1455- Heraldo do Monte (PE) ganha publicação com sua história, obras em partituras e coletânea em disco

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O músico pernambucano Heraldo do Monte tem uma carreira tão extensa quanto importante para a história da música popular brasileira instrumental.  Aos 85 anos, o músico ganha agora uma publicação dedicada à sua obra: As cordas livres de Heraldo do Monte. O livro traz a sua história e a maneira como ela se confunde com a própria história da guitarra elétrica no Brasil. Traz também o conjunto completo de sua obra em partituras, além de um álbum coletânea que esboça sua trajetória musical. A publicação é a primeira da série Brasil de Dentro, criada pelo Instituto Çarê para sistematizar, editar e difundir obras de compositores brasileiros, e conta com a parceria da editora Contraponto. 

As cordas livres de Heraldo do Monte destaca o trabalho pioneiro do músico que introduziu a viola de dez cordas na música popular brasileira e, como guitarrista, desenvolveu uma linguagem de improvisação com referências sonoras calcadas na cultura brasileira. Sua obra tornou-se uma referência no cenário da música instrumental, obtendo reconhecimento não só nacional, mas também de diversos artistas internacionais.

Suas primeiras experiências como instrumentista foram em rodas de choro do seu bairro, nas quais tocava clarinete, violão e bandolim. “Estudei música por puro amor, acho que ela é uma espécie de deusa que escolhe pessoas e as escraviza com sua beleza. O acaso me puxou para ser profissional”, diz Heraldo do Monte. “Uma vez profissional, me senti como um operário anônimo, dedicado, disciplinado e responsável pelo sustento de minha família. Trabalhei em casas noturnas, com carteira assinada, CLT, como qualquer operário”, relembra o músico.

Com formação musical consistente e capacidade de improvisação singular, Heraldo do Monte integrou importantes grupos da história da música popular brasileira como o Quarteto Novo, ao lado de Theo de Barros, Airto Moreira e Hermeto Pascoal, em 1967. O Quarteto Novo acabou tornando-se um trabalho referencial na música instrumental brasileira por utilizar elementos sonoros da cultura nordestina na sua construção e não a sonoridade dos jazz-trios, como era comum na época

Também integrou Dick Farney Trio, Heraldo E Seu Conjunto Bossa Nova, Grupo Medusa, Hermeto Pascoal & Grupo, Os Cinco-Pados, Walter Wanderley & Seu Conjunto. Em 1970, gravou seu primeiro disco solo. Tocou em discos ao lado de artistas como Teca Calazans, Elomar Figueira Mello, Paulo Moura e Arthur Moreira Lima, Zimbo Trio e inúmeros outros, e se tornou um dos instrumentistas que mais atuou em estúdios de gravação no Brasil. Seus discos Cordas Mágicas e Cordas Vivas são referenciais no que toca à utilização das cordas dedilhadas no contexto da música instrumental.

Registro e difusão da música brasileira

O Instituto Çarê faz de As cordas livres de Heraldo do Monte a sua primeira publicação da série intitulada Brasil de Dentro por acreditar que o passo inicial para um país se tornar grande é reconhecer a sua própria cultura como ponto de referência e de partida na construção de uma identidade nacional. A publicação foi uma iniciativa da artista plástica e educadora Elisa Bracher e do músico e professor Ivan Vilela, contando com uma equipe de profissionais como Budi Garcia, pesquisador que assina o texto sobre a história e o universo sonoro de Heraldo do Monte, Luis do Monte, que realizou a maior parte das transcrições; de Edmilson Capelupi e Toninho Carrasqueira, que realizaram a revisão musical ao lado do próprio compositor, entre outros.

Tendo como base a contextualização histórica como narrativa reflexiva e também o levantamento das partituras e discos de autores diversos da música brasileira, a coleção Brasil de Dentro pretende chegar não apenas aos artistas intérpretes e aos estudiosos da música instrumental, mas também às escolas e aos espaços de educação musical e artística, além do público em geral interessado pela história da música brasileira e seus desdobramentos pelo mundo. Artistas como Antonio Madureira, do Movimento Armorial, e Marlui Miranda, pesquisadora do universo sonoro indígena do Brasil, estão no elenco das obras a serem contempladas em futuras edições. 

Depoimentos

Trecho do depoimento de Tom Zé:

Heraldo educa. Dórico, frígio, lídio, mixolídio. Quirom é um centauro educador. E não há criatura mais semelhante ao centauro do que o guitarrista. A parte equina é o homem, a parte humana é a guitarra. 

Os guitarristas são asas da imaginação humana. Os homens voam com o pensamento, e eles com as cordas. O Nordeste voa com Heraldo. Para dar corpo a esta afirmação, ele nasceu em Pernambuco, em 1935. Lourdes é uma asa, Luis é outra, Heraldinho é uma recordação e as meninas, as musas. É do monte que Heraldo salta. O monte é uma elevação. A montanha pode ser maior, mas a heráldica é a ciência que estuda os brasões. De forma que, heraldicamente falando, é uma gema pernambucana, um cara matreiro, sempre amolando a faca atrás da moita. 

Heraldo também toca outros e muitos instrumentos: violão, viola, cavaquinho, bandolim, banjo, baixo, e a dita. Quem toca guitarra parece usar um instrumento estrangeiro. Mas essa mentira deve-se a pobreza e ao enovelado desenvolvimento do país.”

Dominguinhos:

Falar de Heraldo do Monte não é coisa fácil pra mim que sou um grande amigo dele, mas acho que ele é um dos melhores guitarristas de todos os tempos. Ele é muito versátil. É pau pra toda obra…

Eduardo Gudin:

Heraldo do Monte é o improvisador que mais me impressionou na vida! Ele tem um incrível domínio de suas ideias e consegue passá-las para o instrumento com grande fluência. Impressiona particularmente a total ausência de clichês em sua improvisação, ele não tem clichê nem dele mesmo. Sem contar a pessoa que ele é, consciente de tudo que acontece.

Arthur Moreira Lima:

Ele é um dos músicos mais completos que temos no Brasil; eficiente, criativo, profissional e muito polivalente. Toca todos os instrumentos de corda, ele toca até arame farpado! Heraldo do Monte escreveu uma importante página na História da Música Popular Brasileira.

Guinga:

Heraldo pra mim é o seguinte: ele é um estilo; um dos raros artistas que criaram uma linguagem própria como João Gilberto, Luiz Gonzaga. Ele é o início de um estilo, uma matriz. Heraldo do Monte toca Heraldo; ele é uma matéria-prima, uma fonte, um inventor. O jeito dele tocar só se parece com ele. A arte do Heraldo é como a música flamenca; é uma matriz, um ponto de partida! 

Em foto tirada no Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, na cidade de São Paulo, Heraldo do Monte (ao centro) com Théo de Barros (de óculos), Geraldo Vandré (braço erguido)  e Airto Moreira (Foto: Acervo de Heraldo do Monte)

Hermeto Paschoal:

Heraldo é um dos músicos mais completos do mundo, ele foi a pessoa que introduziu a viola caipira no universo da música instrumental, juntando este instrumento com piano, baixo etc. Com isso, influenciou grupos de todo o mundo como os Beatles por exemplo. É um compositor maravilhoso! Como instrumentista, e não é porque é meu compadre não, ele sai do cavaquinho pro bandolim e pra guitarra como se tivesse tocando o mesmo instrumento. Toca tudo que é instrumento de corda. Um grande abraço pra você campeão, feliz som pra nós todos. 

Arthur Moreira Lima:

Musicalidade, virtuosismo e ecletismo a serviço de um interesse aguçado na busca e aprofundamento de suas raízes nordestinas – tudo isso junto num profissional exemplar, campeão de gravações, “matando” (no jargão de estúdio musical – acertando com perfeição) na primeira tentativa. Tudo isso junto à capacidade de dominar todos os instrumentos de cordas dedilhadas.

Respeitado e admirado pelo público e pelos colegas, Heraldo é um ícone do instrumental brasileiro, circulando com maestria e autoridade por todos os gêneros musicais, brasileiros ou internacionais.

Yamandu Costa:

Heraldo do Monte veio a cristalizar o que chamamos de Guitarra Brasileira. Músico de dupla formação que tocou de tudo e nunca esqueceu suas raízes nordestinas. Temos a sorte de ter um músico desse quilate no nosso país!

Apresentação, por Elisa Bracher e Ivan Vilela

Ao longo da nossa história, a música, como manifestação de um povo, portou-se como cronista dos acontecimentos vividos. De Sul a Norte, de Oeste a Leste do país, pessoas das mais variadas culturas e experiências tiveram na música um modo de contar suas histórias, narrar seus feitos e perpetuar sua memória, sobretudo num país onde o saber escrito demorou tanto para se firmar como instrumento de registro e construção das narrativas.

Em vários momentos, o que nos chegou como registro das situações vividas pelo povo foram as canções, algumas trazidas pela oralidade e outras escritas, como as coplas de Gregório de Mattos, hoje preservadas como poemas.

O advento das gravações e suas posteriores emissões radiofônicas amplificaram essas vozes e as trouxeram ao conhecimento comum. Podemos pensar que a exuberância musical espelhou as várias misturas étnicas que ocorreram no Brasil e manteve acesos os valores fundantes do nosso povo. Um povo que, sobretudo, cantou e ainda canta a sua história.

As expressões culturais são um dos eixos transversais que estruturam uma sociedade, ao construírem um sentimento de pertencimento e cumplicidade entre os viventes de um mesmo chão. Os valores em comum atuam como uma língua em que todos podem se comunicar.

Neste correr da nossa história, alguns músicos, mais que outros, foram definidores de estéticas e estilos, apresentados nas suas maneiras de tocar e de compor. Mas seus legados nem sempre foram reconhecidos por um mercado musical que se apoiava em cânones e, por conseguinte, também criava esquecimentos.

Este livro celebra a obra de uma pessoa que teve no pioneirismo a marca musical da sua carreira, quer como o introdutor da viola de dez cordas no âmbito da nossa música popular, na década de 1960, quer como o guitarrista que acabou por desenvolver uma linguagem de improvisação calcada em referenciais sonoros da cultura brasileira, longe de desenhos pré-moldados provenientes de outras escolas e estéticas musicais que sistematizaram seus processos criativos e os tornaram espécie de receitas para seguir.

Desde que nós, Elisa Bracher e Ivan Vilela, tivemos uma conversa sobre como poderíamos traçar estratégias para apoiar e divulgar músicos tão importantes na definição de novos caminhos musicais e que agora eram tão pouco reconhecidos, moldou-se um sonho que foi sendo esculpido aos poucos.

Um dia, Elisa disse que seria importante os artistas apoiados terem parte do seu acervo musical, ou todo ele, reeditado. A partir desse momento um novo caminho se abriu.

Foi criado então o selo Brasil de Dentro. Uma coleção que em suas edições pretende mostrar a riqueza presente em nossa música, sobretudo a que não chegou ao conhecimento do grande público. Tendo como base um viés histórico, narrativo e reflexivo, e também o levantamento das partituras e dos discos desses autores, a coleção pretende chegar a todos os músicos e demais interessados em conhecer um pouco mais das belezas musicais do Brasil.

Para dar forma ao sonho, montamos uma equipe que pudesse levar a cabo a empreitada de construir um cancioneiro. Um cancioneiro que não fosse apenas um simples rol de partituras, mas sim uma publicação que trouxesse à luz, através de um ensaio crítico, toda a história de cada um dos artistas contemplados pelo projeto e como eles se inseriram, como revolucionários, nos contextos de sua época.

Heraldo do Monte foi escolhido como o primeiro homenageado da série.

Para tal, reunimos uma equipe multidisciplinar. Precisávamos de uma diretora de produção, e ninguém melhor que Marcela Bertelli, que havia editado o cancioneiro de Elomar Figueira de Mello.

Convidamos Hermilson Garcia do Nascimento, o Budi Garcia, professor de guitarra da Unicamp, que a partir de suas pesquisas, percepções e conversas com Heraldo e com Sadao – fotógrafo que documentou parte da vida de Heraldo – elaborou o ensaio crítico que acompanha o cancioneiro.

Gisa Bustamante, designer gráfica, ajudou a definir e criar a arte para a publicação, que precisava atender ao uso do material, ter sua beleza em consonância com a obra de Heraldo e preservar sua permanência no tempo.

Luís do Monte já tinha quase todas as músicas escritas. Sob sua orientação, elas foram repassadas a Daniel Grajew, músico que atuou como copista atento e também contribuiu com as transcrições. Cópias prontas, convidamos dois músicos – Edmilson Capelupi e Toninho Carrasqueira – para lê-las e tocá-las na frente de Heraldo e de Luís do Monte.

O CD coletânea, que incluímos na publicação, foi possível sobretudo graças à cessão de fonogramas pela Som da Gente, e foi masterizado pelo técnico Maurício Cajueiro.

Para todas as etapas, contamos com a presença atenta e disponível de Neide do Monte, filha e produtora de Heraldo.

A poesia do olhar da fotógrafa Kika Antunes chegou para revelar ainda mais as cordas livres de Heraldo.

Não podemos esquecer dos tantos artistas e amigos que enviaram os depoimentos que integram o material, da revisão de textos de Maria Clara Xavier e da assistência de Ana Rita Assis. A versão para o inglês ficou a cargo de Saulo Adriano. Bia Toth foi quem alinhavou e fez as pontes necessárias para que o projeto obtivesse êxito. A publicação foi, então, prontamente acolhida pela editora Contraponto.

O Instituto Çarê faz deste livro a sua primeira publicação, por acreditar que o passo inicial para um país se tornar grande é reconhecer sua própria cultura como ponto de referência e de partida no diálogo com o mundo que o cerca. Esperamos que este seja o primeiro de muitos cancioneiros.

Esta obra teve a concepção de Elisa Bracher e a coordenação de Ivan Vilela, que juntos assinam este texto.

Equipe principal do projeto

Ivan Vilela – coordenação geral e direção artística

Ivan Vilela é músico, pesquisador e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e pesquisador junto à Universidade de Aveiro, Portugal, junto ao INET-md (Instituto de Etnomusicologia – música e dança) onde trabalha no projeto AtlaS (Atlântico Sensível). É doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Mestre e Graduado em Composição Musical pela Universidade de Campinas (Unicamp). Com seus trabalhos musicais foi indicado a importantes prêmios da música brasileira. Possui 18 discos gravados. Com seu instrumento, a viola, atua como solista e junto a grupos de câmara no Brasil e no Exterior. É coordenador da área de música do Instituto Çarê.

Elisa Bracher – concepção e gestão do projeto

Nascida em São Paulo, Elisa Bracher formou-se em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e especializou-se em gravura com Evandro Carlos Jardim e Cláudio Mubarac. Já realizou exposições em diversos países e possui obras expostas em espaços como Museu Inhotim (MG), Museu de Arte Moderna(SP), Parque Villa Lobos (SP), Essex Museum (Inglaterra), entre outros. Em 1997, fundou o Instituto Acaia, organização não governamental que recebe crianças e adolescentes das comunidades do entorno de seu ateliê, na Zona Oeste paulista, para oficinas e cursos. Realizou, durante 9 anos, o documentário Que Língua Você Fala?, sobre o encontro entre grupos de diferentes culturas e estratos sociais. É fundadora e diretora do Instituto Çarê.

Budi Nascimento – pesquisa, textos

Budi Garcia é um músico e musicólogo com significativa experiência no campo da música instrumental. Guitarrista e arranjador, atuou com grandes nomes da música brasileira, lançou um disco solo e é professor de Guitarra Elétrica da Unicamp. Sua produção se volta aos aspectos teórico-práticos do instrumento e da criação musical, em especial no diálogo direto com nossos guitarristas/violonistas. Seja em seus próprios conjuntos ou no trabalho como músico acompanhante, seja escrevendo arranjos para as mais variadas formações, Budi Garcia segue ativo como músico e pesquisador de notável fôlego. Seus interesses musicais são amplos e incluem o erudito, o jazz, a canção popular, a vertente instrumental, a tradição, o risco.

Luis do Monte – transcrição musical e revisão musical

Musico e educador paulistano iniciou sua carreira no ano de 1981 e neste período atuou e gravou com diversos artistas como: Orquestra Popular do Recife “sob regência do Maestro Duda”, Amelinha, Bebel Gilberto, Dominguinhos, Trio Mocotó, Vange Milliet, Jads Macalé, Itamar Assunção, Chico César, Raul de Souza, Paulo Moura, Hermeto Paschoal, entre muitos outros. Filho do mestre guitarrista Heraldo do Monte, tem colaborado com seu trabalho nas últimas décadas gravando quatro de seus álbuns, um deles como produtor e diretor musical. Lançou no ano de 2016 Fractal, seu primeiro trabalho autoral, pela gravadora Biscoito Fino.

Leia mais aqui no Barulho d’água Música sobre Heraldo do Monte e conteúdos a ele relacionados ao visitar o linque abaixo!

https://barulhodeagua.com/tag/heraldo-do-monte/

 

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