1342 -A famosa treta entre Caetano e Belchior

#MPB #CulturaPopular

Amigos e seguidores:

Em 22 de dezembro, Kerison Lopes, presidente da Casa do Jornalista de Minas Gerais, com sede em Belo Horizonte, e coordenador do Bloco Volta Belchior, que também tem sede naquela Capital, publicou o texto intitulado A famosa treta entre Caetano e Belchior que por ele autorizados reproduziremos abaixo e que revela um interessante aspecto em torno das obras dos cantores e compositores Belchior e Caetano Veloso, dois ícones da cultura popular do país. A íntegra do original, ilustrada pela dúbia efígie formada por parte dos rostos de ambos também utilizada nesta atualização , consta na página do Facebook de Lopes — tribuna para a qual ele redige e compartilha informações e mensagens diversas, dedicando aos amigos e seguidores valiosos conteúdos culturais entre os quais outros artigos que resgatam a genialidade e (por que não?) a geniosidade contida nas músicas do cearense, recentemente, por sinal, percebida e valorizada também pelo rapper Emicida no já aclamadíssimo e imperdível AmarElo.

O Bloco Volta Belchior é uma homenagem ao cantor e compositor Belchior e sua enorme contribuição à Música Popular Brasileira. Foi fundado em fevereiro de 2016, por jornalistas e artistas mineiros, reunidos no bairro de Santa Tereza. Fãs ardorosos do compositor e cantor cearense, eles decidiram reverenciar o artista, cantando suas canções, de grande beleza poética e reconhecido compromisso social. Os músicos adaptaram suas composições para ritmos carnavalescos para serem dançadas e entrar no ritmo da folia. O nome do bloco era uma referência ao fato de Belchior ter abandonado sua carreira e rompido com a sociedade, ausentando-se dos palcos e refugiando-se no Sul do país. Um clamor para que o ídolo voltasse aos palcos e reencontrasse sua legião de fãs. Com a more do cantor em abril de 2017, a responsabilidade do bloco é manter viva a obra de Belchior para as novas gerações. 

Escreveu Lopes que:

“Minha bolha virtual vai ao delírio com live do Caetano Veloso. São produções impecáveis e nos fazem celebrar a genialidade da sua obra. Mostram também como o baiano está sempre antenado com o momento, como é hábil em se adaptar às exigências do mercado da cultura e assim juntar centenas de milhares de pessoas numa grande audiência virtual.

Belchior sempre se incomodou com esse caetanismo camaleônico. O cantor cearense enviou críticas veladas a esse comportamento dentro de algumas de suas letras. Mais que uma divergência entre cantores, o debate de fundo se deu entre duas correntes musicais dos anos 70: o tropicalismo e a turma que ficou conhecida como Pessoal do Ceará.

Os mais atentos já conhecem as referências que Belchior fez a Caetano e sua obra. Numa delas, chega a citá-lo: “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua”, cantou na música Retrato 3×4, lançada no disco Alucinação de 76. Quando escreveu, Belchior morava literalmente numa rua da capital paulista, enquanto Caetano vivia o auge do tropicalismo com letras mais centradas no psicodelismo.

Na mesma toada, Belchior alfineta o tropicalismo na saga do Rapaz Latino Americano, também no disco Alucinação. “Mas sei que nada é divino / Nada / Nada é maravilhoso, nada / Nada é secreto, nada / Nada é misterioso / Não (…)”.

Com a peculiar astúcia nas palavras, Belchior apresenta neste hino do cara fodido brasileiro a crítica musical, política, estética que tinha em relação ao movimento musical dos baianos. No segundo verso da mesma música conta que traz “de cabeça uma canção do rádio em que um ‘antigo compositor baiano’ me dizia tudo é divino, tudo é maravilhoso”.

O pessoal que chegava do Ceará no Rio e em São Paulo (que teve como principais expressões Ednardo, Amelinha, Fagner, Belchior) considerava a Tropicália já ultrapassada e antiga e o seu psicodelismo exacerbado uma forma de fuga de temas mais políticos.

Como contraponto, Belchior se apegava no caminho do realismo: “Eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais, a minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, anunciou Belchior na música que deu título ao álbum Alucinação.

Pode ser que a treta entre Caetano e Belchior teve um ponto final com o artigo publicado um dia após a morte do bigodudo, quando Caetano mostra ter entendido e assimilado as críticas: “todas as citações a canções nossas que estavam em trechos de canções de Belchior me agradavam por estarem dentro de um timbre criativo sempre rico e instigante”. Caetano admite que a chegada à cena do “pessoal do Ceará teve como uma de suas marcas a intenção de exibir confronto com os tropicalistas”.

Se Caetano metamorfoseia aos ditames do mercado, Belchior saiu pela marginal e se perdeu nela, sendo caso raro na MPB de fuga da fama, da carreira, do seu eu. Belchior valeu-se do direito de desaparecer e rompeu não só com o show business, mas com a própria sociedade.

Inacreditável, mas quanto mais Belchior fugiu, mais foi encontrado pelas novas gerações que o escolheram como ícone. Os jovens fazem seus versos poéticos serem recitados em shows de seus intérpretes Brasil afora. Belchior está mais vivo que nunca. Já Caetano, será um eterno sobrevivente, pois sabe sempre se adaptar.”

Leia também aqui no Barulho d’água Música

846 – “Alucinação”, álbum que fez de Belchior mais do que apenas um rapaz latino-americano, completa 40 anos

944 – Medo: Belchior morreu. O que será de nós?*

1114 – Clássico do Mês: “Tropicália ou Panis et Circensis” completa 50 anos sob o signo da insolência

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