1300 – Fique em casa com boas músicas ouvindo playlists e lançamentos da gravadora Kuarup

Selo disponibiliza seleções de sucessos de cantores e compositores de seu catálogo e anuncia novos discos de Tuia Lencioni e das irmãs Célia e Celma

#Fiqueemcasa #ForaBolsonaro

Em tempos de pandemia por conta da propagação do novo coronavírus (Covid-19), ouvir boas músicas pode nos ajudar a cumprir a quarentena com mais tranquilidade e aliviar, ao menos, parte dos pesares que possam abalar o espírito. A Kuarup, que recentemente disponibilizou nas plataformas de streaming duas listas com sucessos de artistas que gravaram álbuns pelo selo (As Mais Tocadas e Renato Teixeira e Convidados), mesmo impedida de promover novos lançamentos com a presença de público, realizando, por exemplo, os seus já tradicionais pocket-shows em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, segue anunciando a chegada de novos álbuns às lojas e às plataformas, aumentando a oferta que em seu catálogo já é uma das mais ricas e ecléticas do mercado fonográfico. Dentre estes mais recentes discos, a Kuarup destaca Tuia, Versões de Vitrola 1, com Tuia Lencioni, e 50 anos Duas Vidas Pela Arte Ao Vivo, das irmãs Célia e Celma.

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1299 – João Mulato, parceiro de Bambico e de Pardinho, deixa de luto música de raiz

Mineiro que vivia em Bauru, no Interior paulista, fez história como primeiro violeiro canhoto e integrante de várias duplas, cujo acompanhante sempre se chamou Douradinho, e era admirado pelo rigor estilístico

O cantor e compositor mineiro João Mulato, que se tornou célebre no meio sertanejo de raiz ao lado de vários parceiros com os quais formou sucessivas duplas batizadas sempre como João Mulato e Douradinho — a primeira delas iniciada no começo dos anos 1970, ao lado de Bambico (Domingos Miguel dos Santos, violeiro de fundamental importância na criação do ritmo do pagode de viola)– morreu na segunda-feira, 20, em Bauru, cidade do Interior de São Paulo, onde residia há 12 anos. Mulato, desde há cerca de um ano, combatia um câncer que se expandiu por vários órgãos e não mais respondia às sessões de quimioterapia, levando o seu estado clínico a piorar e a obrigar na sexta-feira, 17, a sua internação no Hospital Estadual de Bauru. Aos 69 anos, ele não mais resistiu. A filha, Daniella da Silva Leôncio de Melo, confirmou a passagem e comentou que o pai foi um ídolo que admirou até o último dia, apesar de admitir “diferenças” sobre as quais não entrou em detalhes, pois “o respeito foi mútuo”. O que importou mais para Daniella frisar é que Mulato “era artista e seus únicos e grandes amores foram a viola e a música, as quais ele se dedicou. Não admitiu erros. Por isso, suas músicas foram marcantes e seus arranjos, inesquecíveis“.

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1298 – Em Ser Tão, Moraes Moreira busca resgate das próprias origens e passa de “cantor a cantador”

Cantor e compositor começou a carreira que trocou pela Medicina ainda garoto, no sertão baiano, e depois de brilhar com os  revolucionários Novos Baianos, optou pela carreira solo interrompida “na alvorada dos setenta” , enquanto dormia , por um infarto

 (…) O sertão, essa vaga ficção geográfica que sempre foge à localização precisa. Pode-se entrar pelo sertão, que sempre haverá um sertão mais para o interior do país.””, Aires da Mata Machado Filho, O negro e o garimpo em Minas Gerais, página 33 (III, Sob o signo do diamante), Editora Itatiaia Limitada, 1985

“Sertão é o sozinho”.
“Sertão: é dentro da gente”.
Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa, Livraria José Olympio, 1956

O último disco gravado pelo cantor e compositor Moraes Moreira, lançado em 2018, Ser Tão, foi o escolhido para abrirmos neste dia 18 de abril mais uma audição matutina dos sábados pela manhã, cumprindo a determinação de nos mantermos isolados durante a pandemia do coronavírus (Covid-19) aqui no boteco do Barulho d’água Música, em São Roque, cidade do Interior paulista a cerca de 60 quilômetros da cidade de São Paulo.

A morte de Moraes Moreira ocorrida na segunda-feira, 13, de infarto do miocárdio enquanto dormia em sua casa (assim como Belchior, em 2017, e Tunai, mais recentemente) na cidade do Rio de Janeiro, indiscutivelmente deixa mais uma vez de luto a cultura popular, abalando não apenas o universo musical brasileiro, mas como um todo nesta época de pandemônio federal o combalido meio artístico no qual ele despontou nos começo dos anos 1970 como um dos integrantes dos revolucionários Novos Baianos. A passagem ao Plano Maior, entretanto, não apagará a obra grandiosa que nos legou o baiano de Ituaçu frequentemente associado a ritmos mais quentes como o frevo, o samba, as marchas de carnaval, o baião, o maracatu e mesmo o rock, mas que recentemente, no auge da maturidade, vinha buscando uma nova identidade que, na verdade, o levava de volta às próprias raízes, o fazia experimentar uma verdadeira “alvorada” aos 70 anos.

Ser Tão é um disco breve, de nove faixas apenas, e saiu pelo Selo Discobertas seis anos após o estrondoso sucesso entre a crítica e o público do álbum antecessor, A Revolta dos Ritmos — o que, talvez, não tenha rendido à empreitada os devidos elogios que Moraes esperava. Mais afeito à poesia e à lapidação da palavra nos últimos dias, Moraes Moreira à la Patativa de Assaré, Zé Limeira e Cego Aderaldo vinha flertando e produzindo várias peças em cordel (como o poema, agora épico, que escreveu sobre a Covid-19, que estará ao final desta atualização) e em Ser Tão já se evidenciava com mais força parte deste resgate, já que era paixão que trazia adormecida em seu peito desde a infância.

A revista Isto É, em um texto publicado em sua versão on-line à época do lançamento do álbum e com base em informações do jornal O Estado de São Paulo, lembrava que a reaproximação de Moraes Moreira com a literatura de  cordel e tudo que envolve esse universo já era notada em A Revolta dos Ritmos, remonta à infância do músico, vivida no interior na Bahia e servia de amálgama à transição que ele pretendia e já festejava, de cantor para cantador. Vou fazer minha passagem/De cantor pra cantador/E durante essa viagem/O tempo que é passador/Vai me dar uma guarida/E muitos anos de vida/Na cantoria do amor”, são versos da faixa De Cantor Pra Cantador, na qual Moraes ora declama, ora canta, mostrando que uma habilidade não descarta a outra. “Hoje, ele é as duas coisas”, sentenciou a revista na matéria cuja integra poderá ser lida clicando aqui.

Nesse disco, pude fazer essa ideia que tenho de juntar literatura de cordel, a influência dos cantadores, dos repentistas, essa coisa da cantoria”, disse Moraes, segundo a Isto É. “É uma cantoria, às vezes, falada, mas, na maioria das vezes, cantada, é claro”, emendou. “Essa relação já vem desde criança, e eu vivia muito isso, a coisa da sanfona, bem sertaneja mesmo, o violonista de serenata. Então, essa memória toda eu carrego.”

Ser Tão é, portanto, completamente autoral, embora inclua uma parceria com Armandinho na faixa Nas Paradas. “”O Armandinho ficou ali meio representando os outros parceiros e eles entenderam isso, que era um momento muito meu, eu tinha que me concentrar nisso. É coisa de viola, de sanfona, quase não tem guitarra. Pedia menos guitarra e mais viola.

Inevitavelmente, o disco acaba sendo biográfico, de uma maneira mais direta, como na já citada De Cantor Pra Cantador e em Alvorada dos Setenta, cujos versos são declamados pelo próprio músico, fechando o repertório. Ou mais indireta, quando ele se envereda por suas raízes e memórias, como em O Nordestino do Século, também declamada, e Origens, recitada e cantada. No blues I Am The Captain of My Soul, o refrão em inglês entoado na letra em português pode até causar estranheza nesse trabalho tão impregnado de Nordeste. Mas, para Moraes, o refrão fazia mais sentido assim, sem tradução. “Esse verso, ‘eu sou o capitão da minha alma’, eu li num livro. Fui pesquisar sobre isso, esse verso era de um poema, Invictus, de Ernest Henley, um inglês da época vitoriana. Um dia, me peguei cantando ‘I am the captain of my soul’. Depois, fiz a parte B da música, em português, e aí volta sempre o refrão, que tinha de ser em inglês”, disse. “São os sertões se encontrando: o sertão de lá e de cá.”

Ainda durante a conversa reproduzida por Isto É, Moraes Moreira observara que em seus tempos de Novos Baianos, nos quais o grupo criava, literalmente, a própria música, suas raízes nunca desapareceram. “Por exemplo, Preta Pretinha é uma coisa interiorana, é muito brejeira. Então, sempre teve ali um pouquinho.O Selo Discobertas, ao lançar Ser Tão, produziu o seguinte press-release, que não apenas reforçou este perfil de Moraes Moreira, mas ampliou-o ao frisar que:

Se a Música Popular Brasileira fosse uma cidade, Moraes Moreira seria aquele caminhante que passa por todos os bairros, cruza todas as ruas, vira em todas as esquinas… e por onde anda ele se sente em casa. Não importa se é num afoxé carnavalesco ou num arrasta-pé junino, numa batucada de samba ou numa balada urbana, sua música é como um líquido que toma a forma de todos esses vasos, sem perder o sabor. Ser Tão não chega a ser uma novidade na obra desse compositor tão litorâneo e ensolarado, tão urbano e beira-mar. aquífero acessível a quem se dispõe a ir um pouco mais fundo. Há um subterrâneo de sertão por baixo de toda a cidade-Brasil. Há uma memória de sertão juntando histórias, lendas, melodias, ritmos e personagens.

Musicalmente, Moraes sempre foi um aproximador de águas, um acolhedor de belezas. A lição tropicalista foi rapidamente assimilada por sua geração para quem o rock e o samba eram bairros vizinhos que tinham a aprender um com o outro. Canções como I am the Captain of My Soul e Nas Paradas têm um sabor geracional cuja novidade não se perdeu, cuja tinta ainda não secou. Baladas de estrada, com algo de blues e das road songs que acompanharam as histórias dos andarilhos num dos muitos sertões que o Brasil descobriu dos anos 1960 para cá .Este é Moraes Moreira, sertanejo acampado à beira-mar, capitão da própria alma, setentão sempre jovem a cruzar um sertão eterno”.

Estetoscópio de pinho

De acordo com a biografia de Antonio Carlos Moreira Pires publicada pela Enciclopédia Itaú Cultural (EIC). a carreira do compositor, cantor e violonista que adotou o nome artístico de Moraes Moreira começou quando ele ainda era adolescente, tocando sanfona de 12 baixos. Com pouco tempo de aprendizado, o piá já animava festas de São João, casamentos e batizados. Em 1963, fez o curso científico na cidade de Caculé, no interior da Bahia, onde conheceu diversos violonistas e se apaixonou pelo violão. Com 19 anos, mudou-se para Salvador com o intuito de fazer o curso de Medicina, mas optou por estudar música no Seminário de Música da Universidade Federal da Bahia. Na pensão em que morava, conheceu os futuros parceiros do grupo Novos Baianos: Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão. que o apresentou ao cantor e compositor baiano Tom Zé, professor de violão no seminário e com o qual Moraes Moreira trocava informações sobre harmonia e composição.

Seus amigos de pensão começaram, então, a elaborar o espetáculo de estreia do grupo Novos Baianos, O Desembarque dos Bichos depois do Dilúvio Universal, em 1968. Contando também com a cantora Baby Consuelo (atual Baby do Brasil) e o guitarrista Pepeu Gomes na formação, o grupo deslocou-se até São Paulo para participar do 5º Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record (1969), defendendo a música De Vera, de Moraes Moreira, com letra de Galvão. Em seguida, saiu o primeiro disco, Ferro na Boneca, antecedendo o clássico Acabou Chorare, que em 1972 venderia mais de 100 mil cópias. Ícone da discografia nacional com decisiva participação de João Gilberto, Acabou Chorare inclui no repertório, entre outras o samba Brasil Pandeiro, de Assis Valente, além das composições próprias do grupo.

Moraes Moreira deixou os Novos Baianos e partiu para a carreira solo ainda em 1975, abraçado ao primeiro parceiro nessa caminhada, o guitarrista Armandinho. Já nesta fase, ele tocou com o trio elétrico de Dodô e Osmar (pai de Armandinho) em 1976, consagrando-se como o primeiro cantor de trio elétrico, embalando os seguidores com marchinhas como Pombo Correio, parceria dele com Dodô e Osmar. Rapidamente, Moraes Moreira ganhava fama e passava a ser apontado como um dos principais responsáveis pelo crescimento do carnaval de rua em Salvador.

Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, outro dos seus sucessos, saiu em 1979, com canções em parceria com Pepeu Gomes, Jorge Mautner, Antonio Rizério, Abel Silva, Fausto Nilo, Armandinho e Oswaldinho do Acordeon. Santa Fé, parceria dele o poeta Fausto Nilo, é escolhida para ser o tema de abertura da novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, mas a trama, censurada pelo governo militar em 1975, acabaria engaveta até 1985, quando enfim foi exibida pela Rede Globo.

Um novo encontro com os Novos Baianos ocorreu em 1997, para o lançamento do disco ao vivo Infinito Circular, com canções dos discos anteriores e algumas inéditas. Dez anos mais tarde, Moraes Moreira enveredou pelo mercado editorial ao publicar o A História dos Novos Baianos e Outros Versos e nesta publicação já adotou a linguagem de cordel, dando pistas da transição que viria adiante.

Análise da EIC

O diálogo entre gêneros musicais é  a marca da trajetória artística de Moraes Moreira. Ao começar a carreira, seu estilo tende para o rock, mas nutre também paixão pelo samba e pelo choro, e aponta nomes como Braguinha, Lamartine Babo, Zé Kéti e Jacob do Bandolim como seus maiores inspiradores. Sua obra dialoga com as produções de Roberto Carlos, Jimi Hendrix, e com a estética do tropicalismo, proposto por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé e outros artistas. Tais referências estão presentes em Ferro na Boneca, primeiro disco do seu grupo Os Novos Baianos, que, nos anos 1960, vive numa espécie de comunidade alternativa.

A presença de João Gilberto na comunidade dos Novos Baianos contribui para acentuar o caráter musical multifacetado do grupo, fundindo sonoridades do samba, frevo e baião com o rock. Moraes Moreira aprende a maneira original de João Gilberto tocar violão e com ele se aproxima do repertório de compositores como Assis Valente. Logo cria, com Pepeu Gomes, um regional com cavaquinho e violão para o maior sucesso do autor, Brasil Pandeiro, gravado pelos Novos Baianos no álbum Acabou Chorare (1972). A canção, feita em 1940, exalta a entrada do samba no mercado musical dos Estados Unidos, alavancada principalmente por Carmen Miranda, intérprete de grande parte das músicas de Assis Valente.

As composições com Luiz Galvão vão de canções de simples harmonias, como o maior sucesso do Novos Baianos, Preta Pretinha (Acabou Chorare), de dois acordes apenas, até as de complexas estruturas, caso de Os Pingos da Chuva (Novos Baianos F.C., 1973). As influências da Bossa Nova, Jovem Guarda, tropicalismo e da música internacional resultam na sonoridade particular do grupo.

Integrando o trio elétrico de Dodô  e Osmar, expande suas referências ao ser apresentado a compositores como Capiba, Nelson Ferreira, Duda, Antônio Maria (1921 – 1964) e outros nomes do frevo pernambucano.  Moraes Moreira compõe a letra para uma música original de Dodô e Osmar que se torna outro grande sucesso, Pombo Correio, típica marchinha dos trios que animam o Carnaval de Salvador. Introduz a voz nos trios elétricos, que até então é só instrumental, até por uma questão técnica. Seu pioneirismo faz escola e fomenta o surgimento de uma geração de cantores de trio.

Lança seu quarto disco solo, Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, em 1979. Além da faixa-título, que se torna hit nacional, o álbum traz canções que marcam o carnaval baiano, como Eu Sou o Carnaval, Chão da Praça e Assim Pintou Moçambique. Esta, em parceria com Antonio Rizério, é um marco na história da música baiana, pela mistura do frevo dos trios elétricos com o batuque dos blocos afro, prenunciando as fusões que animam o Carnaval e abrindo um novo caminho na música da Bahia, que culmina na chamada geração axé music.

No CD O Brasil Tem Conserto, de 1994, em parceria com o maestro e arranjador Vitor Santos, realiza um trabalho que mescla música popular com a erudita. Nesse álbum, reforça a harmonia e a melodia, mantendo as características rítmicas de suas composições. O baião e o samba são misturados no CD Bahião com H, de 2000, que aproveita na época o oportuno interesse das novas gerações pela música regional brasileira. Em 2005, o álbum De Repente funde o hip-hop com o repente nordestino, trazendo elementos da música eletrônica e do rap, ou da “palavra falada”, como Moraes classifica.

Leia abaixo o poema em cordel deixado por Moraes Moreira sobre a Covid-19, conforme consta na página do Diário Causa Operária (DCO) sobre a morte do cantor e compositor, veículo que relatou ainda que, recentemente, Moreira e Baby Consuelo teriam protagonizado um desentendimento que demonstra a personalidade forte, a autenticidade e o respeito às próprias convicções e à história que ele tinha.

Em novembro de 2019 estreou o espetáculo Novos Baianos, no qual treze atores contavam a história da banda, com direção musical de Pedro Baby (filho de Baby Consuelo) e Davi Moraes (filho de Moraes). Esse musical, conforme o DCO, teria causado uma desavença de Moraes com Baby Consuelo, hoje em dia a evangélica Baby do Brasil. Baby queria que o espetáculo ignorasse o uso de drogas pelo grupo. Moraes afirmou que “Baby queria que o espetáculo fosse evangélico. Que não dissesse que fumou maconha, que tomou ácido, que fez tudo. Assim os Novos Baianos não seriam revolucionários. João Gilberto deve estar se revirando na sepultura. Porque o nosso grupo fumou, sim, tomou ácido, sim, fez músicas maravilhosas em estado de fumar maconha, sim. A gente fazia música inclusive pra ela. As canções dela que fizeram sucesso como A Menina Dança, Tinindo, Trincando, Os Pingos da Chuva e tantas outras, foram feitas na onda, porque naquele tempo a onda era essa”.

O DCO também observou que Moraes esteve ativo até o final da vida. No carnaval deste ano cantou no Pelourinho, mesmo já aparentando estar debilitado. Desde março ele estava recolhido à sua casa por causa do coronavírus, mas ainda compondo e escrevendo. Uma de suas últimas obras foi o cordel que fala da Covid-19, mas também lembra de Marielle Franco:

Eu temo o coronavirus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida,
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida

Assombra-me a pandemia
Que agora domina o mundo
Mas tenho uma garantia
Não sou nenhum vagabundo,
Porque todo cidadão
Merece mais atenção
O sentimento é profundo

 Eu não queria essa praga
Que não é mais do Egito
Não quero que ela traga
O mal que sempre eu evito,
Os males não são eternos
Pois os recursos modernos
Estão aí, acredito

De quem será esse lucro
Ou mesmo a teoria?
Detesto falar de estupro
Eu gosto é de poesia,
Mas creio na consciência
E digo não a todo dia

Eu tenho medo do excesso
Que seja em qualquer sentido
Mas também do retrocesso
Que por aí escondido,
Às vezes é o que notamos
Passar o que já passamos
Jamais será esquecido

Até aceito a polícia
Mas quando muda de letra
E se transforma em milícia
Odeio essa mutreta,
Pra combater o que alarma
Só tenho mesmo uma arma
Que é a minha caneta

Com tanta coisa inda cismo.
Estão na ordem do dia
Eu digo não ao machismo
Também a misoginia,
Tem outros que eu não aceito
É o tal do preconceito
E as sombras da hipocrisia

 As coisas já forem postas
Mas prevalecem os relés
Queremos sim ter respostas
Sobre as nossas Marielles,
Em meio a um mundo efêmero
Não é só questão de gênero
Nem de homens ou mulheres

 O que vale é o ser humano
E sua dignidade
Vivemos num mundo insano
Queremos mais liberdade,
Pra que tudo isso mude
Certeza, ninguém se ilude
Não tem tempo, nem idade

Leia também no Barulho d’água Música: 

1101- “Acabou Chorare”, melhor disco já gravado no Brasil, faz a fama dos Novos Baianos sob as bênçãos de João Gilberto

Clique e ouça o último disco de Moraes Moreira:

Ser Tão

1297 – Autor de cinco álbuns instrumentais, Rafael Carvalho é referência maior da viola da terra dentro e fora de Portugal

Dedicado à música desde os 13 anos, músico que vive em uma das ilhas açorianas ganhou fama também como pesquisador e exímio docente, além de autor de trinca de livros com métodos para o instrumento

#fiqueemcasa

 

Paralelo 38 é um dos álbuns da discografia de Rafael Carvalho dedicado à viola da terra

O Barulho d’água Música graciosamente recebeu, enviados à redação pelo próprio Rafael Carvalho, cópias integrais dos cinco álbuns por ele gravados entre 2014 e 2019, todos instrumentais, e um deles duplo, com nada mais, nada menos, que 80 faixas! Rafael Carvalho, amigos e seguidores, é um jovem e carismático músico de não completados, ainda, 40 anos de idade (marca que conquistará em setembro próximo), mas em sua trajetória artística iniciada no viço dos seus 13 anos já se tornou em um dos maiores dinamizadores do instrumento que além-mar, onde ele vive, é popularmente conhecido por viola da terra, com o qual alcançou fama e por ele é hoje referência cultural e acadêmica, dentro e fora de seu país. Compositor, além de exímio docente e pesquisador dedicado, autor de uma consagrada trinca de livros os quais compartilha seu Método para Viola da Terra – Iniciação, Básico e Avançado, Carvalho é de Ribeira Quente, freguesia da ilha de São Miguel, uma das nove que formam em Portugal o arquipélago dos Açores.   

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1296 – Prepare saborosos pratos caipiras, ao som de modas de viola, com Rodrigo Zanc (SP)

Em torno de um fogão a lenha e ponteando canções autorais e de amigos de estrada, violeiro radicado em São Carlos compartilha com o público deliciosas receitas para deixar menos salgada quarentena imposta pela pandemia do coronavírus

Cantor e compositor residente em São Carlos, cidade do Interior de São Paulo a cerca de 240 quilômetros da Capital, Rodrigo Zanc como todo bom violeiro é inquieto e valoriza, por menor que possam parecer, todos os detalhes e elementos que tenham relação com a sua “verdade interior” — espelho nítido que dele reflete, entre outras qualidades ímpares, a intensa relação com suas raízes de homem nascido e criado, com orgulho, na roça, onde aprendeu a cultivar e prezar as nossas mais antigas tradições populares, em particular, dentro deste universo, a cultura caipira. Autor de dois álbuns que mesclam músicas deste gênero e sucessos da música popular brasileira e regional, integrante dos projetos 4 Cantos e Tributo a Pena Branca e Xavantinho, além de idealizador de Viola para Dominguinhos, Zanc também é apaixonado por gastronomia e como cozinha tão bem quanto toca e dá voz às suas emoções, decidiu aproveitar a quarentena provocada pela pandemia do coronavírus que o afastou temporariamente dos palcos para compartilhar em um de seus canais virtuais o programa Fogo e Viola.

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1295 – Déo Miranda (SE) abre o peito, mas em seu segundo álbum autoral bate duro contra nossas hipocrisias e mazelas do país

Sem medo de atacar quem precisa, falando o que pensa e o que sente, cantor e compositor sergipano vai do micro ao macro valendo- se da poesia, da sonoridade do rock e do linguajar regional nordestina para abordar temas cotidianos como violência urbana e política

O cantor, compositor e poeta Déo Miranda, residente há 14 anos em Mogi das Cruzes, cidade paulista situada na Região Metropolitana da Capital de São Paulo, lançou em julho do ano passado (como parte do 11º Festival de Inverno Serra do Itapety) Poesia Dura, Língua Ferina, Coração Justo. O álbum com 10 faixas é o segundo da carreira de Miranda, artista nascido em Aracaju, capital do estado do Sergipe, e na estrada desde 1989 atuando também como produtor cultural — à frente da Malungada Produtos Culturais, tornou-se idealizador, por exemplo, entre outras iniciativas, do Festival de Arte Popular do Alto Tietê. Poesia Dura, Língua Ferina, Coração Justo indica um momento de releitura do artista em relação à própria trajetória cujo embrião foi bandas de punk e hardcore como Cleptomania, Sublevação e Karne Krua, passando ao longo de seu amadurecimento pelo universo das cantorias e do regionalismo, que sempre fizeram parte de sua alquimia musical e estão entre suas paixões; neste gênero, destacou-se no grupo Batequejé e com o quarteto Cantadores dos Quatro Cantos, entre outros.

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1294 – Conheça Doze Cantos Ibéricos & Uma Canção Brasileira, premiado disco que remete às nossas origens

Gaúcho Martim César, um dos autores do álbum em parceria com Marco Aurélio Vasconcellos, tem mais de 80 prêmios pelo conjunto da prolífica obra musical e literária

Em 14 de março publicamos matéria especial sobre Além das cercas de pedra, um belo trabalho de registro e de divulgação da música nativista gaúcha, destacando um dos três músicos que gravaram o álbum –, o cantor e compositor Marco Aurélio Vasconcellos, que se juntou ao também cantor e compositor, poeta e escritor, Martim César, e ao violeiro, produtor artístico e arranjador do álbum, Marcello Caminha.

Vasconcellos, que fez parte do grupo Os Posteiros e é uma das vozes mais conhecidas e admiradas do Sul do país pelas emocionadas interpretações do que canta, foi quem enviou à redação do Barulho d’água Música um exemplar do Além das cerca de pedra, que a nós chegou acompanhado de Doze Cantos Ibéricos & Uma Canção Brasileira, sucesso anterior dele com César, mais as participações de Caminha (arranjos, contrabaixo e percussão). Elias Barbosa (bandolim) e Rafael Ferrari (bandolim em Sobre os telhados de Lisboa), gravado de março de 2015 a maio de 2016.

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