem proceder de outro planeta. Não são. São as trovas e serestas que foram glorificadas no início do século XX atingindo extratos sociais de todo tipo, do presidente ao mais simples cidadão, bem como seresteiros que as entoavam nas ruas mal iluminadas ou sob os lustres dos salões na voz do próprio Catulo em concorridos recitais.

Aqui regravadas respeitosa e cuidadosamente nos arranjos e nas interpretações de um elenco que soube concretizar essa bela ideia de Mário Sève, as canções de Catulo representam pois a música de caráter eminentemente popular enaltecidas na Belle Époque do Rio de Janeiro.

N.R.

A capa do álbum disponível em streaming e que pode ser comprado pelo Selo Sesc é do artista plástico Elifas Andreato, um dos mais criativos e premiados neste segmento, autor de tantas tão memoráveis quanto o conteúdo que embalaram.

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Vendas na bilheteria apenas a partir do dia 20, das 13h às 18h.

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