1512 – Graziela Medori (SP) grava pela Kuarup releitura de disco clássico de Caetano Veloso eleito um dos dez melhores do Brasil

#MPB #Afoxé #Pop #Rock #Reggae #CulturaPopular

Com novos arranjos e elementos, Transando o Transa está disponível nas plataformas digitais e apresenta as canções originais do “discobjeto” Transa, que o baiano concebeu durante o exílio na década dos anos 1970

A cantora paulistana Graziela Medori está lançando Transando o Transa, uma releitura do célebre Transa, que Caetano Veloso gravou em 1971 e chegou ao mercado nacional em 1972 – um álbum, portanto, que tem meio século, mas conserva-se clássico. O projeto é da Produtora e Gravadora Kuarup, que já trouxera Graziela ao final de 2020, ao lado de Alexandre Vianna, reinterpretando canções do Clube da Esquina em Nossas Esquinas.

Obra-prima regada a diferentes ritmos como o afoxé, o pop, o rock and roll e o reggae, eleito em uma lista da versão brasileira da revista Rolling Stone como o décimo melhor disco brasileiro de todos os tempos, Transa, com apenas sete faixas, continua a ecoar pelos ouvidos atentos de quem tem ânsia por uma escuta alternativa. Veloso o produziu sob a influência dos ares de Londres, em 1971, quando foi forçado ao exílio pelos milicos e asseclas que haviam transformado o Brasil em um país sob censura, baixavam o porrete e matavam sob tortura seus opositores. É o segundo e último disco de Caetano Veloso feito durante quase três anos na capital inglesa e o primeiro a ser lançado em Pindorama após seu retorno do desterro.

As faixas do vinil de Caetano Veloso intercalam letras em inglês (cinco no total) com versos do poeta conterrâneo da boca do inferno Gregorio de Mattos (Triste Bahia) e um samba de Monsueto de Arnaldo Passos (Mora na Filosofia). Os críticos o consideram “autobiográfico até o osso”: revela a sensação de estar sozinho e longe de casa (You Don’t Know Me) e como incorporar o choque cultural com o mínimo de sofrimento — como a citação ao reggae na Portobello Road, em Nine Out of Ten, que Caetano já afirmou ser a primeira gravação brasileira do ritmo caribenho. “Talvez pela distância, talvez pela falta de olhares vigilantes, Caetano nunca tenha sido tão Caetano”, arremata um texto disponível no blogue Música do Nordeste, do qual poderá ser baixado pelo link https://www.musicasdonordeste.net/2017/07/caetano-veloso-transa-1972.html

Revisitar Transa é relevante no sentido de valorização da obra, dando continuidade a uma estética sonora experimental e autêntica, que carrega os elementos que formam a personalidade forte de Caetano Veloso. Graziela, influenciada pela música brasileira e suas misturas, ficou de cara com o disco também flanando pela Portobello Road, em 2017. Sua iniciativa nesta viagem pelo tempo promove a retomada de ambientes díspares da década dos anos de chumbo, período em que era forte o contraste entre a agitação cultural efervescente na Europa e o terror que o regime ditatorial tacava no Brasil, recrudescido a partir de 1968 com a imposição do AI-5 e mal disfarçado sob lemas como “Ame-o ou deixe-o”, enquanto vendia a imagem de um país em franca progressão impulsionada pelo “milagre econômico”

Capa do disco de Graziela Medori distribuída pela Kuarup. A imagem que encabeça a matéria, em destaque, é uma criação do blogue Barulho d’água Música inspirada na capa do bolachão de Caetano Veloso, feita em 1972 por Álvaro Guimarães. A foto de Graziela utilizada na imagem originalmente é colorida e à direita e está sem atribuição de crédito do autor em https://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com/2015/06/graziela-medori-uma-das-promessas-da.html?m=1

Para Transando o Transa, Graziela e o estúdio Mandril se juntaram em um mergulho musical e artístico e apresentam as canções com novos elementos e arranjos, sem perder a essência dos feitos originalmente pelos músicos Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza; Caetano Veloso, na época do lançamento, ficou puto com os produtores porque se esqueceram de citá-los na ficha técnica¹. A cantora dividiu a produção do disco como guitarrista Rodrigo Ramos. Transando o Transa, segundo a Kuarup, é uma viagem atual, democrática e original, que chega com base no rock e na força percussiva dos ritmos brasileiros.

Graziela Medori caminhou pelas mesmas ruas londrinas que inspiraram Caetano há 50 anos para lançar seu novo álbum, já disponível nas plataformas digitais, pela Kuarup

 

Graziela Medori é filha da consagrada cantora Claudya e do instrumentista Chico Medori. Profissionalmente, está na música desde os 16 anos. O primeiro trabalho da cantora, A Hora É Essa (Lua Music/2011) reúne participações especiais de Oswaldinho do Acordeon, Dominguinhos e Fernando Nunes, com direção e arranjos do pai. Quatro anos mais tarde Toma Limonada (2015) brindou os amigos e fãs com regravações de Marcos Valle, Lô e Marcio Borges e Raul Seixas mescladas às inéditas Nada Mais Que Cinema, de Thiago Pimentel, e Radical, de Claudya, em parceira com Luiz Carlos. Em destaque, como convidado na faixa título, Seu Jorge. Além de dois discos lançados, Graziela tem em seu currículo participações em projetos como o Literalmente Loucas, uma homenagem a cantora Marina Lima; 100 anos de Ataulfo Alves; e É Melhor Ser Alegre Que Ser Triste, um espetáculo dedicado ao poeta Vinícius de Moraes, ao lado de Jane Duboc e Juan Alba.

MÚSICA BRASILEIRA DE ALTA QUALIDADE

O Clube da Esquina nasceu de uma forte junção entre músicos e compositores mineiros, mas acima de tudo a amizade foi o maior elo entre essa geração que estava descobrindo a música como forma de se expressar. Milton Nascimento, Lô e Marcio Borges, Fernando Brant, Nelson Angelo, Ronaldo Bastos, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, entre outros, contribuíram para a criação de uma sonoridade única que tinha influência forte da banda britânica Beatles, da música latina com o canto das igrejas, com temas que abordavam a importância da amizade genuína, dos momentos políticos vividos na década de 70, sobre nossas raízes ancestrais e o sentimento coletivo de amor e perseverança. Os discos lançados em 1972 e 1978, são os discos mais importantes desse período, atravessando o oceano e conquistando músicos como: Pat Metheny e John Lennon. O Clube não foi fundado num Clube, mas o encontro dos músicos se deu de fato numa esquina em Belo Horizonte. Saiba mais sobre o disco de Graziela Medori e Alexandre Vianna da Kuarup que resgata um pouco da contribuição do Clube da Esquina visitando aqui no Barulho d’água Música a atualização 1336, disponível em https://barulhodeagua.com/2020/12/06/1336-graziela-medori-e-alexandre-vianna-lancam-disco-dedicado-a-obra-do-clube-da-esquina/

Especializada em música brasileira de alta qualidade, o seu acervo concentra a maior coleção de Villa-Lobos em catálogo no país, além dos principais e mais importantes trabalhos de choro, música nordestina, caipira e sertaneja, MPB, samba e música instrumental em geral, com artistas como Baden Powell, Renato Teixeira, Ney Matogrosso, Wagner Tiso, Rolando Boldrin, Paulo Moura, Raphael Rabello, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Elomar, Pena Branca & Xavantinho e Arthur Moreira Lima, entre outros.

Kuarup Música, Rádio e TV/ www.kuarup.com.br

Telefones: (11) 2389-8920 e (11) 99136-0577/

Rodolfo Zanke rodolfo@kuarup.com.br


¹ Exilado em Londres desde 1969, Caetano Veloso obteve permissão para ficar um mês no Brasil em janeiro de 1971 para assistir à missa comemorativa dos 40 anos de casamento de seus pais. Na cidade dRio de Janeiro, durante um interrogado por militares, pediram para que ele fizesse uma canção elogiando a rodovia Transamazônica, na época em construção. Caetano se recusou e de volta a Londres gravou Transa no final do ano e o lançou em janeiro, já no Brasil.

A capa tripla do álbum de Caetano Veloso, que ficou conhecido por “discobjeto”,  transforma-se em triângulos

Em entrevista Caetano declarou ao Jornal do Brasil que convidou para gravar em Londres e fazer os arranjos Jards MacaléTutty MorenoMoacyr Albuquerque e Áureo de Sousa. “[Mas os nomes] não saíram na ficha técnica e eu tive a maior briga com meu amigo que fez a capa. Como é que bota essa bobagem de dobra e desdobra, parece que vai fazer um abajur com a capa, e não bota a ficha técnica? Era importantíssimo. Era um trabalho orgânico, espontâneo, e meu primeiro disco de grupo, gravado quase como um show ao vivo”.

Na mesma entrevista, o baiano comentou: “Foi Transa que me deu coragem de fazer os trabalhos com A Outra Banda da Terra. Tem a Nine out of Ten, a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul McCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley & The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70. Gosto do disco todo. Como gravação, a melhor é Triste Bahia. Tem o Mora na Filosofia, que é um grande samba, uma grande letra e o Monsueto é um gênio. Me orgulho imensamente deste som que a gente tirou em grupo”.

O disco vinha dentro de um encarte que, aberto junto à capa tripla, formava um triângulo. A embalagem foi batizada de “discobjeto” pelo criador dela, Álvaro Guimarães, que a concebeu com Aldo Luiz. Em 2012, para celebrar 40 anos do disco  Steve Hooke o remasterizou  no estúdio Abbey Road e o relançou em formato digital, agora com ficha técnica e com o conceito de discobjeto adaptado para o formato menor.

 

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