1456 – Música nordestina contemporânea: resistência e identidade cultural

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Esta manifestação sempre foi engajada, fosse através das toadas de lamento dos escravos ou nos aboios dos vaqueiros

Amigos e seguidores, boa noite:

A presente atualização foi publicada pelo portal Brasil de Fato/Paraíba, em 2 de outubro de 2019. É de autoria de Cristiane Nepomuceno, antropóloga, pesquisadora, professora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)/NEABI, com edição de Heloisa de Sousa, conforme linque ao final do texto. Para complementá-lo, vamos reproduzir, também, a matéria 10 clássicos para conhecer a música nordestina, de 31 de maio de 2020, do portal potiguar Pantim, escrita por Ewerton Alípio, além de deixar como sugestão dois textos de autoria do blogue como pontos de partidas para aqueles que quiserem conhecer o tema um pouco melhor!

A justiça com sua espada de leviatã na mão/ Pronta para ser usada/Com sua venda nos olhos/ Trazendo consigo o mito da imparcialidade.”

Magistrado ladrão. Cabruêra/Álbum: O samba da minha terra, 2004/(Composição: Zé Guilherme)

A música do Nordeste é muito diversificada e representativa das matrizes étnicas que em seu território convivem há séculos. Essa longa convivência deu origem uma música peculiar, um espelho fiel da nossa miscigenada formação histórico-cultural. Destas matrizes o Brasil herdou seu instrumental, seu sistema harmônico, seus cantos, suas danças, ritmo e cadência, junção dos ritmos uma amálgama cultural: dos batuques e síncopes dos africanos (batuques dos acompanhados de percussão, tambores, atabaques e marimbas e ainda palmas, xequerês e ganzás), dos nativos (cantos das danças rituais indígenas acompanhadas por instrumentos de sopro – flautas de várias espécies, trombetas e apitos – e por maracás e bate-pés) e dos europeus (música erudita, música religiosa, cantachão das missas e hinos e os toques e fanfarras militares). Esta música desde a sua origem foi engajada, comprometida com o mundo real, fosse através das toadas de lamento dos escravos saudosos de sua terra natal ou dos aboios dos vaqueiros que transmitiam através do canto o seu cotidiano de luta em um ambiente inóspito e rústico.

Desde o início dos anos 90 do século XX o Nordeste vem sendo palco de um processo de renovação musical, um estilo que resulta da fusão de vários estilos, um processo de hibridização consubstanciando-se a partir da revalorização do tradicional forró pé-de-serra, das sambadas de maracatu, das rodas de coco, das emboladas, repentes, aboios, repente, poesia popular, os benditos e as incelências, os batuques de terreiro afro, a literatura de cordel com tendências musicais mais modernas, como o rock, o hip hop, o reggae.

Eu sou do baqueado/ Do pandeiro bem levado/ Do batuque e do repente/ Do gingado e do suingue diferente./ Do sambafunksoul do rock e do baião/ Do Jackson hip-hop do Luiz o Gonzagão/ Na rufada do maracatu/ No xote e no xaxado/ No pique rebolado regulado/

Na ginga improvisada/ No fervor da embolada/ Na levada no breque/Na banana e no chiclete/ Eu sou do som do meu Nordeste/ Sou também cabra da peste/

Paraibano e não me engano” (Parapoderembolar – Cabruêra, 2001).

Combinando instrumentos tradicionais nordestinos (rabeca, viola, tambor, berimbau, pandeiro, zabumba) aos sons da guitarra, do baixo e da bateria resultando uma música que a muitos encanta, por nela ser possível identificar as temáticas que cantam a alma do povo nordestino (seca, migração, banditismo social, coronelismo,…) funcionando como meio não só de fortalecimento da herança musical, mas também de despertar o desejo por reabilitar e manter sua identidade cultural.

Assim, as letras tratam do cotidiano nordestino numa perspectiva de crítica social: a condição miséria, desigualdade, corrupção, migração, violência urbana: 

E a cidade se apresenta centro das ambições/Para mendigos ou ricos e outras armações/Coletivos, automóveis, motos e metrôs/Trabalhadores, patrões, policiais, camelôs/A cidade não pára a cidade só cresce/O cima sobe e o de baixo desce.”

(Manguetown, Álbum: Afrociberdelia Chico Science & Nação Zumbi, 1996).

Mas, também tratam da sabedoria popular e dos valores fundamentais do povo nordestino: força, destemor, honra e coragem, além da fé, misticismo, faz promessas, incita esperança:

“O sabiá no sertão/ Quando canta me comove/ Passa três meses cantando/E sem cantar passa nove/ Porque tem a obrigação/ De só cantar quando chove. (…)

Meu povo não vá simbora/ Pela Itapemirim/ Pois mesmo perto do fim/ Nosso sertão tem melhora/ O céu tá calado agora/ Mais vai dar cada trovão/De escapulir torrão/De paredão de tapera”

(Chover ou invocação para um dia líquido Cordel do Fogo Encantado, 2001/Composição: Jose Paes de Lira Filho e Clayton Barros).

Acreditamos que a maior contribuição desses movimentos esteja na possibilidade de difundir os valores, as temáticas, os sons e as manifestações tradicionais do Nordeste entre os jovens. De forma híbrida, o novo é incorporado, renovando a tradição, tornando-a viva, mostrando que é possível o passado coexistir com o tempo presente e voltar-se para o futuro, permitindo a juventude se reconhecer como parte e resultado desse fazer cultural, despertando-lhes a consciência de pertença, de identidade, de apego ao lugar, um processo de auto-(re)conhecimento e de (re)afirmação da identidade cultural. Como no dizer de Câmara Cascudo, a música é expressão essencial da vida.

Que a nossa música possa funcionar como meio de fortalecer e despertar o desejo por reabilitar e manter a identidade cultural do povo nordestino. 

Viva Zapata!/Viva Sandino!/Viva Zumbi!/Antônio Conselheiro!/Todos os Panteras Negras./

Lampião, sua imagem e semelhança./Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.”(Monólogo ao Pé do Ouvido – Chico Science e Nação Zumbi).

10 clássicos para conhecer a música nordestina, por Ewerton Alípio

Começando pela tradição oral (Dona Militana) e anônima, mãe e seiva de todos os cancioneiros e de todas as literaturas, esta lista compreende, na medida do possível, e com as idiossincrasias e lacunas típicas desse gênero textual, os Nordestes ameríndio, ibérico, africano, caiçara (Caymmi), caboclo, sertanejo, da Zona da Mata (Mestre Salustiano) etc.

Excluímos Luar do Sertão e Asa Branca porque tais clássicos constituem ponto pacífico, já quase se situam no patrimônio cultural coletivo.

O cancioneiro nordestino também revela muito sobre questões como desterro, a relação homem e solo, relações de propriedade e estrutura fundiária. No extremo Sul do país, onde o clima é temperado, a pequena propriedade rural encontrou condições mais propícias para um desenvolvimento relativamente seguro, ainda que lento.

Já a prosperidade da agricultura no Nordeste, cujo clima é mais pronunciadamente tropical, era relacionada ao sistema plantation, baseado no latifúndio e em alguma monocultura de exportação. Na velha região, a expansão da pequena propriedade foi resultante da mais rudimentar ocupação da terra por povoadores humildes, os posseiros, desprovidos de títulos de terras, dando origem ao minifúndio, um tipo de propriedade incapaz de prover medianamente o proprietário e sua família.

Enquanto no Sul os campos nativos eram (e ainda são) formados por abundantes espécies vegetais, a grande maioria possuindo aptidão forrageira, no Nordeste a criação extensiva do gado se deu em meio a arbustos e espinhos catingueiros, dependendo exclusivamente das condições climáticas.

Era preciso apartar o gado, bezerros, novilhos, machos e fêmeas, pegar boi fugido etc. Esse tipo de atividade deu origem à corrida de mourão nas fazendas e à vaquejada, demonstrações de perícia e coragem do vaqueiro, temas de aboios, toadas e forró vide Vavá Machado e Marcolino.

Na Bahia, Elomar, que faz algo entre o violêro e o menestrel, mostrou que a influência ibérica na cultura nordestina não viera apenas do eixo PE/PB/RN (Movimento Armorial) e do Ceará.

Enfim, a lista que se segue tenta espelhar o mosaico cultural da região, tanto o aspecto popular como o erudito.

Dona Militana herdou do pai estórias e romances de origem ibérica medieval Foto: Prefeitura de São Gonçalo do Amarante/RN

 1 Dona Militana Romance da Nau Catarineta

Militana Salustino do Nascimento era natural de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte. Considerada uma das maiores romanceiras do Brasil, herdou de seu pai estórias e romances de origem ibérica medieval.

2 Missa do Vaqueiro Luiz Gonzaga

A Missa do Vaqueiro tem origem na morte do vaqueiro Raimundo Jacó, perfidamente tocaiado nas olvidadas caatingas. Esta celebração ocorre ao ar livre, como convém ao espírito livre do vaqueiro, num sítio em que foi erguido um altar de pedra em forma de ferradura. Esta missa é, a um só tempo, uma confraternização do catolicismo popular, símbolo da reforma agrária e da “Civilização do Couro”. Os vaqueiros cantadores fazem oferendas com peças de suas vestes de couro e arreios, improvisando aboios e toadas a partir das peças ofertadas. A primeira missa, rezada pelo padre João Câncio, foi idealizada por Luiz Gonzaga.

3 Mestre Salustiano Toada de Cavalo Marinho

Tanto os interessados no movimento armorial quanto os fãs do manguebeat têm a obrigação de conhecer a obra e o legado de Mestre Salustiano, um dos grandes responsáveis pela preservação dos folguedos populares do folclore regional.

4 Jackson do Pandeiro O Canto da Ema

Sua desenvoltura em baião, marchinhas de carnaval, samba e rojão é emblemática, e deveria encorajar tantos quantos se interessem por sincretismos e sínteses.” Leia mais em: Sobre Parahybas, entreguismo e Jackson do Pandeiro.

5 Dorival Caymmi Coqueiro de Itapoã

A Bahia de Dorival Caymmi ainda era a Bahia das romanceiras pretas da sua infância, malgrado a modernização e urbanização tardias. Um dos compositores mais versáteis desta lista, compôs sambas de rodas, sambas urbanos, tocava temas folclóricos, considerado um dos patronos da Bossa Nova, além de criar o gênero canções praieiras.

6 Dominguinhos Lamento Sertanejo

7 Luiz Gonzaga Assum Preto

8 Vavá Machado e Marcolino Calor da Vaquejada

Ariano Suassuna ao lado de Carlos Newton Júnior (usando óculos) Foto: Gustavo Moura Brasil

9 Quinteto Armorial Romance da Bela Infanta

No cenário musical, o principal expoente da estética Armorial, movimento articulado por Ariano Suassuna com o intento de promover expressões artísticas profundamente nacionais e nordestina, calcadas no popular e erudito.

10 Elomar Na Quadrada das Águas Perdidas

O Sertão Profundo de Elomar, conquanto marcadamente geográfico, é antes de tudo atemporal, situado na dobra do tempo, baseado em teorias dos mundos paralelos. O conceito dessa canção e o encante da Jurema do Nordeste setentrional talvez sejam correlatos. Os encantes são lugares paralelos ao mundo que conhecemos habitualmente, presentes em rochas, grutas, rios, árvores, matas e até nas profundezas dos solos pedregosos da região. Existe uma Geografia Sagrada na obra elomariana.

N.R.: O Barulho d’água Música, em sete anos de atividades, tem se pautado por trazer para seus seguidores, apoiadores e amigos matérias que abordam o que 99 vezes em 100 está fora da mídia, pois dedica-se ao que não toca costumeiramente nas emissoras de rádio e nem são temas de programas de empresas de televisão da rede comercial aberta. Muito embora, ao contrário, a oferta de textos sobre música fora dos cânones (aquela objeto dos estudos dele e que nos ensina a conhecer o professor, compositor e pesquisador Ivan Vilela, da Universidade de São Paulo) para quem tenha paciência e curiosidade de buscar seja o inverso na internet (blogues, portais, artigos etc), nem sempre tais matérias estão à mão ou ao alcance de um clique sem filtros, já que “boiam” em meio a um universo dos mais vastos. Espero que esta possa ser útil neste sentido e reforço: no próprio Barulho d’água Música há várias etiquetas que levam a conteúdos dos mais interessantes e ricos relativos à produção musical “fora da caixa”, quer seja no Nordeste, quer seja no que se chama de Brasil Profundo.

https://www.brasildefatopb.com.br/2019/10/02/artigo-or-musica-nordestina-contemporanea-resistencia-e-identidade-cultural

https://pantim.com.br/10-classicos-para-conhecer-a-musica-nordestina/

https://barulhodeagua.com/2021/01/18/1348-burro-morto-zabe-da-loca-jackson-envenenado-flavio-jose-conheca-ouca-e-curta-conterraneos-de-genival-lacerda-no-blogue-musica-da-paraiba/

https://barulhodeagua.com/2019/03/26/1170-rock-baiao-e-psicodelia-fervem-no-caldeirao-de-paebiru-bolachao-mais-caro-da-mpb/

 

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