1434 – Álbum de João Ormond e Divino Abrués destaca ritmos, temas, saberes e falas do povo mato-grossense

Cantos do Mato, lançado apenas nas plataformas digitais, tem dez faixas que suprem a carência de conteúdo de conhecimentos culturais que domina atualmente a maioria das músicas comerciais que inundam as mídias

Está disponível nas plataformas digitais Cantos do Mato, álbum lançado em junho que traz 10 músicas compostas em parceria pelos cantores João Ormond e Divino Arbués, além de contar com participações da cantora Ana Rafaela. Cantos do Mato,  dentre outras virtudes,  registra a junção da musicalidade e da criatividade desses consistentes protagonistas da música feita em Mato Grosso. O fato de suas composições terem se consolidado e angariado público ao longo dos últimos 15 anos já fala por si só, pela qualidade e autenticidade de cada autor, que, além de oferecerem pesquisas de ritmos e temas, entregam conteúdo da história, dos saberes e falares do povo de cada uma de suas regiões sem, entretanto, abrirem mão da música romântica e dos ritmos como o xote e o pagode. Ambas as obras vêm suprir a carência de conteúdo de conhecimentos culturais da música comercial que domina atualmente a maioria das mídias.

Cantos do Mato é, portanto, um documento da criatividade e da riqueza cultural, valorizando a influência da cultura andina, amazônica e Tupi, que dão origem a tantos estilos da música em Mato Grosso. Nessa origem, também, adiciona-se a riqueza das influências trazidas pelos pioneiros nordestinos que vieram em longas viagens, muitas vezes a pé, para tentar a vida nos garimpos do Araguaia, trazendo em seus embornais elementos da folia, do repente e tantas vertentes que assimilaram da cultura portuguesa, espanhola, enfim, europeia, que se fundiu com as influências africanas tão presentes da música baiana.

A parceria Ormond-Arbués contempla, também, outras vertentes vindas do período da afluência de imigrantes mineiros e paulistas que levaram ao Centro Oeste do país a catira, a viola caipira, além da própria influência da cultura indígena, tão abundante no estado de Mato Grosso. Esse mosaico de diversidades se complementou com o advento da colonização agrícola, responsável por adicionar a todos os conhecimentos que já existiam o componente não menos importante da cultura sulista, trazida principalmente por gaúchos e paranaenses.

Nascido em Arenápolis (MT), Ormond  cresceu  às margens do Rio Paraguai, no qual se banhou nas águas da cultura nativa

O álbum também possibilita que novas gerações tenham acesso a essa linguagem artística, com duas autênticas vertentes da música mato-grossense: João Ormond, mostrando as influências hispânicas na música pantaneira, Divino Arbués representando a região do Araguaia. Outro ponto a ser destacado são as belas participações da cantora Ana Rafaela, coroando as parcerias com o molho da energia cuiabana.

O álbum para ser gravado contou com aportes da lei Aldir Blanc, por meio da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer (Secel) de Mato Grosso. As músicas são Barca dos Amores, Flor do Cerrado, Te ver por Aqui, Pedra Preciosa, O Castelo, Nunca é tarde pra Brilhar, Você no meu Mundo, Saudade Faceira, Quadrante e Quando o Xote Começou, todas parcerias de Ormond e Arbués.

INFLUÊNCIAS BANHADAS PELO PARAGUAI

Nascido em Arenápolis (MT), o violeiro do Pantanal mato-grossense João Ormond, compositor, pesquisador e historiador formado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) há muito tempo decidiu fixar residência em Jundiaí (SP) com o intuito de levar a música de raiz pantaneira a outros cantos do país. Sua obra é uma das mais expressivas revelações da paisagem poético-musical do Mato Grosso, pois revela uma hibridação de sons e composições que sintetizam o que há de mais fino na chamada música popular brasileira (MPB), arranjada no choro lírico da viola de pinho não deixando esquecer, assim, aquilo que bem registrou o sociólogo e crítico literário Antonio Cândido: que o lençol caipira brasileiro partiu de São Paulo e se estendeu até as terras mato-grossenses.

João Ormond cresceu próximo à nascente do Rio Paraguai e neste ambiente teve contato com vários músicos familiares e com ritmos como polca, toada e modinhas típicas da terra que para ele formam uma herança ancestral. Em 1980 já cantava na noite cuiabana, seu ponto de partida para abrir as portas na Capital do estado. Ao avançar na estrada, também se aproximava mais da cultura que o formou e do estilo que classifica como “alternativo” e “old music”.

Tenho um trabalho regional, sou um dos poucos que faz o que chamo de ‘old music’”, disse Ormond ao MT Notícias, em julho. “Essa comunidade de música alternativa não está na grande mídia, é um mercado no qual não conseguimos entrar, só mesmo se tiver muito patrocínio”, completou o músico que com um ponteado ímpar e harmônico, mostra a mistura da música cabocla com a música popular brasileira, destacando a viola como instrumento polivalente e universal; tocando modas e toadas, chamamés e guarânias, ritmos da fronteira mato-grossense.

A discografia de João Ormond tem como ponto de partida Rio Abaixo, lançado em 1997, prenunciando uma trajetória musical cada vez mais definida e madura com o passar dos anos. Seu segundo disco, Capins e Riachos (1999) desembocou no fluxo dessa hidrografia musical em Reduto de Violeiro, o terceiro, vindo à luz em 2001. Deste trabalho, indicado em 2001 ao prêmio Caras de Música (categoria melhor CD Regional) Leci Brandão gravou Lá no Sertão, o que marca, definitivamente, a intimidade de Ormond com a viola caipira e um estilo que aparece em traços mais e mais expressivos.

Já em 2004, Ormond lançou Viola Encantada, um sólido cadinho no qual se misturam e se condensam iguarias da musicalidade e da poética característica da cultura brasileira, além de contar com a participação especial de Pena Branca, irmão de Xavantinho. Muito Longe Rio Acima (2008) destaca a riqueza da música raiz pantaneira, além da sintonia poético-musical entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul retratada na parceria com Paulo Simões, que também é coautor de vários sucessos com Almir Sater. Em 2009, Ormond dedica-se à musica instrumental em um álbum intitulado Pantanais, cujas faixas apresentam uma coletânea refinada de chamamés e guarânias. O sétimo rebento veio em 2012 e chama-se Quariterê: trata-se de homenagem à rainha negra do Pantanal, Tereza de Benguela, um trabalho que mostra de forma sintetizada toda a beleza poético-cultural e histórica do Pantanal.

PANTANEIRO NO FORRÓ

Em 2014, Ormond decidiu valorizar a cultura nordestina em Tem Viola no Forró, de modo criativo e inovador ao tocar forró, arrasta-pé e xote com a viola caipira; o encarte gráfico reverencia o renomado artista plástico e xilogravurista pernambucano Severino Borges. A mesma temática está em Tem Viola no Forró 2, de 2018, que antecedeu Pote di Oro, em 2019.

Além de cantor e compositor, entre 2012 e 2013 João Ormond foi curador e participante do Projeto Pantanais Mostra Itinerante da Cultura Pantaneira, selecionado pela Natura Musical e que circulou em várias cidades brasileiras. Ele também protagonizou, em 2018, Violas do Brasil, projeto promovido em  Santa Bárbara d’ Oeste (SP), cidade da região de Piracicaba onde proferiu palestra que enfocou as várias vertentes e afinações que a viola caipira possui no eixo central do país, conhecido como Cinturão Caipira Brasileiro, na Estação Cultural da Fundação Romi, com gestão cultural de Thiane Mendieta.

O chamado Cinturão Caipira Brasileiro engloba Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Tocantins e demonstra as características de cada região, com seus ritmos e tocadas peculiares. Essa rota foi introduzida junto aos bandeirantes durante a colonização do território brasileiro em busca do ouro e mão de obra. Neste contexto, a viola caipira vem ao longo dos anos sendo moldada pela cultura desse povo, diante do seu dia a dia, de suas ações e manifestações, por meio das festas religiosas, festas regionais e também no cenário urbano. Nas últimas décadas a viola retomou o contato com o público mais urbano interessando bastante às pessoas das novas gerações, com a inestimável colaboração de Ormond. Hoje o ritmo mais caipira está bem inserido em todas as regiões, fomentando o surgimento de orquestras sinfônicas de viola, com a participação de muitos jovens.

Fora os discos autorais já gravados, Ormond participa de várias coletâneas e compôs singles como Eu nasci com asas, gravado em 2020 em parceria com Zé Geraldo, mineiro de Rodeiro. Nesta canção ambos abordam a saída das terras natais para alçarem novos voos, cantando letra do próprio Ormond, Clemente Manoel e Adolfo Mizuta. Já neste mês de setembro, no dia 24, será lançado Absinto das Paixões nas plataformas digitais, parceria dele e Zebeto Correa, com Ana Rafaela, gravado no Morro Crista do Galo, na Chapada dos Guimarães. Ainda em setembro, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa e o ProAc, lançará o audiovisual Tietê Rio dos Sonhos como parte da plataforma #CulturaemCasa. Entre 10 músicas inéditas selecionadas, Ormond cantará Bandeiras Rio Abaixo e com Arbués Criança Crescida, originariamente instrumental.

PRÊMIO GRÃO DE MÚSICA

Quariterê, faixa do álbum homônimo de Ormond lançado em 2012, integra a coletânea do 8º Prêmio Grão de Música, já disponível nas plataformas digitais entre as 15 músicas de artistas brasileiros que em 23 de novembro receberão em São Paulo o troféu do Prêmio Grão de Música 2021. O Grão de Música, idealizado pela cantora, compositora e escritora Socorro Lira (PB) e que conta com o apoio de setores da iniciativa privada e agentes culturais prestigia vozes e instrumentistas que promovem um recorte das cores, pessoas, folclore e histórias das regiões que representam no país. Quariterê narra ao som da viola a saga de Teresa de Benguela, líder quilombola da Vila Bela de Santíssima Trindade, situada em Mato Grosso, no século XVIII. “Essa premiação veio coroar esse disco que é bem pantaneiro. A gente fica feliz porque vê que as sementes que estamos plantando estão crescendo, virando frutos e logo, em breve, serão árvores”, declarou Ormond ao MT Notícias.

AMIZADE ANTIGA, PARCERIA FRUTÍFERA

Divino Arbués já tinha protagonizado parceria com Ormond em 2014, quando gravou Viagens, seu sétimo álbum. Tem um trabalho musical reconhecido pelo conteúdo poético, de pesquisa regional e várias canções consagradas pelo gosto popular. Viagens ele mesmo classifica como livre de fórmulas e bem diversificado, em ritmos e temas. “Faz bem ao artista fazer um disco alegre sim, mas que não seja descartável em três meses, como tem acontecido com alguns modismos”, afirmou. “Essa é umas das vantagens de ter um trabalho de produção independente. Se, por um lado, a divulgação é mais difícil, por outro, o artista pode ser mais autêntico com sua arte e seu público.”

Além de cantor e compositor com mais de 50 músicas gravadas, Arbués é autor de dois livros

Sempre elogiado por suas produções, Arbués também contou neste trabalho com a participação do compositor e instrumentista cearense Manassés, de renome nacional por parcerias com Raimundo Fagner, assim como do violonista de Brasília (DF) Fernando César, mais Amim Braga, sanfoneiro prestigiada por inúmeros artistas e duplas em evidência no cenário nacional. Também abrilhanta o álbum o vocal feminino Flor de Lis, que tem feito sucesso em Barra (MT) e região, além de Luciana e Juninho Fernandes, integrantes do grupo Os Catireiros do Araguaia.

Viagens tem treze músicas, das quais três parcerias com Ormond e uma com Marden Arbués; as nove restantes são de autoria própria, tanto a letra, quanto a música. Há releituras das músicas Passarinho do Sertão, Nós, Gerânios e Dunas e entre as inéditas estão Sorte (que abre o álbum, um misto de folia e catira), Te ver por aqui, A Primeira Chuva, Pedra Preciosa; o samba Só Mais Essa Vez, Imensidão, Portas Trancadas e Voo do Tempo. A produção do disco teve apoio do Fundo Estadual de Cultura/CECMT, por meio da Secretaria de Estado de Cultura Mato Grosso.

Arbués comemorou em Viagens também a consistência de uma estrada percorrida em defesa da cultura do Centro Oeste, que começou nos festivais vencidos com suas músicas e o Grupo Araguaia e evoluiu a cada disco gravado e a cada livro publicado; é autor de Rio e Serras (1997) e Folhas e Paisagens (2017). Passarinho do Sertão e Nós foram campeãs de importantes festivais de Mato Grosso e Goiás, em letra e em música. Hoje as cidades e a região do Araguaia celebram um autor que tem mais de 50 músicas já gravadas e alcança o status especial de compositores que têm obra artística de reconhecida relevância para Mato Grosso, além de Goiás, onde a praia de Aragarças leva o nome de seu primeiro sucesso, a música Quarto Crescente. Além disso, Arbués tem várias composições reconhecidas e gravadas por intérpretes de outros seis estados brasileiros. Dele, por exemplo, o grupo mineiro A 4 Vozes, que lançou em 2010 o álbum Canto de Minas com várias músicas regionais, selecionou para o repertório Quarto Crescente

Saiba mais sobre Divino Arbués lendo a entrevista a partir do linque abaixo. Leia

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Leia mais aqui no Barulho d’água Música sobre a produção musical do Mato Grosso ou conteúdos a ela relacionados em:

https://barulhodeagua.com/tag/mato-grosso/

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