1054 – Cantor e compositor Jean Garfunkel lança “Poemania Crônica” em endereço cultuado de Sampa

O compositor e poeta paulistano Jean Garfunkel lançará novo livro de poemas e crônicas rimadas, Poemania Crônica, em show temático no qual apresentará canções e textos de sua autoria — programado para o feriado de sábado, 21 de abril, com sessão de autógrafos a partir das 17 horas. O local reservado para os eventos é o Espaço Cultural Alberico Rodrigues, que fica em um dos mais cultuados lugares de Sampa, a praça Benedito Calixto, 159, no bairro da zona Oeste Pinheiros. A classificação será livre e quem topar compartilhar ambos os momentos com Garfunkel ouvirá poesias e músicas repletas de lirismo e bom humor, mas que também tocam feridas ao abordarem questões cotidianas e que alvoroçam tantas almas inquietas diante das esperanças e incertezas do Brasil de hoje.

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691 – Edvaldo Santana canta gentilmente para auxiliar na recuperação de pacientes do Hospital Municipal de Barueri (SP)

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Edvaldo Santana cantou canções dele como Reserva da Alegria; Quem é que não quer ser feliz; Samba do Japonês; e Cara, Carol nos quartos do HMB. A assessoria de imprensa do hospital recebeu autorização por escrito dos pacientes para divulgação das imagens (Foto: Marcelino Lima/Acervo Barulho d’água Música)

O músico Edvaldo Santana (SP) demonstrou na sexta-feira, 16, que não é apenas um cantor e compositor dos mais admirados e talentosos entre os artistas independentes, mas que é também um homem fraterno, gentil e solidário. Na tarde daquele dia, intermediado pelo Barulho d’água Música, Edvaldo Santana esteve no Hospital Municipal de Barueri (HMB) onde percorreu leitos, corredores e o setor de hemodiálise, além da maternidade, local no qual entoou ao violão Cara Carol para os pais e a recém nascida Milene. Suas musicas e de autores como Elpídio dos Santos (Você vai gostar/Casinha Branca) e Adoniran Barbosa (Trem das Onze) despertaram sorrisos, derrubaram lágrimas e arrancaram muitos aplausos. Cara Carol, oferecida à Milene, ele compôs em homenagem ao nascimento da filha na época da Guerra do Golfo, travada no início da década dos anos 1990 entre Estados Unidos e Iraque. 

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Atitudes como a de Edvaldo Santana cantando para a paciente e irmã que a acompanha na convalescênça são dignas de aplausos e exemplo a ser seguido (Fotos acima, no destaque e abaixo: Vladimir Soares/Assessoria de Comunicação do HMB)

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Barueri está situada a 26 quilômetros de São Paulo, lindeira à Rodovia Castello Branco (SP 280). Para cantar no HMB acompanhado pela esposa, Sueli, Edvaldo Santana partira pela manhã de São José do Rio Preto — dependendo do trajeto percorrido, a viagem exige deslocamento superior a 450 quilômetros até a Capital — e chegou pontualmente em relação ao horário assumido. O artista abriu mão de cachê, da cobertura da mídia e o que enobrece ainda mais seu gesto: superou a dor pelo luto da mãe, que sepultara no domingo anterior para honrar o compromisso voluntário com entusiasmo e carinho.

“Se a arte existir apenas para dar dinheiro e fama, não tem sentido, precisamos também colocá-la a serviço de quem precisa, sobretudo em momentos e em ambientes nos quais as pessoas se convalescem”, disse. 

A trajetória de Edvaldo Santana é repleta de aventuras e de belas canções. Criado na Zona Leste de São Paulo e muito popular no efervescente bairro de São Miguel Paulista, o músico se destaca pela voz rouca e por um repertório que mescla variados ritmos do forró ao blues, do choro ao jazz. “Ações como essa, que levam alegria aos que estão acamados e em situação delicada, sempre devem ser apoiadas”, ressalvou.

Com mais de 40 anos de carreira nos quais gravou sete álbuns, celebrou parcerias com nomes como Ademir Assunção, Itamar Assumpção, Paulo Leminski, Tom Zé e Arnaldo Antunes. Nestas quatro décadas, constrói uma obra irretocável, sem fazer concessões sobretudo à mídia e preservando postura independente expressa em letras contundentes, mas também repleta de personagens populares, poesias e astral iluminado.

“Eu acredito muito na franqueza e na liberdade que me orienta, não há motivo para virar a mesa: se tem confiança não há violência”, canta Edvaldo Santana em uma das faixas de Jataí.  Ainda curtindo o sucesso desta pérola do nosso cancioneiro, ele contou aos jornalistas Marcelino Lima e Vladimir Soares que no primeiro semestre de 2016 pretende lançar o oitavo álbum.

Vladimir Soares é jornalista dos mais tarimbados e corretos da região metropolitana Oeste da Grande São Paulo e atualmente responde pela Assessoria de Comunicação do HMB. A ação de humanização por meio da qual levou Edvaldo Santana é um projeto que o hospital pretende repetir de acordo com o interesse voluntário de artistas. Para colaborar e saber mais detalhes, o telefone de Vladimir Soares é (11) 9 7486-8268.

Quarenta anos na contramão e dizendo não ao ouro dos tolos*

* Texto publicado pela Rádio UOL, em 01/09/2014, dias depois de Edvaldo Santana se apresentar com sua banda na sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo

Por Marcelino Lima

Edvaldo Santana está chegando a 40 anos de carreira e embora neste tempo já tenha gravado inúmeros sucessos deixa a impressão que ainda canta e toca com a mesma disposição, alegria, contundência, irreverência e, no caso particularíssimo dele, simpatia de quem estaria empunhando o microfone e um violão pela primeira vez, estreando nos palcos disposto a conquistar cada pessoa da plateia. Se a frase “quanto mais velho o vinho…” para ele se encaixa, a obra de sete discos deste bardo filhos de nordestinos que baixou lá em São Miguel Paulista e neste lendário, efervescente e mágico bairro-cidade da Zona Leste (ZL) paulistana cresceu andando na contramão estabelece, ainda, outra constatação: quanto mais o cara amadurece, mais parece que se renova e, assim, e remoçando-se, deixa para o público que o cultua a marca perene de um trabalho que prima pela qualidade e pela verdade, pelo engajamento e pela inteligência crítica. Só alguém que desde pivete tem posicionamento, ideias, suingue, poética e um anjo da guarda barroco poderia colocar se serviço da cultura que é (do) contra o ouro dos tolos, dos que adoram jabaculês e paparicos do jet-set.

Senhora contribuição ao país, sim senhor, digna de ser objeto de teses de mestrado e receber espaços mais generosos em cadernos B, os quais normalmente se gabam de serem antenados e reverenciarem os “malditos”! Os xotes, baiões, sambas, raps, hip-hops, baladas ou blues urbanos-agrestes deste guerrilheiro retratam com fidelidade — portanto sem retoques, sem maneirismos ou manérismos –, por exemplo, a periferia dos grandes centros e seu povo mais para crioulo e caboclo do que para loiro. Gente que rala em vagões lotados de trens sucateados, joga bola e resolve o jogo, trampa de pedreiro (até morrer, se preciso for, ou não tiver jeito), desvia de foguetes e de balas atiradas a esmo, corre dos gambés, suporta todo tipo de opressão andando de lado e fingindo-se de morto e, quando não tem a sorte de sair da linha de tiro, sequer uma testemunha ou caixão consegue; revelam manos de carne, dente, osso e unha — aliás, com mais osso do que carne, com dentes e unhas de menos –, mas que no dia a dia insistem em seguir avante, sorrindo, banguelas, fazendo churrasco na laje, descolando uma mina nova, tomando uns tragos aqui e acolá por que ninguém é de ferro — e nem sempre o santo ajuda!  E vamos arrematando um novo cordel, rimando caldo de cana com um pastel de japonês: afinal, quem é que não quer ser feliz ou não merece um copo de vermute?

Como se não bastasse a bandeira empunhada em defesa desta massa, a música de Edvaldo Santana é antipanfletária e anti(pros)elitista, não troca passes com chavões banais. “Jataí”, por exemplo, é um mapa das riquezas do Brasil e dos seus vários tipos humanos, do Oiapoque ao Piauí. Este blog por todas estas características já escreveu sobre ele mais de uma vez, em todas deixando claro que no nosso barco ES navegará sempre na proa — e na janelinha! O tiozinho que saiu de sua cadeira e pediu humildemente para a plateia reverenciar e aplaudir o “Lobo Solitário” antes mesmo dos acordes finais da música de despedida que Edvaldo Santana e sua banda* executavam no domingo, 24 de agosto, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo -– e, não contente, subiu no palco para cumprimentá-lo com a música ainda em andamento –, é um dos admiradores que sabem: o cantor e compositor merece que por ele tiremos o chapéu!

Crédito: Marcelino Lima

Durante a maior parte da apresentação, Edvaldo Santana, aliás, usava óculos de lentes escuras. Tirou-os apenas na hora de pegar um papel para ler nomes das pessoas as quais deveria agradecer, do técnico de som ao responsável pela Sala Adoniran Barbosa. Alguém poderia até pensar que o adereço das lentes seria um disfarce de alguém supostamente marrento, quem sabe parte da fantasia de uma mera personagem. Mas como poderia ser esnobe ou entrar em cena mascarado um camarada que é o que é, e estando no centro das atenções no calor daquele momento, despiu-se do papel de astro e brincou o tempo todo com quem o curtia, contou sem delongas ou autocensura de onde veio e alguns hábitos, várias vezes bateu as palmas para seus músicos, ergueu-as para os céus agradecendo aos parceiros de estrada que com ele contribuíram nestas quatro décadas — entre os quais Paulo Leminski, Itamar Assumpção, Ademir Assunção e Luiz Waack?

“Estes caras e muitos outros que já passaram para outro plano ou ainda estão por aqui sempre me ajudaram muito, foram me moldando, me deram conselhos fundamentais no começo da minha carreira, me orientaram direitinho e muitas vezes com sua sabedoria até me recomendaram segurar um pouco minha onda”, disse Edvaldo Santana. Ele pediu aplausos para um destes mestres, o poeta-samurai polaco-curitibano que não discutia com o destino. E não se esqueceu de jogar uma rosa também para “seu Valdemar”, amigo da ZL cuja especialidade é podar flores e livrar-se adequadamente dos espinhos para não furar dedo de menininhos. Com estas palavras, Edvaldo Santana revelou que a gratidão é outra de suas marcas. Eis, portanto, mais que um artista, um homem elegante que nos descarrega do peso de algumas dores. Se você trombar com ele por ai, diga que mandamos um forte abraço e que estamos indo pela mesma trilha!

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Fernando Brant, inesquecível: fez-se noite em nosso viver!

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A foto que provocou discussão e que a produtora do show e de ambos não quis que eu fizesse: Fernando Brant cantando com Tavinho Moura (ao violão) sucessos da carreira de ambos, como Peixinhos do Mar e em novembro de 2013, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em São Paulo, momentos antes de autografar o livro de crônicas Casa Aberta

O Barulho d’água Música não poderia deixar de externar sua tristeza e registrar o quanto é grande a perda de Fernando Brant, não apenas para a música e a literatura, mas para a cultura brasileira e popular de um modo geral. Tivemos, eu e Andreia, a felicidade de conhecê-lo e, mais do que isso que já seria memorável, caímos na graça dele — sobretudo ela, que ganhou na hora de voltarmos às nossas pacatas vidinhas bestas quatro beijos do compositor de tantas canções marcantes em nossas bestas e pacatas vidinhas, em cujo esgar deveríamos apenas amar e rir como qualquer outra pessoa do planeta; foram beijos estalados, apaixonados, com os olhos do Brant brilhantes de admiração (a banana comendo o macaco, vejam se pode isso!) e por uns segundos a gente deixou apenas de aguentar esta dose mais forte, e lenta,que nos obriga a ter força, raça, gana, sempre.

Corria o dia 30 de novembro de 2013. Brant acabara de se apresentar na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em Pinheiros, bairro da zona Oeste de São Paulo, ao lado do parceiro de Clube da Esquina, o violeiro Tavinho Moura. Estávamos estourando de alegria pelo privilégio de, entre outros fatos e momentos, termos ouvido Tavinho Moura cantar a linda Paixão e Fé, só ele e o violão. Então, ao final do show, fomos beber água. O Brant saia por uma porta lateral ao palco, para ir ao banheiro, ao lado dos bebedouros. Podem até achar que não tem graça: em um momento como estes exige-se silêncio e reverência, mas é preciso ter graça, é preciso ter manha, sempre… e eu tive o privilégio de mijar filosofando com ele!

Brant acompanhara Tavinho entre outros sucessos em Encontro das Águas, Cálix Bento, Peixinhos do Mar, Em volta do fogo, Gente que vem de Lisboa, Noites do meu sertão e A grande graça, além de contar causos e histórias. Naquela ocasião, Brant ainda autografaria exemplares do livro Casa Aberta,  reunião de crônicas publicadas pelo O Estado de Minas no quinquênio encerrado em 2012. Antes mesmo da fila de autógrafos, de volta ao palco, ele já estava abrasado pela Andreia, adulando-a com enorme e cordial carinho, entretanto muito, muito respeito. Pode não ser um detalhe politicamente correto para ser revelado em um crônica, mas Brant tinha não um viola na mão, mas uma latinha de cerveja. E queria, muito, conversar conosco, ali mesmo, no rescaldo do que sobrara do palco e da enxuta apresentação com dois banquinhos e um violão; Tavinho Moura apenas observava, e ria, mas estávamos quebrando o protocolo e a produtora de ambos, a contragosto do Brant, com a qual eu já discutira por ter sido advertido ao descumprir a burocrática regra de “não pode fotografar” durante a cantoria,  insistia para o escritor se adequar ao script e, enfim, tomar lugar na cadeira dele para atender a já grande fila que aguardava pelo seu, agora, raro, autógrafo. 

No exemplar que adquiri, o coparceiro de Milton Nascimento em Travessia escreveu como dedicatória A vida é o melhor vinho, a vida é a melhor cachaça, refrão de A grande graça, que fecha o álbum Fogueira do Divino. E deu uma piscadela marota para mim, como quem sussurrasse aos ouvidos de um amigo “sujeito de sorte: cuide bem de sua Maria, Maria!” 

A travessia dele está concluída neste momento (ou talvez esteja apenas começando), e o refrão tornou-se outro: amigo, forte eu sou, mas não tem jeito: hoje eu tenho de chorar! Vou guardá-lo do lado esquerdo do peito, qualquer dia a gente vai se encontrar, e apesar do tempo e da distância, jamais irei esquecer a canção… 

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Fernando Brant demonstrou mais do que simpatia no encontro que Andreia Beillo teve com ele no dia 30 de novembro de 2013: deixou explícita sua admiração por ela e fez questão de abraça-la, demoradamente (Foto: Marcelino Lima)

“Músico é uma categoria de gente muito especial, principalmente os bons. A felicidade dele ao tocar sons e canções que sabem especiais, a satisfação de se sentir participante de uma execução de uma obra incomum e bela, faz com que sua alegria acrescente sonho ao que o espectador recebe…”

Fernando Brant em Música da tarde, crônica que começa à página 123 do livro Casa Aberta

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“A vida é o melhor vinho/A vida é a melhor cachaça”, autografou Fernando Brant no meu exemplar de Casa Aberta (Foto: Andreia Beillo)

Barulho d’água Música chega a 41 países visto por cerca de 15 mil pessoas, seis vezes a lotação da Ópera de Sydney

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House, tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 15.000 vezes em 2014.  Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 6 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Trovadores do Miocárdio apresentam em casa de encontros paulistana mais uma rodada de spoken word sobre amores e paixões neuróticos

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Xico, Carolina e Fawcett formam um dos trios do Trovadores do Miocárdio (Crédito: Divulgação)

 Crônicas poéticas inspiradas em músicas com letras que abordam relacionamentos doentios, paixões platônicas, atrações fatais, colapsos e frustrações do coração, entre outras formas de amores fora do quadradinho são a base das apresentações de spoken word (declamações, em Português) do Trovadores do Miocárdio, grupo que reúne o cantor Fausto Fawcett e o jornalista Xico Sá e que nesta quarta-feira, 26,  fará mais uma rodada em São Paulo (SP), desta vez na casa de encontros A Balsa.  

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Arnesto era advogado e jurava de pés juntos que jamais deu bolo no amigo Adoniran Barbosa, mas admitiu que o samba o tocou profundamente, deixou-o partido ao meio

Crônica originalmente publicada em 1 de março de 2014, por Marcelino Lima

A vanguarda de Sampa que já subiu em peso. E também a Velha Guarda, a paulistana e a carioca. Gente das duas Penhas e dos morros da Cidade Maravilhosa, das Vilas Ré, Carrão, Cisper, Ermelino Matarazzo, Brás, das quebradas da ZL, e, claro, da Mooca. Noel Rosa, elegante, estava lá. De prosa e batucada com a Miriam, a da caixa de fósforos. E não era o único representante das gerações mais antigas. Donga chegou e trocou cumprimentos amáveis com Sinhô, puxou uma cadeira e ali mesmo, na hora, ambos começaram a rabiscar uma nova letra. Nem pareciam aqueles de outrora que nem ao menos pelo telefone trocavam um alô um com o outro. Agenor de Oliveira, com um caprichado chapéu feito de jornal, afinava a viola ao lado de Mano Décio quando Clara Nunes entrou. Não é à toa que o mar serenava quando Clara pisava na areia: toda de branco, assim que ela surgiu, tudo ao redor ganhou ainda mais luz, todos ficaram ainda mais iluminados. Com ela vieram Silas de Oliveira, João Nogueira, além de Roberto Ribeiro, e Ismael Silva. Bem naquela hora Dona Zica servia às rodas uma disputada água benta providenciada pelo Bezerra da Silva. Bom cabrito que não berra, o recifense descolara o de beber levando um papo reto com um querubim cuja cara era de destaque de carro alegórico — a quem, ao recompensar, apenas recomendara “aperta, mas não acenda agora!”

Moreira da Silva, Jovelina da Pérola Negra, Paulo Vanzolini, Mussum, e, com a sogra a tiracolo, Dicró. Carlos Cachaça, Herivelto Martins. Além de músicos e cantores contavam-se nada ruins da cabeça ou doentes do pé jornalistas, poetas, jogadores de futebol, atores, cronistas e escritores dos calibres de Mário Lago, Rubem Braga e João Antônio. E para onde se olhava se ouvia uma cuíca roncando, um surdo, um cavaquinho, um tamborim, um repenique, um chocalho. Ambiente de alegria e de camaradagem, misto de Café Nice com barracão em dia de ensaio. Agepê até trouxe um cachorro magro! O bicho, na dele, parecia que descansava junto a um coqueiro, ou a um fogão de lenha numa casinha branca — distante, lá, lá, bem longe, onde não mora ninguém, onde não passa ninguém. Ataulfo Alves até tentou brincar com o totó, que, no entanto, manteve-se impassível. Nem mesmo uma escultural mulata desfilando para lá, e para cá, para lá, e para cá, perturbou o cão. Dizia a moça que só estaria tentando se aproximar para pedir ao Guilherme de Brito que cantasse “Meu Dilema”; atento, o sempre parceiro e eterno companheiro do Guilherme, Nelson Cavaquinho, encontrou um jeito de contornar a saia-justa (a bem da verdade, menos que saia, e bem mais que justa): dedilhou seu violão e, em dueto com Clementina de Jesus, ofereceu à fã do amigo “Quando eu me chamar saudades”, sucesso de ambos que nenhum dos presentes tirou como ironia considerando-se as circunstâncias daquela festa!

Ah, sim, a festa! Neste momento, o anfitrião Adoniran Barbosa se tocou: “Ih, seu Gervásio, cadê aquele malandro que até agora não chegou?” E, depois, virando-se para a “Pimentinha”: “Só está faltando ele, e, há horas, já era para estar aqui. Será que aconteceu algo com nosso récem admitido, Elis?” A mesma pergunta repetida de mesa em mesa ficou sem resposta, o silêncio cresceu até todos se aquietarem com cara de ué. O Mato Grosso, olhando para o Joca, deu de ombros, soltou um muxoxo e abriu os braços. Para tentar descontrair, o Moacir ainda gritou “ah, gente, vai ver que ele perdeu o trem das onze!”, bravata pela qual acabou levando um tremendo beliscão da Gabriela. Foi então que a Iracema, ainda sem as meias e sem os sapatos, pediu a palavra. Ela acabara de encontrar um bilhete ponhado debaixo da porta com um que recado dizia assim, ó:  

“Ói, turma, num deu pra chegá. Tava vindo, mais incontrei o Tim Maia. Ele me disse que tinha de dar um show, mas preferiu ir pescá e me convidou. Ah, duvido que isso num faz mar, num tem importância, nem vai deixar ninguém com réiva como daquela outra vez, que, por sinar, não aconteceu. Assinado em cruz porque ainda num sei iscrevê. Arnesto”

N.R. 1: Diversas outras estrelas, ou, agora, anjos de várias vertentes da música e do mundo artístico, colaram na parada que Adoniran Barbosa (vestindo uma beca branca e um sapato da mesma cor bem apertado no pé) e o pessoal do samba prepararam para recepcionar o Arnesto. Paco de Lucia, por exemplo. O violonista que, por sinal, pegou o elevador no mesmo dia e, assim subiu com o Arnesto. Foi recebido com um largo sorriso por Dorival Caymmi. Paco, entretanto,  ficou pouco tempo. Após reencontrar o amigo baiano e confidenciar a Caymmi que sonhava mesmo “por julgar ser mais doce” morrer no mar, despediu-se de todos com uma reverência bem ao seu estilo flamenco. Era aguardado em outro salão na qual estavam, entre outros, Andrés Segóvia — o clássico guitarrista espanhol do qual, apesar de haver tão notórias diferenças de estilo, e até mesmo de posturas entre ambos, o andaluzo jurou que não guardava inimizade. Paco de Lucia também comentou que ansiava por dar um abraço em Pablo Neruda e em Victor Jara. E, quem sabe, enfim, acompanhar Violeta Parra em “Volver a los 17”.

Entre os jornalistas vale a pena contar que Ubirajara Coutinho e Daniel Soares, um corintiano, outro são-paulino, trocaram figurinhas para além do tempo regulamentar, da prorrogação e da decisão por penâltis com Sócrates e mestre Telê Santana. Um dos assuntos em pauta era qual clube teria o melhor time: se o São Paulo, durante o bicampeonato mundial conquistado em 1992/1993, ou o Corinthians, que em 2012 igualou o feito do rival do Morumbi ao invadir o Japão. Jesse Navarro, tal qual o Dani abnegado tricolor, entendeu-se, mesmo, foi com outro filho da Boa Terra, Jorge Amado, que entrevistara para coleção chamada “Literatura Comentada”. Jessão e Amado conversaram tanto que deu tempo de uma safra de cacau amadurecer, o papo entre ambos encheria a eternidade de laudas, resultaria em incontáveis horas de gravação, renderia bibliotecas do tamanho das de Alexandria para a série sobre o autor de “Gabriela, Cravo e Canela”.

N.R. 2 .:  Arnesto sofreu uma fratura de fêmur e foi internado na sexta-feira, 21 de fevereiro, passou por cirurgia e estava no hospital.  Era advogado aposentado, viúvo e estudioso de latim. Ele garantia que nunca convidou o amigo para um samba e nunca lhe deu “um bolo”, como diz a canção.

 “Isso é coisa da cabeça dele”, assegurou, em entrevista ao G1 em 2010. Ele lembrava com carinho que Adoniran, semanas após serem apresentados, em 1935, pediu-lhe um cartão de visitas. “Ele falou: ‘Você é Arnesto, porque seu nome dá samba. Você aduvida?'”, contava Ernesto, imitando a voz rouca do amigo. “Eu não aduvido mais”,  respondeu. O compositor prometeu escrever, então, uma canção para o amigo.

 Aproximadamente 17 anos depois, Ernesto foi surpreendido com a música em sua homenagem sendo tocada na rádio. “Fiquei muito emocionado”, conta.

 Mais tarde, Ernesto tentou dar um puxão de orelhas no amigo. “Adoniran, você me meteu em uma encrenca. Todo mundo me pergunta por que eu convidei você para o samba”, diz o advogado, que também era músico. Adoniran foi incisivo: “Arnesto, se não tinha mancada, não tinha samba”. Quando questionado pelo amigo se havia gostado do samba, Ernesto declarou a ele: “Você me abriu ao meio. [Esse samba] foi a coisa mais bonita que me aconteceu”.

Texto extraído do site G1

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Sá e Guarabyra na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural Vergueiro (SP), durante participação especial no show de Luís Perequê com Katya Teixeira e Noel Andrade (Foto: Marcelino Lima, 1 de fevereiro de 2014)

Já embarquei muitas vezes no trem de Pirapora até Sobradinho, depois voltei pela Rio-Bahia comendo pirão de peixe com pimenta, tomando uma boa Januária. No meu coração de maçã ardendo, febre equatorial, o amor por uma certa dona. Não havia pedras em meu caminho, nem tempestades que me impedissem de voar, voar, virar pássaro e fugir — e, no outro dia de manhã, ao fim da viração, ter chegado ao mar do Japão… Eu, caçador de mim, sempre quis é ter uma casa no campo mais do que um caderno de viagem, e nada abandonado num passado que se fez com tanto sentimento, já que, volta e meia, você nota que não morreu, pois somos nada mais que gente. No entanto, sempre foi assim, sempre fui assim. E preciso te falar, eu preciso, eu tenho que te contar: desde pequeno eu estou por ai, na mesma vida que sempre aprendi, muchacha! Jamais tive medo de correr nesta estrada (ainda que com a poeira grudada em meu rosto), nem mesmo quando do céu ameaça cair a noite escura. E como hoje o dia parece tranquilo, e até há uma brisa soprando de leve, com flores e folhas se abrindo sem ser hora da alvorada, vou me danar a rir, olhar nos olhos do espelho e cair na dança. Feito um atrevido que desacata a própria mãe, minha espanhola! Então, para que chorar se te amo? A nave louca que descubra se Nova York é mais perto que o sertão! E que se queime, eu quero é mais ziriguidum-tchan!!