1445- Conheça Felipe Radicetti (RJ), premiado cantor e compositor autor de declaração de amor aos latinos e homenagem a Eduardo Galeano em America

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Neste trabalho, a canção cumpre um papel ora teatral, emprestando dinâmica a diálogos, construindo imagens, ora atuando como crônica do cotidiano; letras e músicas evocam o processo civilizatório sofrido pela colonização e as lutas por libertação; a história recente desses países ainda convalescentes de cruéis ditaduras militares

As tradicionais audições matinais que promovemos aos sábados aqui em São Roque, Interior de São Paulo, onde fica o Solar do Barulho e a redação do Barulho d’água Música, começaram neste dia 25 de setembro com America (assim mesmo, grafado sem o acento), do cantor e compositor carioca Felipe Radicetti, atualmente residente em Francisco Beltrão (PR). Lançado em 2015, America, 13º álbum autoral de Radicetti, é dedicado ao escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano e uma declaração de amor à América do Sul e ao seu povo. O ciclo de 13 canções, das quais 11 inéditas no ato da gravação, busca traduzir em poesia e música os laços identitários que nos unem como latino-americanos, num processo de reconhecimento mútuo entre assemelhados na luta e na construção da cidadania sempre em curso na América Latina.

Neste trabalho, a canção cumpre um papel ora teatral, emprestando dinâmica a diálogos, construindo imagens, ora atuando como crônica do cotidiano; letras e músicas evocam o processo civilizatório sofrido pela colonização e as lutas por libertação; a história recente desses países ainda convalescentes de cruéis ditaduras militares; o trabalho do homem e sua alienação, o trabalho infantil, a crescente tensão em que vivem as comunidades indígenas, entre outros temas. O repertório é uma aula de história: canta a alma latino-americana, com ênfase no trabalho e no desamparo do homem nas cidades (caso de Amor de dois mendigos) e nos campos (Um canto de trabalho e Urupemba), nas infâncias perdidas (O canto dos meninos do campo), no grito de revolta pela destruição humana, material e cultural que se abateu por sobre as muitas nações indígenas (Última canção indigenista e Sendero americano), levada a cabo pela ocupação militar europeia no século XVI (Outro canto americano).

Radicetti assinou parcerias com Sergio Ricardo (Amor de dois mendigos/Sendero americano/Urupemba), Marcelo Biar (Outro Canto Americano e Balada de Olga e Prestes), Luhli (Casa de mãe, casa de filha), Felipe Cerquize (Última canção indigenista), Socorro Lira (Cinepoema) e Etel Frota (Aurora). E contou com a participação especial dos cantores Marianna Leporace (Balada de Olga e Prestes/Casa de mãe, Casa de filha), a argentina Adriana Ríos (dueto com Radicetti em Sendero Americano), Dhenni Santos, Luana Flores e Mari Blue e dos músicos João Cantiber (violões e percussão), Itamar Assiere (acordeon), Daniel Drummond (guitarra) e Guilherme Hermolin (flautas).

O projeto gráfico, criado pelo designer Jan Felipe Beer, traz o trabalho fotográfico de Mauricio Andrade (capa) e de Romilda de Souza Lima (encarte). As gravações ocorreram no Estúdio Ouvido em Pé, na cidade do Rio de Janeiro. Todos os músicos e técnicos participaram da produção do disco America em regime de mutirão.

MAESTRO E MESTRE, TRILHAS E JINGLES

Radicetti é de formação clássica, premiado criador de músicas para televisão, cinema, teatro e do cancioneiro popular. Iniciou suas produções para televisão na Globograph, em 1987. Atuou como maestro e criador de música para comerciais de televisão no Estúdio Nova Onda de 1993 a 2015. Mestre em Música e Educação pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio), Radicetti publicou pela Editora Intersaberes Escutas e olhares cruzados nos contextos audiovisuais; é professor da Uninter, no curso de Ensino À Distância (EAD) de Licenciatura em Artes Visuais.

Fundador e presidente da Associação Carioca de Organistas nos períodos de 1982/83 e 1984/85, também presidiu a Associação Brasileira de Compositores para Audiovisual – Musimagem Brasil, no biênio 2012/2014 e foi docente do Curso de Pós-Graduação em Cinema e Televisão (Orquestração e Publicidade) no Conservatório Brasileiro de Música (CBM) do Rio de Janeiro, de 2011 a 2014.

Em outubro de 2019, sua cantata A Revolta dos Posseiros para tenor, coro e orquestra estreou em Francisco Beltrão e Pato Branco (PR), com a presença de protagonistas do levante agrário ocorrido em 1957 no Sudoeste daquele Estado, apresentado pela Orquestra Filarmônica de Valinhos (SP), sob a regência de Yonan Daniel. Em maio de mesmo ano, a sua suíte para violoncello e orquestra de cordas foi apresentada na Sala Cecília Meireles pela Orquestra Sinfônica da Uni-Rio, sob a regência de Guilherme Bernstein e Hugo Pilger no violoncello.

Radicetti compôs a música original para Vidas Descartáveis, documentário de Alexandre Valenti (2019). Sua filmografia inclui, ainda, títulos para cinema com música do compositor: Histórias da Fome no Brasil (Camilo Tavares/2017); Meu nome é Jacque (Angela Zoé); e Scholles, semente da cor, de Rejane Zilles, ambos 2016; Castro Alves (Silvio Tendler/1998); Anjos do Sol (Rudi Lageman/2005); Walachai (Rejane Zilles/2008); Eu me Lembro (Luiz Fernando Lobo/2013); Duas Histórias (2012) e Nossas Histórias (2014) de Angela Zoé, entre outros.

No cancioneiro popular, Radicetti lançou além de America os discos, Europa (2013) e antes, SagradoProfano (2009), dedicado à fé e ao sincretismo afro-brasileiro. O seu primogênito, Homens Partidos (2000), contou com a participação de Lô Borges, Geraldo Azevedo e de Claudio Nucci, que também defendeu a canção Moleque-Marraio nas semifinais do Festival da Música Brasileira da Rede Globo.

O álbum SuperLisa, em parceria com Clarisse Grova, teve duas edições no Brasil (2003 e 2006) e Japão (2005). No Em 2020, saiu o epê Lorca, em parceria com a cantora Marianna Leporace e o guitarrista Daniel Drummond. Homenagem ao poeta espanhol Federico García Lorca, reúne canções de sua autoria. Ainda em 2020, criou a música original da montagem de Les Lianes, um texto com direção de Françoise Berlanger para a companhia de teatro belga La Cerisaie, que estreou no Teatro La Balsamine, em Bruxelas. Indicado ao Prêmio Shell de Teatro de 2014 para Melhor Trilha Sonora pelo espetáculo Sacco & Vanzetti, Felipe Radicetti assinou a direção musical do espetáculo Dez Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed, encenado pela Companhia Ensaio Aberto (2017).

Ativo representante da classe musical brasileira, Radicetti recebeu da revista Música & Mercado o prêmio Top of Mind 2008 Editor’s Choice pela campanha nacional Quero Educação Musical na Escola (2006 a 2008). Também em 2008, a canção Medida, faixa de SagradoProfano, em parceira com o poeta Felipe Cerquize, foi indicada ao Hollywood Music Awards, promovido na Califórnia (Estados Unidos da América), no qual concorreu com três outras canções na categoria Latin Song. E integra, na Categoria Homenagem, a coleção de álbuns editados pelo Programa Rumos Itaú Cultural para o biênio 2007-2009 no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai com duas recriações eletrônicas suas para canções de Itamar Assumpção.

DATILÓGRAFO E JOGADOR FRUSTRADO, ESCRITOR CONSAGRADO

Eduardo Galeano (3/9/1940-13/4/2015), escritor e jornalista nascido em Montevidéu, capital do Uruguai, é autor de As Veias Abertas da América Latina (1971), livro que exerceu profunda influência no pensamento de esquerda latino-americano. Descendente de família de classe média e de formação católica, Galeano pensava em se tornar jogador de futebol, mas ao perceber que não tinha habilidade com a bola veio a escrever muito sobre o esporte. Antes de se tornar periodista e escritor, exerceu trabalhos como caixa de banco e datilógrafo. Aos 14 anos, enviou uma charge ao jornal El Sol, do Partido Socialista, contudo a carreira na imprensa só se firmaria na década dos anos 1960: tornou-se editor do jornal Marcha, ao lado de colaboradores como o escritor e ex-presidente do Peru Mario Vargas Llosa (Prêmio Nobel de Literatura em 2010) e outro Mario, Benedetti, poetaescritor e ensaísta uruguaio.

Galeano é autor de mais de 30 livros, traduzidos para cerca de vinte idiomas, entre os quais As Veias Abertas da América Latina

Nos anos 1970, com o regime militar no Uruguai, Galeano foi perseguido pela publicação de As Veias Abertas da América Latina em cujas páginas o autor analisa a história da América Latina do colonialismo ao século 20. Em 1973, foi preso em decorrência do golpe militar em seu país; exilou-se, posteriormente, na Argentina, onde lançou a revista cultural Crisis. Em 1976, Eduardo Galeano mudou-se para a Espanha, por causa da crescente violência da ditadura argentina. Já em 1985, lançou na Espanha Memória do Fogo. Nesse mesmo ano, voltou ao Uruguai.

Autor de mais de 30 livros, traduzidos para cerca de vinte idiomas, Galeano declarou, em 2014, que não se identificava mais com a anticapitalista As Veias Abertas da América Latina: “Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera”. Em 2006, ganhou o Prêmio Internacional de Direitos Humanos por meio da Global Exchange, instituição humanitária norte-americana.

UMA VITÓRIA DO POVO

Em 1957, o Sudoeste paranaense foi palco de intenso conflito pela posse da terra, envolvendo posseiros, companhias colonizadoras e o poder público; a região Sudoeste do Paraná está localizada ao Sul do rio Iguaçu, seu limite Norte separa a do Oeste paranaense, ao Sul com o Estado de Santa Catarina, e a Leste o município de Clevelândia. O conflito teve origem na disputa jurídica pela posse da gleba Missões e parte da gleba Chopim, conforme apontado em 2006 por Edvino Knäsel Vorpagel, aluno do Colégio Estadual Duque de Caxias, em Maringá, em trabalho de relações interdisciplinares de Geografia, Sociologia e História.

Vorpagel observou que o governo federal, “através da Cango, implantou na região projeto de colonização e incentivou gaúchos e catarinenses para povoá-la. A companhia colonizadora Citla, formada por particulares, igualmente, instalou-se na área na condição de herdeira das glebas, resultado de longo processo judicial envolvendo o poder público e empreendedores particulares. O conflito pela posse da terra estendeu-se pelos atuais municípios de Capanema, Dois Vizinhos, Francisco Beltrão, Pato Branco, Pranchita, Santo Antonio do Sudoeste, Verê e foi concluído com a vitória dos posseiros, que tiveram suas posses regularizadas e tituladas a partir de 1962.

A vitória dos colonos foi fruto da coragem da sociedade em defender duas questões fundamentais: primeiro, o ser humano, ameaçado, violentado e alguns mortos pela ação dos jagunços pagos pelas companhias para implantar o terror junto às famílias esperando uma debandada para a região de origem. 

Já a jornalista Luciana Rafagnim escreveu para o Portal Brasil de Fato em 11 de outubro de 2017 o artigo “Revolta dos Posseiros do Sul do Paraná: uma vitória do povo”. De acordo com ela, o fato “garantiu que os posseiros e colonos construíssem uma das maiores experiências de agricultura familiar” após as ações das quais “tomaram cidades, destruíram sedes das companhias, expulsaram jagunços”. Leia a seguir a íntegra do texto, com edição de Pedro Carrano.

Conhecida e estudada, a Revolta dos Posseiros do Sudoeste do Paraná, ocorrida em 1957, é um dos poucos exemplos na história do país em que o povo foi vitorioso. E a vitória garantiu que os posseiros e colonos construíssem uma das maiores experiências bem-sucedidas de agricultura familiar.

Ao contrário, se as companhias de terra, apoiadas pelo então governo do Paraná, tivessem sido vitoriosas, a região caminharia para ser um grande latifúndio com poucos proprietários e com a economia baseada no extrativismo da araucária.

A vitória foi fruto da coragem da sociedade em defender duas questões fundamentais: primeiro, o ser humano, ameaçado, violentado e alguns mortos pela ação dos jagunços pagos pelas companhias para implantar o terror junto às famílias esperando uma debandada para a região de origem. 

A terra não era vista pelos posseiros como um bem imobiliário, mas sim como um fator de produção de alimentos para saciar a fome da família e, posteriormente, com a venda do excedente, buscar uma melhora das condições de vida.

Nos dias 9 e 10 de outubro de 1957 a mobilização foi tão grande que, com caravanas armadas de espingardas e ferramentas, tomou cidades, destruiu as sedes das companhias, expulsou os jagunços e implantou comissões administrativas. Esse momento foi o ponto alto na construção de uma rede de solidariedade entre os colonos e posseiros, fundamental para o período após a revolta.

Foi a solidariedade que garantiu o enfrentamento das condições precárias da colonização: se não havia estradas, os mutirões entravam em ação para construí-las, se não haviam escolas, outro mutirão e professores voluntários, se não havia igreja, a união dos moradores a construía, se uma família não pudesse fazer sua roça por problemas de saúde, os vizinhos se juntavam e garantiam o plantio e a colheita, se um vizinho abatesse uma cabeça de gado, os vizinhos todos tinham carne fresca, se um vizinho fosse de carroça para a vila, fazia as compras para os outros, e, mesmo com o trabalho duro de “amansar a terra” sobrava tempo para o terço, o chimarrão e os serões.

A experiência de solidariedade entre vizinhos fez voos maiores, pois as necessidades foram mudando. O resultado foi a criação de cooperativas para garantir a compra e comercialização coletiva, de sindicatos de pequenos agricultores para, inicialmente, cuidar da saúde com médicos e dentistas e em seguida ser porta-voz das reivindicações, e também, a criação da Assesoar, entidade de apoio no estudo e debate sobre a realidade e formação de lideres.

A vitória dos posseiros, em 1957, criou as condições para que tudo isso fosse possível. Embora o capitalismo tenha implantado no campo formas modernas de exploração da terra e da mão de obra, a agricultura familiar ainda predomina, se adapta e enfrenta seus desafios de forma organizada. Nos anos [da década de] [19]80, com a crise do crédito e o excedente de mão de obra, muitos agricultores ficaram sem terra, mas foram capazes de se organizar em torno do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Nos anos (da década de] [19]90, com a dificuldade de acessar o crédito no sistema bancário, criaram um sistema solidário de cooperativismo, o Cresol, hoje reconhecido mundialmente. Quando os filhos precisam sair da região para estudar, eles lutam e conquistam universidades, quando veem os familiares necessitando se deslocar para a capital para tratamento de saúde, são firmes e conquistam um hospital regional.

A história da Região Sudoeste [do Paraná] é única, genuína, rica e forte. É a prova de que a organização dá resultado, muda a história e supera desafios. O povo foi e é protagonista.”

Leia na íntegra o trabalho de Edvino Knäsel Vorpagel em:

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