1213 – Dante Ramon Ledesma, argentino naturalizado brasileiro, canta a liberdade, o amor e a igualdade em 19 poéticos álbuns ignorados no Sudeste

Nascido em Río Cuarto, na Córdoba, onde foi perseguido pela ditadura argentina pela militância católica, naturalizado brasileiro desde 1978, cantor admirado pelo carisma e pela coragem vive na região metropolitana de Porto Alegre (RS) e nem um derrame que paralisou parte do seu corpo o fez parar de cantar

Nos últimos dias, boas prosas com o amigo gaúcho de Caxias do Sul Valdir Verona — cantor, compositor, professor e pesquisador, um dos melhores violeiros do país na atualidade–, levaram minhas atenções a se concentrar em alguns expoentes da música do Sul do país, notadamente a produzida por alguns conterrâneos dele, de vários rincões do Rio Grande do Sul – ritmos e gênero, que, grosso modo, correndo o grande risco de cometermos gafes, tendemos a rotular por aqui de “nativistas”.

Claramente há preferências mercadológicas dos setores de entretenimento e radiodifusão aqui no Sudeste “maravilha”. Elas reduzem quase tudo — como se os tais fossem suprassumos — a Maiaras e Simarias, Sangalos e Anittas, Luccos e Safadões, Zezés e Santanas, Lucianos e outros quejandos e assim burlam de quem não se sintoniza em canais alternativos o acesso a outro estilo de música — apenas para ficarmos nesta forma de manifestação artística –, que não seja meramente comercial, rasa, descomprometida com nossos mais ancestrais e identitários valores. Numa avaliação (ainda que simplista) tal recorte nos achata a todos como se fossemos meros consumidores desprovidos de criticidade, apuro, tradições e de bandeiras. Nesta toada, às vezes até bate uma tristeza profunda: é como se a gente vivesse em um país pouco plural, encerrado nas suas mais, digamos assim, badaladas capitais e agitos delas, empurram-nos ouvidos abaixo melôs de cornos e mulheres irresistíveis, pancadões e pôperos como se o extenso continente Brasil e sua diversidade morasse e se reduzisse em uma redoma sem sotaques e, no máximo, pindorama que, dependendo da conveniência do momento, aceitasse fora do mainstream um baiano aqui, um pernambucano acolá, quem sabe? um goiano…

Agendas assim não só nos empobrecem como nação, deixa-nos ignorantes às nossas origens, riquezas e diversificado patrimônio multicultural. Se o futebol de quando em vez nos faz lembrar que existem no mundo da bola tupiniquim os simpáticos CSAe o Clube do Remo e que no Amapá e no Piauí também temos Santos e Flamengo, apenas a curiosidade e o pensar fora da caixinha nos pode revelar que entre nós também se ergue, literalmente falando, a voz de um cantor e intérprete com a força e o carisma de um Nelson Gonçalves, mas circunscrito à sua região, ainda que por lá seja tão adorado pelos seus fãs e amigos como sempre foi (talvez por que no Sul as visões sejam mais amplas e generosas) o inesquecível e saudoso boêmio Nelson Gonçalves: Dante Ramon Ledesma.

Quantas linhas, embora pertinentes, para chegarmos a este nome, Dante Ramon Ledesma, perfil que, agora, entretanto, resumirei em uma única frase: um arauto das liberdades, do amor, da igualdade, da fraternidade e da resistência do pueblo latino-americano — sejamos nós gaúchos, argentinos, portenhos, índios, negros, mamelucos, cafuzos– e, por extensão paulistas, mineiros, cariocas, baianos, alagoanos, piauienses, amapaenses; “yo tengo tantos hermanos que no lós puedo contar” já cantava Atahualpa Yupanqui, “en el valle, la montaña, en la pampa y en el mar/cada cual con sus trabajos, con sus sueños, cada cual, con la esperanza adelante…”

Escolhi Dante Ramon Ledesma para abrir as audições matinais de todos os sábados aqui no boteco do Barulho d’água Música, em São Roque(SP) neste sábado, 20, não apenas pela beleza, engajamento e construções poéticas das músicas do repertório que entoa em emblemática voz, começando a ouvi-lo pelas faixas de Alma e Vida, álbum de 1993, mas e, sobretudo, pelo que elas invocam e põem no ar: um brado, antes de nada mais, à resistência, à união, à luta por um país que não tenha donos e que neste momento sugere “não tem governo e nunca [mais] terá” e que não pode seguir tendo o tamanho tacanho que vem adquirindo à medida que há temos nos postos de comando quem afirme (e quem nele acredite), arrotando lautos cafés da manhã, que nem ao menos fome passaríamos.

Vista de Rio Cuarto, em Córdoba, terra natal de Dante Ramon Ledesma

Dante Ramon Ledesma nasceu em Río Cuarto, na província de Córdoba, a cerca de 580 quilômetros de Buenos Aires, Argentina, mas “naturalizou-se” brasileiro em 1978. Cantor desde os 5 anos de idade, formou-se em Sociologia pela Universidade de Córdoba. Ainda em seu país natal, quando jovem foi integrante da Organização Não governamental (ONG) Carismaticos, de perfil católico e já demonstrando imensa capacidade de cantar venceu o famoso Festival Nacional de Folklore  de Cosquín, na categoria juvenil, com a canção Memória del Che

No ano de sua naturalização, os argentinos sofriam sob as botas e a baioneta do general-presidente Jorge Rafael Videla e o governo perseguia quem militava na juventude carismática, por considera-la ajuntamento de “subversivos” — adjetivo e razão para perseguições, torturas, mortes e condenações ao desterro tão em moda no Cone Sul àquela época. Desde então, e naquele momento para escapar das perseguições (mesmo que fugindo da brasa, pudesse ter caído no espeto!), Dante Ramon Ledesma, que começava a despontar no canto popular argentino, escolheu viver no Rio Grande do Sul, estabelecendo-se em Canoas, cidade da Grande Porto Alegre, onde, alias, recentemente, a Câmara Municipal lhe outorgou um título de cidadania.

Em 1991, já “brazuca”, portanto, participando do Festival Acordes Cataratas, de Foz do Iguaçu (PR), Ledesma tornou-se finalista com A Vitória do Trigo (“basta um pedaço de terra/para a semente ser pão/enquanto a fome faz guerra/a paz espera no chão), hoje uma espécie de hino de sem-terras em países da Europa e latino-americanos. Outra das canções que compõem sua trajetória, de autoria de Fernando Alves e Alberto Zanatta, América Latina é invariavelmente pedida em todas as suas apresentações por ser um alerta à consciência crítica e à união entre os povos até hoje explorados, do México à Guiana, passando pelo Haiti, pela Nicarágua, por Honduras, pela Bolívia…

Ambas as músicas, diga-se de passagem, enchem 19 álbuns e três DVDs que renderam a Ledesma nove discos de ouro e a vendagem de mais de três milhões e meio de cópias! Em sua biografia consta, ainda, que decorridos já mais de 30 anos de carreira, protagonizou 7 mil espetáculos em todo o Brasil e América Latina, muitos de caráter beneficente.

Sobre Dante Ledesma escreveu Renan Bernardi para o blogue Tenho Mais Discos que Amigos ao vê-lo cantar e tocar no 10º Festival Pira Rural, realizado entre 19 e 21 de abril recentes, na cidade gaúcha de Ibarama, situada na região de Santa Maria: “Foi o mais emocionante e significativo show do Pira Rural”. Dante Ramon Ledesma, prosseguiu Bernardi, encantou “um público que parecia muito próximo do reconhecido artista: o folclore e o orgulho da cultura latino-americana, gaúcha, indígena e rural faziam parte dos discursos de Dante nos intervalos das canções, que bradava contra o imperialismo e a música de massa, pré-fabricada”. Para arrematar, o jornalista observou: Dante cantou e tocou “homenageando movimentos sociais, amor e o respeito” e “encantou todo o público acumulado em frente ao palco”.

A parte estas força e carisma, registre-se: Dante Ramon Ledesma, para manter se “cantor de ofício” assim como preconizou sua contemporânea Mercedes Sosa, tornou-se, ainda, símbolo de superação e de determinação: em maio de 2014, sofreu um sério Acidente Vascular Cerebral (AVC) que afetou seu corpo, paralisando o lado esquerdo e prejudicando a fala. A situação depois se agravaria quando ele foi diagnosticado com diabetes. Mesmo com todos os problemas e as limitações, Dante Ramon Ledesma conseguiu voltar à ativa em 2016 e segue a fazer o que mais sabe: cantar, como em 19 de maio no Centro Cultural de Constantina (RS), onde protagonizou o concerto O Recomeço. Atualmente, Ledesma se faz acompanhar nas apresentações com o filho Maximiliano e o neto Juanito.

Dante Ledesma (ao centro), entre o neto, Juanito, e o filho, Maximiliano

O TÍTULO EM CANOAS

A primeira vez que ouvi falar sobre e as canções de Dante Ramon Ledesma estava em Canoas, fraternalmente acolhido por uma família do bairro Nossa Senhora das Graças, em 1989.

Eu era um garoto que amava The Beatles, The Rolling Stones e Pink Floyd (tanto na ida, quanto na volta, viajei os pouco mais de 1.100 quilômetros entre SP/POA, pelas BR-116 e BR-101, ouvindo a bordo dos ônibus da Viação Penha fitas cassetes do Pink Floyd), mas também já curtia Clube da Esquina, Katya Teixeira, Fagner, 14 Bis etc. Meus anfitriões demonstravam forte admiração por Ledesma e lembro-me de ter ficado impressionado com o tom e os temas das canções dele que rodava no meu walkman, gravados em uma fita Basf da qual não deu para fazer cópia, sentado sobre a cama que me ofereceram e em cujas paredes do quarto havia uma bandeira do Rio Grande do Sul, outra do Internacional, agasalhado por um poncho (estava muito frio!) e sorvendo uma cuia de chimarrão.

Pois lá, em Canoas, em 19 de maio de 2016, Ledesma foi agraciado com o título de Cidadão Canoense pela contribuição à música nativista do Estado e por sua relação com o município, situado a 14 quilômetros de Porto Alegre.

Ledesma (sem óculos), no dia em que recebeu o título de cidadão de Canoas (Foto: Williyan Bertotto)

A homenagem partiu do então vereador Pedro Bueno (PT). Antes da perseguição na Argentina. Já asilado no RS, Dante primeiro morou no bairro Niterói e, depois, transferiu-se para o Rio Branco, ambos em Canoas. Na chegada ao Brasil, precisou vendeu livros e ministrou palestras para pais e mestres até conseguir retomar a carreira de cantor. Cinco anos depois, em 1983, atingiu o sucesso com Orelhano, um dos seus mais aclamados sucessos. Em 1984, ele participou pela primeira vez da Tertúlia de Santa Maria, do qual saiu consagrado como revelação. No mesmo ano, venceu a 14ª Califórnia da Canção, de Uruguaiana, com O Grito dos Livres.

É casado com Norma Beatriz Ledesma, com quem teve o filho, Maximiliano, hoje seu parceiro e ritmista. “Como poucos, Ledesma fez realmente de seu canto uma maneira de viver e cantar a vida”, disse Pedro Bueno, proponente do título outorgado pela Câmara Municipal de Canoas. “Gaúchos, argentinos, brasileiros, latino-americanos cresceram ao som de Orelhano, Negro da Gaita, O Grito dos Livres, A Vitória do Trigo e tantas canções que ultrapassam os sotaques, os idiomas, os ritmos e as fronteiras.”

As palavras seguintes também foram proferidas por Bueno durante aquela sessão solene: “Dante é um homem que luta por liberdade, sonho e esperança. É uma honra para a nossa cidade. Seu espírito revolucionário ultrapassou barreiras, inclusive as da censura”.

Ao utilizar a tribuna, Ledesma recordou o período de terror vivido durante a ditadura argentina e mencionou pessoas que o ajudaram no começo da vida no Brasil. Destacando a importância da família, comentou sobre a recuperação do AVC que sofrera dois anos antes: “O maior milagre da vida é o amor e fraternidade que Deus nos dá”. Em seguida, exaltou a defesa da democracia brasileira: “Em primeiro lugar deve vir a Pátria e, somente depois, os interesses políticos”, ponderou, dedicando o reconhecimento recebido da Câmara de Canoas à memória do pai, Rudecindo Ledesma.

O Portal Cegos Brasil disponibiliza para serem baixados, armazenados em formato ZIP, os arquivos em Mp3 de nove álbuns de Ledesma, dos quais quatro são duplos. O endereço para o linque é http://cegosbrasil.net/discografias/dante-ramon-ledesma-9-cds.

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Milongador, de Giancarlo Borba, enfatiza a vida do gaucho a pé e a luta pela terra, com poesia e sem panfletarismo

 

1106 – Ocupação Dandô, na Unibes (SP), marca cinco anos de premiado projeto itinerante

Vários eventos em torno da música independente que vem motivando a promoção do circuito cultural em homenagem a Dércio Marques serão oferecidos entre quarta-feira e domingo, na estação Sumaré do Metrô SP

Para celebrar cinco anos de estrada do Circuito Dandô de Música Dércio Marques, a União Brasileiro-Israelita de Bem Estar Social (Unibes) Cultural acolherá entre 12 e 16 de setembro a Ocupação Dandô. O evento, entre a quarta-feira, dia da abertura, e o domingo, oferecerá palestras, rodas de conversa, sarau, a exposição fotográfica Olhar da Utopia, oficinas de música e de dança latino-americanas, contações de histórias, mostras regionais e shows já confirmados com João Bá e João Arruda (12/9), Ceumar (13/9), Zé Geraldo (14/9), Alzira E. (15/9), José Delgado, Cecilia Concha Laborde e Analia Garcetti (16/9), além do lançamento da segunda coletânea do projeto, produzida em parceria com a Tratore, e que tem repertório apresentando 27 artistas do Brasil, do Chile, da Argentina e da Venezuela.  Paralelamente à Ocupação, será realizado o 2º Encontro Latino-americano do Dandô com representantes de circuitos parceiros do Chile, da Venezuela e da Argentina, que terá abertura na terça-feira, 11. 

Para ingressos e mais informações visite www.facebook.com/circuitodando e veja abaixo a guia Serviços.

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910 – Músicos da Argentina, do Brasil e do Chile protagonizam show de encerramento do III Encontro Nacional do Circuito Dandô

Katya Teixeira, João Arruda, Rodrigo Zanc e o Duo Flor de Maracujá (SP)*; Sol Bueno, Erick Castanho, Marcelo Taynara, André Salomão, Nádia Campos, Ana F., Ricardo Rodrigues, Adriano Bianchini, Letícia Leal, João Mendes Rio (MG); Giancarlo Borba, Cardo Peixoto, Cristiano Nunes, Mara Muniz, Roberto Pohlmann (RS); Isabela Rovo, Victor Batista, Cabocla Inez, Pedro Vaz, Milla, Franklin Borges, Rosa Barros (GO); Oswaldo Rios (PR); e Maryta de Humauaca, Marina Luppi, Anália Garcetti (Argentina) e Cecilia Concha-Laborde (Chile) vão subir ao palco do Teatro Experimental de Uberaba (MG) neste sábado, 18, a partir das 20 horas, para protagonizarem o espetáculo de encerramento do III Encontro Nacional do Dandô Circuito de Música Dércio Marques e I Encontro Latino Americano. Os dois eventos simultâneos estão transcorrendo desde a quarta-feira, 15, na Casa do Folclore, situada na mesma cidade do Triângulo Mineiro, onde os músicos, acolhidos pelo anfitrião, o empresário Gilberto Rezende, planejam a temporada do quinto ano consecutivo do projeto concebido por Katya Teixeira.

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840 – Público em Medellin esgota bilheteria para conhecer e prestigiar Susana Travassos, com Ricardo Araújo e Michi Ruzitschka

O Barulho d’água Música procura sempre produzir a maioria das matérias que publica, embora ainda as receba enviadas por assessorias de vários artistas e de produtores culturais com as quais também alimenta o blogue, buscando preservar desta forma sua autonomia. Hoje, entretanto, pediremos licença ao Jornal do Algarve, sediado em Portugal, para reproduzir na íntegra e preservando o texto original matéria que o veículo publicou em sua edição eletrônica de 30 de março divulgando o sucesso obtido pela cantora Susana Travassos em passagem por Medellin (Colômbia). Temos seguido Susana Travassos devido a sua estreita ligação com cantores e compositores brasileiros que costumeiramente a traz a cantar em cidades como São Paulo. Nestas ocasiões, ela não apenas apresenta entre nós a beleza presente em canções tradicionais do além mar, bem como renova os laços culturais históricos que unem e aproximam os dois países, evidenciando muito mais que eventuais diferenças no campo da música, fraternas semelhanças.

Entende o blogue, assim,  que também deve repercutir por aqui  o relato do Jornal do Algarve informando que:

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838 – A notícia boa que não se comemora

O Barulho d’água Música nos dois dias entre 26 e 27 de março alcançou tráfego de 1291 visualizações/1.100 visitas e 668/583, respectivamente, nossos recordes com 837 matérias desde que começamos as atividades, em junho de 2014. Com estes números, já atingimos antes de adentrar abril 29% de todo o movimento de 2015 (no ano passado foram 45.729 visualizações, contra as 13.390 atuais!), desempenho que perseguimos e estamos nos esforçando para estabelecer. Quanto mais altas estas estatísticas, obviamente, maior será a popularidade do blogue, facilitando, inclusive, a manutenção do trabalho, que passaria a ser minimamente rentável, atraindo, por exemplo, anunciantes ou patrocinadores que necessitamos para não baixar as portas do boteco e seguir informando e divulgando sem percalços por contas a pagar (sempre maiores que o escasso faturamento), com isenção e profissionalismo, sobre o universo da música independente e suas atividades correlatas.

Nossa meta não é apenas alcançar esporadicamente, mas estabelecer regularidade nestes patamares, firmando-nos de vez como canal de referência e um prestigiado veículo de comunicação. Estamos, claro, satisfeitos com os números destes dois dias, mas a notícia que permitiu atingi-los, se boa por esta ótica que regula a lógica dos negócios, não nos permite comemoração alguma, posto que está relacionada à morte da cantora e intérprete Mariana Avena, tema da atualização 836, óbito gerador de muita tristeza, comoção e até espanto entre amigos e fãs. “Chegamos lá” pela primeira vez, mas gostaríamos de ter obtido tamanha repercussão por meio da divulgação de um show, do lançamento de um álbum novo, de uma matéria que resgatasse ou valorizasse o perfil de um artista que se consagrou dedicando seu ofício à preservação e à valorização de tradições da cultura popular.

Seja como for, pelo menos cumprimos, mesmo com a notícia que se revelou trágica, nosso papel de informar, agindo com rapidez e procurando apurar o melhor possível o fato antes de publicá-lo, pilares do nosso árduo e zeloso trabalho diário. Lamentamos que o blogue, neste caso, por uma imperdoável desatenção da mídia, tenha sido talvez se não a única, a mais acessada fonte para muitas pessoas que ansiosas pela confirmação ou desmentido da notícia não a encontraram na mídia.

A memória e a obra de Mariana Avena não poderiam ser ignoradas e, assim, com pesar, é que saímos a campo, pois mesmo a morte tem seu peso e seu status de notícia que precisa ser dita. Posto isso comunicamos que nosso luto pela morte de Mariana Avena prossegue, mas como o dia a dia impõe que o trabalho prossiga, e já que temos este compromisso, que agora nos parece ter ficado ainda mais evidente, sigamos em frente, se possível, com sua confiança, e, claro, seu apoio! Há muitas belezas e projetos sonegados ou mal divulgados neste enorme e belo Brasil profundo precisando de atenção; há biografias e trabalhos de artistas como Mariana Avena que seguem à espera do devido reconhecimento, merecendo as flores em vida e o carinho e a devoção de todos nós quando partirem, antes, durante ou depois do combinado, com sua licença, Sr. Brasil, querido Rolando Boldrin!

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836 – Cala-se a marcante voz de Mariana Avena, intérprete de Mercedes Sosa, estrela do Raíces de América e do Tarancón

O Barulho d’água Música registra, com pesar, que hoje, 25 de março, a música latino-americana perdeu Mariana Avena. A morte da cantora, para muitos dos seus fãs e amigos que publicaram manifestações em páginas de redes sociais após a divulgação do óbito, foi recebida “como um soco no estômago” e autores de algumas mensagens chegaram a demonstrar total incredulidade, recusando-se a acreditar na notícia e até afirmando que poderia se tratar de mentira, pois Mariana Avena nem ao menos estaria adoecida. No entanto, conforme informações de pessoas mais próximas, Mariana Avena sucumbiu na Argentina à luta que travava contra um câncer, no fígado.  

Nascida em Palermo, Buenos Aires, Maria Avena cresceu no seio de uma família de músicos e compositores de tango, em um dia 4 de agosto. O nome dela, no Brasil, está diretamente associado tanto ao Raíces de América, quanto ao Tarancón, dois dos mais conceituados grupos de divulgação e de preservação da música latino-americana, conhecidos em todo o continente sul-americano e em vários países.

 

A vida musical de Marina Avena, portanto, começou ainda em sua terra natal, inspirada e motivada pelo avô paterno, bandoneonista da orquestra de Juan Maglio “Pacho” e Osvaldo Fresedo.  O tio Osvaldo Avena é considerado até hoje um dos maiores guitarristas e compositores da música argentina. Na casa onde ela passou a infância, conviveu com artistas, poetas e compositores como Mercedes Sosa, Susana Rinaldi, Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Chabuca Granda, José Angel Trelles, Armando Tejada Gomez, Hamblet Lima Quintana, Osvaldo Piro, Facundo Cabral e muitos outros. 

A influência desses amigos fez com que Mariana Avena integrasse ao seu repertório tanto o tango, quanto o folclore nacional e latino-americano, influências que se tornaram marcantes já em seu primeiro trabalho profissional, em parceria com o poeta Héctor Negro, com o qual promoveu vários shows de tango e poesia. A entrada para o Raíces de América, um convite do empresário argentino Enrique Berguenfeld, que estava morando no Brasil, ocorreu em 1980. A partir de então,  foi a cantora com a qual o grupo se apresentou nos maiores teatros de São Paulo e de capitais de vários estados.  

O Raíces de América no  primeiro ano de atuação de Mariana Avena atraiu mais de 40.000 pessoas aos seus espetáculos, ganhou festivais e ficou reconhecido como um verdadeiro fenômeno da música latino-americana. Como parte da história da rica musica latino-americana no Brasil, o Raíces de América surgiu durante o regime militar no Brasil e logo conquistou o público estudantil, segmento que na época se caracterizava pelo engajamento na luta pela democracia. O grupo gravou onze álbuns, e em 1982 obteve o segundo lugar no Festival MPB Shell, com a música Fruto do Suor.mercedes

Mercedes Sosa tornou-se a madrinha artística do grupo, possibilitando a Mariana Avena cantar em diversos palcos com a conterrânea de San Miguel de Tucumán. Mercedes teve Mariana ao seu lado em diferentes momentos de sua brilhante e imorredoura carreira artística, inclusive nos últimos shows que a Grande Negra realizou em São Paulo.

Mariana Avena protagonizou vários tributos a Mercedes Sosa em teatros paulistanos e casas como as unidades do Sesc, assim ajudando a manter no coração dos fãs o carinho pela madrinha à medida em que se consolidava como artista de fulgurante carreira, elogiada pelo público brasileiro na maneira de cantar e de interpretar. Em alguns dos seus shows, desenvolvia após cantar projeto que unia música e educação, com o intuito de divulgar a música latino-americana, suas raízes culturais, suas semelhanças e diferenças. Ela abordava nestes bate-papos características culturais dos povos latino-americanos e seus instrumentos. com participação dos músicos. Assim, o público absorvia dados da história e origem de cada instrumento, como foram construídos, em que época e como chegaram até o continente americano.

Mariana Avena deixa ampla discografia, a maioria editada em São Paulo. Como solista, conquistou plateias em países como França, Equador, Argentina, Chile, Espanha e Finlândia, onde representou seu país natal  no show Buenos Aires, todo tango, acompanhada pelo Sexteto Tango. Na França, foi escolhida como representante da canção latino-americana pela Ecole D’Orly de Dijon apresentando-se junto ao músico francês Patrick Berthelon em Paris, Nice e Lyon. Na Finlândia, participou do Festival de Tango Markinat, na cidade de Seinajoki, prestigiado por 150.000 pessoas.

Homenagens de amigos a Mariana Avena

“A nossa querida Mariana Avena  foi seguir sua viagem!  Muito triste!! Vá com Deus amiga, e muito obrigada por ter-me mostrado tanta beleza!”, por Dandara Costa Souto

“Gracias a la vida! Hoje perdemos uma importante e grandiosa artista latino-americana. Perdemos a presença forte da cantora argentina Mariana Avena. Sua voz grave é imortal. Gracias, Mariana! A humanidade segue empobrecida…”, por Verônica Valério

“Vá em paz, Mariana! Faça parte de um coral de anjos!”, por Fernando Alves Chagas

“Obrigada pela sua amizade, carinho e atenção. Graças por sua vida, que nos deu tanto amor”, ‎por Denise Almeida

Parte da obra de Mariana Avena pode ser conhecida e ouvida por meio do linque http://www.marianaavenacantora.com/#!discografia-/c1xrz

748 – João Arruda e Nádia Campos, recebidos pelo Sankara Duo, levam ao Chile o Dandô Circuito de Música Dércio Marques

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O Dandô Circuito de Música Dércio Marques, premiado projeto idealizado pela cantora e compositora paulistana Katya Teixeira, completando o segundo ano, atravessou fronteiras e está chegando ao Chile, país sul-americano no qual estará representado no dia 9 de dezembro pelos músicos João Arruda e Nádia Campos. Os brasileiros serão recebidos por Felipe Ignacio Valdez Carraha e Fernanda Mosquera Castro, que formam o Duo Sankara, anfitriões do show marcado para começar às 20 horas no teatro da La Casona Nemésio Antúnez, cujo endereço é avenida Alcalde Fernando Castillo Velasco, 8.580, a ex-avenida Larran, situada em La Reina, Santiago. O ingresso custará $ 3.000.

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707 – Fabrício Conde (MG) toca de ijexá a cateretê e encanta com viola “mágica” plateia do Sesc Pinheiros (SP)

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Fabrício Conde gosta de contar entre uma música e outra um “causo” que deixa a plateia arrepiada. Ele mesmo fica assustado e não toca a “sinistra” composição (e curioso: ninguém a pede, ao contrário!) que menciona nesta história, a qual aprendeu com uma anciã, Dona Alzira — moradora de retirada casinha situada em São Francisco (MG), cidade às margens do Velho Chico –, pois jura: não mexe com nada do outro mundo. Mas embora conte que procede de Juiz de Fora, cidade terrena da Zona da Mata mineira, o próprio não parece ser deste plano, não, vai ouvindo: com apenas as duas mãos, Fabrício Conde tira dos “instrumentos” sonoridades de outros mundos!

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686 – Giancarlo Borba (RS) e Fabrício Conde (MG) são atrações em festivais na Bolívia e na Argentina

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Os músicos Giancarlo Borba (Terra de Areia/RS) e Fabrício Conde (Juiz de Fora/MG) arrumaram as malas para representar o Brasil m festivais que ocorrerão nas vizinhas Bolívia e Argentina. Giancarlo Borba será atração em La Paz e Sucre, duas das mais importantes cidades bolivianas em shows do Festival Internacional da Canção Universitária e também em um Sarau Cultural da Embaixada do Brasil naquele país, no Centro Cultural Brasil Bolívia. Em La Paz, na sexta-feira, 16, a partir das 20h30, o microfone estará reservado ao gaúcho, após homenagem a Carlos López. Claudio Martinez (Chile) e Entre 2 Aguas (Bolívia) darão prosseguimento às cantorias da noite do Prefestival de la Canción Universitaria, em La Paz. 

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O giro de Fabrício Conde o levará para cidades argentinas como Rosario, na qual se encontrará com hermanos convidados para o 9º. Sonamos Latino Americano, que ocorrerá entre 15 e 24 de outubro. Deste Festival Internacional de Música Popular participarão Carota, Ñema y Tajá (Venezuela), Caravana de Colores (Argentina); Aracombó (México, Brasil e Cuba), Andrés Pilar (Argentina) e Cindy Gomes (Colômbia). O mineiro também é aguardado em Santo Tomé, Santa Fe, Villa María, em Córdoba, e Tucumán. De volta ao Brasil, Fabrício Conde tocará em São Paulo no dia 28 em mais uma rodada da Serie Erudita Viola em Concerto, que o Sesc Pinheiros promove com curadoria de Ivan Vilela.

Giancarlo Borba (RS)

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Nascido na cidade de Herval (RS), Giancarlo Borba passou a maior parte da infância no interior do município, em uma localidade conhecida como Vila Basílio. Ali, levava uma vida simples, morando em uma velha estação de trem. Autodidata,  aprendeu violão e passou a acompanhar grupos de bailes de campanha, alguns realizados onde nem luz elétrica existia! Simultaneamente, em casa, crescia escutando discos de vinil de músicas popular brasileira e regionais gaúchas. Em 1996, iniciou parceria com Osmar Hences, educador popular com grande conhecimento musical e poético: começava a construção de uma nova proposta musical tematizando hábitos simples da vida do gaúcho a pé, que vive à margem da sociedade, do lado de fora das cercas do latifúndio. 

Em busca de aprimoramento musical, Giancarlo Borba ingressou no curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal de Pelotas (RS), em 1999, na qual atuou como monitor bolsista da disciplina Oficina de Instrumentos, que visava à construção de instrumentos a partir de materiais alternativos. Também atuou no projeto Arte e Saúde com doentes mentais e Oficina de Lutheria, no curso de construção de violinos. Ainda em 1999, formou o grupo Fuzarca com o qual construía seus próprios instrumentos a partir de sucata; participou de vários projetos, como o 277 da Prefeitura de Pelotas no Teatro Sete de Abril, show que teve bastante êxito e resultou na gravação do programa Palcos da Vida, da TVE-RS, no mesmo Teatro Sete de Abril, alem de vários programas de radio e televisão em Pelotas e região. 

No decorrer dos anos fez várias apresentações com o Fuzarca e também solo de voz e violão, além de participação em festivais. Em 2012, integrou o show e a gravação do DVD Tributo a Basílio, homenagem a Basílio Conceição, em Arroio Grande (RS). Atualmente, atua como arteducador popular e membro da Abra-Rede Brasileira de Arteducadores, ministra vários cursos de criatividade e transformação por meio das artes e oficinas de Eco-instrumentos (instrumentos feitos com sucata) com professores e crianças.

Giancarlo também é pesquisador das Culturas Populares e recentemente lançou o álbum Milongador, com um rico repertório de ritmos regionais do Sul. As canções apresentam roupagem moderna com arranjos de referências na música erudita, no folclore gaúcho, uruguaio, argentino e na música popular brasileira, mescladas com sons de vários objetos e instrumentos alternativos, feitos com diversos materiais. O autor vem mostrando o álbum em várias cidades e programas de rádio e televisão e já soma entre outras indicações o de melhor álbum da categoria MPB do I Prêmio Brasil Sul de Música,  realizado no Teatro Guarany (Pelotas), em 2014, e o de Artista Revelação no Prêmio Açorianos de Música.

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Agenda Giancarlo Borba

15/10, 16h30h,  CCBB, La Paz
16/10, 20h30, Auditório Salvador Romero, La Paz
20/10, 20h30, Teatro El Gran Mariscal, Sucre
21/10, 19h30, Teatro El Gran Mariscal, Sucre

 

 

Fabrício Conde (MG)

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O violeiro Fabrício Conde  é natural de Juiz de Fora (MG), cidade situada na Zona da Mata e recentemente conquistou o primeiro lugar do XIV Prêmio BDMG Instrumental de 2014. Em suas apresentações, o público ouve um repertório de composições autorais de um trabalho que conta com pesquisas sobre a música rural do Chile, Equador, Brasil e Argentina, afrocolombiana e afroperuana, tocadas com viola de cabaça e de cuatro venezuelano. Já conquistou prêmios cobiçados como o primeiro lugar do XIV Prêmio BDMG Instrumental de 2014, tocadas com viola de cabaça e de cuatro venezuelano.

Fabrício Conde alia em sua obra sensibilidade e virtuosismo, características que também já o levaram para várias apresentações fora do país; teve suas músicas apresentadas pela Rádio BBC e pela revista Songlines, de Londres. Professor de viola caipira, frequentemente recebe convites para ministrar aulas-espetáculo em diversas partes do Brasil e coleciona prêmios como o de Excelência em Viola Caipira do Instituto Brasileiro de Viola Caipira (2010). A discografia reúne o mais recente álbum autoral Fronteira, São de Viola, Viola da Mata, Histórias Contadas Sobre o Tempo, Music From Minas Gerais/Brazil, Fabrício Conde-Viola Brasileira, participação na coletânea do Prêmio Rozini de Excelência em Viola Caipira (2010) e Âncora (DVD). 

Além de músico, o juiz-forano é escritor, autor dos livros Causos, histórias e um pouco mais… e O Caminho das Asas, selecionado para a feira literária de Bologna, Itália. Dirigiu vários espetáculos teatrais e compôs a trilha sonora do filme Dulia.

12096116_1092837830728651_293980352495100252_n (1)Agenda Fabrício Conde

Dia 15 – Paraná, Argentina.
Dia 16 – Santo Tomé, Argentina.
Dia 17 – Santa Fe, Argentina.
Dia 18 – Rosario, Argentina.
Dia 20 – Villa María (Córdoba), Argentina.
Dias 22 e 23 – Tucumán, Argentina
Dias 28 e 29 –  Sesc Pinheiros, São Paulo

 

648 – Tenha em seu acervo álbum do Sexteto Mundano e de Sarah Abreu em homenagem a Violeta Parra!

Os amigos e fãs do Sexteto Mundano, Sarah Abreu Carlinhos Antunes estão recebendo Violeta Terna y Eterna, álbum de 10 faixas com o qual prestam tributo a Violeta Parra, com a especial participação da neta da homenageada, Tita Parra .  Violeta Parra é uma das mais marcantes artistas do século XX e gravou seu nome como eterno não apenas seu país natal, mas em todo o mundo como um ícone na cultura popular que, além de música compositora e instrumentista responsável por pesquisar e resgatar inúmeras canções e estilos folclóricos latino-americanas, expressava-se profundamente também como ceramista e tecelã. Autora de Gracias a la vida, morreu precocemente aos 49 anos, em 1967, seis anos antes da feroz ditadura militar de Augusto Pinochet se instalar no Chile, em 11 de setembro de 1973.

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