1355- Livro “Orixás no terreiro sagrado do samba” é ótima dica para amenizar quarentena sem folia

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Claudia Alexandre traz um “olhar desfragmentado” sobre a presença das tradições de matrizes africanas em expressões culturais que ajudam a construir o que chamamos de identidade nacional

A pandemia do novo coronavírus (Covid-19) está impedindo a realização de desfiles de escolas de samba e de blocos de ruas. Afora o comportamento irresponsável de poucos que ainda insistem em muvucar durante o período de folia — contrariando de forma preocupante as recomendações das autoridades sanitárias e projetando um crescimento do número de internações e óbitos provocados pela doença dentro de algumas semanas — mais a iniciativa da Vênus Platinada de reprisar desfiles antigos, quase não se sente o ambiente e o clima que contagiam Momo e seus seguidores neste período que deveria ser de congraçamento e festa populares. Ficar em casa segue sendo uma das medidas restritivas mais indicadas, logo, uma boa maneira de passar bem pela quarentena, para aqueles que a seguem, é ler. E uma boa sugestão que casa bem com o momento em que a fantasia, os confetes e a serpentina devem ficar guardados, é Orixás no terreiro sagrado do samba -Exu e Ogum no Candomblé da Vai-Vai, que a Editora Griot lançou no ano passado, escrito por Claudia Alexandre.

A obra mereceu destaque na Revista Raiz Cultura Brasileira, da qual extraímos, na íntegra, o texto desta atualização. O livro de Claudia Alexandre é uma narrativa sobre duas manifestações que sempre dialogaram: religiões afro-brasileiras e escolas de samba, segundo a jornalista e autora, Claudia Alexandre. A obra sugere um “olhar desfragmentado” sobre a presença das tradições de matrizes africanas em expressões culturais, que ajudaram a construir o que chamamos de identidade nacional. Vemos que, ao longo do tempo, o que era uma forma de perceber o mundo foi sofrendo rupturas provocadas por interpretações e ações hegemônicas. O que inclui o assombro da indústria cultural e as violências da intolerância religiosa. De qualquer forma, religar esses universos, tencionando o ambiente acadêmico e revisitando acervos das experiências negro-africanas em diáspora, também nos revela novos caminhos para (re) escrever a História do Brasil a partir da história dos sambas e das escolas de samba.

A autora, “devidamente” autorizada, adentrou a encruzilhada da escola Vai-Vai, um território negro paulistano onde reinam Exu, o orixá mensageiro, e Ogum, o guerreiro. Lá, encontrou um terreiro o qual as telas das televisões não são capazes de registrar. O carnaval negro não pode ser concebido sem os cultos ancestrais, porque há uma urdidura que os mantém em uma potente ligação.

A Grêmio Editora Recreativo Escola de Samba Vai-Vai foi fundada em 1º de janeiro de 1930 por um grupo de negros e, apesar das transformações inerentes ao tempo, ainda mantém um sistema religioso que ultrapassa os limites do sagrado/profano, em total conexão com os valores ancestrais. Nesse terreiro nada está separado: é o pavilhão preto e branco, com seus ramos de café e a coroa de rei; é o surdo de primeira, a divindade que dá o ritmo na avenida; mas é também o toque para os orixás, as procissões que embalam as ruas do bairro; são os altares para os santos das macumbas; é o pai de santo e é o quarto de Exu e Ogum. A africanidade se compõe para continuar desafiando as narrativas que insistem em colocar samba de um lado e orixás de outro.

Orixás no terreiro sagrado do samba – Exu e Ogum no Candomblé da Vai-Vai também evoca a ancestralidade para mostrar como outras linguagens e outras expressões foram reinventadas em redes de pensares, saberes, fazeres e negociações, que driblaram todas as tentativas cruéis de se fazer esquecer um passado ou para eliminar sujeitos de sua própria história.

O terreiro sagrado da Vai-Vai é lugar de reverenciar nomes de gente que reza e continua sambando entre os seus. É o encontro constante do passado com o presente, na trajetória de Pé Rachado, Geraldo Filme, Chiclé, Dona Nenê, Dona Marcinha, que ainda estão ali em todos os altares que são acesos por Fernando Penteado, Osvaldinho da Cuíca, Thobias da Vai-Vai e Sandrinha, que cuidam do quarto de Exu e Ogum.

O que eu encontrei na escola de samba Vai-Vai foi uma tradição que revive a matriz africana e surpreende porque está ali na encruzilhada de Exu, não apenas dando sentido identitário à comunidade, mas político e de resistência também. Os símbolos do Candomblé, envolvidos na rotina da festa, o calendário religioso, embalados pelos sambas formam um verdadeiro terreiro sagrado do samba em plena São Paulo”, disse a jornalista e pesquisadora Claudia Alexandre.

RELIGIOSIDADE OCULTA

O livro é fruto da dissertação de mestrado em Ciência da Religião (PUC SP/2017) de  Claudia. A autora, que tem vivências e trânsitos nos universos das religiões de matrizes africanas e nos sambas, apresenta, a partir de seu trabalho acadêmico, uma investigação sobre as origens das manifestações afro-brasileiras, desde os primeiros batuques, onde as práticas dos povos negros se confundiam entre o profano e o sagrado, até as passarelas do samba, onde destaca a experiência da comunidade negra que ocupou o famoso bairro do Bixiga, em São Paulo, e deu origem à Escola de Samba Vai-Vai. É nesse terreiro de samba que ela vai encontrar uma complexa relação entre os sambistas e os cultos do Candomblé. A Vai-Vai mantém um sistema religioso próprio, que possibilita em seu espaço de festa o culto aos orixás patronos da comunidade: Exu e Ogum.

A autora explicou: “Acho importante destacar que encontrei uma religiosidade na escola de samba Vai-Vai para além do resultado estético do espetáculo apresentado nos desfiles carnavalescos, algo que não se vê na tela da televisão. O olhar fragmentado, reproduzido pelos meios de comunicação, será incapaz de revelar o que sustenta a devoção daqueles sambistas no momento máximo da festa. Com certeza, ali a paixão transcende o componente e a escola de samba na passarela parece se transformar em um templo religioso.” É exatamente o que nos traz Edmilson de Almeida Pereira: “no decorrer dos desfiles das grandes agremiações, quando os meios de comunicação captam, em plano geral, a massa de anônimos e, em close, os personagens famosos do mundo do espetáculo, estão de fato captando uma fração do carnaval”.

O livro é dividido em três capítulos: O primeiro, Batuques e performances do corpo negro: onde resistiu sagrado e profano, explora alguns acervos da cultura afro-brasileira para descrever como práticas rituais dos negros escravizados romperam perseguições e opressões e se mantém em manifestações da cultura popular. Mostra como samba, a roda de samba e as escolas de samba ganharam as ruas e se espalharam em expressões culturais populares. Focaliza a cidade de São Paulo, incluindo um breve histórico sobre práticas rituais de Macumba, Umbanda e de Candomblé na capital paulista.

O segundo capítulo, Vai-Vai: um território negro, aborda a formação do Bixiga, bairro da região central de São Paulo, onde está localizada a quadra de ensaios, ou o terreiro de samba, do Grêmio Editora Recreativo Escola de Samba Vai-Vai. Investiga como a origem da agremiação carnavalesca se insere no contexto sócio político-cultural da cidade; aborda o valor da ritualidade indispensável para as práticas das tradições de matrizes africanas, que também estão presentes nas escolas de samba.

O terceiro e último capítulo, Exu e Ogum no terreiro do samba, volta-se para as práticas de Candomblé realizadas na escola, mostrando como o terreiro de samba é concebido pela comunidade como “terreiro sagrado”, onde há práticas de devoção aos orixás patronos.

O posfácio reverencia as matriarcas da tradição do culto a Exu na Vai-Vai, Mãe Nenê e Dona Marcinha, dando centralidade à figura da mulher nas tradições de matrizes africanas e também na constituição histórica das escolas de samba, remetendo a Hilária Batista de Almeida, Tia Ciata de Oxum (1854-1924), mulher negra, nascida em Santo Amaro da Purificação (BA), que se tornou um símbolo da formação das primeiras redes de solidariedade na cidade do Rio de Janeiro no século XIX, possibilitando a proteção para o surgimento do samba e, posteriormente, das escolas de samba.

IGUALDADE RACIAL

Claudia Alexandre, jornalista e apresentadora de Rádio e TV, é especialista, mestre e doutoranda em Ciência das Religiões pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo Foi assessora especial da Fundação Cultural Palmares (MinC) e assessora de comunicação do Museu Afro-Brasil e da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP). Como locutora da Transcontinental FM, despontou como a principal voz feminina negra das rádios paulistanas. Em 2018, criou a plataforma digital br Brazil Show (@brbrazilshow), na qual produz conteúdo e apresenta o programa Papo de Bamba. É colunista do programa O Samba Pede Passagem (USP FM) e foi comentarista de Carnaval da Globonews SP (2019-2020). Afro empreendedora, dirige a agência Central de Comunicação. Integra a Comissão dos Jornalistas pela Igualdade Racial SP (Cojira) e os coletivos Acadêmicas do Samba e Mulheres do Axé do Brasil. É autora, também, dos livros Na fé de Vivaldo de Logunedé: um pouco do Candomblé na Baixada Santista (Secult Santos) e Vai-Vai: orgulho da Saracura (AB Editora). Também pesquisa a vida de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata. Conheça mais sobre a autora em @claualex16.

MAIOR CAMPEÃ PAULISTA

O Grêmio Recreativo Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai é uma das principais agremiações do Carnaval Brasileiro e a maior campeã do Carnaval de São Paulo, com 9 títulos como Cordão, 15 títulos do Grupo Especial e 10 vice-campeonatos. Em 2020, venceu a disputa do Grupo de Acesso 1 e ao lado da vice, Acadêmicos do Tucuruvi, recuperou seu lugar na elite do samba paulistano.

A escola é oriunda de um grupo de sambistas que animava a beira de campo nos jogos de um time de futebol dos anos 1920, o Cai-Cai. Sempre vistos como penetras e arruaceiros, sendo apelidados de modo jocoso como “a turma do Vae-Vae”, expulsos do Cai-Cai, eles criaram o Bloco dos Esfarrapados, e paralelamente, o Cordão Carnavalesco e Esportivo Vae-Vae, que foi oficializado em 1930.

O nome “Saracura”, sempre associado à escola, deriva do riacho que corta o bairro do Bixiga e tinha essa ave de pernas finas ocorrendo de forma abundante em suas margens. As cores do Vai-Vai são as mesmas cores do time Cai-Cai, invertidas, ou seja, se o Cai-Cai era branco e preto, o Vai-Vai fixou as cores em preto e branco*. Os símbolos são uma coroa e ramos de café. A Coroa simboliza a realeza e a magnitude da raça negra, naquela época era comum os negros se tratarem carinhosamente de “Oi Meu Rei!, Oi Minha Rainha!”, e os ramos de café simbolizam a maior fonte de riqueza econômica de São Paulo naqueles idos.

Uma vez que os desfiles das escolas de São Paulo foram oficializados em 1968, os cordões ainda tentaram resistir durante três anos, porém foram forçados a se adaptar à época, e em 1972, o cordão Vai-Vai se transformou em escola de samba. Na bateria foram introduzidos instrumentos leves como tamborim, pandeiro e cuíca, além do andamento e batida de samba, que se tornaram mais leves e com mais balanço. O estandarte cedeu lugar ao pavilhão e então nasceram a comissão de frente, a ala das baianas e as alegorias de mão.

As fantasias perderam seu peso tradicional e a evolução ficou mais dinâmica. Surgiu então a figura do Criolé, a imagem e semelhança de outros tantos crioulos do Bixiga. Ele é um símbolo, uma identidade, caricatura do próprio sambista da saracura, aquele que personifica a escola ao vestir-se de suas cores – o preto e o branco; ele é a fantasia, a alma do Vai-Vai, figura que passou a acompanhar a escola tanto nas glórias como nas dificuldades. O Vai-Vai é a maior e mais tradicional escola de samba de São Paulo, acumulando 9 títulos como Cordão, 15 títulos do Grupo Especial e 10 vice-campeonatos, motivo de orgulho para uma agremiação, cuja história se confunde com a história da cidade e do carnaval paulista.

*A escola sempre deve ser tratada no masculino “o Vai-Vai”, em referência ao Grêmio Recreativo, evolução do Cordão.

Serviço

Orixás no terreiro sagrado do samba –Exu e Ogum no Candomblé da Vai-Vai

Autora: Claudia Alexandre/Prefácio: Vagner Gonçalves da Silva (FFLCH/USP)

Apresentação: Thobias da Vai-Vai (Presidente de honra)

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