1499- Voz do Milênio, Elza Soares (RJ) deixa o Planeta Fome e sobe ao Plano Maior, aos 91 anos

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A carioca Elza Soares, uma das mais fulgurantes estrelas da cultura popular brasileira, morreu na tarde de quinta-feira, 20 de janeiro, em sua casa na cidade do Rio de Janeiro. Aos 91 anos, a passagem de Elza ao Plano Maior ocorreu por volta das 16 horas, e, segundo sua assessoria, a cantora e compositora expirou por causas naturais. É uma notícia nada agradável a se dar no começo de um ano em que a pandemia de Covid-19 voltou a assustar e durante o qual será fundamental reunirmos e termos forças para tentarmos devolver ao país a dignidade e a esperança, que, entre outras graves perdas e retrocessos, ficaram a um fio de irem para o ralo em meio ao processo bolsogenocida de desmonte e negação de projetos e políticas sócias e públicas nas mais diversas áreas. Mas, ao menos, pelo que se depreende da nota que trouxe a notícia, Elza se foi em paz e aparentemente sem sofrimento, o mínimo que alguém de sua envergadura e que tantas dores e barras suportou merecia. Agora, que sejam prestadas as justas e devidas homenagens, dispensadas as palavras frias que, por ventura, venham do Planalto Central!

“É com muita tristeza e pesar que informamos o falecimento da cantora e compositora Elza Soares, aos 91 anos, às 15 horas e 45 minutos em sua casa, no Rio de Janeiro, por causas naturais”, aponta o comunicado. “Ícone da música brasileira, considerada uma das maiores artistas do mundo, a cantora eleita como a Voz do Milênio teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com sua voz, sua força e sua determinação“. O velório, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, até às 10 horas, foi fechado para familiares e amigos e dai até às 14 horas da sexta-feira, 21, o público pode se despedir .

O autor da nota de pesar ainda observou que a “amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e em nossos corações e dos milhares fãs por todo mundo. Feita a vontade de Elza Soares, ela cantou até o fim”.

Um dos primeiros a compartilhar a notícia da morte de Elza Soares, o blogue Pop & Arte, do portal G1, escrito por Mauro Ferreira, lembrou que a diva começou a fazer fama, pela via do samba, durante os anos 1960. Chamava-se Elza Gomes da Conceição e despontava já no final dos 50 com o sambalanço Se Acaso Você Chegasse, de 1959, contudo, antes, em 1953, com apenas 13 anos, já chamuscara o apresentador durante o Programa de Calouros de Ary Barroso, na rádio Tupi, ao ser provocada por ele, que apostou que ela não saberia cantar. Elza peitou Barroso, que, então, saiu-se com esta: “De que planeta você veio, menina?”. A contundente resposta ficou na história: “venho do Planeta Fome”

Em 34 discos lançados até 2019, além do samba, Elza fez sucesso do jazz ao hip hop, do funk à música eletrônica, passando também pelo rock, mistura que, afirmava, era proposital; o G1 Rio também “furou” horas depois das primeiras linhas sobre a morte publicando que a de Elza Soares ocorreu no mesmo dia em que perdemos Mané Garrincha, craque que defendeu entre outros o Botafogo (RJ) e o Corinthians (SP) e foi bicampeão mundial com a seleção brasileira (1958 e 1962). Elza e Garrincha viveram juntos por 17 anos, mas já estavam separados quando ele ouviu o apito final também em 20 de janeiro, de 1983.

Eu sempre quis fazer coisa diferente, não suporto rótulo, não sou refrigerante”, disse certa vez. “Eu acompanho o tempo, eu não estou quadrada, não tem essa de ficar paradinha aqui, não”, emendou. “O negócio é caminhar. Eu caminho sempre junto com o tempo.”

Planeta Fome, de 2019, encerrou a discografia e já na época, um ano antes do flagelo da pandemia do coronavírus bater em praticamente todas as portas do globo, Elza Soares dizia que não cultiva planos concretos para outro álbum, pelo menos não naquele ano, recordou Ferreira. “Ainda não, mas vai surgir. Minha cabeça não para, cara!”, falou ao jornalista do G1. Só não queria parar de cantar: “Nem de brincadeira. Parar por quê? Por que parar? Não tem por que, né?”

Elza Soares foi tema do samba enredo de 2020 da Mocidade Independente de Padre Miguel e desfilou naquele ano pela Escola da qual, dez anos antes, fora madrinha de bateria (Foto: Acervo pessoal de Elza Soares)

Apesar da união com Garrincha, ídolo do alvinegro da Estrela Solitária, Elza Soares era Flamengo, um dos arquirrivais do Fogão. E até poderia ser torcedora do Bangu, já que boa parte da infância e da mocidade viveu em Moça Bonita, sede do alvirrubro dos Mulatinhos Rosados¹. Mas se não vestiu a camisa do Castor vice-campeão brasileiro de 1985, na avenida e nos barracões a paixão era devotada à Mocidade Independente de Padre Miguel, escola que a homenageou em 2020 levando-a ao Sambódromo em um carro alegórico ao som do samba enredo em sua homenagem: “Salve a mocidade/Essa nega tem poder/É luz que clareia/É samba que corre na veia…”. Em 2010 ela já tinha desfilado como madrinha de bateria da Mocidade. Ela também foi a primeira mulher a interpretar um samba enredo.

FRASE SÍNTESE

Uma frase síntese que ecoa na voz de Elza Soares que resume muito sua obra e suas convicções. está no refrão de O Que se Cala, faixa que abre Deus é Mulher, álbum de 2018 que aqui na redação está sempre à mão: “Mil nações moldaram a minha cara, minha voz uso para dizer o que se cala. O meu país é meu lugar de fala”.

Deus é Mulher, lançado pelo selo Deck Disc, chacoalha Punk, Rock, Samba, MPB no mesmo recipiente que mistura a química da banana de dinamite e, com o pavio já acesso, vai soltando porradas para todo lado até não ficar paredes em pé ou, no mínimo abaladas, sem recuperação, laroyê! Antes, em 2016, ela já provocara tsunamis na cena musical com A Mulher do Fim do Mundo, seu primeiro álbum de  inéditas em décadas de carreira. Na época, com mais de 80 anos, dos quais já sete décadas de estrada e palcos, Elza, conforme o blogue Ao Sul do Mundo, era vista “como uma força da natureza que sobreviveu a tragédias pessoais, ao desenrolar das décadas, às mil e uma transformações do mundo da música, como uma verdadeira relíquia que o presente aprendeu a amar.”

O disco A Mulher do Fim do Mundo, um dos marcos de sua capacidade de se reinventar, foi distinguido como um dos melhores álbuns de 2016 por publicações de todo o mundo, do britânico The Guardian à estadunidense Pitchfork e à Blitz e daí ao New York Times. No álbum, a voz eterna de Elza encontra-se com a modernidade dos arranjos e guitarras de arrojo rock e à eletrônica cortante de músicos que são parte da vanguarda de São Paulo, como Kiko Dinucci e Marcelo Cabral, da banda Metá Metá. Com a produção musical confiada a Guilherme Kastrup, em parceria com Romulo Fróes, Dinucci, Cabral e Rodrigo Campos, nas letras fortes e interventivas sobre o abuso sexual, a violência doméstica e a discriminação racial, ainda segundo o Ao Sul do Mundo, identifica-se um desejo de superação que em Elza Soares nunca desapareceu.

O New York Times, por exemplo, frisava que Elza continuava indomável. Sim, já naquela ocasião, ela queria mesmo era incomodar de putas a presidente e cardeais, por isso, em 2018, sem medo de caretas e hienas, soltou de novo a língua. agora em Deus é Mulher, decochado já desde o título. “Deus É Mulher é combativo, político, militante, punk, e um regresso do samba sujo dos músicos responsáveis por A Mulher do Fim do Mundo, no entanto, neste novo trabalho, tudo soa mais exuberante e mais rico, de certa forma até mais intenso e apaixonado”, ponderou Ao Sul do Mundo.

O disco conta além dos participantes já mencionados com Tulipa Ruiz e o bloco afro de São Paulo Ilú Obá De Min, com a percussionista Mariá Portugal e a clarinetista Maria Beraldo. Foi considerado pelo The New York Times como um dos dez melhores discos daquele ano, concorreu ao Grammy Latino de “Melhor Álbum de Música Brasileira”, mas desta não levou.

Leia mais sobre e ouça o álbum Deus é Mulher em artigo escrito por Cleber Facchi em 23 de maio de 2018 ao visitar http://musicainstantanea.com.br/resenha-deus-e-mulher-elza-soares/

Aqui no Barulho d’água Música Elza Soares foi tema da atualização 827 (8/3/2017), acessada pelo linque https://barulhodeagua.com/2016/03/08/827-elza-soares-nao-foge-as-lutas-pela-afirmacao-feminina-e-jamais-fez-concessoes-para-construir-a-carreira-de-rainha-do-samba/

Baixe e ouça parte dos primeiros discos de Elza Soares em https://www.musicasdonordeste.net/search/label/Elza%20Soares

https://www.aosuldomundo.pt/elza-soares

http://musicainstantanea.com.br/resenha-deus-e-mulher-elza-soares/

https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2022/01/20/elza-soares-morre-aos-91-anos.ghtml

1 No ano de 1929, o Bangu Atlético Clube ganhou o curioso apelido de Mulatinhos Rosados. Há duas versões para a história. Conforme a primeira, o apelido levava em conta que o time do Bangu era formado, basicamente, por mulatos. Como suas camisas desbotavam ao suarem, as listras vermelhas pareciam rosadas, surgiu o nome. A segunda narrativa envolve o presidente do clube à época, Antônio Pedroso, que, para responder a um dirigente adversário que dissera: “Como tem crioulo neste time!”, respondeu: “Crioulos não, mulatinhos rosados”. Seja como for, é preciso a ressalva que o Bangu foi pioneiro na luta contra o racismo no futebol brasileiro, ainda em 1905, e que a expressão deve ser entendida de maneira extremamente simpática e singela, se não folclórica.

2 Em 1999, Elza Soares foi eleita pela Rádio BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio. A escolha teve origem no projeto The Millennium Concerts, da rádio inglesa, criado para comemorar a chegada do ano 2000.Além disso, ela está na lista das 100 maiores vozes da música brasileira elaborada pela revista Rolling Stone Brasil

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