1403 – Carlinhos Ferreira (MG) lança Fragmentos e Trilhas, álbum concebido em retiro espiritual no Caparaó capixaba

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Disco que sai pela Quae Música é o quarto da carreira do compositor e percussionista e foi produzido durante seu recolhimento em uma das regiões mais marcantes do Brasil, entre o ES e MG 

O percussionista e compositor mineiro Carlinhos Ferreira acaba de disponibilizar neste domingo, 20, em todas as plataformas digitais, Fragmentos e Trilhas, seu quarto álbum de carreira e o segundo solo, pela Quae Música. As nove faixas, todas instrumentais, foram geradas aproveitando os rigores da pandemia da Covid-19 durante retiro espiritual e artístico de cinco meses do músico na porção capixaba da Serra do Caparaó — uma extensão da Mata Atlântica cercada por belezas naturais e que abriga o Parque Nacional do Caparaó, área que se tornou famosa no final da década dos anos 1960 por concentrar atividades de um dos primeiros grupos guerrilheiros de enfrentamento ao nefasto regime militar que se manteve no país até 1985. A utilização nos arranjos de diversos instrumentos musicais presentes no Brasil e em outros países (de cordas, de sopro e de percussão, alguns artesanais, por exemplo) que buscaram captar esta atmosfera mágica, de resistência e de transcendência resultou em um álbum definido pela cantora, escritora e compositora Consuelo Maryákoré de Paula como um “grito de vida”, um trabalho em tempos de isolamento e de pandemia “pra se ouvir com urgência”.

Ainda no Espírito Santo e, portanto, em seu recolhimento, Carlinhos Ferreira disse recentemente ao Barulho d’água Música que meu trabalho solo sempre é imagético, Fragmentos e Trilhas, entre as referências existenciais e espiritualistas do músico que lhes conferem uma vibrante e até certo ponto perturbadora energia musical –, é um relicário de impressões e de signos capazes de nos transportar a universos místicos e sagrados ao mesmo tempo em que nos revela o que pode haver em comum no homem — do sertanejo ao chinês, do índio ao beduíno, do negro ao agricultor mexicano ou boliviano, do solitário esquimó ao eslavo ou caucasiano; elementos tanto genéticos, quanto culturais que nos constituem há gerações e nos tornam uma espécie/entidade única, apesar das peculiaridades de cada povo e dos lugares e períodos em que vivemos.

De quebra, já que a sensibilidade de Carlinhos Ferreira as extrai também do inanimado e de elementos como a água, por exemplo, as músicas de Carlinhos Ferreira podem ser ouvidas, ainda, como um potente manifesto a favor da conservação ambiental e da sobrevivência sustentável em todos os cantos do planeta, calcado em práticas e modelos de desenvolvimento e de economia que, para além dos mercados, não destruam este tênue fio que a tudo une e a todos permitem existir, seja qual for sua forma de estar no mundo e a sua contribuição para o equilíbrio da Terra.

A música de Carlinhos Ferreira tensiona e, amplificando o conceito visual que permeia as faixas para que sejam percebidas para além da simples audição da “massa sonora”, mais do que aguçar ouvidos, parece produzida para cutucar e ajudar a descortinar retinas e cenários, a fazer-nos enxergar e, enxergando mais profundamente, tomar partido. “Quando você ouve meu trabalho, também pensa logo em vídeo, em uma trilha para o cinema”, emendou  “Não consigo fazer diferente. E nesses cinco meses que eu estou aqui no Caparaó fiz uma busca nas gavetas que estavam fechadas, busquei arquivos das minhas pesquisas sonoras, pois gravo sons por onde ando”, contou. O novo disco traz referências, informações e elementos dos cinco continentes, que sempre faço questão de ressaltar: as matrizes da humanidade africana, árabe, asiática, latina e indígena”, observou. “Os elementos delas elas estão por toda a parte, misturados, então Fragmentos e Trilhas trará todos essas texturas”. Exemplificando: “Quando eu falo do Sertão, por exemplo, falo do lugar com influência árabe e influência moura; quando me refiro à África estou respirando toda influência que a mãe áfrica deixou na nossa cultura”. Para finalizar, afirmou: “E nunca me esqueço da pitada asiática, pois são culturas das quais a gente não fala muito abertamente, mas que estão presentes no nosso caldeirão”.

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CARISMA E MAIS CINCO COMPETÊNCIAS

Carlinhos Ferreira, além de primoroso percussionista, é pesquisador incansável e perspicaz das manifestações da cultura popular, da origem, história e diversidade dos ritmos brasileiros. Sobre o primeiro álbum dele, Percuciência (2007), A produtora cultural Tela Fonseca escreveu para a página social do músico que Ferreira realiza uma obra cuja estética inovadora e inspirada o levou para além do lugar comum da composição.

Sua sensibilidade para os sons naturais do mundo, do cotidiano, até aqueles fadados à extinção, e sua delicada e profunda experimentação de objetos percussivos criou uma trama harmoniosa e criativa, como o trabalho dos mestres que reverencia neste belo disco”, apontou Tela Fonseca. “O repertório do CD, como na tradição griot, vai contando histórias e traz para o imaginário do ouvinte vários universos culturais e afetivos que revelam e remontam nossa identidade brasileira: o índio, o africano, o europeu, o árabe, assim como as manifestações do congado, do coco, do baião, do samba e outros. Todas as canções trazem temas relevantes e situam nossa história”, puxando os fios de nossas influências árabes, enaltecendo o encontro do negro com o índio em plena natureza de florestas e animais ou, ainda, conectando-nos diretamente com a pureza e alegria da infância, revigorando nossa criança interna.

Para além deste primeiro álbum, quando está no palco a presença forte e bem humorada de Carlinhos Ferreira costuma marcar as plateias, deixando além do encantamento de sua música uma consciência da ancestralidade e dignidade do povo que compõe o Brasil e de nossa privilegiada cultura, carisma que ele exprime também no dia a dia, em contato com os amigos e fãs em uma prosaica roda de conversa ou fortuito encontro pela rua. A sua trajetória profissional como mago da percussão começou em São Paulo, em 1985, e desde então a música faz parte de seu cotidiano e é objeto primordial da vida de um artista cujo versátil perfil conjuga outras cinco competências: o percussionista, o pesquisador, o professor, o compositor e o diretor musical.

Como percussionista, Ferreira já fez vários concertos e animou cantorias acompanhando Chico Lobo, Pereira da Viola, Pena Branca, Renato Teixeira, Fernando Sodré, Rubinho do Vale, Xangai, Wilson Dias, Grazi Nervegna, Consuelo de Paula, Déa Trancoso, entre outros.

E tem firmado parcerias e gravações nos discos de artistas mineiros e nacionais, dentre os quais Cantoria Brasileira indicado ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes Brasileiras, gravado com um expressivo time de artistas tais como Elomar, Xangai, Teca Calazans, Heraldo do Monte, Pena Branca, Chico Lobo, Paulo Sérgio Santos e Renato Teixeira. Carlinhos participou, ainda, de forma ímpar, do Coral das Lavadeiras, composto de mulheres do Vale do Jequitinhonha, com direção de Carlos Farias, num trabalho que encanta pela verdade de suas vozes e histórias. Com elas, gravou também Batuquim Brasileiro e Aqua, participando do Festival de Arte, Criatividade e Recreação de Funchal, na Ilha da Madeira, em Portugal.

Na Itália, Carlinhos Ferreira se apresentou com o grupo Vozes das Gerais, do qual fez parte, relançando Paixão e Fé, pela Editora Ítaca, primeiramente lançado pela gravadora Kuarup, no Brasil, com canções recolhidas da música popular que fazem um trajeto pela paixão e fé brasileiras. Junto ao violeiro Chico Lobo esteve em Xangai (China) na Expo Xangai, onde realizaram nove concertos. Acompanhou ainda em turnês Pereira da Viola em Portugal, Venezuela, nas Ilhas Canárias (Espanha) e, em Cuba, tocou com o grupo Solera no Festival Festa do Fogo.

O pesquisador recolhe sonoridades presentes na nossa eclética cultura popular. Viveu 15 anos em Belo Horizonte (MG) onde, sempre atento, registrou, refletiu e se posicionou de forma singular sobre o universo das raízes brasileiras. É deste universo que segue traduzindo as mais belas formas de expressão a partir dos ensinamentos que vem dos mestres de folia, congo, catira, cateretê, cururu, entre outros ritmos, sem desrespeitar suas particularidades religiosas, tradicionais, hereditárias e de organização musical.

Foto: Daniel Kersys

PESCADOR DE SONS E DE RITMOS

Carlinhos Ferreira é um incansável pescador de sons e ritmos. Mas Carlinhos tem algo que me encanta sempre mais: seu interesse profundo pelas pessoas. Seu olhar apaixonado pela vida de Seu Sinval da Costa, Seu Nelson Jacó, Valdomiro Gomes de Almeida, Seu João do Linomar, Mestre Caçapava, e tantos outros mestres, o que me faz acreditar que é nas pessoas que moram os sons da vida de Carlinhos. E isso se reflete no seu trabalho”, declarou Marcela Bertelli, gestora cultural que, em 2015, gravou com ele Cantos de Trabalho, juntamente com os demais integrantes do Grupo Ilumiara: Alexandre Gloor, Letícia Bertelli e Leandro César. Outro disco de Carlinhos Ferreira é Folia de uma Natal brasileiro, com Chico Lobo e Gilson Peranzetta, lançado em 2014.

Ampliando sua visão e seu repertório, Carlinhos Ferreira faz contato com a cultura popular de outros povos, como a afro-cubana e a árabe ao passar pelos países de Cuba, Marrocos e Espanha e, como professor, fora da quarentena imposta pelo coronavírus, promove oficinas e palestras sobre o fazer musical e a percussão. A base de seu trabalho gira em torno do conceito da “desconstrução” de ideias preconceituosas sobre o talento para a música. Trabalha com alunos de qualquer idade e mostra que a música é uma linguagem universal e ao alcance de todos. Relatos dos que passaram por suas oficinas são sempre eloquentes ao afirmar como se sentiram bem, aceitos e capazes, ultrapassando o aprendizado da linguagem e conquistando a atitude para uma vida com maior autoestima.

A face de compositor que reacende com Fragmentos e Trilhas foi responsável pela concepção percussiva da trilha sonora da minissérie Palmeira Seca e do disco Palmeira Seca Chico Lobo e Convidados, relançado pelo selo Karmim, de Belo Horizonte. Junto com o conterrâneo Zeca Collares, Carlinhos Ferreira concebeu a trilha original do documentário Muita Gente Desconhece, sobre a vida do poeta cantador maranhense João do Vale. O filme ganhou o Festival de Gramado, em 2008, como melhor documentário independente e sua trilha foi premiada como melhor trilha original no 29º Guarnicê – Festival de Cinema e Documentário de São Luiz do Maranhão. São dele os arranjos de percussão para o disco Beira Mar Novo, do Coral Trovadores do Vale de Araçuaí (MG).

Percuciência, seu primeiro trabalho solo, me faz rever conceitos que, às vezes, ficam enjaulados, de como a música realmente é uma linha direta do coração para a vida”, disse Chico Lobo. “Carlinhos tece uma linha sutil que costura mundo árabe, com península ibérica, com África que resulta em Brasil. Para mim, Percuciência é, sem dúvida, emoção, sensibilidade na ponta dos dedos, palma das mãos, pés e voz, é brasilidade pura. Uma conexão com a história, com o mundo que há muito não ouvia”, completou Chico Lobo.

Como diretor musical, Carlinhos Ferreira aparece nos álbuns Historias de Nossa Gente e Primavera de Histórias, de Sandra Lane. Para ela, Carlinhos Ferreira “é incansável e buscador, multiartista que está sempre se superando, disponibilizando sua arte e saberes para o deleite daqueles que apreciam trabalhos singulares e de qualidade.”.

Fragmentos e Trilhas, portanto, chega embalado pelo currículo espetacular de Carlinhos Ferreira e, para torná-lo ainda mais admirável, o álbum contará com a seguinte apresentação por Consuelo Maryákoré de Paula:

Carlinhos desenha a alma do seu lugar e portanto, conversa com o espírito do mundo.

Caparaó, Mãe, Xonim, TAO, Ashuca ngo ngoli, Sol, Iroko, Sertão e Treze Rosas. Nove faixas construídas com camadas e texturas sonoras absolutamente assinadas pelo autor e músico em sua plenitude.

Um CD pra se ouvir com urgência. Foi criado durante o isolamento necessário que esse nosso tempo comandou. Carlinhos fez seu retiro na mata do ES e expressou seus ritmos mineiros com absurda beleza. Ele fez um solo gigante. Um grito de vida. Um som que atinge o pico das montanhas e circula amorosamente dentro de nós. Um som que é um presente pro nosso corpo. Um gesto que só quem atingiu o ponto alto de seu ofício é capaz de fazer.

PARAÍSO E LUGAR DE RESISTÊNCIA

Localizado na Serra do Caparaó, na divisa dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, o Parque Nacional do Caparaó é um dos destinos mais procurados pelos adeptos do montanhismo no Brasil. Abriga o terceiro ponto mais alto do País, o Pico da Bandeira, com 2.892 metros de altitude. Além das trilhas, os visitantes podem se deliciar com banhos em cachoeira e piscinas naturais, observar deslumbrantes paisagens visuais da Serra do Caparaó e região, com belos espetáculos no alvorecer e no pôr do sol.

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Quem visita o Parque Nacional do Caparaó aproveita entre as atrações cachoeiras e piscinas naturais, nas quais podem tomar banho e se refrescar (Foto: Acervo ICMBio)

O Parque dispõe de quatro áreas de acampamento pela portaria de Alto Caparaó (MG) – “Tronqueira” e “Terreirão” – e pela Portaria de Pedra Menina (ES) – “Macieira” e “Casa Queimada”, com sanitários, lava-pratos, mesas, bancos e quiosques (estes últimos apenas na “Tronqueira”) e, ainda, churrasqueiras na área de visitação denominada “Vale Verde” e na “Macieira”.

Caminhadas em áreas de florestas e, especialmente, pelos campos de altitude são outras atrações do local.

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A localização e o relevo do Caparaó favoreceram os treinamentos de grupos de resistência ao regime militar e formam uma das paisagens mais visitadas do Brasil (Foto: Acervo ICM Bio)

A região no entorno do Parque Nacional do Caparaó também guarda relatos históricos da chamada Guerrilha de Caparaó, articulação revolucionária que ocorreu entre o final de 1966 e o início de 1967. O site do ICM Bio informa que, provavelmente, este foi o primeiro movimento no país de resistência armada à ditadura militar instalada em 1964. O ambiente do Parque foi considerado estratégico e há indícios de que grupos de esquerda já haviam realizado estudos de reconhecimento para a implantação de focos guerrilheiros ainda no governo João Goulart e logo após o golpe. “Moniz Bandeira tem informações de que o local havia sido estudado para a implantação do foco com militantes das Ligas Camponesas, desde 1963, e que a POLOP tentou fazer aí, em 1964, depois do golpe, com sargentos e marinheiros, mas o plano foi abortado”. Um dos líderes da Guerrilha do Caparaó, Amadeu Rocha, também afirmou que a região já havia sido explorada por outros movimentos: “A Política Operária (Polop) não deu apoio à Guerrilha, mas simplesmente cedeu a área, porque não tinha condições de explorá-la. Eles tinham um trabalho feito lá…”

Apesar do envolvimento de alguns civis ligados a organizações de esquerda, os integrantes da Guerrilha eram em sua maioria militares, principalmente ex-sargentos e marinheiros que participaram das manifestações em favor das reformas de base no governo de João Goulart. O movimento ainda contava com o apoio do ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, à época exilado no Uruguai. Brizola havia tentado resistir ao golpe assim mobilizando políticos e militares fiéis a Jango. Entretanto, com a desistência do presidente de resistir ao golpe de Estado, o ex-governador embarcou para o país vizinho de onde passou a tramar uma reação armada ao grupo que havia se usurpado o poder. É no exílio que Brizola mantém contato com o governo cubano, conseguindo dinheiro e o envio de homens ao país no intuito de realizarem o treinamento guerrilheiro. Segundo Denise Rollemberg, cinco integrantes da Guerrilha de Caparaó teriam realizado o treinamento em Cuba.

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