1234 – André Siqueira (SP/PR) lança SOLO, álbum que marca sua maturidade e traz cheiro de gente, cidade e mato

Às vezes com  simplicidade de caipira, às vezes com texturas mais densas, Pixinguinha, Chico Mário, Edu Lobo, Tom Jobim e Jacob do Bandolim são revisitados em álbum lançado pela Kuarup 

*Com TP1 (Todos por Um) Conteúdo

O compositor e multi-instrumentista André Siqueira (Palmital/SP) acaba de ver lançado pela produtora e gravadora Kuarup o álbum instrumental SOLO, quarto disco da carreira e que marca o reencontro dele com a própria trajetória, reunindo arranjos feitos ao longo dos anos para músicas presentes em sua e na memória afetiva de várias gerações. Além dos arranjos inéditos, SOLO traz uma variação de timbres graças à utilização de dois instrumentos parecidos, porém distintos: o violão de seis cordas e o violão barítono, ambos construídos pelo luthier londrinense Nilson De Mari. Um exemplar de SOLO, gentilmente enviado por Rodrigo Zanke, diretor artístico da Kuarup, já faz parte do acervo do Barulho d’água Música, pelo qual somos gratos ao amigo e toda a sua equipe.

Com os dois violões, André Siqueira registrou arranjos próprios para obras de Edu Lobo, João Pernambuco, Marlos Nobre, Jacob do Bandolim, Djavan, Elpídio dos Santos, Guinga, Tom Jobim, Pixinguinha e Chico Mário. A diferença entre os dois instrumentos poderá ser percebida já na faixa de abertura, Mamãe Oxum (domínio público), arranjada para valorizar os silêncios, importantes nas religiões afro-brasileiras, das quais a canção é representante, mas também ideais para o tempo do violão barítono, mais grave e mais lento. Por isso, também, soa mais delicado.

Com um som encorpado e cheio de harmônicos, o violão barítono exige um toque mais calmo para não “embolar” o som. Seu timbre ajudou a recriar várias músicas: Senhorinha (Guinga/Paulo César Pinheiro), Oceano (Djavan), Ressurreição (Chico Mário) e a Cantiga do Ciclo Nordestino (Marlos Nobre), que ganharam novas cores. Cada música do repertório conta uma história. Oceano, por  exemplo, foi arranjada quando André Siqueira tinha por volta de 15 anos e tocava de uma forma totalmente diferente. 

O trabalho reúne diferentes fases de André Siqueira como arranjador, tendo a improvisação como fio condutor. Praticamente todas as faixas abrem espaço para o improviso, que aparece também como recurso para a composição. A Suíte da Estrela Guia, com os movimentos Ouro, Mirra, Incenso e Flor, é resultado desta improvisação livre. André Siqueira compôs as quatro faixas no estúdio, durante a gravação. As ideias improvisadas mantiveram a coerência de uma única obra. 

Com o repertório na ponta dos dedos, o processo de gravação foi rápido e fluido e transcorreu no estúdio Rio Abaixo, do violeiro mineiro Gustavo Guimarães, em Belo Horizonte (MG). “Eu já estava preparado, já vinha estudando o repertório, então foi muito produtivo”, contou Siqueira. À época, ele estava concorrendo ao Prêmio Chico Mário de Violão com a música Ressurreição (Chico Mário), arranjada para o violão barítono. Mesmo entrando na competição de última hora, André Siqueira ficou em terceiro lugar. 

O Morro Não Tem Vez (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) foi arranjada em 1998 para uma disciplina do Curso de Música na Universidade Estadual de Londrina (UEL/PR),  instituição onde André Siqueira é, hoje, professor. A seleção do repertório e a opção pelo violão solo é fruto da maturidade com que o instrumentista enxerga a própria produção. SOLO renova a discografia que já tem Lithos (2008), Catamarã (2016) e Afternoon Improvisations (2014), este em parceria com o violonista Camilo Carrara. São registros em duos, trios e quartetos. “Tocar solo é sempre um desafio: mas finalmente eu tive maturidade para gravar um trabalho sozinho”, revelou o músico. 

Autodidata no instrumento, André Siqueira tem um jeito peculiar de tocar. Por vezes, acaba incorporando a técnica de outros instrumentos ao violão. É o caso da mão esquerda, bastante habituada à guitarra. Ou da mão direita, cujo dedilhado utiliza o dedinho, ampliando os recursos. “Fui me descobrindo violonista aos poucos”, observou. “Eu acompanhava, compunha, mas não havia assumido muito essa vertente.” O violão foi conquistando espaço e desde 2006 ganhou dedicação quase exclusiva, com estudos diários.

A proximidade com o instrumento ajudou a selecionar um repertório que, mesmo difícil de tocar, é confortável para o intérprete. “A música tem de ser gostosa de tocar, eu uso isso quase como um critério maior, e não toco o que eu não gosto.” É uma decisão que também aproxima o ouvinte. SOLO é acolhedor, bom de ouvir, enriquecido pelas diferenças de timbre entre os dois violões.

Discos solos de violão costumam ser sisudos e introspectivos, mas André Siqueira conseguiu abrir o repertório para o ouvinte. O conforto proporcionado é intencional. Em tempos de conflitos generalizados e excesso de informação, Siqueira lança um disco afetivo, familiar e aconchegante. “Estudamos tanta coisa… Parece que estamos querendo provar para o mundo que podemos tocar coisas muito difíceis. Mas a música acontece quando você está relaxado, numa fluência maior”, resumiu. “Se a pessoa ouvir e se desligar do mundo por dois minutos, isso já faz bem”.

Siqueira e Ferraguti, juntos, tocarão no lançamento de SOLO, em São Paulo (Foto: Valéria Félix)

Com Toninho Ferragutti

Situado no limite entre o erudito e o popular, SOLO vem enriquecer a linha evolutiva do violão brasileiro com um trabalho delicado, de timbre surpreendente, sintonizado com os sentimentos de quem ouve. E quem mora em São Paulo poderá conferir ao vivo este novo trabalho de Siqueira que, em 27 de setembro, será atração da galeria Itaú Cultural, a partir das 20 horas. O ingresso será distribuído uma hora antes do espetáculo que contará coma  participação especial do acordeonista Toninho Ferragutti.

Sobre a Kuarup 

Especializada em música brasileira de alta qualidade, o acervo da Kuarup concentra a maior coleção de Villa-Lobos em catálogo no país, além dos principais e mais importantes trabalhos de choro, música nordestina, caipira e sertaneja, MPB, samba e música instrumental em geral, com artistas como Baden Powell, Renato Teixeira, Ney Matogrosso, Wagner Tiso, Rolando Boldrin, Paulo Moura, Raphael Rabello, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Elomar, Pena Branca & Xavantinho e Arthur Moreira Lima, entre outros 

Melodia roseana, beat do Mucuri e peripécias surpreendentes

Há uns anos, madrugada adentro, garimpei na bateia televisiva caboclo capinando a viola rio “abaixo”. Parecia ter pacto com São Gonçalo. A melodia soava impressionista, E a harmonia roseana tinha o beat do Mucuri, Depois da tocata, uma boa prosa, O entrevistado de Chico Lobo era André Siqueira, um paulista de Palmital, criado num berço musical, adido da cultura popular, pesquisador das cafubiras e vauranas de Minas Gerais, professor universitário, arranjador e sideman de Titane, Wilson Dias, Déa Trancoso e Pereira da Viola, “Da missa, eu não sabia metade”. O rapaz era um coringa, Também (tao bem) tocava baixo, bandolim, bouzouki, flauta, guitarra, flugelhorn, violão barítono e violão. Sua relação com os instrumentos era transfronteiriça, Das suas mãos brotava música, mina d’água de sons (historietas sem palavras), vindos dum lugar atemporal e familiar.

De lá pra cá, concluiu o mestrado, migrou pata Londrina, tornou-se. professor da [Universidade Estadual de Londrina] UEL, doutorou-se, publicou livro. aumentou a prole, plantou árvore, apresentou programa radiofônico, lançou CDs autorais (Lithos, Afternoon Improvisations com Camilo Carraca e contendo review do Egberto Gismonti), escreveu “n” arranjos e assinou inúmeras produções. Havia, entretanto, um hiato, Faltava em sua discografia um registro ímpar dos seus surpreendentes arranjos violonísticos para temas próprios e não autorais, Isso mesmo! Uma mostra fonográfica “de cair o queixo” das suas descontraídas peripécias musicais confidenciadas à Web “em raros momentos de distração”, reunindo num só banquete antropofágico Ponto de Umbanda; Prelúdio, Fuga e Alegro de Bach; composições representativas de João Pernambuco, Pixinguinha, Vinícius de Moraes, Jacob do Bandolim, Elpídio dos Santos, Tom Jobim. Marlos Nobre, Edu Lobo, Guinga, Chico Mário, Djavan, ladeadas pelos tripulantes inanimados de sua nau estelar: Ouro, Mirra, Incenso e Flor dos Reis Magos — oferendas, acalantos ou movimentos da Suíte da Estrela Guia emanados do violão barítono para entreter ou ninar o pequeno Yeshual

O resultado não poderia ser outro: um álbum de cabeceira, ébrio de virtuosismo e de musicalidade, tendo a clareza melódica como fio condutor das levadas híbridas e releituras harmônicas; dos improvisos e recursos técnicos (percussão estendida, harmônicos, pedal tones, ligados contrapontos, polirritmias e campanelas), repletos de leveza, expressividade, diversidade estilística e domínio instrumental.

Que esse casting com cheiro de gente, cidade e mato desbrave o mundo travestido de concerto regido pela batuta vivaz do coração! Carlos Walter

O tempo líquido dos rios

A ideia de lançar-se ao desafio de um álbum de violão solo me ronda já há algum tempo. Sempre considerei o caminho do músico, em grande parte, solitário. Nós buscamos a beleza através das esguias formas dos instrumentos e a eles dedicamos grande parte de nossa vida. Porém, também nos dedicamos à alegria do momento compartilhado na coletividade; instantes nos quais a linguagem transcende a razão e dos quais brotam músicas realmente maravilhosas. O trabalho solo é diferente, desafiador e ao mesmo tempo generoso. Quando estamos sozinhos com o instrumento o Tempo transforma-se em um amigo que nos impulsiona para lugares vertiginosos, planícies calmas, rios caudalosos coloridos em tons violáceos. Nesse trabalho estão arranjos que venho realizando desde minha adolescência, como é o caso de “Oceano” que acabei transportando para o violão barítono, outros são mais recentes como “Ressurreição” de Chico Mário com a qual conquistei o 3º lugar do concurso em homenagem ao compositor. Enfim, essas são possíveis leituras de músicas tão significativas na minha trajetória e que apresento a vocês, vezes com a simplicidade de caipira, vezes com texturas um tanto mais densas. Agradeço a todos que me influenciam e me dão força para continuar no caminho da Dona Música, em especial a todos os músicos que sabem fazer brotar do instrumento o som da sua terra.

Agradecimentos especiais a minha família (Dani, Pedro e Danilo), ao Gustavo Guimarães e Maria Célia, Chico Lobo e Ângela Lopes, Pereira da Viola e Gué Oliveira, Wilson Dias e Nilce Gomes, Titane e João das Neves (in memorian), Tabajara Belo e Déa Trancoso e ao querido amigo e violonista mineiro Carlos Walter. André Siqueira, outono/ 2019

Repertório do álbum SOLO

1-Mamãe Oxum (domínio público)
2-Dança do Corrupião (Edu Lobo/Paulo César Pinheiro)
3-Suíte Estrela Guia – Ouro/Mirra/lncenso/Flor (André Siqueira)
4-Sons de Carrilhões (J. Pernambuco)/Prelúdio da Suíte BWV 998 (Bach)
5-Cantiga (Ciclo Nordestino l) (Marlos Nobre)
6-Feia (Jacob do Bandolim)
7-0ceano (Djavan)
8-Você Vai Gostar (Elpídio dos Santos)
9-Senhorinha (Guinga/Paulo César Pinheiro)
10-0 Morro Não Tem Vez (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
11-0 Rasga (Pixinguinha)
12-Ressurreição (Chico Mário)

Ficha Técnica:

Concepção artística e arranjos: André Siqueira
Violão e violão barítono: André Siqueira
Gravação: André Siqueira e Gustavo Guimarães
Mixagem e masterização: André Siqueira
Gravado nos dias 24 e 25 de agosto de 2018 no estúdio Rio Abaixo em Belo Horizonte (MG)
Projeto Gráfico: Rosana de Alencar Ribeiro
Arte Final: Kuarup Produções
André Siqueira utiliza violões Nilson De Mario

Serviço:

Itaú Cultural lança álbum Solo, de André Siqueira
Data: sexta-feira, 27/09/2019, 20h
Endereço: Avenida Paulista, 149, Próximo à estação Brigadeiro da linha 2/Verde do Metrô
Capacidade da sala: 224 lugares
Retirada de ingressos: uma hora antes do espetáculo para o público geral o público preferencial
Classificação: Livre

 

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