1187 – Paranapanema, grupo de São Paulo, lança Luzeiro, trabalho que exalta as tradições de matriz africana do Sudeste

O trabalho autoral surge como resultante entre o novo e o tradicional, entre as manifestações “de raízes” e o samba contemporâneo que circula na cosmopolita capital paulista; uma leitura artística cuja pretensão é ser a “ponte” entre as margens socioculturais mostrando que as tradições continuam vivas na atualidade e sendo transformadas com o tempo, e o quanto grande é a necessidade de mantê-las e de propagá-las.

As audições matinais dos sábados neste dia 11, aqui no Barulho d’água Música, véspera do Dia das Mães, começou com Luzeiro, um bem produzido e recém-lançado álbum, abre alas do grupo paulistano Paranapanema. O grupo reúne músicos, militantes da valorização e reconhecimento das culturas tradicionais brasileiras que, desde 2004, vêm construindo um trabalho que exalta as tradições de matriz africana do Sudeste, patrimônio cultural pouco conhecido e reconhecido, sobretudo pela população do estado de São Paulo, e um repertório que une as origens do samba paulista, as manifestações “de raízes” e o samba presente nos grandes centros urbanos. Luzeiro foi aprovado e realizado por meio do edital de Promoção das Culturas Populares e Tradicionais do Programa de Ação Cultural (ProAc) da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do governo do estado de São Paulo.

O projeto conta com composições autorais e traz a influência das vivências de seus integrantes com as comunidades e com os mestres da cultura popular dos Jongos, do Batuque de Umbigada que ocorre em Piracicaba, Tietê e Capivari [cidades do Interior de São Paulo], do Samba de Bumbo [forte tradição de Pirapora do Bom Jesus, também em São Paulo], do Samba de Terreiro que agita o Interior paulista e dos Congados e ternos de Moçambique, e os mestres e compositores contemporâneos ligados ao samba e às linguagens musicais de São Paulo, durante a trajetória de quase 15 anos do grupo. Ao mesmo tempo, o disco dialoga com a música brasileira mais contemporânea, a singularidade das manifestações culturais de matriz africana do Sudeste e a influência da diáspora africana na cultura do nosso país.

O trabalho autoral surge como resultante entre o novo e o tradicional, entre as manifestações “de raízes” e o samba contemporâneo que circula na cosmopolita capital paulista; uma leitura artística cuja pretensão é ser a “ponte” entre as margens socioculturais mostrando que as tradições continuam vivas na atualidade e sendo transformadas com o tempo, e o quanto grande é a necessidade de mantê-las e de propagá-las.

As doze composições do disco são de integrantes do grupo Paranapanema: Rosângela Macedo assina oito, Cesar Azevedo duas, e Luiz Fonseca Lobo e Nê Lucato, uma cada um.

Paulo Dias fez a direção musical, arranjos e percussão (Foto: Nathalia Meyer e Leonardo Escobar)

Luzeiro conta com a direção musical de Paulo Dias, pianista, percussionista e etnomusicólogo, responsável por um extenso levantamento de tradições musicais populares brasileiras em diferentes comunidades, sobretudo as detentoras de tradições afro-brasileiras na Região Sudeste. Paulo Dias dirigiu todo o processo de ensaios e gravações, colocando sua marca sobretudo na coordenação dos tambus e nos arranjos vocais para as cinco vozes do coro composto por Aline Fernandes, Helena Maria, Marina Piranga, Roberta Oliveira, Tatiane Anrriete e Fernanda de Paula, que complementa com vozes e vocalizes em Presente pra Iemanjá e Fundo do Mar.

Essa mistura característica do grupo se mostra logo na primeira faixa do disco, Classificados, trazendo a timbila, instrumento percussivo melódico oriundo de Moçambique, tocada por Gabriel Draetta, combinada com o samba de bumbo e os coros e vocalizes de Lenna Bahule, cantora e compositora moçambicana.

Manifestações marcantes do samba paulista, o samba lenço e o samba de bumbo, estão registradas nas faixas Doce de Pimenta e Festa de Benedito que ainda traz a viola caipira de Filpo Ribeiro e o clima das festas nas comunidades ao som dos paiás e dos bastões de moçambique.

Filpo Ribeiro (Foto: Nathalia Meyer e Leonardo Escobar)

Osvaldinho da Cuíca (Foto: Nathalia Meyer e Leonardo Escobar)

Num samba mais cadenciado em clima de boteco, Barra do Morro ganha o requinte do piano de Laércio de Freitas e o carimbo paulista da cuíca de Osvaldinho. Perdões agradece à ancestralidade, às raízes africanas e faz reverência ao mestre Matusalém — pintor, poeta e construtor de instrumentos musicais nascido na cidade mineira que leva o nome da faixa. A cultura africana enaltecida pela letra desta música se faz completa na combinação do toque de curimba de Cesar Azevedo e Luiz Fonseca Lobo com a batucada de escola de samba, tendo a participação de Rodrigo Pelé no tamborim e no repinique.

Em Chama, a saudação aos orixás se traduz no belo arranjo de Marquinho Mendonça, com seu violão e viola caipira, acompanhado de Bruna Duarte no baixo, Ricardo Perito no cavaquinho e das flautas de Shen Ribeiro. O toque da percussão fica por conta de Paulo Dias, que o define como um “jongo desconstruído”.

A presença nordestina em São Paulo se manifesta no som da rabeca de Filpo Ribeiro no samba Presente pra Iemanjá e no jongo Buliu com Fogo, dialogando com o tambor de mina do Maranhão com participação do percussionista maranhense Henrique Menezes. Aqui se percebe também com nitidez a influência da diáspora africana.

Essa musicalidade fortemente influenciada pelas matrizes africanas e com sotaque particular do Sudeste aparece ainda com uma roupagem mais contemporânea, com guitarras, sintetizadores e arranjos assinados por Kiko Dinucci em Caxambu e Luzeiro, faixa que dá nome ao disco, que conta ainda com os versos de Akins Kintê.

No bojo dos músicos convidados deste disco, aparece também Samuel da Silva e seu violão 7 cordas em Adeus, Doce de Pimenta, Festa de Benedito, Perdões e Presente pra Iemanjá.

Penúltima faixa do disco, Fundo do Mar traz o toque do moçambique mineiro, com arranjo de violão e participação de Marquinho Mendonça. Em ritmo de samba enredo com a marcação invertida dos surdos de primeira e terceira, fazendo lembrar a bateria de Vila Isabel, Adeus anuncia que é “hora de se retirar” e de “um novo passo nessa caminhada”.

Para saber mais sobre o Grupo Paranapanema, encomendar o álbum Luzeiro ou contratar shows:

Piô Produção Cultural Coletiva/Leonardo Escobar/(11) 99588 9660 / (11) 96822 8409

leonardoescobar.producao@gmail.com

O ingresso poderá ser adquiro pelo endereçohttps://ticketbras.com/product/renato-teixeira-no-teatro-municipal-de-osasco/ida/barulhodagua  

Vendas na bilheteria apenas a partir do dia 20, das 13h às 18h.

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