São Paulo terá encontro de escritores de Literatura de Cordel no Paço do Baobá

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O escritor e pesquisador da cultura popular  Marco Haurélio receberá amigos e convida o público para o evento que será promovido no sábado, 27 de setembro no Paço do Baobá, situado na Rua Michael Kalinin, 64, Bairro Previdência (Butantã), na zona Oeste de São Paulo. Leituras no Varal – Encontro com Marco Haurélio e a Literatura de Cordel”, por meio de leitura de trechos de textos de autores clássicos e contemporâneos, revelará a beleza e a ludicidade da literatura de cordel, bem como informações mais relevantes que serão apresentadas ao público entre 8h30 e 17 horas .

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Cordel “Tiê-Sangue”, de Moreira de Acopiara: ode à liberdade e brado para olhar mais humano aos nossos jovens

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Moreira de Acopiara, nascido na cidade cearense cujo nome adotou para a carreira artística, vai lançar livro novo na Cortez neste sábado, 16 (Marcelino Lima)

O Barulho de Água Música encontrou no sábado, 9, uma verdadeira plêiade de artistas populares de diversas formas de manifestações culturais ao acompanhar a abertura do IX Sarau Cortez, evento que a Livraria Cortez está promovendo em sua livraria localizada nas Perdizes, ao lado do campus da PUC-SP. Entre cantores, atores, escritores, xilogravuristas e cordelistas, recepcionados por Ednilson Xavier e José Xavier Cortez, conhecemos Moreira de Acopiara, nome com o qual Manoel Moreira Júnior, nascido no sertão do Ceará, assina suas obras.

Moreira de Acopiara coordenou as diversas apresentações, incluindo a dos cantores Socorro Lira e Téo Azevedo e em um dos momentos mais marcantes daquele encontro recitou o cordel “Tiê Sangue”. Abaixo vai reproduzido o belo poema que faz alusão tanto ao pássaro de forte coloração encarnada e asas negras, quanto aos jovens detentos com os quais Moreira de Acopiara trabalha em programas de recuperação em uma cadeia paulistana.

Vale a pena anotar na agenda que no sábado, 16, terá sequência a programação do IX Sarau Cortez, a partir das 16 horas, na rua Bartira, 317, com entrada também pela rua Monte Alegre, 1074 .  Uma das atrações da programação será a tarde de autógrafos do livro de Moreira de Acopiara “A Divina Comédia”, obra prima do italiano Dante Alighieri que o poeta brasileiro adaptou para versos de cordel. A entrada é franca e o visitante ainda terá direito a degustar comidas e bebidas típicas do Nordeste.

Tiê Sangue é uma ave Que vive no interior, Possui um canto suave E porte revelador. É vista nas capoeiras, Nas restingas e nas beiras De mata do litoral, Gosta de lagoa e mangue, Tem o corpo cor de sangue, E beleza sem igual. Asas negras, branco bico, Cauda também muito preta, Possui o matiz mais rico De todo nosso planeta. Mas as suas lindas cores Atraem os criadores, Que a fim de ganhar dinheiro Usam de gesto mesquinho E colocam o passarinho Para viver prisioneiro. Mas esse pássaro tão lindo, De colorado tão vivo, Que o homem está perseguindo, Não aceita ser cativo. Toda vez que aprisionado Fica triste, desbotado, Perde vigor e beleza. Seu bonito pigmento Só se revela a contento Com ele na natureza. É que estando em liberdade O Tiê pode encontrar Alimento em quantidade, E pode selecionar Sementes, frutos e insetos Com os nutrientes completos, Mais a pigmentação Que as variedades contêm. E é assim que ele mantém Tão linda coloração. Então sua boniteza Sempre está relacionada Às coisas da natureza, Que é sábia, não erra em nada, Possui grande variedade De bichos em liberdade, Com quem mantém fortes elos. Logo se pode ver que Outros pássaros e o Tiê, Quanto mais livres, mais belos.

Nesse aspecto o ser humano Se parece com o Tiê: Deve reinar soberano, E sem entraves, porque, Ao se ver aprisionado Fica desorientado, Perde alegria e matiz. O homem na sociedade Precisa de liberdade Para ser lindo e feliz. Ele necessita alçar Grandes voos em pensamentos, Estar bem e se cercar Dos mais nobres sentimentos, Nutrir-se de ideais, Reciclar-se, querer mais, Não ir por aí disperso, Relacionar-se sem medos E andar sondando os segredos Do homem e do universo. Os jovens, por natureza, Têm sede de liberdade. Nela extrapolam beleza, Mas uma variedade De vícios os enfraquecem, E eles, sem defesa, descem, E suas forças se esgotam. Nessa precipitação, Quando percebem que estão Aprisionados, desbotam. Esses jovens deveriam Mostrar suas lindas cores, Só que muitos se entediam, E entre pequenos valores Desejam se confundir Com grupos, até cair No cativeiro infeliz Das mídias e dos modismos. Já no pior dos abismos Dizem: “Não foi o que eu quis”. O prisioneiro dos vícios Perde o prazer de viver. Diante desses malefícios Fica fácil se perder. Perde a alegria, a saúde, Desperdiça a juventude… E o que restou de esperança Nesse escuro se dissolve, Porque, coitado, se envolve Com sonhos que não alcança.
 
É preciso que encaremos A nossa realidade. Todos (sem exceção) temos Alguma dificuldade. Entretanto diga: “Posso!” Vamos melhorar o nosso Modo de ser e de agir, Tendo os nobres sentimentos Como nossos alimentos, Para não nos destruir. Temos que influenciar O meio em que vivemos, Mas é preciso mostrar O lado melhor que temos: Nossas práticas caridosas, Atitudes amorosas… E não cair no engano Da negação das virtudes, Nem das fracas atitudes Que desbotam o ser humano. Seja como o Tiê Sangue, Livre e belo nas andanças; Pense grande, não se zangue, Nutra grandes esperanças. Na capital ou na aldeia Lembre-se: Não é de areia Que se fazem bons castelos. Somos passarinho que, A exemplo do Tiê, Quanto mais livres, mais belos.
 
 
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O tiê-sangue também é conhecido por Sangue de Boi

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Livraria Cortez recebe Socorro Lira e vários artistas em IX Sarau de Cordel

 

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Socorro Lira, de Brejo da Cruz (PB), uma das atrações do IX Cordel da Cortez (Fotos Marcelino Lima)

A Livraria Cortez convidou a cantora e compositora Socorro Lira para ser uma das atrações da abertura do IX Sarau de Cordel, evento que promove há 12 anos no piso superior da loja localizada na rua Bartira, 317, ao lado do campus da PUC de São Paulo, em Perdizes.

Antes de cantar e tocar para o público, Socorro Lira foi precedida por artistas de várias vertentes da cultura popular residentes em São Paulo e na região do Seridó, situada entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, apresentados pelo cordelista Moreira de Acopiara. Entre um bocado de feijão de corda com cuscuz, farinha de mandioca e manteiga de garrafa, caldinho de feijão fradinho, rapaduras, sucos de caju e de graviola e licores de tamarindo e cana de açúcar, caprichosamente preparados por Dona Júlia, a plateia ouviu, por exemplo, a cantoria de Aldy Carvalho e Cacá Lopes; Djanira Feitosa, cordelista de Acopiara; os escritores Marco Haurélio, Audálio Dantas e Adelson Aprígio Filgueira; os atores Anísio Clementino e Maria Rocha; e a xilogravurista Nireuda Longobardi. Depois de Socorro Lira, o microfone foi entregue ao cantor Téo Azevedo.

O Sarau da Cortez é realizado desde 2002 e já virou referência para vários artistas do Nordeste que buscam seu lugar ao sol e reconhecimento no cenário nacional a partir da capital paulista. Muitos mantêm suas trincheiras nas cidades de origem, mas mesmo os que se arriscam longe da terra natal conservam e transmitem em suas obras as características do berço onde nasceram e se criaram, permitindo a difusão de valores e hábitos que se mesclam aos de outros lugares brasileiros e o enriquecimento do patrimônio cultural do país.

Um destes nomes é Moreira de Acopiara, município cearense. Autor de vários livros de cordéis, ele coordenou a apresentação do dia 9, ocasião em que declamou o poema “Tiê-Sangue”. Neste texto, Moreira tanto faz alusão ao pássaro encarnado, como aos jovens detentos com os quais trabalha em projetos de recuperação em uma cadeia paulistana. Ele está escrevendo o livro “Se Meu Cachorro Pensasse” e a partir das 16 horas do sábado, 16, lançará na Cortez “A Divina Comédia” obra de Dante Alighieri adaptada para o cordel. A tarde de autógrafos é parte da programação do dia de encerramento do IX Sarau.

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Ednilson Cortez, um dos anfitriões do evento que a livraria organiza desde 2002

Ednilson Cortez é um dos idealizadores do agradável e rico encontro acolhido pela livraria de Perdizes. Com extrema gentileza e agradecendo sempre aos que chegavam para participar do IX Sarau, era Ednilson quem recepcionava à porta, um a um, tanto os convidados, quanto as pessoas que haviam se inscrito — incluindo os que visitavam aquele espaço pela primeira vez como os autores deste blog. Atraído pela informação de que Socorro Lira estaria presente, o Barulho de Água não podia fazer ideia da envergadura, da importância e belezas daquela reunião. “Eu tinha vontade de fazer o sarau, mas a mantinha no campo do desejo até que um amigo me disse ‘quando você quer, de verdade, você faz’”, disse. “Hoje, a partir de nossa iniciativa, tenho visto vários movimentos de valorização da literatura de cordéis”.

José Xavier Cortez, proprietário da loja, é outro grande entusiasta das diversas formas de manifestações artísticas e populares do povo brasileiro. Ele afirmou que acredita no Brasil e como nordestino sente-se colaborando decisivamente para a valorização da cultura do país. “Penso como o escritor Assis Ângelo, para o qual a cultura popular é o DNA de um povo”. Ele ainda comentou que a sua livraria é a única do sudeste que prestigia a literatura de cordel, cordelistas, repentistas, cantores e poetas, “artistas que formam o nosso verdadeiro patrimônio cultural”. Xavier aplaudiu calorosamente todas as apresentações e de Socorro Lira ouviu agradecimentos especiais pela generosidade e incentivo aos artistas que já passaram por aquela casa.

É importante registrar, também, algumas palavras de Socorro Lira, paraibana de Brejo do Cruz, cidade no qual mantém trabalho social com jovens. Vencedora do Prêmio Sharp de 2002, ela criticou a falta de atenção da mídia e dos formadores de opinião que não dão respaldo a obras de artistas como vários daqueles que constituíram a plateia para prestigia-la. “Para sair na televisão você precisa pagar, ou seja, tem de recorrer a jabaculês, ou jabás, concordar com o hábito reinante no meio conservador de doar algo para poder receber em troca”, afirmou enfática. “Mas acontece que o artista popular também necessita de comida, precisa se vestir, tratar da alma, ou seja, precisa receber pelo que produz, e com dignidade”, prosseguiu. “Nós temos apenas vocês aqui presentes para ouvir nossos discos, enquanto a maioria das pessoas ouve apenas o que é imposto de cima para baixo”.

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A escritora Cristiane Cobra, Moreira de Acopiara e Aldy Carvalho
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José Xavier Cortez lembrou Assis Ângelo: “A cultura popular é o DNA de um povo”
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O poeta Moreira de Acopiara coordenou as apresentações. O cearense é autor de vários livros, está trabalhando em “Se Meu Cachorro Pensasse” e neste dia 16 lançará na Cortez “A Divina Comédia Humana” em cordel
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Aldy Carvalho cantou “Desassombro” e “Sina de Cantador”. Autor de “Alforje”, ele voltará à Livraria Cortez para lançar “Cantos d’Algibeira” em 20 de setembro
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Djnaira Feitosa, de Acopiara (CE), apresenta ao público seu cedê “Cordéis Cantados”. Ela participará da Bienal do Livro do Ceará, em Fortaleza, no mês de dezembro, onde lançará três cordéis: Princesa do Sítio Laranjeira, Hermitão e A Vida do Turco
Cacá Lopes, escritor que recitou parte da história infantil Cinderela, recriada em forma de cordel, além de cantar para entreter o público
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A xilogravurista Nereuda Longobardi explicou como são algumas técnicas para a composição das peças que ilustram capas de livros e outros suportes, como a capa do álbum de Socorro Lira “Lua Bonita”. É dela a ilustração que Moreira de Acopiara segura em mãos
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O cantor e compositor Téo Azevedo cantou músicas de sua carreira ao final do evento do sábado, 9
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o escritor Marco Haurélio é curador do Sarau. Ele homenageou Ariano Suassuna recitando uma trova da qual é autor “Sussuana não morreu/ escreva no seu caderno/Jamais morre quem nasceu/ com o dom de ser eterno
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O autor Anísio Clementino, que cantou “Cantiga do Boi Encantado” de Elomar, e interpretou com Moreira de Acopiara um trecho de uma nova peça que está produzindo
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A cordelista e escritora Maria Rocha interpreta com Moreira de Acopiara a história de Chicão e Helena, de sua autoria
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Audálio Dantas exibe bela imagem de um vaqueiro de Serrita (PE), onde é realizada a “Missa do Vaqueiro”, parte integrante do livro “O Céu de Luiz”, que ele lançou e pode ser encontrado na Livraria Cortez, em homenagem ao sanfoneiro Luiz Gonzaga, cujo centenário se completou em 2013
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Adelson Aprígio de Lima lançou pela Editora Cortez “Ôxe! Dicionário de Palavras e Expressões Usadas no Seridó Oriental”, em parceria com Maria Maria Gomes. Adelson é natural de Currais Novos (RN), psicólogo, compositor e violinista, pesquisa as origens históricas da região e dissertou no seu mestrado sobre “A resiliência do(a) cabra da peste: uma contribuição à promoção de saúde no sertão nordestino”. O autor do dicionário afirmou acreditar que o sertão não define uma localização geográfica, e sim uma existência, uma travessia, lembrando Guimarães Rosa.

 

Violeiro e contador de causos tempera a sopa do projeto “Caldos com Sons Brasileiros” do SESC Osasco

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Paulo Freire é compositor, cantor, contador de causos, e produtor musical considerado referência entre violeiros da música caipira (Foto: Marcelino Lima, SESC Campo Limpo, 9 de julho de 2014)

O SESC de Osasco promoverá nesta quinta-feira, dia 24 de julho, no Deck da Cafeteria, a partir das 19 horas, mais uma edição do projeto “Caldos com Sons Brasileiros”, que consiste em oferecer a degustação de sopas enquanto o público ouve música raiz de viola e causos apresentados por um convidado especial. A atração desta noite é o cantor, compositor, escritor e produtor cultural e fonográfico Paulo Freire — o qual, apesar da indiscutível erudição e sabedoria, não é o homônimo educador.

Conhecido no meio como um dos mestres da viola caipira da atualidade, Paulo Freire reside em Campinas. É autor, entre outros álbuns, de “Alto Grande”, seu mais recente lançamento, “Redemoinho”, “Vai Ouvindo”, “São Gonçalo” e “Rio Abaixo”. As contribuições para a literatura incluem os livros “Lambe-Lambe” e “Nuá – A música nos mitos brasileiros”. Como produtor assina vários outros discos dos gêneros caipira e regional, entre os quais títulos da discografia da esposa, a poetisa Ana Salvagni. Paulo Freire também pode ser ouvido em trabalhos de diversos amigos e parceiros de estrada como o álbum “Capiau”, de Levi Ramiro,  por sinal o próximo a se apresentar em Osasco, na quinta-feira, 31.   

242fc7ad-e790-4051-9ead-b165ee83a659A entrada para curtir o projeto “Caldos com Sons Brasileiros” é franca. A sopa, cujo sabor varia, sai por R$ 6,50.  O SESC de Osasco fica na Avenida Sport Club Corinthians Paulista, 1.300, Jardim das Flores, com estacionamento gratuito. 

Estrela de Consuelo de Paula está mais fulgurante hoje

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Consuelo de Paula, mineira de Pratápolis, prepara o lançamento do álbum “O Tempo no Branco”, o quinto da carreira (Foto: Lourdes Casquete)

“Lá no céu tem cinco estrelas/todas cinco encarriadas/duas minhas, duas tuas/uma é da madrugada”

Vinheta “Cinco Estrelas”, faixa 11 do álbum Tambor & Flor, gravado por Consuelo de Paula, canto dos congadeiros de Pratápolis (MG) de domínio público, transmitido por Luiz Gonzaga de Paula através de suas lembranças.

Pratápolis, cidade do sudoeste de Minas Gerais, na região de São Sebastião do Paraíso e Itaú de Minas, é a terra natal da aniversariante de hoje, 21 de julho, a cantora, compositora, poetisa e produtora musical Consuelo de Paula, uma das mais queridas amigas e incentivadoras do Barulho d’Água Música. Apesar deste laço estreito, falar dela e da qualidade de sua obra é tarefa das mais difíceis. Portanto, fomos pedir socorro ao colega Julinho Bittencourt, que em sua feliz referência à mineira que hoje vive em São Paulo publicou na Revista Fórum: “Só algo inexplicável, que sobrevoe acima de nossas antenas e cabos, poderia produzir tamanha música”

cdcasaAutora dos álbuns Samba, Seresta e Baião (1998) ; Tambor e Flor (2002) ; Dança das Rosas (2004) e “Casa” (2013), este em parceria com a Orquestra à Base de Corda, de Curitiba,  Consuelo também tem um DVD, “Negra”, de 2011. Atualmente trabalha em “O Tempo no Branco” , que deverá lançar ainda neste ano.  Das 13 canções, 11 são em parceria com Rubens Nogueira (1959-2012). Também em 2011, publicou “A Poesia dos Descuidos”, com ilustrações de Lúcia Arrais Morales.

 

Feliz aniversário, Consuelo! Em nossa humilde casa você não precisa pedir licença para entrar e tocar seus versos de congada, de folia, apresentar a melodia dos artesanatos, do brilho da lua, e nos brindar com sua poesia amorosa! 

“Balaio de Dois”, espetáculo para todas as idades, com Paulo Netho, Salatiel Silva e Ricardo Kabelo

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O poeta e artista Paulo Netho constrói e desconstrói palavras e cenhos franzidos quando se junta aos amigos do Balaio de Dois, que, na verdade, são três (Fotos de Marcelino Lima)

Ontem, 19 de julho, o Barulho d’Água acompanhou no SESC Ipiranga a apresentação do sensacional “Conversas Diversas“, do Balaio de Dois+um produção do poeta Paulo Netho e do músico Salatiel Silva, com a participação para lá de especial de Ricardo Kabelo. Conforme Salatiel diz é um espetáculo muito simples, no qual ele e Kabelo tocam e cantam acompanhando Paulo Netho em suas performances magistrais não superiores a 60 minutos, mais que encantam e deixam (boas) sequelas irreversíveis em crianças e adultos. “O Paulo Netho é um poeta, construtor, desconstrutor de palavras e um assustador de crianças”, brinca o músico que toca violão, gaita e que vive em crônico estado de transe entre a alegria, o bom humor e a irreverência.

“Balaio de Dois” já vai para 15 anos de estrada e é altamente recomendável para todos os públicos, tanto que até um casal de simpáticos senhores ficou maravilhado com o que viu no Ipiranga. Paulo Netho e Salatiel compõem as próprias cantigas, poesias e outros elementos que compõem o número, incluindo os objetos e brinquedos do cenário, os quais Paulo Netho utiliza em cena.

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Salatiel Silva

É uma mistura de teatro, de dança, de mímica, de música, de sons e poesia com outras linguagens que diverte a todos, de forma contagiante, ensinando e passeando por aspectos da oralidade e da gramática e relativos à cultura popular, por exemplo, em que os atores/cantores também se apoiam em trava-línguas, parlendas, adivinhas, cantigas consagradas pelo domínio público, algumas recriadas para serem adaptadas ao contexto da apresentação, como aulo Netho representa com uma cadeira, um dos muitos recursos que ele tem para dar vida ao que narra e conta.

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Ricardo Kabelo

Até um grilo sai da mala de geringonças e invenções dele, sem contar deliciosos pirulitos “Balaio”, que têm sabores especiais, e um bilboquê. Os pequenos arregalam os olhos, fixam-nos brilhantes no brincante, reagem aos estímulos prontamente e muitas vezes de forma surpreendente. As “saias-justas” obrigam Paulo Netho a malabarismos e a improvisações deliciosos, mas absolutamente coerentes, como se já fossem parte do script. Os adultos interagem entusiasmados e se deixam levar pelos convites para dançar, pular, fazer ginástica e praticar ou se permitirem outras brincadeiras e estripulias… como se o tempo não tivesse passado! Ou os pais estivessem de volta a um parque de diversões, reavivando o dia em que apresentaram um jogral colorido na escola primária e encheram de orgulho a si próprios, colegas e mestres.

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Paulo Netho diverte o público de todas as idades nas apresentações que há 15 anos faz apoiado em textos próprios, parlendas, trava-línguas e cantigas de domínio público

Então, respeitável público, uma salva de estralar de dedos para o trio! E anotem que o SESC Ipiranga ainda tem uma apresentação programada do “Conversas Diversas”, marcada para o sábado, 26, a partir das 14 horas, com entrada franca. Depois o espetáculo vai a São Carlos, onde será mostrado em 15 de agosto. Em 11 de outubro será a vez do público de Campos do Jordão, durante uma festa em homenagem ao Dia das Crianças!

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Ricardo Kabelo, Paulo Netho, e Salatiel Silva com as crianças ao final do espetáculo, no SESC Ipiranga

Tavinho Moura volta a gravar e fãs ganham “Minhas Canções Inacabadas”

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Na apresentação de novembro de 2013 Tavinho Moura relembrou ao violão clássicos da carreira ponteada por sucessos como “Paixão e Fé” e “Peixinhos do Mar” (Fotos Marcelino Lima)

Para deleite de muitos admiradores e daqueles que gostam de música de qualidade, o cantor e compositor Tavinho Moura encerrou um período de três anos sem gravar, voltou ao estúdio e lançou neste ano “Minhas Canções Inacabadas”. O mineiro de Juiz de Fora, cidade da Zona da Mata, atendeu ao pedido de Henrique Santana, dono da “Poleiro D’Angola Estúdio e Escola” e brindou o público com 13 faixas, entre as quais “Como Vai Minha Aldeia”, dele e de Márcio Borges, que integra também o “bolachão” homônimo de 1978, e “Confidências do Itabirano”, parceria com Carlos Drummond de Andrade baseada no célebre poema do conterrâneo “Itabira é apenas uma fotografia na parede./Mas como dói!” A amizade com Fernando Brant também está contemplada em “Minhas Canções Inacabadas”, por meio da faixa “Peixe Vivo” , entre outras maravilhas que Tavinho apresenta em voz limpa e afinada, com vocais, violões, violas e arranjos dele próprio, conforme destaca Chico Amaral no livreto do encarte.

SCAN0002Tavinho, durante o tempo sem novidades para o mercado fonográfico, não ficou pescando ou curtindo a vida merecidamente em outra atividade de lazer ou de entretenimento pessoal. Ao contrário, pescou em outras águas nas quais aprimorou a fértil vertente de compositor e de escritor, além de fotógrafo, para produzir os livros “Maria do Matué- Uma estória do Rio São Francisco”, que saiu com o álbum “Rua do Cachorro Sentado” encartado na terceira capa, e “Pássaros Poemas – Aves da Pampulha”, este um magnífico registro de imagens de aves que habitam a lagoa do Parque da Pampulha, em BH.

O hiato também foi preenchido com vários shows, um dos quais o blog Barulho d’Água presenciou, em 30 de novembro de 2013, na Biblioteca Municipal Alceu Amoroso Lima, situada em Pinheiros, bairro da zona Oeste paulistana. À capela, ao som do seu tinhoso violão, Tavinho Moura cantou e tocou ao lado do companheiro do “Clube da Esquina” Fernando Brant canções consagradas da carreira de ambos tais quais “Encontro das Águas”, “Paixão e Fé”, “Cálix Bento”, “Peixinhos do Mar”, “Em volta do fogo”, “Gente que vem de Lisboa”, “Noites do meu sertão” e “A grande graça”. Naquela ocasião em São Paulo, Brant ainda autografaria exemplares do livro “Casa Aberta”, uma reunião de crônicas publicadas  no quinquênio encerrado em 2012 pelo jornal “O Estado de Minas”. No exemplar que adquiri, o autor parceiro de Milton Nascimento em “Travessia” escreveu acima do inestimável autógrafo “A vida é o melhor vinho, a vida é a melhor cachaça”, refrão de “A grande graça”, que fecha o álbum “Fogueira do Divino”. Ave, Brant, ave Tavinho, ora e viva!

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A dupla que faz parte do famoso “Clube da Esquina” também integra o universo literário. Tavinho, fotógrafo e escritor, escreveu “Maria do Matué” e Fernando Brant as crônicas de “Casa Aberta”
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A simpatia de Tavinho Moura é outra característica deste baluarte da cultura nacional, que tem ainda trilhas sonoras para filmes e documentários tais quais “Cabaré Mineiro”

 

Música e haicai se encontram em “Rosas para João”

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Capa do álbum “Rosas para João”, de Renato Motha e Patrícia Lobato

 

 Fecha o tempo no sertão
É chuva vindo
Um rai cai, um clarão

Escrever, ler e estudar (sobre) haicais, assim como a moda de viola, é uma das minhas paixões. Sobre o instrumento não sou capaz de arranhar uma mísera corda. Mas acredito que consigo compensar esta frustração, de vez em quando, compondo algum poema em três linhas, nem sempre rigorosamente de acordo com as normas clássicas recomendadas pelas cartilhas japonesas do gênero, porém chego bem perto; desastre mesmo, acredito, seria tentar tocar um pagode ao modo de Tião Carreiro e Pardinho ou arriscar-me a pontear os dez arames com os quais muita gente talentosa tem conseguido pavimentar uma boa estrada.

As particularidades do haicai, por sinal, talvez pela brevidade e apesar de toda a beleza que os versos evocam, parecem dificultar que eles apareçam em letras de músicas, deixando-o gênero quase que restrito apenas ao campo da escrita literária — embora algumas experimentações associadas a vídeos ou fotografias sejam bem sucedidas. Toda a regra, felizmente, parece ter sua exceção e Valter Braga conseguiu ao fintar esta faturar em 2005 o troféu do Festival da TV Cultura com a composição “Haicai Baião”, da qual destaquei os versos acima.

A música de Braga que mereceu o primeiro lugar naquela ocasião conquistou a plateia interpretada pelo casal mineiro Renato Motha e Patrícia Lobato, que a incluiu entre as faixas de “Rosas para João”, primeiro álbum de ambos. O disco constava até há pouco tempo do catálogo da gravadora “Sonhos e Sons”, de Belo Horizonte, e também é digno de nota elogiosa. Mais do que registrar a joia de Braga, o trabalho autoral de Motha e Patrícia guarda mais uma grande homenagem ao ilustre João Guimarães Rosa, escritor também nascido nas Alterosas. E é uma mostra do talento da dupla que canta junta também em outros álbuns de rara beleza, entre os quais “Antigas Cantigas”. Em “Dois em Pessoa”, eles abrem o baú de Fernando Pessoa e, inclusive em ritmo de samba, relembram vários dos poemas clássicos do português e de seus heterônimos.

Renato Motha, individualmente, ainda assina outros títulos que valem a pena conhecer. Destaco “Trilha das mãos”, instrumental, e “Amarelo”, ambos de 1999. Quem adquirir “Todo” ou “Caixa de Sonhos” também não amargará arrependimento. Já Patrícia Lobato iniciou voo solo com “Suspirações”.

Veja abaixo a letra completa de “Haicai Baião”, formada por três haicais, e já apresentada noo programa “Sr.Brasil”, de Rolando Boldrin apresenta na TV Cultura. Embora grafada por Braga com “x”, a expressão “baxô” é uma clara referência a Matsuo Bashô, um dos mestres do haicai no Japão e em todo o mundo.

Fecha o tempo no sertão/É chuva vindo/Um rai cai, um clarão (2x)
 
Trovão e tambor
No céu, no roçado zabumbam

7169030GG
Guimarães Rosa, escritor de Codisburgo (MG)
O santo baxô* (2x)
 
Manhã de água e cor
Até do outro lado do mundo
O chão fulorô (2x)
 
 

https://www.youtube.com/watch?v=LI_urK3NWfI&hd=1