1556 – Selo Sesc mantém em catálogo Ascenção, disco póstumo de Serena Assumpção, com 13 faixas dedicadas a orixás do Candomblé

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Projeto que levou seis anos para ser finalizado é um grito político e de resistência pela liberdade religiosa, sobrevivência da arte e o reconhecimento dos povos originários brasileiros, à pratica do amor, da ternura e da justiça

O Selo Sesc tem em seu catálogo um dos mais belos e importantes álbuns de temática dedicada às religiões de matrizes africanas, notadamente, o Candomblé. Ascensão, lançado postumamente em 2016, é o único disco de Serena Assumpção, uma das duas filhas de Itamar Assumpção, levada bem antes do combinado em março do no anterior em decorrência de um câncer de mama. Obra delicada e arrebatadora para fazer frente a intolerância religiosa e a elementos presentes na cultura quilombola tão aviltada em tempos recentes sobretudo pela cáfila bolsonarista, Ascensão homenageia cada um dos orixás do panteão do Candomblé em obra delicada e arrebatadora.

Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré. Iansã, Iemanjá, Xangô. Todos orixás, todos moram noutro plano mais elevado, distante dessa terra de expiações e provações. É comum, na tradição sincrética de algumas religiões, arranjar-se equivalências entre as figuras de um lugar e de outro: o Candomblé e o cristianismo são bons exemplos disso – você já deve ter ouvido que Iemanjá é Nossa Senhora Aparecida, não é? Tal acomodação traduz, em parte, a capacidade de ressignificação dos símbolos, especialmente pelo brasileiro, povo mestiço por definição; mas também acena para a violência com que a matriz africana da nossa cultura é usualmente representada: parece que para ser legítimo, é necessário uma benção daqueles que devassaram culturas mundo à fora.

Prestar reverência à tradição torna-se então, mais que um ato de resgate e persistência, uma forma de resistir. As nações trazidas à força para este continente, resistem na prática do Candomblé: ketus, efons, ijexás, bantus, xambás, dentre outros povos, continuam a celebrar seus deuses e seus mitos, passando adiante conhecimentos milenares de civilizações e tribos distintas: se atentarmos para o fato de a África ser um continente que tem quase o dobro de tamanho da América do Sul, há ali mais história do que o branco pode apagar.

Tudo é, portanto, muito mais complexo do que este texto seria capaz de dar conta. Todavia, há um aspecto central no Candomblé que, talvez, seja mais próximo da gente, uma vez que está infiltrado, misturado, amalgamado, inscrito nos corpos de quem dança como dança o brasileiro: a música é o coração do Candomblé.

A frase dá título ao artigo da etnomusicóloga Angela Lühning e pode ser posta a prova quando nos aproximamos dos ritos da prática: a música está em tudo! Sua função primordial é fazer os orixás se apresentarem aos seus descendentes, manifestando-se em seus corpos. A dança se torna o meio para a representação do orixá, a ilustração viva das palavras e lendas que, por sua vez, são audíveis na música cujo ritmo coordena o movimento. No entanto, a música não está apenas relacionada à festa: desde os ritos que antecedem o festejo, até o cotidiano das filhas de santo, as cantigas se fazem presentes – rezas, no caso das músicas sem acompanhamento de instrumentos e que podem ser cantadas fora do contexto ritual. O ato de cantá-las tem a função de uma catarse, de consolo.

É justamente a reza que chama a atenção à primeira escuta de Ascensão, de Serena Assumpção. Do Tata Nzambi encerra o disco com uma interpretação sem instrumentos e parece quase deslocada num arranjo interpretado à capella pelo grupo Source de Vie, da República Democrática do Congo. Em tradução livre, a reza pede que deus escute o canto que é posto de coração, depois da longa jornada, concedendo a bênção para se chegar à salvação. É impossível ouvir/ler isto e não pensar na história da própria Serena, que partiu abençoada por este canto, antes do lançamento do disco – a música acaba ganhando um novo enunciado, amarrando o álbum todo.

A pesquisa de Serena se desenvolveu a partir das vivências no Santuário da Irmandade do Ilê de Pai Dessemi de Odé, na cidade de São Paulo. Culminou em 13 canções que cantam os orixás, abrindo os trabalhos na ordem do xirê, com cantos a Exu, seguido de Ogum, percorrendo cada um dos orixás até encerrar com o canto à Oxalá – a última canção é a reza citada anteriormente.

Neste projeto Serena conseguiu arregimentar uma legião de músicos que, de alguma forma, orbitavam a sua figura enquanto produtora cultural, cantora e amiga e é interessante atentar para este último fato: o álbum nasceu debaixo da direção artística de Serena, emanando generosidade com seus pares, numa relação que antecedia o momento de entrar em estúdio e colocar a música no suporte.

Participam do disco, seja interpretando, arranjando ou produzindo: Karina Buhr, Céu, Luê, Mãeana, Pipo Pergoraro, Dipa, Domenico Lancelotti, Zé Celso, Tatá Aeroplano, Tulipa Ruiz, Tetê Espíndola, Curumin, Anelis Assumpção, Bem Gil, Moreno Veloso, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Simone Sou, Thiago França, Luz Marina, Xênia França, Letieres Leite, Mariana Aydar, Paula Pretta, Marcelo Pretto, Filipe Catto, Adriano Grineberg, Juliana Kehl, Carlos Navas e mais uma porção de gente talentosa.

Itamar Assumpção, nascido em Tietê (SP) em 1949, marcou a cena artística nacional como compositor, cantor e instrumentista da Vanguarda Paulista. Como quem saiu aos seus não degenera, Serena se dedicou junto com a irmã Anelis à preservação do legado do pai com apresentações em homenagem ao trabalho dele e também realizou participação na obra de outros músicos – uma delas era a própria irmã mais nova, com a qual trabalhou em duetos e composições –, mas sempre fez valer o seu próprio brilho, sem nunca precisar se escorar no nome do pai. Este primeiro e único álbum solo da carreira de Serena que o diga!

IMERSÃO AFETIVA SENSÍVEL

Ascensão foi tarefa revelada a ela pelos búzios durante passagem pelo Santuário da Irmandade de Ile De Oba De Dessemi, situado no bairro paulistano Vila Buarque. Para a concretização do projeto, começado em 2009 e finalizado depois de seis anos, Serena reuniu 40 artistas ilustres e deixou uma marca acesa no coração de cada um que teve a oportunidade de ofertar algo neste trabalho.

Foi um período durante o qual vivenciei uma atmosfera musical espiritual muito elevada e significativa”, descreveu o produtor Pipo Pergoraro em entrevista. “Essa imersão afetiva sensível preparada por Serena nos trazia referências simbólicas que nos entorpeciam de forma majestosa para iniciar os trabalhos. Tudo feito por ela de maneira muito simbólica e que dá uma imensa saudade”.

Mesmo com tantos nomes de enorme relevância na música nacional irmanados neste terreiro, o brilho das músicas está na união plena de afinidades e propósitos; cada estrela soa quase despida de si para consagrar algo muito maior em um movimento definido como “transmutação energética coletiva” pelo produtor e amigo.

Após ser entregue ao mundo, Ascensão subiu aos palcos com um projeto também tocado pela artista. “A sensação mais representativa daquele período, feito de momentos muito marcantes, Serena em presença física, em estúdio, Serena em presença espiritual, nos shows – foi de união”, descreveu Céu. “Todos os artistas estavam muito fusionados espiritualmente, e a sensação é de que vibramos juntos, por ela, pelo som dela, que era também nosso”.

Cuidadosa e entregue de corpo e alma, Serena assumiu papel de guia e regente das gravações entre as cidades de São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Salvador (BA). Antes de cada sessão, Serena oferecia aos presentes refeições relacionadas aos orixás que seriam trabalhados naquele dia. Na reta final, mesmo enfrentando dificuldades impostas pelo adoecimento do corpo físico, ela não se afastou do projeto e deixou cada detalhe encaminhado para o lançamento.

O dia da gravação foi muito especial. Estar com a Serena, cantando uma canção dela, sentir e dividir com ela, aquela enorme alegria de realização, evocando Odoyá, ter o privilégio de ser encarregada de somar naquele paredão de som e potência, era uma mistura de responsabilidade e muito amor”, continuou Céu ao falar sobre a canção Iemanjá. “Uma tarde inesquecível, que se traduzia em pele arrepiada durante toda a sessão”.

Da abertura com Exu até o fechamento Do Tata Nzambi, Ascensão é um convite para um mergulho profundo nas águas coloridas da espiritualidade antes de emergir rumo ao encontro das maravilhas ali descritas. Delicado e intenso, o álbum agrega as melodias da música popular brasileira aos elementos afro-brasileiros do terreiro, enaltecendo as raízes e abrindo as portas aos recém-chegados.

GRITO POLÍTICO E DE RESISTÊNCIA

Muito além da experiência espiritual e transcendente dos sons e letras de Ascensão, o projeto é um grito político e de resistência pela liberdade religiosa, à sobrevivência da arte, ao reconhecimento dos povos originários brasileiros, é todo amor e ternura, mas também justiça. “Complicado mesmo, Brasil, é ter o que dizer”, publicou Serena ao comemorar a finalização da produção musical do projeto “na unha, no laço e no encalço do tempo” ao lado de Pipo e Rodolfo Dias Paes, o DiPa.

DiPa, Serena Assumpção e Pipo.  (Foto: Alexandre Kuma)

Em um cenário de intolerância, racismo religioso e apagamento constante da herança africana e indígena na identidade do nosso povo, o projeto segue como um dos melhores álbuns brasileiros pela qualidade musical e resgate da “importância das matrizes religiosas afro-brasileiras” e expressão do “rico e imagético universo que o constitui para a cultura humana”, como resumiu Pergoraro. Nas palavras de Céu, é “evolução por meio das belezas acesas por dentro”, atuando como “um guia, um mapa, um oásis, um oráculo” até os dias de hoje.

Nessa conexão de vozes e afetos, a abundância da vida se faz presente em todo o disco e na história poderosa do lançamento póstumo, provando a continuidade da existência para além da morte – neste plano e no próximoSe haverá quem escute estas canções dizendo serem exemplos do êxito da urbanização e industrialização que encaminha o Brasil no sentido de romper seus laços com a África, as palavras do pesquisador Alan Lomax podem servir de contra-argumento. “Cada execução musical é uma recriação simbólica de moldes de comportamento fundamental sobre os quais subsiste a continuidade de uma cultura”. Ainda segundo Lomax, “muitos aspectos deste comportamento simbólico se tornam coerentes com algum tema fundamental, de modo que um estilo acaba condensando algum aspecto singular e notável de uma cultura, através do qual seus membros se identificam e com o qual dotam muitas de suas atividades e muitos de seus sentimentos”.

A música é o coração do Candomblé e o fato de servir de ponto de partida para Ascensão é indício do quanto estamos próximos de culturas não hegemônicas, ainda que não atentemos para isso. Seja nas festas públicas do Candomblé, invocando os Orixás, seja no cotidiano de quem está próximo, expressando e aliviando emoções catárticas, a musicalidade que veio da África está em nossos ouvidos e entranhas.

Ascensão é sobre tudo isso e realiza muito bem este projeto: um disco que envolve, aproxima e, no limite, legitima. É Serena mandando o recado: axé, com todo amor, axé!

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