1454 – Marina Ebbecke (SP): “A viola me trouxe uma autoestima que não sentia tocando outro instrumento”

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Um grupo que tem à frente as mineiras Cláudia Morais (Ituiutaba), Letícia Leal (Belo Horizonte) e Sol Bueno (Moeda), a goiana Paula de Paula (Goiânia) e a pernambucana Laís de Assis (Recife), entre outras, criou o canal Violeiras do Brasil, iniciativa cuja meta é conectar em rede nacional o máximo possível de outras violeiras do país. Elas buscam a devida valorização do segmento feminino da viola e da mulher musicista, produtora e gestora e também agregam em suas fileiras Marina Ebbecke, paulistana atualmente morando em Jundiaí, no Interior paulista e que no final de setembro protagonizou ao lado de Fabiola Ognibeni e Vitória da Viola o concerto Viva Helena! do projeto Violas Fora da Caixa, promovido pelo Sesc Instrumental Brasil, em homenagem a Helena Meireles.

A música entrou na vida de Marina Ebbecke aos 12 anos, segundo ela mesma “um pouco por curiosidade e meio por acaso” quando um professor de violão erudito começou a oferecer aulas do instrumento na escola onde estudava. O encontro com a viola também não foi programado. Ao Barulho d’água Música, ela relatou que o médico Cesar Mussi ouviu a mãe das garotas, Estefânia, comentar — em um dia de trabalho no posto de saúde onde ambos atendiam — que tanto Marina quanto a irmã, Isabela, apreciavam música e estavam aprendendo instrumentos; Marina violão e guitarra, a irmã, baixo elétrico. Mussi as convidou para assistir um ensaio da Orquestra Jundiaiense de Viola Caipira, da qual o médico participava como violeiro e cantador. “Chegando lá me encantei pela sonoridade do instrumento, e pelo contexto social da orquestra, o grupo, todo mundo lá fazendo parte de algo, se juntando para tocar juntos”, recordou Marina. “Gostei muito disso e quis aprender o instrumento. Logo no início dos estudos de viola percebi que era um instrumento muito mais ‘amigável’ do que a guitarra e o violão” E antes “de saber muita coisa, já conseguia ‘tirar um som’, tentar criar, brincar com o instrumento e gostar do resultado.”

Marina Ebbecke disse que a viola proporcionou “uma espécie de autoestima musical que não experimentara ainda com os instrumentos que antes tocava”. Dai em diante, o aprendizado com a viola foi bem diverso. Ela deu os primeiros passos com o grupo de estudo da própria Orquestra, depois tornou-se pupila, em aulas particulares com Daniel Franciscão (diretor musical, arranjador e regente da Orquestra de Violeiros Terra da Uva) até decidir prestar vestibular de Música e fazer especialização em Viola. Tornou-se aluna da Universidade do Estado de São Paulo (USP) e frequentou o curso do professor, pesquisador, compositor e violeiro Ivan Vilela. “Mas nesse meio tempo também aprendi vendo outros/as violeiros/as tocar, frequentando oficinas, shows e tudo mais”, observou. “Considero-me ainda aprendendo bastante com cada artista que conheço”.

Em seu caminho para dominar as dez cordas, Marina Ebbecke encontrou inspiração na obra de Vilela, de Almir Sater, Helena Meirelles e Levi Ramiro, entre outros cancionistas-violeiros como Wilson Teixeira, Rodrigo Zanc e Luiz Salgado. “Hoje também me inspiro em Fabienne Magnant, João Paulo Amaral e Hugo Linns” e de vez em quando, para matar a saudade e não perder o tino, “daquele jeitão mediano” retoma o violão e a guitarra.

Marina Ebbecke, Fabiola Ognibeni e Vitória da Viola, todas paulistas ,tocaram no Sesc Instrumental no final de setembro em homenagem à violeira Helena Meireles

O Barulho d água Música perguntou a Marina Ebbecke: “você acha que há diferenças entre o modo de uma mulher e de um homem tocar viola? Por quê? E existe preconceito contra a mulher violeira no meio?” Ao responder, quanto ao modo de tocar disse que não vê diferença e classificou como “besteira” afirmações de que mulheres tocariam mais delicadamente. “Já conheci mulheres com muita pegada, com aquele som pesadão, como também muito homem tocando suave, de forma delicada”, avaliou. “O modo de tocar da pessoa depende das influências e dos objetivos dela com a música. Não acho que o gênero faça diferença no ato de tocar em si.” Já sobre preconceitos, foi taxativa: “Hoje há um pouquinho menos, mas ainda existem. Há três anos, mais ou menos, a maioria dos coordenadores de projetos e de eventos simplesmente não contratava violeiras, ou contratava uma entre 100 homens”, apontou. “Era muito difícil ser levada a sério enquanto instrumentista e nossos erros ainda são mais vistos do que os cometidos por homens, ainda temos de ser duas vezes mais atentas ao nosso desempenho para não sermos subestimadas ou menosprezadas.

Além de tocar, Marina Ebbecke leciona aulas particulares de viola e trabalha com projetos educativos pontuais como a Oficina de Escuta Ativa da qual fez parte durante o Circuito Sesc de Artes, pelo Sesc Araraquara, oportunidade durante a qual a partir de uma seleção de música caipira conversou com o público para levantarem conhecimentos de música. Ela também já esteve no Sesc Campo Limpo como atração do Clube da Viola, dedicado a aprender viola tocando repertório clássico e que reúne violeiros e violeiras de várias idades. Durante a pandemia de Covid-19, de forma remota, abrilhantou festivais como o Revelando São Paulo, Viola da Terra, Casarão das Violas, Som na Faixa e Sons da Terra, além do recente Instrumental SESC Brasil, ao lado de Fabíola Beni e Vitória da Viola em tributo a Helena Meirelles. Este concerto ganhará uma matéria na SESCTV para o programa Passagem de Som e, neste mês e em dezembro, Marina participará de dois concertos envolvendo coro e orquestra.

MORADA CHEGA EM 2021

Meu principal projeto atual, apesar de ainda estar na fase de burocracia, é registrar meu primeiro disco autoral”, informou Marina. O álbum deverá ser batizado como Morada e trará nove canções, das quais até duas instrumentais. “Ainda nesse ano, se tudo der certo, vai ter novidades sobre esse disco”.

Marina Ebbecke é uma pessoa querida e como violeira está conquistando seu espaço com criatividade e determinação. O que nos aproxima, vai além desta paixão e convívio com esse instrumento e seu universo, Marina produziu na conclusão do curso pela USP um estudo minucioso, um mergulho em meu primeiro disco,  Maracanãs, de 1997. Este trabalho, que pra mim é inconteste e de grande importância, ganha sua relevância pelo carinho e consideração com que o Mestre Ivan Vilela apresenta aos seus alunos. Ivan, além de amigo, é um grande incentivador do meu trabalho, tem muito carinho com minhas composições. Fico lisonjeado em saber que de alguma forma contribuímos para o encantamento e formação de pessoas incríveis como a Marina. Agora é seguir tocando, sonhando e criando. Gratidão”. Levi Ramiro.

Marina Ebbecke foi uma das alunas mais brilhantes que eu tive. Entrou muito jovem no curso e além do talento revelou muita coragem para desbravar novos caminhos e encarar novos desafios. Demonstrou imensa capacidade não só de tocar, quanto de escrever. E fez um belíssimo trabalho de conclusão de curso analisando obras do Levi Ramiro, entendendo a dinâmica de vida dele a partir de uma entrevista que ela fez e transcrevendo música deles. Tem um futuro brilhante pela frente, pois compõe e domina universos distintos, da música caipira às baladas pops. Acredito muito no talento da Marina e por ela. Ivan Vilela

 

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