1261 – Baiano por afeição, Walter Lajes é mais uma joia da ditosa galeria dos cantores e compositores da Boa Terra

Paranaense de berço, depois de passar pela cidade do Rio de Janeiro e também morar em Pernambuco, músico  que já lançou oito álbuns fixou-se em Vitória da Conquista, município onde um dos vereadores acaba de homenageá-lo por mais uma exitosa participação em festival, na cidade paulista de Barueri

A Bahia é generosa com o país e a cultura popular quando o assunto é a contribuição para a boa música e o enriquecimento do nosso cancioneiro. Partindo de Dorival Caymmi e toda a sua família, passando por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Pepeu Gomes — para ficar apenas em algumas consagradas joias do estilo popular –, passamos por Elomar, Xangai, Roque Ferreira, Gereba e seu parceiro Capinam — mais dedicados ao que o mercado gosta de classificar como “regional” — entre tantos outros exemplos, chega-se sem surpresas à conclusão que o estado de Castro Alves nada deixa a dever aos que consideram como referencial apenas o Sudeste maravilha — premissa que, por sinal, vale ainda para outros da região Nordeste, sem exceção de nenhuma de suas unidades federativas.

E colocando mais dendê na conversa, ainda que paranaense de nascimento “por um acidente de percurso”, conforme ele mesmo declarou ao Barulho d’água Música, o compositor, poeta, cordelista e como o próprio também se define, cantador Walter Lajes, joga fácil nesta seleção de baianos e tem feito por merecer que holofotes e emissoras, produtores e agentes de espetáculos e programas, bem como a indústria fonográfica, sejam mais generosos e o escalem sem medo de caneladas e de tomar gols contra.

O moço que já tem discografia que soma oito álbuns cujas faixas abordam e denunciam injustiças sociais, a vida sofrida dos seus conterrâneos nordestinos e agressões à natureza, entre outros temas populares, mas que também fazem cair no forró, até se fixar em Vitória da Conquista (BA), em 1996, viveu em várias cidades do Nordeste entre a Bahia e Pernambuco e ainda, quando menino, na cidade do Rio de Janeiro. Como mecânico de máquinas pesadas de uma construtora, o pai, Waldemar, sempre escalado para trabalhos em várias partes do país, desenvolvia suas atividades em Castro (PR) quando o filho veio ao mundo. Waltinho tinha dois anos, a família deslocou-se para a Cidade Maravilhosa e vivendo nela por sete anos, o garoto já crescido desembarcou pela primeira vez na Boa Terra, em 1980, fixando-se em Ribeira do Pombal.

Na região onde se encrava Ribeira do Pombal, município localizado a 270 quilômetros de Salvador, Lajes deu seus primeiros passos como artista, escrevendo poesias, compondo para o grupo de jovens da igreja e atuando em peças de teatro amador, esta experiência que o ajudou a diminuir a timidez, preparando-o para a convivência com o público que, definitivamente, só teve coragem de encarar, sem bambear as pernas, já apresentando as primeiras composições, em 1990.

Paralelamente ao início da carreira profissional, Walter Lajes cursava o ensino médio como aluno de Técnicas Contábeis, curso concluído em 1992, ano anterior a sua partida para Camaçari e cidades da região soteropolitana pelas quais trabalhou no que acabara se formar até 1994. Nesta época, agora morando em Jaboatão dos Guararapes (PE), passou a tocar e a cantar em bares noturnos do Recife (PE) e a se inscrever nos primeiros festivais dos muitos que já venceu desde 1995, adotando, então, definitivamente, a carreira como cantador.

A passagem por várias e importantes cidades da região moldou o perfil e ajudou a fortalecer o DNA nordestino de Walter Lajes que permeia sua obra e cujas cantorias incluem, ainda, interpretações de sucessos nacionais, contação de causos e anedotas enriquecidas por um timbre classificado pelo amigo Joel Emídio da Silva, do blogue Ser-tão Paulistano como “vozeirão”, que entre outros elogios e recomendações diz de Walter: Que todos e todas saibam que tais atributos, Walter os executa com maestria, sendo assim, sem a menor sombra de dúvida, uma figura que encarna o artista popular, daqueles de que falaram e escreveram mestres como Câmara Cascudo e Ariano Suassuna. É nordestino, de mil quilates, típico representante dessa effervescence cultura, mas sua arte, desempenhada com ardor, possui ressonâncias universais”.

Em um dos festivais dos quais participou, em Marabá (PA), em 2013, Walter Lajes faturou a segunda colocação

A inclinação de Lajes para a música, registre-se ainda, encontra duas influências decisivas e derivam da convivência com amigos e familiares. Um deles é um vizinho que trabalhava como vigia em uma empresa na rua em que o artista morava, em Pombal, chamado José, que, de acordo com o cantador, fascinava-o ao vê-lo cantando. Estimulado pelo amigo José, Walter Lajes pediu um violão emprestado a um primo e, por conta própria, começou a dominar o instrumento. Neste ínterim, o tio de Walter e xará do seu pai, Waldemar, entre outros cuidados e habilidades, ensinou o sobrinho a afinar o instrumento. Vendo o filho cada vez mais interessado e hábil no dedilhar das cordas, o pai o presenteou com o primeiro violão. “Era da marca Tonante, cujas cordas de aço tinham um dedo de distância dos trastes”, recordou, rindo, reforçando a má fama que persegue os instrumentos desta marca.Mas com o gesto, além de apostar que eu teria futuro na música, meu pai queria que eu o acompanhasse em um vasto repertório que, mesmo sem ser profissional, ele cantava com maestria, pois era dono de uma voz marcante, embora nunca tenha aprendido a tocar”, emendou Lajes.

Vicente Celestino, Altemar Dutra, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Herivélton Martins, Agnaldo Timóteo, Evaldo Braga, Paulo Sérgio, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Ataulfo Alves, Cartola, Tonico e Tinoco, entre outros, constavam na lista dos ídolos do Waldemar pai. As composições dos membros desta plêiade ajudaram a apurar as preferências do violonista, mas Walter Lajes também se encantou com nomes mais contemporâneos como Alceu Valença, Zé Ramalho, Belchior, Fagner, Ednardo, Caetano Veloso, Chico Buarque, João Bosco, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Toquinho, Vinícius de Moraes, Baden Powell, Pablo Milanes, Mercedes Sosa, Elis Regina, Dominguinhos, além dos amigos Raymundo Sodré, Xangai, Elomar Figueira, Geraldo Azevedo e Dércio Marques.

Tudo o que aprendi na minha carreira e hoje canto e toco, passa por estes nomes e incentivadores, mas como sempre fui curioso, também aprendi, por conta própria, a tocar viola caipira, violão de 12 cordas, guitarrón gaúcho, gaita, flautas doces (soprano e contralto) e alguns instrumentos percussivos”, disse Walter. “Não sou cantor de técnicas vocais estudadas em escolas, e sim, nos palcos da vida, por isso me defino, mesmo, como cantador”, completou.

Já com boa bagagem na estrada, Lajes passou a ser procurado por amigos e músicos para parcerias ou para acompanha-los. A frondosa lista de colegas inclui: Xangai, Raymundo Sodré, Dércio Marques, Osvaldo Morais, Abdias Campos, Anchieta Dali, Paulo Matricó, Luiz Homero, Miguel Marcondes, Luiz Carlos Figueiredo, Jaivan Acioly, Roger Ferraz, Dorinho Chaves, Papalo Monteiro, Gutemberg Vieira, Dinho Oliveira, Marcelo Nunes, Pedro Sampaio, Cícero Gonçalves, Manoel Gandra, Valéria Pisauro, Carlos Aires, Dalmir Lott, Pedro Hoisel, Renata Reis, Clauber Martins, Marcos Canaã, Edilson Barros, Saulo Fagundes, Kaká Bahia, Maviael Melo, Cléber Eduão, Jeremias Macário, Vicente Cassimiro, César Tibério, Antônio Tibério, Paulinho Pedra Azul, Flávio Jarbas, Cleilson Ribeiro, Vitor Fidel, Marco Túlio de Oliveira Reis e Zé Alexandre.

Também são numerosas as plateias da Bahia, Pernambuco, Sergipe, Paraíba, Ceará, Maranhão, Pará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais que já aplaudiram Walter Lajes, não apenas em palcos de casas de espetáculos, mas também em festivais pelo Brasil afora, como o recém-encerrado Festival de Música e Poesia de Barueri (Femupo), cidade da Grande São Paulo no qual faturou em 26 de outubro o troféu de melhor intérprete com a música Retrato Falado do Sertão; Saulo Fagundes, conterrâneo dele, de Serra Dourada (BA), cantou a música Ágata, de Lajes (em parceria com Cristóvão Moreno) durante a apresentação que fez no programa Sr. Brasil, apresentado por Rolando Boldrin e levado ao ar pela TV Cultura em 27 de outubro, música em homenagem a Elis Regina.

Ao lado do vereador conquistense Valdemir Dias, Lajes exibe a Moção de Aplausos que o petista concedeu ao cantor e compositor

Água do Poço Escuro

A Câmara Municipal de Vitória da Conquista entregou a Walter Lajes na sexta-feira, 22/11, a Moção de Aplauso nº 91/2019, proposta pelo vereador Valdemir Dias (PT) em reconhecimento ao prêmio de melhor intérprete no Femupo 2019. “A Moção de Aplausos é mais uma forma de reconhecimento ao trabalho de Lajes e de toda a cultura da nossa terra”, disse Dias. “Fico muito feliz em poder ter contribuído e apoiado Walter nesta turnê pelo estado de São Paulo e mais feliz ainda pelo prêmio que ele trouxe à Conquista”, emendou o petista. “Precisamos valorizar e apoiar os talentos da nossa terra”, prosseguiu, antes de finalizar: “Conquista sempre foi um celeiro de grandes artistas”.

Ao agradecer ao vereador Valdemir Dias e à Câmara Municipal, Walter Lajes disse que sentia grande alegria: “Estou levando o nome de Conquista pelas estradas, e faço isso com muita alegria e esforço. Às vezes a gente passa por perrengues tão difíceis que aqueles que não têm amor pela arte e música desistiriam. Mas eu não desisto. Sou nordestino, baiano e conquistense há 23 anos, quando bebi da água do Poço Escuro”.

Discografia

WALTER LAJES E NÓIS TUDO JUNTO (gravado ao vivo no espaço cultural Chão de Estrelas Vitória da Conquista/ 1999); WALTER LAJES E NÓIS TUDO JUNTO TRAVEIS (gravado ao vivo no Natal da Cidade, Vitória da Conquista/2002;) DEDILHADOS POÉTICOS (cantoria em voz e violão gravado em estúdio analógico/2005); AO NOSSO JEITO BOM (primeiro de forró pé-de-serra/2007); GARGALHOS, (de piadas e anedotas, revelando o lado humorista do compositor/2012); FORRÓ PRA SEMPRE (Forró pé-de-serra/2017);CANTADOR… ASSIM (com importantes participações vocais de cantadores de diferentes localidades do Brasil tais como: Xangai, Cícero Gonçalves, Clauber Martins, Marabá-PA,, Dalmir Lott, Riá Oliveira e Mirael Lima/2018); UNS CAUSOS QUE VOU TE CONTAR (Declamações próprias e de outros poetas consagrados/2019).

Prêmios

  • 1° lugar e melhor intérprete no XXXI Fempi Ibotirama (BA) – 2007
  • Um dos 10 premiados no 3º Prêmio Internacional de Poesia ao Vídeo em Porto de Galinhas (PE) Fliporto 2009;
  • 1° lugar no 1° Festival de música da Chapada Diamantina em Nova Redenção (BA) 2010;
  • 2° lugar e melhor intérprete no 9º Festival de Viola de Piacatuba (Leopoldina MG) – 2011
  • 2° lugar no 17° Fecam (Festival da Canção em Marabá) em Marabá (PA) 2013;
  • 1° colocado no FEMPB (Festival de Música Popular de Brumado), Ano II, em Brumado (BA) 2013
  • 1° lugar do 10° Fenaviola em Itapina (distrito de Colatina/ES) 2016;
  • 2° colocado no 15º Festival de Viola de Piacatuba (Leopoldina/MG) – 2018
  • Um dos doze selecionados para a Mostra da Canção de Suzano/SP 2019;
  • Melhor intérprete do Femupo 2019, em Barueri
  • Um dos poetas selecionados para a XIV Noite dos Poetas em Irecê (BA) – 2019

4 respostas para “1261 – Baiano por afeição, Walter Lajes é mais uma joia da ditosa galeria dos cantores e compositores da Boa Terra”

  1. Estou deveras emocionado, grato e muito feliz pela matéria!
    Sinto-me lisonjeado por tê-lo como meu novo amigo! És um grande profissional das letras, meu nobre e querido amigo MARCELINO LIMA!
    Que o véio Deus abençoe grandemente sua vida e de sua família!
    Gratidão!
    Gratidão!
    Gratidão!
    Abração, luz e alegria!🙏🏾🙏🏾😁
    Gratidão

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