1391 – Milton Guapo (MT) lança, pela Kuarup, álbuns com Orquestra de Mato Grosso e regência de Leandro Carvalho

#MT #Berrante #MúsicaPantaneira #PantanalMT  #Rasqueado #Cáceres #OEMT #CulturaPopular #BrasilProfundo

O Berrante Pantaneiro e Pantanal Sinfônico já podem ser ouvidos exclusivamente nas plataformas digitais

Já está disponível nas plataformas digitais O Berrante Pantaneiro, álbum do músico Milton Guapo, em parceria com a Orquestra de Mato Grosso (OEMT), lançado pela produtora e gravadora Kuarup. As composições são de autoria de Guapo, nascido em Cáceres (MT), e trazem como “solista” o berranteiro Chico do Berrante, que entoa seu instrumento de trabalho junto com a OEMT para acompanhar os movimentos da sinfonia. Guapo é um pesquisador da cultura mato-grossense, em especial a da Baixada Cuiabana e do Pantanal e, certo dia, sentiu uma vibração que mais parecia o eco de um cânone das escalas e modos que ouvia quando criança.

O Berrante Pantaneiro apresenta quatro movimentos inspirados em toques característicos do instrumento: Toque de Debandada (primeiro toque da madrugada, que estimula a boiada a andar); Toque de Agradecimento (gratidão ao fazendeiro que permitiu a pernoite da comitiva e dos bichos em suas terras ou porque comprou o gado e o está levando para outro lugar; ainda pode ser um toque tradicional para o gado não emagrecer); Toque Aviso de Perigo (alerta os peões, ajuda a distrair os animais para perigo eminentes, como a aparição de onças, cobras ou enxame de abelhas); Toque Pasto, Sombra e Água Fresca (quando o ponteiro, peão que segue à frente dos demais, encontra um pasto bom para descansar ou pernoitar. O toque convence o gado a parar).

As partes de O Berrante Pantaneiro foram escritas em 2002 e gravadas em 2010 inspiradas nestes diferentes toques de berrante, dispositivo feito de cornos de animais, eficaz na orientação, defesa e comando do gado, muito utilizado por vaqueiros para conduzir boiadas e se comunicar à distância. A responsabilidade de gravar empunhar o berrante em meio a violinos, violas, violoncelos, contrabaixo e percussão ficou para um dos mais folclóricos tocadores, o ex-peão cacerense Chico do Berrante. O Chico possui o maior berrante do mundo, com 1,65 metros de comprimento e 50 cm de boca. Já foi duas vezes campeão do concurso de berrante em Barretos (SP), a maior festa de peão do Brasil, disse Milton Guapo.

O berrante é um instrumento de sopro, de grande e médio porte, dotado de escalas e tonalidades distintas capaz de emitir códigos de comunicação com os animais e entre os peões, como o toque de abertura da porteira, retirada da querência, balanço da boiada, aviso de encruzilhada, dentre outros. “Tem também o toque de pastoreio, que significa a sequência da viagem, pondo o gado no estradão novamente. Mas, o bonito mesmo é o fim da jornada, o toque de debandada, que indica que os vaqueiros vão voltar para casa depois do trabalho cumprido”, explicou Chico do Berrante.

Neste álbum está, também, o poema sinfônico Dança Fantástica da Chapada, que Guapo compôs em Chapada dos Guimarães (MT) no começo da década dos anos 1990. Havia nessa época muitos acontecimentos na região: morte súbita de amigos, novas descobertas de sítios arqueológicos, contato com Objetos Voadores Não Identificados (OVNI) e outros. Esse tema foi coreografado nessa mesma época pelo bailarino Paulo Medina e depois gravado no álbum Pantanal Branco e Preto, com novo arranjo de sua autoria e orquestração do músico Ítalo Perón. A música ganhou um brilho especial com a regência do maestro Leandro Carvalho e a OEMT. Já o último tema, Remansos (Suíte Para Violão Solo), foi trilha composta para o vídeo Baile Pantaneiro do cineasta Amauri Tangará e que levou o melhor tratamento com o toque do exímio violonista Bruno Pizaneschi.

Sobre as Músicas

I – Dança Fantástica da Chapada Poema Sinfônico

Conotação descritiva e abstrata de Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, com sua beleza, seus mistérios, sensualidade e misticismo. O cânone desta música mostra uma sombra melódica na qual a harmonia se transforma em melodia e vice-versa, como se houvesse uma intersecção da realidade e de outra dimensão. No final, tudo se funde no som de um disco voador.

II – O Berrante Pantaneiro – Sinfonia Leitmotiv em 4 movimentos

1º – Debandada

Amanhece e o berrante toca para a comitiva sair campo afora. Trote, poeira e gritos dos vaqueiros entrelaçam e a boiada toma rumo no comando do peão ponteiro.

2º Agradecimento

Já distante da fazenda, o berranteiro toca agradecendo ao fazendeiro pelo bom negócio da venda do gado ou pela cortesia do pernoite em seu campo.

3º – Cuidado! Perigo Espreita

A comitiva caminha uniformemente quando o berrante do ponteiro toca para avisar que uma onça, cobra, enxame de abelha ou outro tipo de perigo qualquer está por perto e pode fazer o gado estourar. Nesse momento, os estalos de rebenques e os trotes rápidos se mobilizam para que a boiada não perceba o perigo. Logo adiante, o perigo passa e a comitiva volta a caminhar uniformemente.

4º – Pasto, Sombra e Água Fresca

Ao avistar um corixo (braço de rio), uma boa sombra e um bom pasto, o berrante do ponteiro toca para parar o gado. É hora de “matular” (comer), beber e descansar um pouco, tanto os peões quanto o gado. Se for no entardecer, prepara-se para acampar no lugar. É nessa hora que o violão, a viola de cocho e o ganzá tocam rasqueados, chamamés, siriris e cururus e os peões cantam para se distraírem

III – Remansos Suíte Folclórica

Suíte de reminiscências da musicalidade platina em forma livre, mostrando o gorjeio de pássaros no amanhecer e a fragrância da quietude dos remansos dos corixos no palpitar da vida na beira do grande Rio Paraguai.

Testemunho autóctone

Outro trabalho de Guapo e a OEMT, com regência de Leandro Carvalho, também está disponível nas plataformas digitais com o selo da Kuarup, Pantanal Sinfônico. Nesta obra, o compositor, com orquestração de Ítalo Peron, pretende emitir um “testemunho autóctone” da alma da região, baseando-se nas próprias raízes de filho da beira do rio Paraguai e descendente de estirpe pantaneira com mais de dez gerações.

A Sinfonia Nativa Rio Paraguai em Quatro Movimentos e Canto Guacho retratam o cavalo pantaneiro e o ribeirinho diante da ameaça furtiva que o Pantanal vem sofrendo. O álbum também retrata e homenageia o patrono das Armas da Comunicação do Exército Brasileiro Marechal Cândido Rondon, ainda pouco conhecido do grande público. Guapo compôs para o militar Rondon, Transcendência de um Avatar, utilizando gravações de telégrafos e temas indígenas para retratar a saga do Marechal pelos interiores do país. O Rasqueado Contemporâneo, obra de Guapo em parceria com Marcos Levi, visita este gênero típico da região, com arranjo para cordas e solo de trompete do próprio Levi.

1º Nostalgia: Um guri a beira do rio que sentia que a vida era um labirinto de renascer, num tempo em que som de bandoneon, violão e o movimento de barcos e pequenas canoas faziam parte do seu dia a dia. Essa reverberação nostálgica ainda permeia o cantar desse guri até hoje.

2ª As Alegres Lavadeiras: Numa espécie de suíte antropológica, esse tema busca o cantar espontâneo das lavadeiras do rio Paraguai. Elas não cantam numa certa hora do dia tal como os pássaros. Elas cantam quando se sentem agraciadas por algum acontecimento pessoal, por se sentirem felizes, ou quando estão com o coração partido, por algum amor não correspondido, ansiando pela distância do seu bem querer. Foi a estampa mais antiga e, que hoje praticamente desapareceu. Dedicado à mãe Maria de Lima Pinho.

3ª Transformações e Incertezas: É uma insinuação minimalista que procura vislumbrar a ameaça da “marcha do progresso”, com a construção de portos para veiculação de barco de grande porte, o qual é visto pela população ribeirinha como um futuro incerto e possível genocídio do rio e da cultura local.

4ª Eterno Caminho Platino: A esperança em forma de uma agreste, com harpa paraguaia, irrompe neste último movimento para caracterizar a “platinidad”, o jeito doce e cáustico do temperamento local. E é finalizada com a incidência do som do Pericón, um folguedo cultuado no Paraguai, na Argentina e no Uruguai e que deixou pós-Guerra do Paraguai suas marcas na tradição do grupo folclórico Flor Ribeirinha, da comunidade de São Gonçalo Beira Rio em Cuiabá, através do violinista já falecido, Antônio Lopes.

5ª Rondon, Transcendência de um Avatar: É um hino alusivo ao maior sertanista mato-grossense que colocou o Brasil inteiro em comunicação, ao espalhar as linhas telegráficas em toda fronteira Leste do país. Grande líder que falava 19 idiomas indígenas além do inglês, alemão e francês e, que no começo do século XX, demonstrou junto com o já falecido ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, a maior lição de humanismo e empreendimento para a era de comunicação à distância que estava apenas começando.

6ª Canto Guacho, tema musical originalmente cantado, mostra um canto de exaltação do compositor diante da depredação de um dos rios nos quais ele se banhara na infância.

7ª Rasqueado Contemporâneo: Composição de vanguarda do músico também mato-grossense Marcos Levi de Barros, o qual faz uma elaboração para orquestra com a dança popular rasqueado cuiabano. Pela primeira vez uma obra regional na modalidade da escola contemporânea foi gravada e mostrada pela OEMT. É dedicada ao compositor e professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Roberto Victório.

Nascido em 1951, Milton Pereira de Pinho Guapo é filho de pai violeiro e tio cantor, que se expressava em várias línguas como o português, espanhol e guarani. Sua avó paterna, Yolanda Widal de Pinho, era pianista, o avô materno, Zacarias Pereira de Lima, cururueiro (violeiro folclórico). Guapo teve uma educação musical bem colocada pelo pai professor, matemático e físico, que considerava importante educar os ouvidos com todo tipo de música, para distinguir a qualidade.

A vivência no Pantanal somada à riqueza sonora dos pássaros e dos animais, bem como o meio popular com bailes, festas de santo e outros festejos populares, influenciaram Guapo. Da mãe, Maria de Lima Pinho, lavadeira ribeirinha, herdou e aprimorou o gosto popular pelas lendas e mitos ribeirinhos. A mistura da influência paterna e materna provocou o vivo interesse pela ciência e pela sensibilidade do conhecimento empírico popular, que lhe suscitou o jeito autodidata de músico e pesquisador.

Com 18 anos, Guapo começou a tocar violão e nunca mais largou o parceiro. Depois, viveu em Goiânia (GO) e na cidade do Rio de Janeiro (RJ) onde pesquisou o samba no Morro do Estácio. Em 1976, mudou-se para a capital de São Paulo e tornou-se funcionário da extinta Ferrovia Paulista S/A (Fepasa). Conheceu a música sertaneja de raiz e nas férias de trabalho pesquisou a música latino-americana, buscando as origens dos rasqueados mato-grossenses, viajando pelo Paraguai, Argentina e Bolívia.

Em 1985, já em Cuiabá (MT), Guapo uniu seus conhecimentos com Vera Bagetti, Zuleica Arruda e Marques Caraí, nascendo daí a ideologia musical Vanguarda Nativista. Depois de representar Mato Grosso em várias partes do país e no Exterior, em 1994 suas músicas Canto Guacho e Velho Chamamé foram trilhas musicais do seriado A Lenda, da extinta TV Manchete, dirigida por Marcos Schechtman (hoje diretor na Rede Globo). Em 1996, gravou seu primeiro disco, Pantanal Branco e Preto. Em 2000, saiu o segundo, Resto de Guarânia.

Guapo é o compositor de várias trilhas musicais para cinema, como Animando o Pantanal, pelo Núcleo de Cinema de Campinas (SP), premiado na China no Festival Anima Mundi (1990). Também fez trilha para os filmes Rondon, o Último dos Bandeirantes; Baile Pantaneiro; Divisão de Mato Grosso; e O Poeta Silva Freire, dentre outros. É autor do livro Remedeia no qual há mapeamento histórico musical da composição mato-grossense. Idealizou e coordenou o projeto Rua do Rasqueado para resgatar a dança popular mato-grossense. Foi o primeiro músico do estado do Centro Oeste a representá-lo no evento Mato Grosso States Cultural, realizado em novembro de 2005, em Washington DC, capital norte americana, com o recital Searching For The Lost River, fechando a quinzena cultural de Mato Grosso nos Estados Unidos.

Leandro Carvalho, regente principal e diretor artístico da OEMT, é conhecido por sua vitalidade e abordagem singular de ampla variedade de repertórios, considerado um dos mais proeminentes maestros brasileiros da nova geração. Apontado como um dos dez artistas de maior importância na última década na música de orquestra no Brasil pela revista Viva Música!, uma das principais publicações do setor, Leandro é um dos fundadores da Orquestra do Estado de Mato Grosso.

Em 2013 e 2014 fez residência artística (conducting fellowship) na prestigiada Philadelphia Orchestra, nos Estados Unidos da América, e de 2011 a 2013 foi regente assistente na Orquestra Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro, quando teve a oportunidade de dirigir concertos com grandes solistas como Daniil Trifonov, Simone Dinnerstein, Lenine e Gilberto Gil. Com a Orquestra de Mato Grosso, de 2005 a 2016, sob sua direção, foram apresentados mais de 600 concertos, distribuídos em diferentes séries, em diversos municípios de Mato Grosso e do Brasil, com destaque para duas grandes turnês realizadas em 2008 quando a OEMT apresentou 162 concertos em 92 cidades de 22 estados brasileiros. Com a OEMT, Leandro Carvalho gravou 15 discos e quatro DVDs com obras inéditas e de compositores consagrados, também com grandes instrumentistas como Yamandu Costa, Turíbio Santos, Antonio Del Claro, Emmanuele Baldini, Roberto Corrêa, Pablo Agri, Carlos Corrales, Ivan Vilela e Renato Teixeira entre outros.

Com pouco mais de uma década, a OEMT, criada no coração da América Latina, encontrou espaço entre as mais importantes orquestras brasileiras. Liderada pelo maestro Leandro Carvalho, a OEMT quebrou os paradigmas da música de concerto ao combinar o repertório tradicional com novas composições e arranjos em que os instrumentos da cultura popular mato-grossense como a viola de cocho são utilizados. A bem-sucedida mistura rendeu reconhecimento imediato e estabeleceu uma forte conexão com o público. Em pouco mais de uma década, a Orquestra de Mato Grosso gravou 15 álbuns com alguns dos mais destacados solistas em atuação no Brasil.

BADEN POWELL, RENATO TEIXEIRA, NEY MATOGROSSO.

Especializada em música brasileira de alta qualidade, o acervo da produtora e gravadora Kuarup concentra a maior coleção de Villa-Lobos em catálogo no país, além dos principais e mais importantes trabalhos de choro, música nordestina, caipira e sertaneja, MPB, samba e música instrumental em geral, com artistas como Baden Powell, Renato Teixeira, Ney Matogrosso, Wagner Tiso, Rolando Boldrin, Paulo Moura, Raphael Rabello, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Elomar, Pena Branca & Xavantinho e Arthur Moreira Lima, entre outros.

Além desta eclética galeria de cantores e duplas cujos trabalhos já lançados formam o acervo de álbuns, também é possível ao internauta que visita o portal da Kuarup, entre outras atividades no campo da produção cultural, saber pela guia Notícias as novidades que estão chegando para reforçar este precioso catálogo e, ainda, ouvir 52 seleções de músicas disponíveis na plataforma Spotify (playlists) apresentadas por temas e recortes dos mais diversificados, revelando a riqueza de sonoridades e de gêneros que a empresa guarda. Uma das preferidas aqui na redação do Barulho d’água é Encantos da Nossa Terra – o Cancioneiro Luso Brasileiro (clique no nome da lista para ouvi-la). 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s