1450 – André Siqueira lança álbum com releituras da obra de Toninho Ferragutti

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Gosto de brincar com uma imagem futebolística que envolve dois gênios das quatro linhas de todos os tempos, Zico e Sócrates; convoco ambos pela contemporaneidade em campo, já que brindaram os olhos dos amantes de uma boa peleja no mesmo período, sobretudo durante e apesar da fatídica Copa do Mundo da Espanha, que perdemos em 1982, mas que deixou como legado para a história e para a filosofia e conversas de boteco um time que jamais sairá dos nossos corações e mentese não apenas tupiniquins.

Imagino sempre Magrão na arquibancada do Maraca vendo Galinho levantar arquibaldos e geraldinos com sua magia e, em determinado momento, estupefato com uma jogada do número 10, ficando em pé para aplaudir o rubro-negro, soltando apenas uma frase: “Genial, Zico, você é mesmo um baita craque!” Conseguem entender a “ironia” aqui? O Doutor, ele também um jogador espetacular, dizendo que o amigo é um “baita craque!”

Pois vamos esclarecer o porquê desta introdução. Nesta semana, os Correios entregaram aqui na redação do Barulho d’água Música o mais novo álbum do violonista André Siqueira, gravado entre 10 e 13 de maio de 2021, após uma bem-sucedida vaquinha virtual, fonograma que oferece aos ouvidos de quem tem a oportunidade de ouvi-lo uma releitura de sucessos de um dos nossos maiores acordeonistas – digamos assim, um Sócrates da música. Da outra margem, André Siqueira visita Toninho Ferragutti, nome do disco, tem a participação mais do que especial do próprio homenageado em quatro das dez faixas e traz no encarte (assinado pela mineira, cantora, compositora e escritora Déa Trancoso, a partir de desenho da artista plástica Cinthia Camargo, reproduzido na capa) um texto em que Ferragutti lustra a chuteira de Siqueira – digamos assim, um Zico dos nossos palcos. Então, está realizada a imagem, em outro campo artístico, é verdade, mas incontestável, em que um gênio tira o chapéu para outro gênio… e quem sai ganhando é a torcida!

O disco de Siqueira saiu pela Gravadora Experimental da Faculdade de Tecnologia do Estado (Fatec) Tatuí, localizada na Região de Sorocaba, no estado de São Paulo, coladinha aqui a São Roque, onde fica o Solar do Barulho. Estudantes e professores do curso de graduação tecnológica de Produção Fonográfica produziram o álbum no qual André Antunes Coimbra Siqueira traduz para o violão canções do acordeonista e compositor Toninho Brasileiro Sampaio de Souza Vieira Ferragutti de Oliveira. “A parceria com a Gravadora Experimental foi muito importante para viabilizar esse disco, feito por meio de financiamento coletivo”, ressaltou Siqueira, revelando que o trabalho colocou para jogar, também, Paulo Isidoro, Batista, Falcão, Cerezo, Edinho, Serginho, Leandro, Oscar, Luizinho. “Possibilitou a gravação com um nível de qualidade muito grande. A estrutura da Fatec é ótima e a equipe formada por alunos foi impecável na condução do trabalho”.

Participaram da produção executiva, gravação, engenharia de áudio, edição, mixagem e masterização os estudantes Ana Soares, Andresa de Assis, Bruno Loureiro, Léo Mazzuia, Letícia de Oliveira, Marjorie Maximiano, Naamã Maragno e Rafael Costa; Telê Santana foi José Pires Júnior, coordenador do curso, professor responsável pelo projeto. “Participamos de praticamente todas as etapas de pré e pós-produção e isso faz com que tenhamos mais maturidade pra encarar o mercado fonográfico depois da nossa formação, além de gerar o tão esperado networking”, avaliou Marjorie Maximiano, produtora executiva do projeto.

PALETA EXPRESSIVA

Durante a campanha para gravar o disco, Siqueira classificou a obra de Toninho Ferragutti, ao qual tratou por “gênio do acordeon e da música brasileira” como “cativante”. Conforme o violonista, a música de Ferragutti apresenta “rico colorido e nos conduz de modo apaixonante, seja pelo virtuosismo, seja pelo lirismo que apresenta em suas belas melodias. O álbum (…) é sobre a busca de trazer para o violão essa paleta incrível de expressividade que a sanfona apresenta”. Siqueira ainda revelou que o trabalho fora gestado com muito carinho e tem como um dos objetivos trazer novo olhar sobre as composições de Ferragutti. “A partir de minhas releituras ao violão e ao violão barítono, tenho a alegria de contar com a participação do próprio compositor em quatro das faixas do álbum”. Ou seja: é como bola no ângulo; no mínimo o tão sonhado 3×3 que impediria a tragédia do Sarriá e que, neste caso, não tem Paolo Rossi que atrapalhe ou Dino Zoff que a impeça de estufar as redes!

Déa Trancoso, dias antes de o disco de Siqueira vir à luz, perguntava: “O que pode nascer quando um violão visita uma sanfona?”. Ela mesma, mais adiante, respondeu “esse encontro vai ser um eita atrás de eita”. Não é para menos. De acordo com texto de Elcylene Leocádio para o blogue Violão Brasileiro que versa sobre a preparação do disco, “aos 20 anos de idade, André Siqueira já era apaixonado por música e sabendo que seria este o seu caminho de vida, ao ouvir pela primeira vez Ferragutti, ficou impactado com a concisão e elegância com que ele tratava a música instrumental brasileira”. Poder tocar essas composições 25 anos depois, continua marcando o violonista, compositor, arranjador e multi-instrumentista, que vem cumprindo brilhantemente o seu destino, elogiou mais adiante Elcylene. “André nos diz que o que parecia estar guardado, inconsciente, ganhou outra dimensão quando a música veio para o instrumento, quando veio para as suas mãos. Dito de outro modo, quando a sanfona chega ao violão, quando a música escrita por Ferragutti chega à ponta dos seus dedos.”

Ainda de acordo com a autora da matéria para o Violão Brasileiro, comentando o apreço que tem pela improvisação musical, Siqueira disse que não a vê [a improvisação] como um produto, mas como um método, um modo de estar no mundo, no qual se estuda possibilidades. E com base nesse entendimento afirmou que ao tocar as músicas de Ferragutti ao violão chega a pensar que poderiam ser composições suas, pois harmonicamente faria as mesmas escolhas. “Nem sempre a gente sabe por que estuda alguma coisa”, ponderou o violonista. “Mas hoje eu sinto como se tivesse estudado a vida inteira para poder tocar a música de Toninho de forma prazerosa. Tecnicamente tem coisas bem difíceis, mas encaixam na minha mão e isso é comum quando vem de outro violão, mas não de uma sanfona”. André, portanto, recebe a bola, redonda, e não engrossa: dá uma ‘caneta’ em Gentile, deixa Scirea e Cabrini no chão, engatilha e… caixa!

Gravar o disco foi um processo natural nutrido pelo interesse de André Siqueira em relação à música instrumental de Ferragutti para sanfona, do seu trabalho de transcrição dessas obras para violão e violão barítono e dos shows que eles já fizeram juntos. “Não foi uma decisão muito cerebral. Foi algo que veio do coração, pois além de fazer uma música maravilhosa e ser um músico incrível, Toninho é um amigo, um ser humano generoso, bonito, íntegro. E eu valorizo isso porque acredito que a música traz dentro dela o artista que a criou”. E Ferragutti não deixou por menos: “Eu penso que é algo muito original um músico gravar outro músico que não é consagrado, como é o meu caso”, afirmou. “É um tipo de pensamento, de proposta, que poderia ser mais comum”, emendou. “Vendo André tocar minhas músicas, além de ficar muito bonito, fica muito natural. Isso me dá certeza de seguir compondo, de seguir nessa carreira de músico instrumentista e viver de minhas composições”. Antes de encerrar, o acordeonista cravou: “Eu fico muito satisfeito, muito honrado, principalmente nesse momento tão difícil de pandemia, em que a gente precisa tanto um do outro.”

SINGULARIDADE INVENTIVA

Ferragutti, natural de Socorro (SP), segundo a jornalista e musicóloga Maria Luiza Kfouri, traz em seu acordeon “a síntese de todos os grandes acordeonistas brasileiros e, ao mesmo tempo, é um acordeonista singular, com personalidade e sons únicos, que praticamente reinventam o instrumento”. Parceiro de estrada também de expoentes como o violeiro, compositor, arranjador e pesquisador Neymar Dias (que Neymar, o Dias, e vocês, me perdoem a brincadeira com o nome dele: eis o nosso maestro Júnior da música!) para Maria Luiza Ferragutti é um deleite. “E o que dizer de vê-lo tocar sozinho, sem ninguém à sua volta, em plena sintonia com o seu instrumento?”, pergunta, antes de contar que testemunhou “algo de rara beleza”.

No palco do Sesc Santana, em 2018, durante os ensaios para o show de homenagem a Dino 7 Cordas, dirigido por Alessandro Soares, os violonistas ensaiavam no camarim e no palco, atrás das cortinas. Sozinho, estava Ferragutti tocando baixinho. “Uma imagem de intimidade e plenitude comoventes. Me aproximei com cuidado para não ser vista, não atrapalhar, não interromper e fiquei quietinha escutando. Foi um dos momentos mais belos que já presenciei, do músico entregue à sua música”, relembrou Maria Luiza, ainda conforme o texto de Elcylene Leocádio.

Pois o nosso Zico violonista, que nasceu em Palmital (SP), também me deixou paralisado de boca aberta, em 2015, quando no palco do teatro do Sesc paulistano da Vila Mariana, tocando em um projeto coordenado pelo amigo violeiro Zeca Collares em certa noite, teceu um “desafio” com o violonista Marcos Azevedo digamos que uma espécie de Dirceu da  música, para voltarmos à comparação com a seleção de 1982. De Siqueira também temos em nossa redação os álbuns autorais Lithos, Catamarã e Solo (que tem Toninho Ferragutti no meio), sem contar outras performances dele em álbuns de Wilson Dias e Déa Trancoso. Elcylene Leocádio recordou que perguntado o que pensa sobre o trabalho de André Siqueira, o também violonista, compositor, arranjador e professor Conrado Paulino desmanchou-se em elogios:.

A minha geração se dividia entre quem tocava música erudita ou popular. Se para tocar erudito era preciso treinamento rigoroso, tocar popular exigia um molejo que a formação erudita não oferecia. Era preciso vivência, colocar a mão na massa. Hoje, isso vem mudando. E diversos violonistas de gerações mais novas passaram a transitar muito bem entre essas duas praias. André Siqueira é um deles. É um acadêmico, usa recursos do violão erudito com muita propriedade e, ao mesmo tempo, toca popular com um molejo fantástico. Intérprete e multi-instrumentista, ele toca violão, violão barítono, viola, flauta, trompete e bandolim. Como se fosse pouco, arranja e compõe com uma linguagem nova, moderna, antenada com o que acontece hoje no mundo do violão. É um músico genial e está entre os melhores de sua geração.”

O LUSTRE NA CHUTEIRA 

Conheço e admiro André Siqueira há anos. Admiro o multi-instrumentista, o compositor, o interesse e o conhecimento amplo da música popular e erudita, o violão que se destaca num Brasil de grandes instrumentistas, a carreira acadêmica bem-sucedida. Ele é um músico com M maiúsculo. Mas, ser André dá um trabalho danado: talento, disciplina, estudos múltiplos. Mas, ele tem tudo isso de sobra.

Nossa amizade foi se estreitando: trabalhamos juntos e tocamos nossas composições em várias apresentações. Agora, para a minha felicidade, ele me vem com essa ideia de gravar um CD somente com minhas composições. Fiquei feliz e, mais uma vez, admirado com o seu fôlego de encarar um disco no qual um violão solo visita uma sanfona. Muito trabalho e mais investimento para além do que um financiamento coletivo permite. Tudo isso no meio de uma pandemia. Mas, esse é André: músico incansável.

Que felicidade a minha em ouvir e participar dessa beleza! Obrigado, André. Sucesso sempre. Toninho Ferragutti

DELICADEZA E POTÊNCIA

Cada instrumento tem suas particularidades, suas poesias, seus mundos, suas evidências e suas dificuldades. A sanfona é tipicamente brasileira e sua especificidade é um fole que lhe permite tocar notas longas com muita dinâmica, proporcionando articulações sem grandes dificuldades. Esses atributos são invejáveis para o violonista que faz de tudo para obter mais duração nas notas e volume de som. Dito isso, poderíamos considerar a empreitada de trazer o acordeon para dentro do violão como um desafio quase vão. Mas, não é. Da outra margem André Siqueira vê outras margens, produzindo outras músicas da mesma música. De uma margem, Toninho Ferragutti, um dos grandes instrumentistas e compositores brasileiros. Das outras, André, com sua imensa alfaiataria que, sob medida, adapta as roupas, mas mantém, sempre, a essência e a beleza do corte original. O álbum tem, então, sabor de Brasil, mas está repleto de influências. A abertura, com o tema Nem sol nem lua, por exemplo, traz um gosto latino de milonga-tango.

Dono de urna combinação sonora delicada e potente, André consegue fraseados muito bonitos e pertinentes ao lirismo de músicas como Sanfonema, Quarentema 18, Flamenta ou Meia saudade. Por outro lado, possui domínio e intimidade total com o instrumento em peças como Egberto, um desafio para o violão [homenageando Egberto Gismonti], reunindo diferentes aspectos virtuosísticos; polirritmia, notas repetidas [linguagem típica da sanfona] e velocidade. Aliás, esta última peça é a que foi mais trabalhada e arranjada para conseguir um resultado orgânico. E, de fato, ficou maravilhosa no violão! O uso do barítono trouxe para ela uma diferença timbrística significativa. Em alguns temas, como Quarentema 11, ternos também a presença de Ferragutti ao acordeon.

A presença do instrumento original permite momentos de improvisação cheios de espontaneidade. O álbum se despede em Alfredo, com um ritmo que se assemelha à milonga, assim como no começo, fechando o círculo.

O som da gravação me impactou: do tratamento sonoro á masterização passando pela captação e pelo material usado. Quem grava violão sabe como é difícil equilibrar o som e conseguir qualidade de timbres. Com este registro, André nos pega pela mão e nos leva a outras margens para nos fazer descobrir lindas e desconhecidas vistas ao entardecer. O álbum é fácil de ouvir, porém muito sutil e refinado: uma verdadeira joia no cenário brasileiro da música instrumental, confirmando a genialidade de Toninho Ferragutti e a maestria incontestável de André Siqueira corno criador, arranjado r e instrumentistaÉlodie Bouny

Leia mais sobre André Siqueira e Toninho Ferragutti e conteúdos a eles relacionados aqui no Barulho d’água Música ao clicar nos links abaixo:

https://barulhodeagua.com/tag/andre-siqueira/

https://barulhodeagua.com/tag/toninho-ferragutti/

Já a integra da matéria de Elcylene Leocádio está em

https://www.violaobrasileiro.com.br/blog/andre-siqueira-grava-obras-de-toninho-ferragutti-transcritas-para-o-violao/418

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