1467 -Ao lado do filho Rodrigo, Benito di Paula (RJ) volta aos palcos e em Sampa anuncia seu novo álbum

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  Ícone do samba nacional contestado no início da carreira por outros expoentes do gênero por suposta “alienação”, mas amado pelo público ao longo dos anos e até hoje regravado por sambistas da nova geração, cantor e compositor aproveitará os concertos para comemorar seu aniversário de 80 anos, ao final de novembro

O cantor e compositor fluminense Benito di Paula, um dos mais populares e aclamados sambistas do país em todos os tempos, completará 80 anos de vida em 28 de novembro. Como parte das comemorações pelo seu octogésimo aniversário, duas semanas antes e também em um domingo, no dia 14, Benito di Paula anunciará a partir das 20 horas no palco de um renomado teatro paulistano, ao lado do filho e produtor musical Rodrigo Vellozo, que vem ai seu novo álbum. O Infalível Zen trará 12 faixas que deverão compor o repertório na ocasião e tocadas por ambos, sentados cada um diante do próprio piano de cauda. O ingresso para o espetáculo, entre R$120 e R$200 já está à venda e poderá ser reservado pelo linque abaixo.

Além das novidades de O Infalível Zen, o público poderá relembrar no calor do ambiente presencial vários sucessos de Benito di Paula que embalam gerações, mescladas, por exemplo, às inéditas Aurora e Lágrimas no Meu Sorriso. Algumas das músicas novas estavam guardadas na gaveta há anos — como a homenagem de Benito ao boêmio Nelson Gonçalves. “Não deu certo de ele gravar”, contou Benito. Já Aurora é dedicada à neta e filha de Rodrigo e foi lançada como single no mais recente Dia dos Pais.

Durante o período de isolamento e de suspensão de atividades nas fases mais agudas de contaminação e de mortes pelo coronavírus, Vellozo e Benito aproveitaram o convívio em casa e para manter o contato com o público produziram o projeto audiovisual Benito+ Rodrigo: Em Casa, em cujas rodadas contaram histórias e relembraram canções que marcam a carreira artística de ambos. Agora, com a gradativa retomada de espetáculos presenciais, ampliaram a ideia e prometem embalar as celebrações dos oitenta anos do sambista. Estarão no programa, por exemplo, Retalhos de Cetim; Do Jeito Que A Vida Quer; Mulher Brasileira; e Charlie Brown. É um repertório que se tornou parte do inconsciente coletivo de um país”, afirmou Vellozo.Afinal, meu pai dedicou a vida ao árduo ofício de ser artista brasileiro.

Rodrigo Vellozo, sobre a importância do pai para a música nacional: “Repertório que se tornou parte do inconsciente coletivo de um país.

Vellozo contou ainda que durante o isolamento doméstico provocava o pai para compor, além de também resgatar canções que Benito di Paula compôs, mas não tinha gravado ainda. “Pesquisei toda a obra dele”, disse Rodrigo. “São inéditas, antigas ou recentes. Também temos parcerias com nomes da música contemporânea de São Paulo, música instrumental dele no piano. É um panorama do que ele fez e faz, só que nos dias de hoje.”

Benito quase não saiu de seu apartamento desde o início da doença que ceifou a vida de mais de 600 mil brasileiros. Chegou a raspar o cabelo e a barba, mas não gostou e resgatou o antigo visual com o qual se consagrou. “O pessoal elogiou, mas eu me parecia com uma bola sete”, brincou. Celebro a nova idade com muita energia e saúde e esse reencontro de ambos com o público tem tudo para ser inesquecível”, acredita Benito. Vamos matar a saudade do nosso querido público, que é a nossa família. Esse povo brasileiro, que sempre me acompanha e incentiva em todo país e até no Exterior.

Depois da passagem por Sampa, o show pelos 80 anos será apresentado no dia do aniversário, na capital fluminense. Para conferi-las, o público deverá apresentar o comprovante de vacinação contra a COVID-19, com pelo menos uma dose aplicada e seguir outras restrições sanitárias em vigor. O documento de comprovação poderá ser físico ou digital (disponível no aplicativo Conecte SUS). No caso de fãs vacinados em São Paulo, também é possível comprovar a imunização com os documentos acessados nos aplicativos Poupatempo Digital e E-saudeSP.

 

 

MUDANÇA DE ESTILO, MAS COM O MESMO VISUAL

A gente faz o trabalho da gente. É um trabalho simples dentro do contexto musical brasileiro. Mas temos muitos valores, aqueles eternos, e não estamos preocupados em fazer coisas complicadas. A gente nem sabe fazer isso”, afirmou Benito, ao comentar a produção do novo disco. E para 2022 os fãs deverão ter mais novidades: Rodrigo e Rômulo Fróes preparam um disco com vários artistas celebrando Benito – entre eles Criolo, Demônios da Garoa e Roberta Sá.

O quase octogenário é sucesso no mercado fonográfico desde os anos 1970, mas está em atividade desde a década de 1960, passando pela noite das cidades do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Santos (SP) antes de virar ícone. Os dias atuais talvez marquem o momento de maior transformação da forma como ele faz música. Aurora, por exemplo, lembra muito pouco do que se conhece do Benito di Paula de Retalhos de Cetim. A voz continua grave, diferenciada. Porém, há a roupagem contemporânea idealizada por Rodrigo e Fróes. Há a percussão mais contida, valendo-se da sonoridade da madeira do violão.

Bem no começo, Benito improvisa Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo, mostrando sua habilidade com as cordas. Ao fundo, sopros bem-encaixados, percussão e até mesmo sintetizadores. Desapareceu a levada conhecida como samba-joia. Não se sabe se voltará. Mas a reinvenção de Benito di Paula, embora ele se mantenha fiel às raízes, é boa para ele próprio, para os fãs e para quem ainda vai conhecer seu trabalho­.

Nascido em Nova Friburgo, cidade serrana do estado do Rio de Janeiro, o assim batizado Udday Veloso é quem deu vida e fama a Benito di Paula, considerado pela crítica especializada como o criador do samba joia, um estilo que combina o samba tradicional com o piano e arranjos românticos e jazzísticos, termo, aliás, que nunca agradou ao próprio artista. O cantor iniciou a carreira em boates do Rio de Janeiro antes de se mudar para São Paulo (onde continuou a tocar piano em casas noturnas, fixou sua moradia, construiu família e carreira) e trabalhar em Santos. 

Benito Di Paula rapidamente, apesar de fluminense, tornou-se símbolo do samba paulista e, entre os anos 1970 e 1980, conquistou a admiração pública no país. Gravou mais de 35 discos e chegou e vender cerca de 50 milhões de cópias, tornando-se o quinto maior em números nacionais. Além do Brasil, também vendeu discos em outros países e idiomas, como espanhol, francês e italiano. Só na Europa bateu quatro milhões de cópias. Seu mais recente trabalho de estúdio saiu em 2016, após um longo hiato. E outro dos seus rebentos, Bruno Vellozo, também é cantor e compositor.

Benito Di Paula é pianista autodidata e ainda toca violão. Diversos intérpretes brasileiros gravam músicas de sua autoria e ele ainda compôs trilhas para novelas (Nino, o italianinho, Simplesmente Maria etc.) e ganhou o prêmio Chico Viola, promoção da TV Record com sua música Faça de mim uma ilha.

O primeiro contrato saiu pela gravadora Copacabana, no início dos anos 1970, já o disco de estreia, Benito Di Paula (1971), foi censurado pelo regime militar por ter entre as faixas Apesar de Você, de Chico Buarque.

O segundo elepê, Ela, também não atingiu alto voo, mas com o terceiro, sim: Benito enfim acordou a coruja. Em Um Novo Samba, já apareceu na capa com sua longa barba e cabelos e os adereços como correntes, brincos e pulseiras que compõem sua identidade visual e remete à cultura do pai. É neste disco que canta Retalhos de Cetim, um dos seus inúmeros sucessos ao longo da carreira que dividem os aplausos com Charlie Brown; Vai Ficar Na Saudade; Se Não For Amor; Amigo do Sol, Amigo da Lua; e Mulher Brasileira. Ainda nos anos 1970, o sambista disputava exemplar a exemplar a venda de bolachões juntamente com Roberto Carlos, para o qual, aliás, também compôs. Benito passou pela televisão protagonizando o programa Brasil Som 75, na TV Tupi, em 1975. Parte importante de sua obra já foi relançada em disco ou DVD e devido ao sucesso de suas músicas chegou a se popularizar além das fronteiras verde e amarela, principalmente na América Latina. Parte desta história está registrada nas páginas de Eu Não Sou Cachorro Não, livro do historiador, jornalista e escritor baiano Paulo César de Araújo.

E a origem do nome artístico de Udday Vellozzo, nascido em Nova Friburgo e um dos 13 filhos do casal da humilde formada por José e Maria Vellozo? O pai era ferroviário empregado na Estação Leopoldina, descendente de ciganos, e tocava diversos instrumentos de corda, além de comandar um bloco (Quem é bom não se mistura) e um grupo de música regional.

A música, portanto, preenchia o dia da casa. Vendo o pai tocar, o garoto Udday aprendeu também alguns instrumentos, entretanto quem o incentivou a encarar o microfone, já na adolescência, foi Alfredo Motta, amigo que o convidou quando o rapaz tinha 16 anos para se apresentar em um hotel de Nova Friburgo. Motta, inicialmente, batizou Udday apenas como Benito,  mas logo adicionou o di Paula ao nome para “italianizar” e dar mais glamour ao artista que despontava. Seu mais recente trabalho de estúdio saiu em 2016 após muito tempo sem lançar algo novo.

SAMBA “G,G,S,S…”

O “samba joia”, ou “sambão”, além de Benito di Paula, tem entre seus expoentes Luiz Ayrão, Gílson e Agepê, apontou Luiz Fernando Viana, coordenador da Rádio Batuta, emissora de internet do Instituto Moreira Salles, em entrevista concedida em 4 de dezembro de 2016 a jornalista Petria Chaves, apresentadora do programa Música e História, 100 anos de Samba, da Rádio CBN. Viana explicou que o termo “samba joia” surgiu no começo dos anos 1970 e a ele esteve ligado certo tom pejorativo, pois esta corrente preferia arranjos com piano, guitarra e bateria, deixando a percussão em segundo plano e valorizando letras mais românticas e próximas ao bolero — o que também é uma marca do samba-canção, que foi considerado a música mais representativa do Brasil até o advento da Bossa Nova.

Por estas características e valores, o samba joia enfrentou “certa rejeição estética e política”, posto que seus ases ignorariam que Pindorama, à época, era violentamente torturada pelo regime militar que, além de perseguir, matar e/ou exilar oponentes, ainda censurava determinadas manifestações artísticos culturais, canções e artistas que julgava críticas à milicaiada. Joia era uma gíria da época que significava “está tudo bem”, “tudo legal”, “tudo joia”, “tudo tranquilo”, apontou Viana; ainda hoje é comum encontrar quem goste de perguntar ao amigo: “ai, tudo joia?”, ao que, em tom jocoso, alguns respondem: “sim, tudo G,G,S,S!”¹. Ou seja: haveria uma postura de alienação e de condescendência com a situação do país entre estes sambistas e compositores. Eles prefeririam fazer sucesso com músicas de letras otimistas, brandas e/ou bregas, enquanto outros se arriscavam gravando canções de protesto e davam a cara à tapa para denunciar e enfrentar a repressão dos anos de chumbo.

Canções famosas de Benito di Paula se encaixam nesta definição supostamente alheia, como Assobiar e chupar cana, na qual ele exalta que “a taça do mundo é nossa/com o brasileiro não há quem possa”. O exemplo melhor acabado do repertório de Benito que revelaria a suposta despreocupação político-social dele com o “pau de arara”, a “pimenta”, a “tubaína” e o “telefone” que comiam solto nos porões, entretanto, seria por esta ótica Tudo está no seu lugar, música de 1976 ² na qual ele canta: “Tudo está no seu lugar/Graças a Deus/Graças a Deus/Não devemos nos esquecer de dizer/Graças a Deus (…)/Quero ver um sorriso estampado/Bem na cara desta gente/Quero vai quem vai? Quem fica?/Ou quem chega de repente!/Quando chego do trabalho/Digo a Deus: “Muito obrigado!”/Canto samba a noite inteira/No domingo e feriado.”

Ainda conforme Viana, o estilo sambão “para cantar alto, junto, sem esquentar demais” teria sido espezinhado por sambistas mais tradicionais. Um deles, Paulinho da Viola, “reza a lenda”, teria gravado Argumento em 1975 como resposta à turma “de quem não quer navegar” e cujos versos pedem “Tá legal/eu aceito o argumento/mas não me altere o samba tanto assim/olha que a rapaziada está sentindo a falta/de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim…

O próprio Viana, contudo, ponderou: nunca soube se Paulinho assumiu esta intenção e, em defesa contra a patrulha ideológica a Benito di Paula e a Ayrão, por exemplo, relembrou: suas canções (como Bola Dividida, que ouço enquanto finalizo esta atualização) marcaram gerações como a dele próprio e este blogueiro, hoje são regravadas por expoentes de responsa como o Sambô e o Casuarina e tanto Benito quanto Ayrão gravaram canções de Carnaval e sambas de Chico Buarque — o que, inclusive, levou à censura do primeiro disco do friburguense. Sem mencionar o fato de que Ayrão, carioca e prestes a também emplacar 80 desfiles na passarela da vida, é compositor de Porta Aberta, outro clássico do gênero, em homenagem à Escola de Samba Portela.

O ingresso para assistir a apresentação de Benito di Paula e Rodrigo Vellozzo poderá ser comprado pelo linque abaixo:

O Infalível Zen

Clique no nome da música e ouça vários sucessos na voz de Benito di Paula: 

Retalhos de Cetim 


N.R.: ¹: G,G,S,S: joia, joinha, certo, certinho…

² Em 17 de janeiro de 1976, dez dias depois de completar 49 anos, o operário metalúrgico alagoano Manoel Fiel Filho foi morto pela ditadura militar. As circunstâncias da sua morte sob tortura em prisões são idênticas as do estudante Alexandre Vannucchi Leme, do primeiro tenente PM José Ferreira de Almeida, e do jornalista Vladimir Herzog. 

Ao final do mesmo ano de 1976, em 16 de dezembro, agentes do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) e do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) invadiram uma casa no bairro paulistano da Lapa e assassinam à sangue frio a tiros de metralhadora dois dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. Um terceiro, João Batista Franco Drummond, preso horas antes, foi torturado e morto na sede do DOI-Codi. Outros quatro líderes que haviam deixado a casa durante a madrugada foram perseguidos, presos e torturados. Depois de matar 10 dos 29 dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) entre 1974 e 1976, a ditadura fardada liquidou na Lapa o comando do PCdoB.

Leia também no Barulho d’água Música:

1134 – Luiz Ayrão comemora 50 anos de carreira com apresentação no Sesc Belenzinho (SP)*

 

 

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