1221- Forte, mas sem perder a ternura: Com “Maryákoré”, Consuelo de Paula (MG/SP) volta a erguer a voz frente aos desafios dos nossos tempos*

Sétimo álbum autoral inaugura uma nova assinatura para a cantora, compositora e escritora mineira por meio de dois movimentos que, expressos em dez faixas, traduzem uma arte guerreira e simultaneamente amorosa, que se alimenta da força das brisas e das tempestades em meio às batalhas cotidianas pela vida e pela arte

*Com Verbena Comunicação (Eliane Verbena/João Pedro)

A cantora e compositora Consuelo de Paula está lançando o sétimo disco da carreira, Maryákoré: uma obra provocadora naquilo que tem de mais feminina, mais negra, mais indígena e mais reveladora de nós mesmos. O título pode ser entendido como uma nova assinatura de Consuelo de Paula: maryá (Maria é o primeiro nome de Consuelo), koré (flecha na língua paresi-haliti, família Aruak), oré (nós em tupi-guarani), yakoré (nome próprio africano). Um exemplar do disco de 10 faixas já está rolando aqui na vitrolinha do boteco do Barulho d’água Música, em São Roque, cidade do Interior de São Paulo, pelo qual agradecemos às queridas amigas Consuelo e Eliane Verbena, da Verbena Comunicação, estabelecida na cidade de São Paulo (SP).

Além de assinar letras e músicas – tendo apenas duas parcerias, uma com Déa Trancoso e outra com Rafael Altério -, Consuelo é responsável pela direção, pelos arranjos, por todos os violões e por algumas percussões de Maryákoré (caixa do divino, cincerro, unhas de lhama, entre outros). A harmonia entre Consuelo e sua música, sua poesia, sua expressão e a estética apresentada é nítida nesse novo trabalho. Ao interpretar letras carregadas de imagens e sensações, ao dedilhar os ritmos que passam por Minas Gerais e pelos sons dos diversos “brasis”, notamos a artista imersa em sua história: ela traz a vida e a arte integrada às canções.

Segundo Consuelo, desde o nome, o trabalho “traduz uma arte guerreira e amorosa, que se alimenta da força dos ventos, das brisas e das tempestades; nasceu entre o dia e a noite, entre a cidade e as matas, entre raios e trovões”. Essas energias, movimentos e gestos de amor e de luta, estão condensados nas músicas, nos arranjos e na voz da cantora e compositora, de modo a reafirmar a fisionomia vigorosa de uma artista inquieta, de expressividade singular e força criativa que se renova a cada trabalho.

O violão é seu instrumento de composição que, nesse trabalho, revela-se também, de maneira ousada e criativa, como parte de seu corpo; e como koré provoca as composições ao mesmo tempo em que comanda e orienta os ritmos que dão originalidade à obra. Consuelo gravou juntos o violão e a voz, ao vivo, no estúdio Dançapé do músico Mário Gil, transpondo para o disco a naturalidade e a energia original das canções. Um desafio que pode ser conferido em cada uma das dez faixas: ora o violão silencia as cordas para servir de tambor, ora se ausenta para deixar fluir a voz à capela; em outros momentos as cordas produzem somente um pizzicato para acompanhar o movimento da melodia; e, às vezes, soa como percussão e instrumento harmônico. Tudo ao mesmo tempo.

Além do violão, um piano, com Guilherme Ribeiro, e vários instrumentos percussivos compõem a sonoridade de Maryákoré. Consuelo conta com o percussionista Carlinhos Ferreira para produzir paisagens e novos sons com instrumentos criados por ele, como goopchandra com arco, flautas de tubos, rabeca de lata, tambor de mar, gungas de sementes e outros. O piano de Ribeiro enriquece esse cenário ao fazer destacar na obra, utilizando suavidade e desenhos sonoros, os contrastes imaginados por Consuelo.

O álbum é apresentado em dois movimentos. Da mesma maneira que assistimos a um bom filme, acompanhar o roteiro de Maryákoré é uma experiência surpreendente. “São gestos, ventos que impulsionam ciclos, são lutas internas e externas que foram trazendo o disco e apontando o rumo das canções”, revelou Consuelo. Maryákoré é uma guerreira em meio às batalhas cotidianas pela vida e pela arte, é uma obra-síntese da dedicação da artista, de sua fina sensibilidade musical, poética e social. É a voz de Consuelo de Paula frente aos desafios dos nossos tempos.

O primeiro movimento começa com Ventoyá (poesia de Déa Trancoso, que Consuelo musicou logo na primeira leitura). Consuelo abre o disco batucando no violão, trazendo um clima de ventos e tempestades que anunciam uma nova estação. Na sequência ouvimos o piano, o violão e a percussão que revelam a nova textura sonora, feita para a canção Andamento. Consuelo a compôs quando viu um instrumento feito por índios brasileiros (pau de chuva) e se lembrou de um verso do terno dos marinheiros de sua cidade natal (Pratápolis/ MG): “eu vou, eu vou remando contra a maré”. Aqui ela cita também um verso do poeta Paulo Nunes (“o uivo perdido no meio da floresta, passados mil anos, virou esse canto”) e acrescenta: “um grito que a noite me empresta/um fado cigano/um índio, um banto/na voz que me resta/que por uma fresta/vazou nesse canto”. É clara a poesia contrastante da artista que traduz a comoção pelo belo. E o trio de aberturas se faz com a próxima canção: Chamamento– em um clima de capoeira que Consuelo realiza com o seu toque de violão-berimbau. A cantora criou um arranjo crescente, um a um os instrumentos entram – flauta de tubos, violão, piano, rabeca de lata (criada por Carlinhos Ferreira), caxixis, unhas de lhama (instrumento indígena e andino), triângulo, pandeiro e caixa do divino. É um grito de guerra, uma convocação: “vai chamar meu povo/o pajé, o capoeira/as senhoras, as meninas/…/vai chamar o sol mais quente/a lua cheia, a ventania, o trovão fora de hora/o raio e a nossa alegria/”.

Carlinhos Ferreira, percussionista, ao lado de Consuelo de Paula: instrumentos peculiares conferem às faixas a alma e o vigor que a cantora buscava imprimir em Maryákoré (Imagem extraída do teaser da obra)

Com seu violão harmônico e percussivo, Consuelo traz na quarta faixa a canção homônima ao disco, Maryákoré: “Sou a fumaça que sobe na mata na hora mais quente/a fogueira no quintal da minha gente/sou maryákoré, katxerê, marielle da maré/sou a lua, a luta e os nossos olhos brilhando horizontes”. E no final Consuelo cria um outro ambiente no qual cita Tom Jobim (“deixe o índio vivo”) e um ponto de candomblé. A canção Separação encerra o primeiro movimento. É a música da ausência, do silêncio. O violão em pizzicato é perfeito para o sentimento que a canção nos causa. “Esse é um poema meu, que redescobri durante o processo do disco, e musiquei”, contou Consuelo.

Abrindo o segundo movimento de Maryákoré, Caminho de Volta traz Consuelo cantando à capela, anunciando um recomeço com um canto limpo e forte: “avistei grande búfalo do oriente/travessei o mar/…/morte não vai me matar/longe do meu lugar”. É um moçambique, ritmo afro-mineiro (compasso em seis por oito) de forte presença nas origens da música de Consuelo de Paula. O álbum segue com Arvoredo que traz o clima das paisagens mineiras: “minha casa é madeira, tronco, galho e raiz/minha casa é cordilheira/ fiz pra gente ser feliz/…/”. E aqui ela constrói ‘nossa casa’ ao lado de várias tribos (kariris, puris, guaranis, kiriris). Essa é mais uma composição na qual mostra sua forma particular de respirar, cantar e tocar ritmos, que quando ouvimos já sabemos que se trata de Consuelo de Paula. Os Movimentos do Amor é um samba de Consuelo tocado com caixa de congo e berimbau. Traz uma harmonia rica que passa pela sonoridade mineira mais urbana. Na abertura, um poema dela entre notas suaves de piano e berimbau: “o amor é o som do seu nome/o rastro que fica quando você some/a alga verde que o mar come entre brancas ondas/pra depois matar a fome do peixe e do homem”.

Déa Trancoso  é autora do poema que  Consuelo de Paula transformou em canção para abrir o novo álbum (Foto: Marcelino Lima/Acervo Barulho d’água Música)

A nona faixa, Remando Contra a Maré (melodia de Rafael Altério, letrada por Consuelo), conversa com a segunda abertura do CD – Andamento por meio do canto dos congadeiros: “eu vou, eu vou remando contra a maré” (aqui apresentado no final da canção). Impossível não se emocionar com essa bela toada. Saudação encerra o segundo movimento do disco e traz, ao mesmo tempo, a despedida e a abertura para um recomeço: “Vou saudar a gira do tempo/ogunhê meu pai/vou cantar despedida/… / e com o olhar cruzado no teu/abrirei caminho/noite afora, noite adentro/até que o sol retorne da casa de Lia/com o cheiro da terra que nossos olhos não alcançam/com aromas de um novo dia”. E, conversando com a terceira faixa de abertura do CD ChamamentoMaryákoré termina com o contagiante violão percussivo de Consuelo de Paula, como uma energia que nos visita, como um ciclo que se fecha e se abre no tempo.

“Uma viagem sem limites, a que a cantora nos convida e desafia, antes de nos perdermos de vez”, (Julinho Bittencourt – A Tribuna e Revista Fórum).

Elegância e inspiração popular, cuidado e erudição no modo de apresentar sua arte, originalidade e equilíbrio entre a força e a delicadeza, são elementos constantes na obra de Consuelo de Paula, o que lhe tem assegurado admiração e reconhecimento do público e da crítica especializada. Como cantora, já se apresentou no maior teatro da América Latina – Gran Rex, Buenos Aires – e seu trabalho foi destaque na capa do Guia Brasilian Music (publicado no Japão por Massato Asso) que elegeu os 100 melhores álbuns da música brasileira. Como compositora, já foi gravada por nomes como Maria Bethânia (Sete Trovas, no CD Encanteria e DVD Amor, Festa e Devoção) e Alaíde Costa (Bem-me-quer, no CD Porcelana com Gonzaga Leal) e vários artistas da nova geração têm gravado suas canções.

Consuelo é cantora, compositora, poeta, diretora artística e produtora musical de seus próprios trabalhos e de outros artistas. Samba, Seresta e Baião (1998), Tambor e Flor (2002), Dança das Rosas (2004), seus três primeiros discos, considerados referências pela crítica, estão articulados a partir de uma unidade conceitual que compõem uma trilogia. Em 2008, foi produzida e lançada no Japão a coletânea Patchworck, formada por canções dessa trilogia.

Em 2011, Consuelo lançou seu primeiro livro, A Poesia dos Descuidos (poesia de Consuelo e cartões de arte de Lúcia Arrais Morales) e também o seu primeiro DVD, Negra, gravado ao vivo no Teatro Polytheama, em Jundiaí (SP). O DVD, dirigido por Elifas Andreato, traz canções de Consuelo com vários parceiros como Dante Ozzetti, Vicente Barreto e Socorro Lira, além de interpretações personalíssimas de outros autores (Atahualpa Yupanqui, Villa Lobos).  Em 2012, lançou Casa com a orquestra À Base de Corda, de Curitiba; as canções de Consuelo de Paula e Rubens Nogueira receberam arranjos de nomes como Chico Saraiva, Weber Lopes, Luiz Ribeiro, João Egashira e outros. Em 2015, lançou O Tempo E O Branco com show no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. O álbum foi inspirado livremente pela artista no universo ‘ceciliano’ (Cecília Meireles) e tem Toninho Ferragutti no acordeom e Neymar Dias na viola caipira. Agora, em 2019, produziu Maryákoré , cujo título inaugura sua nova assinatura de Consuelo de Paula: maryá (Maria é seu primeiro nome), koré (flecha na língua paresi-haliti, família aruak), oré (nós, em tupi-guarani), yakoré (nome próprio africano). Nesse trabalho seu próprio violão é o instrumento de composição e de comando dos ritmos, revelando a artista inquieta, sempre em busca do aprofundamento em seu ofício.

Consuelo de Paula participou também de importantes CDs e DVDs: Senhor Brasil (cantando ao lado de Rolando Boldrin); Prata da Casa (Sesc SP); Divas do Brasil(Disco de Prata em Portugal que reúne Elis Regina, Maria Bethânia, Céline Imbert, Bebel Gilberto, Zizi Possi e outras); e Cachaça Fina (Spirit of Brazil). Ela também assina o roteiro do Velho Chico – Uma Viagem Musical, de Elson Fernandes, no qual interpreta a canção O Ciúme (Caetano Veloso), considerada a “gravação definitiva” pelo crítico Mauro Dias, no jornal O Estado de S. Paulo. Entre os projetos que participou, destaque para: Projeto Pixinguinha (Funarte), Elas em Cena, com Cátia de França e Déa Trancoso; Canta Inezita (show e CD), livro Retratos da Música Brasileira (Pierre Yves Refalo sobre os 50 anos da TV Cultura e 14 anos do programa Sr. Brasil, comandado por Rolando Boldrin. Consuelo está entre os 120 artistas que representam esse projeto cultural de grande significado para o país).

Ao longo de sua trajetória, participou de diversos programas: Ensaio (direção Fernando Faro, TV Cultura), Sr. Brasil (de Rolando Boldrin), Talentos (Giovani Souza), A Voz Popular (Luís Antônio Giron), TV Câmara de Brasília, TV Brasil e DiscoTeca (de Teca Lima – Rádio Cultura Brasil), Letra e Música (de Pasquale Cipro Neto), Contacto Brasil (Rádio Jazz Venezuela), Club Brasil (Juan Trasmonte – Buenos Aires). Já fez shows no Theatro Municipal de São Paulo, Auditório Ibirapuera, Itaú Cultural, Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (ao lado de Rolando Boldrin, Chico Pinheiro e Heródoto Barbeiro) e Brasília (com artistas da Ilha da Madeira e do Timor Leste) e em unidades do Sesc paulista. Levou também sua música a diversas outras cidades do Brasil (Curitiba, Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Velho, Rio Branco, Manaus, Palmas, Cuiabá, Campo Grande, Goiânia e outras).

Haliti-Paresi

De acordo com o Museu do Índio, instituição ligada à Fundação Nacional do Índio (Funai), o povo Paresi (autodenominação haliti, que se traduz por: gente, povo) formava um grupo de 2.005 pessoas, de acordo com dados do Instituto Socioambiental (2008),. As sete áreas indígenas dos paresi se localizam semi-descontinuamente no estado do Mato Grosso, na faixa de Cerrado amazônico, a Oeste da capital Cuiabá. Fala uma língua da família Arawak, ramo Arawak do Sul, cujo representante mais próximo é o Enawenê-Nawê, falado em território mais ao Norte. Os vizinhos mais próximos são os Nambikwara (família Nambikwara) em áreas indígenas ao Norte e ao Sudoeste da porção paresi, com quem estabelecem contatos mais intensos atualmente, após um passado de conflitos regulares.

Saiba mais a respeito visitando o linque: http://prodoclin.museudoindio.gov.br/index.php/etnias/haliti-paresi

Os paresi-haliti ocupam sete territórios no estado de Mato Grosso (Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

Clique no linque abaixo e acesse outros conteúdos sobre ou relacionados a Consuelo de Paula já publicados no Barulho d’água Música:

https://barulhodeagua.com/tag/consuelo-de-paula/

Teaser:  Maryákoré / Fanpage: M a r y á k o r é

http://www.consuelodepaula.com.br/www.facebook.com/maryakoreconsuelodepaula

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