1532 – Samba de Bumbo, tradição nascida em Pirapora do Bom Jesus (SP), será destaque durante III Festival Cidade Musical

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Berço do Samba de Bumbo entre outras manifestações populares e da fé, a cidade de Pirapora do Bom Jesus, situada na Grande São Paulo a cerca de 60 quilômetros da Capital paulista, está gradativamente retomando suas atividades após o período mais crítico da pandemia de Covid-19. Fundada em 6 de agosto de 1725, hoje sob administração desde o começo do ano passado do prefeito Dany Floresti (PSD), Pirapora do Bom Jesus é conhecida, ainda, por atrativos naturais, o que leva ao município não apenas romeiros de várias partes do país que lá pagam promessas e renovam suas crenças em um ambiente de elevada espiritualidade, mas turistas e amantes de esportes de aventura ou radicais, de um modo geral. Floresti tem divulgado que em seu mandato desenvolverá uma gestão que não apenas possibilite atender às reais necessidades dos moradores, mas, para além desta meta, resgatar e potencializar eventos que tanto atendam aos costumes e às demandas locais, quanto integrem e encantem o visitante, oferecendo-lhes eventos e festejos dentro ou fora do calendário oficial municipal que revelem os potenciais que a cidade guarda – estratégia que deverá possibilitar, por exemplo, ao romeiro e aos seus acompanhantes ou mesmo àqueles só de passagem para uma saudável pedalada, desfrutarem por mais tempo (além do compromisso religioso ou de um rápido passeio) da hospitalidade com ares de Interior e das diversas tradições piraporanos nos mais diversos setores, do religioso ao gastronômico e aos esportivos e/ou culturais.

Uma das iniciativas este sentido, prevista para transcorrer entre 9 e 28 de maio, é o Festival Cidade Musical cujo tema é Samba Paulista – do Caipira às Rodas. O Festival celebra a parceria inédita entre a Prefeitura (por meio das Secretarias de Cultura e Turismo e de Educação) com a produtora Casa de Conteúdo e oferecerá oficinais musicais a alunos e professores da rede municipal e aos moradores de Pirapora do Bom Jesus e região, além de um concerto de encerramento na recém-inaugurada Arena Payol, um moderno equipamento multiuso situado no bairro Payol.

Todas as atividades ao longo dos vinte dias da agenda atenderão a cinco frentes: musicalização infantil; capacitação musical para docentes; canto e coral, construção de instrumentos, e vivências na tradição do Samba de Bumbo, nas quais serão apresentadas as obras de expoentes compositores do Samba Paulista conforme a denominação do escritor modernista e musicólogo Mário de Andrade dada ao gênero. Poderão participar alunos e professores das escolas municipais, mas os demais moradores da cidade e vizinhos dela também serão contemplados por outras oficinas abertas à população.

Abertura do Festival, em 9 de maio, na Arena Payol: as vivências na tradição do Samba de Bumbo, nas quais serão apresentadas as obras de expoentes  do Samba Paulista, será um dos pilares das oficinas  (Foto: Henri/Secretaria de Comunicação de Pirapora do Bom Jesus)

Dany Floresti, ao centro, ao lado do secretário de Cultura, Vitor Santos, e organizadores do Festival: “O primeiro dia foi um sucesso com grande participação das crianças e dos professores neste projeto que está sendo muito bem executado e recebido por todos. É lindo ver o envolvimento do nosso povo com eventos culturais. E esse é só o começo! Com investimentos e muita criatividade, estamos reforçando as ações culturais em Pirapora, promovendo a interação entre as pessoas e proporcionando entretenimento a todos.” ( (Foto: Henri/Secretaria de Comunicação de Pirapora do Bom Jesus)

Para Vitor Santos, secretário municipal de Cultura e Turismo, o Festival Cidade Musical vai ajudar a população de Pirapora a se reconectar com suas raízes após dois anos sem atividades culturais presenciais por conta da pandemia do novo coronavírus. “Levar as histórias e vivências do Samba de Bumbo para as crianças é uma forma de perpetuar as tradições culturais de Pirapora do Bom Jesus”, afirmou ele.

Esta será a terceira edição do Festival. Em 2018 e 2019, o evento agitou Araçariguama, cidade que faz limite com Pirapora do Bom Jesus e é a primeira já no Interior do Estado. A edição 2022, com realização da Casa de Conteúdo, contará com a direção artística de Michel Vicentini – mestre em Educação, especialista em neurociências, alfabetização e letramento. Ele também é arranjador e músico premiado no Festival de Cinema de Roma, capital da Itália, autor de livros que tratam da importância da música na Educação e destaca que o Samba Paulista é Patrimônio Cultural e Imaterial Brasileiro e Pirapora do Bom Jesus o berço expoente para este importante gênero musical. “Vamos trabalhar com obras dos grandes compositores do samba de São Paulo. Será um importante instrumento de formação musical, cultural e humana para Pirapora”, afirmou Vicentini.

O Festival ainda contará, mais uma vez, com um destacado corpo de professores. Os oficineiros reunirão nomes ligados à educação musical no Interior paulista, como Adriano Tonon, Sheila Monteiro e Paulo Salmaci – idealizador da Rádio Sucata, que, desde 2014, propicia criatividade, cultura e entretenimento por meio da música, utilizando instrumentos de materiais recicláveis. A coordenação de canto e coral caberá à experiente Andreia Vitfer, especialista em performance vocal e preparadora de musicais, entre os quais Os Miseráveis e O Rei Leão.

Para a diretora da Casa de Conteúdo, Sylvia Jardim, o evento reforça seu objetivo, que é criar oportunidade de ampliar o repertório cultural e musical à comunidade. “É gratificante poder ampliar as ações do Festival, incorporando cada vez mais as tradições culturais de cada localidade”, afirmou.

O encerramento do Festival Cidade Musical 2022 em 28 de maio será aberto a toda comunidade da região, no Ginásio Arena Payol, que fica na rua Benedito Petrone, 222, Parque Payol I. O palco será ocupado com apresentação dos participantes das oficinas e por duas atrações especiais: a sambadeira Otávia de Castro e o pessoal da Rádio Sucata e seus instrumentos criativos. O projeto do Festival Musical é viabilizado por intermédio da Lei de Incentivo Fiscal, via ProAc Edital Expresso Direto, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

ZABUMBA NOS BARRACÕES

O portal do Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de São Paulo (Cioeste)¹, que reúne 10 cidades da Grande São Paulo, incluindo Pirapora do Bom Jesus, e, já no Interior, Araçariguama e São Roque, publicou em 26 de abril de 2017 que pesquisadores e estudiosos que se propõem a analisar as origens do Samba Paulista voltam sempre sua atenção a Pirapora do Bom Jesus. Polo estadual de manifestações culturais e religiosas construídas ao longo de sua história, Pirapora era, a princípio, uma fazenda que pertencia à Santana de Parnaíba, sua vizinha, ainda na Grande São Paulo. Sua formação remonta a 1725, quando escravos encontraram uma imagem de Senhor Bom Jesus, hoje seu Padroeiro, às margens do Tietê e a cidade foi fundada.

A partir do encontro da imagem, uma série de milagres passou a ser atribuída ao santo e o município tornou-se destino para fiéis de várias origens e etnias. Escravos de outras regiões, por exemplo, acompanhavam os senhores que iam ao local para buscar milagres ou pagar promessas. Neste contexto surgem os encontros espontâneos protagonizados por batuqueiros de localidades do Interior de São Paulo: enquanto os amos, hospedados em hotéis e pousadas, cumpriam atividades religiosas, os escravos se dedicavam aos batuques em barracões improvisados para sua acolhida.

Com a assinatura da Lei Áurea em 1888, escravos libertos e seus descendentes mantiveram as visitas à Pirapora do Bom Jesus e os encontros nos barracões quando havia romarias. Esta aglutinação cultural dos costumes e músicas praticados pelos escravos forros geraram apresentações das formas de samba desenvolvidas em suas respectivas cidades e embalou o nascimento do Samba Paulista. Os negros oriundos de Campinas, Capivari, Piracicaba, Sorocaba, Tietê, entre outras cidades interioranas, praticavam os gêneros Samba Lenço, o Samba de Umbigada, o Tambu, o Samba Campineiro, entre outros estilos. O bumbo, ou zabumba, passou a ser um instrumento de destaque nestes encontros, o que fez com que as denominações dos sambas praticados nos barracões fossem sintetizadas na expressão Samba de Bumbo, ou Samba de Pirapora, a partir das décadas de 1910 e 1920.

CONTAGIANDO A CAPITAL

O Samba de Bumbo praticado em Pirapora do Bom Jesus influenciou o samba realizado na Capital do Estado de São Paulo. Vários dos representantes dos sambistas paulistanos como Geraldo Filme frequentavam as festas religiosas. Consagrado compositor de samba de São Paulo, Filme compôs o clássico Batuque de Pirapora: “Lá no barraco/Tudo era alegria/Nego batia na zabumba/E o boi gemia/Iniciado o neguinho/Num batuque de terreiro/Samba de Piracicaba/Tietê e campineiro”.

Outra personalidade do samba paulista que batia ponto em Pirapora do Bom Jesus, Dionísio Barbosa, fundou o primeiro grupo carnavalesco de São Paulo, o Barra Funda. Barbosa foi o pioneiro a levar a sonoridade grave do bumbo para as ruas paulistanas, na década de 1930. O instrumento passou depois a ser característica central nos cordões carnavalescos da cidade sob as bençãos do Bom Jesus. Suspenso nos dois mais recentes anos por conta da pandemia da Covid-19, o carnaval piraporano é hoje um dos principais destinos no Estado de São Paulo e os desfiles e festejos contam sempre com as clássicas marchinhas e o Samba de Bumbo quando o povo pode sair às ruas.

Pirapora do Bom Jesus mantém ainda o Espaço Samba Vivo, conhecido também como Casa do Samba, localizado na rua José Bonifácio, 226; consulte a Secretaria de Cultura e Turismo pelo telefone 11 4131-233 para saber se o espaço já voltou à ativa devido à pandemia de Covid-19. O imóvel apresenta uma exposição permanente sobre o Samba Paulista – com o registro de imagens das manifestações culturais na cidade – e propicia a reunião de grupos como o Samba de Roda, que honra a tradição dos batuqueiros em Pirapora do Bom Jesus.

O Samba de Roda é formado normalmente por cerca de 25 pessoas, todas nascidas em Pirapora. Os integrantes cresceram em meio à tradição do samba caipira, que carrega em sua essência ritmos africanos, dança e louvor ao santo padroeiro. Uma das mais conhecidas, Dona Maria Esther, como puxadora do grupo ganhou o título de Embaixatriz do Samba Paulista e mesmo com mais de 90 anos esbanjava energia para sobrepor a alegria do samba a quaisquer barreiras representadas pela idade. Maria Esther de Camargo Lara, como chamava, faleceu em 16 de maio, aos 93 anos.

Idade não regula, o que importa é o rebolado” era a máxima de Dona Esther (ao centro), a piraporana que foi eleita Embaixatriz do Samba Paulista e dedicou-se ao samba ao longo dos seus 93 anos (Foto: Kamilla Tornieri Egry/Santana de Parnaíba/SP)

 

Dona Esther era conhecida pelo perfil jovial. Ao longo da vida, ajudou a fundar as mais antigas escolas de samba da cidade de São Paulo – as Escolas de Samba Unidos da Galvão Bueno/Lavapés e a Vai Vai, que frequentou por mais de 30 anos. Sem nunca perder o ânimo, participava ativamente de desfiles de carnaval. A Embaixatriz do Samba Paulista muito contribuiu para a cultura da cidade de Pirapora do Bom Jesus, pois desde muito jovem fez do samba a sua arte e com isto levou o nome do município para outros lugares, conforme destacou artigo publicado pelo portal Catraca Livre.

Na década dos anos 1940, a sambadeira participou da criação do Grupo de Samba de Roda de Pirapora junto com Honorato Missé. Foi em sua homenagem que Filme fez alguns versos de improviso que gerariam mais tarde a conhecida canção Samba de Pirapora. Dona Esther foi casada com José Vaz de Almeida, com quem teve três filhos. Uma de suas máximas era: “idade não regula, o que importa é o rebolado”, e falava que um pai de santo sentenciara que ela viveria até os 100 anos.

A porta-voz das rodas de bumbo de Pirapora do Bom Jesus, ainda conforme o Catraca Livre, gostava de brincos de ouro e carregava as bochechas de pigmento vermelho, além de se apresentar em público sempre com as sobrancelhas feitas com delineador, Mulher de personalidade marcante e disposição invejável, dedicou ao samba sua vida, tornando-se uma das principais referências da manifestação no Interior do Estado. Dias antes de encantar, abrilhantou a Festa do Samba Rural Paulista e durante o cortejo se fez menina: com sua voz forte, entoou versos de duplo sentido, levantou a saia e encarou o bumbo como se ainda não tivesse saído da adolescência, destacou o Catraca Livre.

ATENÇÃO NOS ACESSOS É A REGRA

Pirapora do Bom Jesus tem acesso pela alça do km 48 da Rodovia Castello Branco (SP 280), sentido Interior, onde começa a Estrada Ubaldo Lolli, um trecho de pista simples de aproximadamente 10 quilômetros, com aclives e declives acentuados e curvas. Outro caminho para quem parte da Capital é acessar a Estrada dos Romeiros (SP 312) a partir do km 26 da mesma Castello Branco, em Barueri. Após passar por Santana de Parnaíba, a viagem se completará em mais 11 quilômetros, ainda pela SP-312. Já em Pirapora do Bom Jesus, próximo à entrada para o Bairro Payol, a partir da altura do KM 50, começa uma serra sinuosa e íngreme que os romeiros que cumprem promessas a pé chamam de “Morro do Cala a Boca”.

Tanto o percurso pela Via Ubaldo Lolli como pela Estrada dos Romeiros — que se estende até Itu e por quilômetros margeia o Rio Tietê — exige muita atenção dos motoristas, não só pelo traçado das vias, que em vários pontos têm lombadas e redutores de velocidades, mas pelo próprio tráfego de veículos por suas malhas. Alguns pontos do caminho podem chamar a atenção pela beleza e ensejar paradas para fotografias ou apenas para apreciá-los, o que deverá ser feito, é claro, com o máximo de atenção.

Romeiros se revezam para transportar imagem do Senhor Bom Jesus no caminho entre Piracicaba e Pirapora do Bom Jesus — Foto: Helen Sacconi/EPTV/Arquivo pessoal

 

Mas o que mais deve exigir a concentração dos motoristas nestes trechos é o fluxo constante de romeiros, a pé ou a cavalo, às vezes caminhando sós, mas também andando em grupos, além de ciclistas, independentemente do dia e do horário, inclusive à noite, e com maior impacto nos finais de semana e nos feriados, principalmente os religiosos. Muitos pagadores de promessa viajam em famílias e são de cidades muito distantes de Pirapora do Bom Jesus; alguns carregam andores e/ou cruzes pesadas, de vigas de madeira com várias emendas e, portanto, extensas. Ao se aproximarem do Santuário de Bom Jesus de Pirapora normalmente já estão à beira da exaustão, deslocando-se até há semanas e sujeitos ainda mais a sofrerem eventuais acidentes. Eles são o principal motivo de a cidade ter a importância e o status que alcançou, estão praticando e suportando sacrifícios e limitações em nome da fé e do louvor ao Padroeiro e devem em todos os sentidos serem respeitados. Todo e qualquer cuidado com eles sempre ainda será pouco… 

Links com conteúdos utilizados nesta matéria e para saber mais sobre Pirapora do Bom Jesus e o Samba de Bumbo:

https://cioeste.sp.gov.br/pirapora-do-bom-jesus-e-as-origens-do-samba-paulista/

https://jornalggn.com.br/cultura/a-versao-de-mario-de-andrade-para-o-samba-rural/

http://carlosfatorelli27013.blogspot.com/2013/09/o-sagrado-e-secularizacao-em-pirapora.html

http://www.jornalmetropole.com.br/casa-do-samba-de-pirapora-do-bom-jesus-festeja-292-anos-da-cidade-com-homenagem-maria-esther-musica-e-feijoada/

 

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