1184 – Feliz aniversário, Madrinha Beth Carvalho!

Eu só peço a deus que o futuro não me seja indiferente
Bm            G          D7
Sem ter que fugir desenganado
       C         Bm      Em
Pra viver uma cultura diferente

Nossa homenagem à cantora e mulher que com sua graça e coragem tanto nos encantou e defendeu o samba, a cultura e os manos dos morros, do asfalto, e das quebradas onde só a polícia, literalmente, pisa, o gênero, o país — sempre à frente do seu tempo e jamais em dessintonia com o povão — e que ousou não deixar a alegria perecer nem mesmo quando estava já debilitada. Beth Carvalho não foi uma estrela solitária nesta constelação de tantos outros heróis, populares e anônimos que empunharam o manto das tradições brasileiras e a levantou além dos terreiros, das batucadas e das ribaltas, mas com certeza está e sempre estará entre as mais gloriosas! Viva Beth Carvalho e que entre nós ninguém solte a mão de ninguém, pois segue sendo nossa missão não deixar nem o samba, nem a crença em dias melhores morrerem! 

Beth Carvalho: presente!

Leia mais sobre Beth Carvalho clicando nos linques abaixo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Beth_Carvalho

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/celebridades/antes-de-morrer-beth-carvalho-queria-homenagear-arlindo-cruz-no-fantastico-26523

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/05/05/musicos-de-beth-carvalho-relembram-ultimo-show-e-a-homenageiam-em-73-aniversario.htm?utm_source=chrome&utm_medium=webalert&utm_campaign=musica

https://g1.globo.com/tudo-sobre/beth-carvalho/

Beth Carvalho, ao lado de Cartola> cantora soube como valorizar e respeitar as raízes e para sempre ficará cravada entre as mais gloriosas estrelas de nossa impar constelação musical (Foto: Arquivo Rede Globo)
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1163 – Samba paulistano deve a Geraldo Filme, o “Geraldão da Barra Funda”, o respeito e a força que sepultaram o estigma de “túmulo” do gênero

O carnaval, mais uma vez, trouxe alegria e foi festejado em várias cidades brasileiras, com destaque maior da mídia para os desfiles das escolas de samba das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, ainda consideradas, ambas, as mecas nacionais onde, por excelência, o gênero mais se afirmaria e seria popular, muito embora ocorra com igual força e movimente astronômicas cifras, também, em outros estados do país, entre os quais, sem sombra de dúvidas, Bahia e Pernambuco, onde Salvador e Recife, suas capitais, fervem nos dias de folia dedicados à festa de Momo.

São Paulo, entretanto, nem sempre foi reconhecida e considerada reduto desta manifestação que mescla elementos da cultura popular brasileira com valores de suas vigorosas raízes, a mãe África negra — haja vista que durante muito tempo ficou estigmatizada como suposto “túmulo do samba”, termo que se popularizou e pespegou após a  célebre frase do poeta e compositor Vinícius de Moraes. O devido reparo que corrige esta bobagem e erro histórico e os atiram à vala mais profunda da qual jamais deverá ressuscitar, revelando a grandeza e a riqueza do samba paulistano, ganham corpo com as obras de expoentes como Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Germano Mathias e Osvaldinho da Cuíca, mas além deles, enterrando a “atravessada” infeliz do Poetinha4um outro nome já se levantava como militante, cantor e compositor contra a propalada e suposta hegemonia carioca como única capaz de promover o ziriguidum e fazer reboar, sobretudo fora dos morros, os tamborins: Geraldo Filme.         

Nesta atualização que o Barulho d’água Música mais uma vez traz das páginas da Revista E do Sesc de São Paulo, reproduzindo, agora, matéria publicada em junho de 2015 em sua edição número 228, os amigos e seguidores poderão conhecer um pouco mais sobre Geraldo Filme, cuja biografia e feitos ainda hoje não recebem os devidos louros. Intitulada “Filme, prosa e samba”, a matéria da Revista E apresenta Filme como autêntico e incansável defensor “de uma matriz para o samba da pauliceia e estudioso da cultura negra”, que “fez de seu universo uma cartografia cultural da cidade”.

Linque para a matéria original da Revista E 228, de junho de 2015

Mano da Barra Funda

Geraldo Filme nasceu em 1927 e morreu em 5 de janeiro de 1995, na cidade de São Paulo, em decorrência de complicações de diabetes e pneumonia. Seu nome artístico é uma redução do completo, Geraldo Filme de Souza. Em seu registro de nascimento original, entretanto, consta que teria nascido em 1928, em São João da Boa Vista¹, no interior paulista, embora ele mesmo tenha declarado inúmeras vezes que a primeira data é a correta. Seja como for, cresceu no bairro paulistano da Barra Funda [onde também viveram Mário de Andrade e Inezita Barroso], o que lhe rendeu o apelido de “Geraldão da Barra Funda”. O menino entregava marmitas feitas pela mãe, Augusta, que era dona de pensão.

O pai, seu Sebastião, e a mãe eram filhos da última geração do sistema escravista e gostavam de música. O pai tocava violino e a mãe era uma das organizadoras da romaria nas festas do Bom Jesus de Pirapora [promovidas na cidade de Pirapora do Bom Jesus, na região Oeste da Grande São Paulo, a 54 quilômetros da Capital]. “Nesses eventos se praticavam diversos estilos de samba rural, samba de bumbo, samba de lenço, partido-alto, música caipira e jongo”, contou à Revista E a cantora, antropóloga e doutoranda em Música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)Bruna Prado². “A formação musical do sambista se inicia ainda criança, ao frequentar as festas do Bom Jesus de Pirapora e as rodas de samba informais organizadas por trabalhadores braçais nas ruas do bairro da Barra Funda, onde ele entregava marmitas. Além disso, havia a influência do carnaval de rua, dos blocos carnavalescos e do samba veiculado pelas rádios”, relembrou Bruna.

Além do samba na memória de infância, outra relação a ser considerada é com a cultura caipira, apresentada ao menino pela avó, que o ensinava cantos negros de trabalho escravo. “Geraldo seria um defensor dessa matriz cultural para o samba rural paulista”, observou Bruna.

Dinâmica dos bairros

Junto à Barra Funda, outros bairros paulistanos formaram uma espécie de cartografia cultural necessária para mergulharmos no universo musical de Geraldo Filme – Campos Elíseos, Bixiga e Liberdade –, entre eles. Para o professor de História da África da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Amailton Magno Azevedo, estudioso da memória musical do sambista e sua relação com os grupos negros em São Paulo, a dinâmica dos bairros foi vital para essas agremiações.

“Neles percebi que havia uma rede e um circuito de informações, vivências, produção artística, religiosa e política na qual os negros demarcavam seus interesses e visões de mundo”, disse. “E Geraldo Filme percebeu isso ao se conectar numa rede negra. Essas experiências foram por mim chamadas de ‘microáfricas’, que foram sendo operadas de modo alheio aos projetos hegemônicos de cidade.Segundo Azevedo, as “microáfricas” são experiências de resistência cultural. “O samba, o carnaval e os costumes negros tiveram de produzir estratégias para persistir com seus valores e signos culturais”, reforçou.

Cordão carnavalesco em uma das ruas da Barra Funda, na década dos anos 1940, uma das influências da obra de Geraldo Filme (Crédito: Instituto Moreira Sales)

Universo particular

Gênio para uns, pioneiro para outros, Geraldo Filme constrói uma obra que se consolida com o passar dos anos. É difícil imaginar a configuração do samba paulistano sem suas ações, seu pensamento e valores, que revelam o artista atuante e consciente. Tanto que não é possível delimitar o alcance de suas composições. Era, de fato, uma cabeça pensante do samba na cidade. “Um sambista da melhor qualidade, que pensou a formação genética do samba, estabelecendo uma identidade cultural que ia além do gênero musical”, pontuou o compositor, produtor musical e fundador do Grêmio Recreativo de Resistência Cultural Kolombolo diá Piratininga, Ricardo Dias.

Geraldo Filme questionava um modelo predominante de samba, no caso, o carioca, entre os anos 1920 e 1940. “Por um tempo foi determinado o jeito carioca para o Brasil, como se o malandro do Rio de Janeiro fosse o ideal. Ele foi um cara diferenciado e lutava pela valorização do sambista. Por muito tempo as escolas de samba tiveram um crescimento midiático e o sambista ficava em segundo plano, e ele questionava esse cenário”, observou Dias.

A vontade de se destacar do sambista se mostrou cedo, aos 10 anos de idade, ao dar forma à primeira composição. Em 1937, o pai de Geraldo Filme voltava de uma viagem ao Rio de Janeiro exaltando as qualidades do samba carioca. O menino então, escreveu, inspirado pelo pai, Eu Vou Mostrar (Eu vou mostrar/Que o povo paulista também sabe sambar/Eu sou paulista, gosto de samba/Na Barra Funda, também tem gente bamba/ Somos paulistas e sambamos pra cachorro/Pra ser sambista não precisa ser do morro).

Já é possível notar a força do verbo que prevaleceu nas canções que despontariam durante sua vida. “As composições de Geraldo são carregadas de discurso social, étnico, cultural, político e sociológico”, qualifica-o o sambista, sociólogo e pesquisador do Instituto Cultural Samba Autêntico T. Kaçula. Para ele, o compositor conseguia dizer o que queria mesmo tendo a ditadura e a censura pela frente.

Com os bambas

O talento de Geraldo Filme não se limitava aos contornos do samba. Foi amigo do dramaturgo Plínio Marcos e teve um grande encontro com o poeta e folclorista Solano Trindade, que foi tema do samba-enredo vencedor do carnaval de 1976, pela escola Vai-Vai. Tendo Plínio Marcos como referência, Geraldo Filme conheceu atores, militantes de esquerda e intelectuais.

O escritor e dramaturgo Plínio Marcos foi um dos contemporâneos de Geraldo Filme

De acordo com Bruna Prado, esse movimento permitiu que ele adquirisse capital simbólico e pudesse atuar pela institucionalização das escolas de samba. “Além disso, promoveu a obra dos sambistas de São Paulo nacionalmente, fazendo com que saíssem de seus redutos e entrassem em contato com a televisão e a indústria fonográfica”

Ao promover o samba e discutir questões sociais – articulação complexa na época –, Geraldo Filme enfrentava a repressão. “As escolas de samba eram os quilombos urbanos”, comparou Dias. O sambista ajudou na organização dos cordões e blocos carnavalescos que se tornariam as escolas de samba; também foi presidente da União das Escolas de Samba de São Paulo. “A ligação dele com o Plínio Marcos não era à toa. Era momento de repressão e ele soube se posicionar com maestria. Deve ter sofrido muito, ainda hoje é difícil colocar em prática o seu pensamento”, comentou Dias.

Em trajetória consistente, atuou como compositor, diretor e conselheiro de escolas de samba. A empreitada tem resultado único. O disco que levava seu nome foi lançado nos anos 1980 pela gravadora Eldorado. Dois anos depois, gravou com Tia Doca da Portela e Clementina de Jesus um dos grandes álbuns da música popular, O Canto dos Escravos.

Mais do que sambista, Geraldo Filme é considerado um mediador, criando pontes, “uma comunicação entre os bairros paulistanos e entre São Paulo e o resto do Brasil”, opinou Bruna. Para ela, mesmo que outros sambistas, como Adoniran Barbosa, já tivessem atuado dessa maneira, a importância de Geraldo Filme também está no fato de ser negro e neto de escrava. “Portanto, era representante de um grupo étnico marginalizado que estava atuando politicamente e ganhando voz ao longo do século 20”, completou.

Dedo do gênio

Os pesquisadores Amailton Magno Azevedo, Bruna Prado e Ricardo Dias destacaram fatos e características que marcaram a vida de Geraldo Filme e ecoaram na história do samba:

Amizade com Plínio Marcos: O dramaturgo apresenta Geraldo como legítimo poeta do povo brasileiro no encarte de seu único disco solo, lançado em 1980. Antes, em 1974, Plínio Marcos deixou clara a sua admiração pelo sambista e pelo gênero, ao gravar Nas Quebradas do Mundaréu, reunindo Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro e Zeca da Casa Verde, que tiveram as canções intermeadas pela voz do dramaturgo. O disco raro foi reeditado em CD pela gravadora Warner em 2012.

Sem essa de túmulo do samba: Geraldo Filme demoliu o clichê de ser São Paulo o túmulo do samba. Com ele, a cidade é libertada do silêncio inventado no túmulo. Instituiu um lugar ímpar para o samba, com memórias rurais e religiosas dos tambores de Pirapora do Bom Jesus. Driblou a narrativa que insiste em silenciar as memórias sonoras paulistas e valorizar apenas os ruídos de fábricas, automóveis e outros sons urbanos. Na memória dos sambistas, “Seu Geraldo”, ou “Geraldão da Barra Funda” [outros apelidos que teve são Tio Gê”, dado pelas crianças, “Corvão” e na infância de”Negrinho das Marmitas”] é sempre lembrado como o músico responsável pela instituição do samba paulistano.

Respeito é para quem tem: Última faixa de seu único disco solo, a canção Reencarnação fala da importância de o negro se assumir como indivíduo e como cultura, abordando os ancestrais, o sagrado e profano. Reencarnação está para o samba de São Paulo como Negro Drama, dos Racionais Mc’s, está para o rap e o hip-hop. O rap brasileiro deu sequência social e política iniciada pelo samba daquele período. O papel do grito do oprimido não é só música, mas cultura.

Foto gerada a partir de imagem captada por Rodrigo Gutiérrez em 2016 para o programa da Rede Globo Antena Paulista, que traz informações sobre o samba de bumbo, uma manifestação  típica de Pirapora do Bom Jesus, considerada o berço do samba paulista e lugar que ajudou a moldar tanto o talento, quanto a devoção de Geraldo Filme ao gênero mais popular do Brasil

Ainda na memória

O Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc da cidade de São Paulo reuniu músicos e pesquisadores em ciclo de palestras para analisar o legado de Geraldo Filme motivado pelos 20 anos de ausência do cantor e compositor, no mês de maio de 2015. Promoveram um ciclo em homenagem ao compositor paulistano – Sambista Imortal da Pauliceia: 20 anos sem Geraldo Filme. Durante as palestras, a importância do compositor foi debatida em três mesas compostas por sambistas e pesquisadores da área: Kelly Adriano Oliveira, Fernando Penteado, T. Kaçula, Simone Tobias, Bruna Prado, Renato Dias e Amailton Magno Azevedo.

“Na primeira mesa foi abordada a herança africana de Geraldo Filme, no segundo dia foram trazidos à tona os aspectos rurais que permeiam a obra do compositor de Batuque de Pirapora, e o ciclo terminou debatendo o seu legado para o samba urbano paulista”, explicou Flávia Prando, pesquisadora do CPF responsável pela programação do ciclo em homenagem ao sambista. “É uma obra que possui caráter de crônica cotidiana calcada na crítica social, que denuncia os males do progresso e as discriminações étnico-raciais vividas pelas classes sociais menos privilegiadas, mas que não abre mão, em momento algum, da profundidade estética.

Anjo discriminado 

Tanto na infância,  quanto na vida adulta, Geraldo Filme participou da festa de Bom Jesus de Pirapora onde havia grande participação da população negra. Discriminados, durante essa festa os negros ficavam alojados em barracões fora da área urbana. Ali, após a parte religiosa do evento, eles se divertiam com samba de bumbo e outras danças então comuns à população negra do Sudeste. Certa vez, quando Geraldo Filme era menino, sua mãe, pagando uma promessa, o vestiu de anjo. No entanto, o organizador da festa o proibiu de andar na procissão com outras crianças vestidas de anjo, por ser negro. Revoltada sua mãe jogou fora as asas e o levou ao barracão onde os negros faziam suas festas, onde não eram discriminados. Essa ocorrência o teria marcado ao ponto de, na vida adulta, inspirá-lo a compor o samba Batuque de Pirapora.

Geraldo Filme foi testemunha participante das antigas manifestações culturais populares de São Paulo, sobretudo das, então reprimidas manifestações culturais da população negra. Em uma edição do programa Ensaio, falando sobre sua juventude ele relatou as rodas de tiriricas, cujos instrumentos improvisados eram as palmas das mãos, as latas de lixos e as caixas de engraxar sapato. Ele relatou os bailes que os negros promoviam nos porões, para driblar as repressões policiais, as Festas de Bom Jesus de Pirapora, os tamborins artesanais (não havia em São Paulo nenhuma loja especializada nesse tipo de instrumento) em formato quadrado cuja armação era de madeira e o coro feito com pele de gato e que era esticado numa fogueira improvisada com papel de jornal. Relatou uma época em que o carnaval acontecia nas ruas sem intervenção do Estado [da Globo e das marcas de cerveja] e era sustentado pelo gosto da própria população que, informalmente, organizava-se. Nos bairros, por exemplo, enquanto os negros cuidavam da parte musical, italianos se encarregavam de preparar as comidas.

Geraldo Filme tem o nome ligado à história do carnaval paulista. Respeitado e querido por todas as escolas, marcou presença na Unidos do Peruche, para quem compôs sambas-enredo, mas é lembrado principalmente por sua ligação com a Vai-Vai. O samba Vai no Bexiga pra Ver tornou-se um hino da escola, e Silêncio no Bexiga homenageia um célebre diretor de bateria da Vai-Vai, exímio capoeirista das antigas rodas de tiririca e chefe de torcida organizada do Corinthians — Pato Nágua, assassinado na cidade paulista de Suzano, pelo Esquadrão da Morte. Com o samba-enredo Solano Trindade, Moleque de Recife levou a escola ao título de campeã, em 1976.

Um grande conhecedor da história de São Paulo, Geraldo Filme pesquisou e compôs o samba Tebas, que conta a história da origem desse termo que significava “o bom” ou “o melhor” e era muito usado pelos paulistanos no século passado. A origem desse termo é atribuída a um escravo que conseguiu sua carta de alforria por ser um grande conhecedor de alvenaria e hidráulica, sendo o responsável pela construção das torres da Catedral da Sé e da canalização dos esgotos da região central da cidade. Foi dele o primeiro casamento na Catedral após a construção das torres. Ele construiu também um chafariz no centro da cidade. Ambas autorias não são lembradas pelas autoridades.

Nos últimos anos de vida, Geraldo trabalhou na organização do carnaval na cidade de São Paulo, tornando-se uma referência da cultura negra paulistana. Um aspecto pouco estudado de sua obra é a releitura do samba rural paulista (Batuque de Pirapora, Tradições e Festas de Pirapora), que trazem elementos dos jongos, vissungos e batuques ensinados por sua avó. Deixou poucas gravações, e boa parte de sua obra continua desconhecida. O álbum em formato LP Geraldo Filme, gravado em 1980, demorou 23 anos para ser lançado em formato digital (Eldorado, 2003).

Uma importante gravação de cunho documental e histórico, O Canto dos Escravos, com Clementina de Jesus e Doca da Portela (Eldorado, 1982), também já pode ser encontrada em CD. A gravação do programa Ensaio, realizada em 1982, é outro documento valioso sobre Geraldo Filme (SESC/ TV Cultura).

Suas composições podem ser ouvidas em gravações de Beth Carvalho (Beth Carvalho Canta o Samba de São Paulo), Osvaldinho da Cuíca (História do Samba Paulista), grupo A Barca, entre outros. Existe em vídeo um documentário sobre sua obra, realizado por Carlos Cortez, uma coprodução da TV Cultura, CPC-Umes e Birô da Criação. Ouça também o álbum de Plínio Marcos – Nas quebradas do Mundaréu – que mistura a prosa, contada por Plínio Marcos, e o samba, cantado por Geraldo Filme. ³

Conteúdo de qualidade

O Barulho d’água Música recebeu autorização para reproduzir na íntegra   matérias de conteúdo relacionados à música publicadas pela Revista E, que circula em versões impressa e digital. A revista é mantida pelo Sesc da cidade de São Paulo para divulgação da agenda cultural e de eventos de recreação e de lazer programados a cada mês nas unidades que a entidade mantém tanto na Capital, quanto em diversos municípios do estado de São Paulo. As matérias das variadas sessões trazem pautas relativas a temas do universo das artes e de suas personagens, agentes e autores — do cinema ao grafite, da literatura ao teatro –,  uma sessão de poesias, crônicas e muito mais para uma agradável e enriquecedora leitura.  

Confira todas as edições mais recentes da Revista E e números anteriores  em sescsp.org.br/revistae

 


Silêncio no Bixiga

Dois resultados inéditos marcaram os desfiles do carnaval da cidade de São Paulo em 2019 e pode-se dizer que o mais inesperado vitimou a Vai-Vai, a recordista de títulos da folia paulistana.

Com 15 taças, a tradicional agremiação sediada no Bixiga,  preferida de Geraldo Filme e popularizada como “a escola do povo”, pela primeira vez em 89 anos caiu para p Grupo de Acesso — a segunda divisão do samba na Capital. A passagem pelo sambódromo do Anhembi apresentando o samba-enredo Vai-Vai: o quilombo do futuro, no qual abordou a luta dos movimentos e de negros na sociedade — e ainda homenageou a vereadora carioca Marielle Franco (Psol), assassinada há um ano na cidade do Rio de Janeiro – rendeu apenas 268,8 pontos na avaliação dos jurados. O resultado deixou a Vai-Vai em último lugar e a escola caiu ao lado da Acadêmicos do Tucuruvi, que faturou 269,2.

Desfile da Escola de Samba Mancha Verde, campeã do carnaval da cidade de São Paulo (Foto: Marcelo Messina)

A derrocada e tristeza da Vai-Vai contrastou com a alegria da Mancha Verde — escola associada à torcida uniformizada do clube de futebol do Palmeiras, que despontou na avenida em 2013, e tem sede na Barra Funda, ironicamente, berço do homenageado desta atualização. Com 270 pontos, a Mancha Verde conquistou o primeiro lugar, apenas um décimo à frente da vice-campeã. Dragões da Real, também representante de torcida organizada, mas do time de futebol do São Paulo. O tema da Mancha Verde foi Oxalá, Salve a Princesa! A Saga de uma Guerreira Negra

 


¹ São João da Boa Vista foi o local onde Geraldo Filme foi registrado e batizado, por ser a terra natal de seus pais e familiares de ambos os lados. Na época era bastante comum, pelo menos entre as famílias negras, batizar e registrar os filhos na terra de origem da família como se a criança também fosse nativa daquela terra. Segundo ele a festa de seu batizado durou mais de um dia. O pai tocava violino, mas foi com a avó que conheceu os cantos de escravos que influenciaram sua formação musical.

² A doutoranda em Música Bruna  Queiroz Prado é autora da tese de Doutorado “A passagem de Geraldo Filme pelo ‘samba paulista’: narrativas de palavras e músicas”, que pode ser acessada e lida pelo linque www.repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/279809/…/Prado_BrunaQueiroz_M.pd

³ O jornalista Mauro Ferreira destaca em matéria no blogue Pop&Arte  que Geraldo Filme foi “artista de forte consciência social” e compositor que deixou a assinatura firme em sambas como A morte de Chico Preto (1975)Batuque de Pirapora(1989)Garoto de pobre (1980),São Paulo menino grande (1968),Silêncio no Bixiga (1972) e Vai cuidar de sua vida (1980), entre outros.

4 Em seu livro 101 Canções que Tocam o Brasil  (Estação Brasil), à página 81, o jornalista e compositor Nelson Motta relata:  “Ficou célebre o palpite infeliz de Vinicius de que ‘São Paulo é o túmulo do samba’. Mas depois se esclareceu que foi apenas um desabafo do poeta, irritado com um bando de bebuns barulhentos que não o deixavam ouvir o samba que Johnny Alf tocava numa boate paulistana. Johnny havia se mudado do Rio para São Paulo, e a frase foi dita por Vinicius para consolá-lo, provocando o bairrismo paulista.”

5   Dona Augusta Geralda tinha uma pensão nos Campos Elísios e ficou conhecida como “negra da pensão”. Ela fazia marmitas que o menino Geraldo entregava em toda a região, ficando conhecido como “Negrinho da Marmita”. Antes de ser dona de pensão, a mãe de Geraldo Filme foi empregada doméstica de uma abastada família paulistana. Nessa época ela teve a oportunidade acompanhar essa família em uma viagem a Londres. Depois de observar os movimentos sindicais em Londres ela teve a ideia de fundar o sindicato das empregadas domesticas, classe trabalhista que em São Paulo era formada praticamente apenas por mulheres negras. Esse sindicato foi o embrião do grêmio recreativo que deu origem ao cordão carnavalesco que futuramente iria se transformar na Escola de Samba Paulistano da Glória

 

 

1156 – Quando além de entreter, a música é bandeira de resistência e de resgate

Barulho d’água Música reproduzirá na íntegra nesta atualização mais uma  matéria de conteúdo relacionados à música publicadas pela Revista E (em versões impressa e digital). A revista é mantida pelo SESC para divulgação da agenda cultural e de eventos de recreação e de lazer programados a cada mês nas unidades que a entidade mantém tanto na Capital, quanto em diversas cidades do estado de São Paulo. As matérias das variadas sessões trazem pautas relativas a temas do universo das artes e de suas personagens, agentes e autores — do cinema ao grafite, da literatura ao teatro –,  uma sessão de poesias, crônicas e muito mais para uma agradável e enriquecedora leitura.  

Nesta  atualização a escolhida pela nossa redação foi Refúgios Sonoros postada em 21/12/2018 para a edição de janeiro da Revista E.  Confira toda a edição de janeiro da Revista E, números anteriores e  a de fevereiro em sescsp.org.br/revistae

Refúgios Sonoros (1)

Uma canção pode contar histórias de guerra e de paz ou acalentar saudades de quem está a milhares de quilômetros de casa. Ela também é capaz de reunir pessoas de diferentes idiomas e credos. Foi a música que deu um novo sentido ao cotidiano de imigrantes que se refugiaram no Brasil para se salvar de conflitos armados em seus países de origem. A exemplo da cantora palestina Oula Al-Saghir, do cantor congolês Leonardo Matumona e dos angolanos Amarilis Américo, Isabella D’Leon, Jacob Cachinga, Mila Cussama, Manuela Reis, Prudêncio Santiago, Rui Kelson e Wilson Madeira, que formam o coral Vozes de Angola.

Nascida na Síria, Oula Al-Saghir teve sua casa destruída pela guerra e chegou ao Brasil em 2015, acompanhada pelo marido, dois filhos e uma mala de canções árabes e poesias de resistência palestina. “Fico muito feliz quando represento minha cultura. Não precisa entender as palavras, mas sentir a melodia.

“A música é minha língua no Brasil”, prosseguiu  a cantora, que faz parte da Orquestra Mundana Refugi. Idealizada pelo multi-instrumentista Carlinhos Antunes e pela assistente social Cléo Miranda, a orquestra nasceu do projeto Refugi no Sesc Consolação, que oferecia oficinas musicais gratuitas para imigrantes e pessoas em situação de refúgio, somada à vontade de Antunes de dar seguimento a uma ação com foco nos novos imigrantes de São Paulo. No álbum de estreia, gravado em 2017 e lançado ano passado pelo Selo Sesc, a voz de Oula se une a outras vozes e instrumentistas do Congo, Guiné, Irã, França, Tunísia, Cuba, Haiti e China.

Grupo Vozes de Angola

Participei da primeira reunião quando a orquestra ainda era um projeto e sou muito feliz por fazer parte”, recordou Oula, que cresceu num meio musical, encorajada pelo pai, que tocava alaúde. “Sempre que estou no palco, esqueço meus problemas. Canto para meu pai, meu país e para mim.”

Vozes do além-mar

O cantor congolês Leonardo Matumona também investiu na música como forma de se comunicar e dar início a uma nova vida no Brasil, onde chegou em 2013 e fundou Os Escolhidos, junto a três jovens da República Democrática do Congo, que vivem em situação de refúgio no Brasil. “Quando cheguei, tinha esta vontade de fazer um grupo que representasse o que eu fazia lá. Trabalhar com música é minha paixão, e os brasileiros são curiosos para ouvir e assistir. Dessa forma, isso me faz ter um contato direto com eles”, declarou

Da mesma forma, os oito integrantes do coral Vozes de Angola, que se apresentou na 2ª Mostra Refúgios Culturais, em dezembro passado no Sesc Vila Mariana, creditam à expressão musical uma outra forma de linguagem e resistência. Chegaram ao país há 17 anos, ainda crianças, depois de terem sofrido com a guerra civil na terra natal, de onde saíram deficientes visuais. As canções que sabiam os nutriram para enfrentar preconceitos e saudades dos familiares.

“Nossa música transmite paz, amor e alegria: acho que é disso que o mundo está precisando, destacou Amarilis Américo. E, para isso, Mila Cussama acredita que é desnecessário dominar outros idiomas. “A música para nós é a linguagem da alma, porque podemos nos comunicar com pessoas de diferentes línguas”, constata. Conhecido em diversas cidades do país, o grupo segue apostando na carreira que semeou por aqui.

Superadas as dificuldades dos primeiros anos, todos os oito conseguiram estudar e fazer uma faculdade. “É muito gratificante ver as pessoas dizerem que somos inspiração. Por isso, a gente não pode desistir das coisas. Senão, não estaríamos aqui divulgando nossa cultura afro”, conclui Isabella D’Leon.


Refugiados no mundo e no Brasil*

Em meio às notícias quase diárias da entrada no Brasil de venezuelanos que fogem das precárias condições de vida no país vizinho – e às vésperas da divulgação no programa Fantástico, da Globo, que foi descoberta uma nova rota de entrada pelo país de cubanos que buscam chegar ao Uruguai – e da maciça caravana de hondurenhos e guatemaltecos, entre outros povos centro-americanos  que tentam entrar no xenófobo Estados Unidos da era Donald Trump, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) divulgou em 19 de junho, véspera do Dia Mundial do Refugiado, que pedidos de estrangeiros à procura de proteção no Brasil aumentou de 35.464 em 2016 para 85.746 em 2017, representando um incremento de 118%. Os dados constam do relatório Tendências Globais – Deslocamentos forçados 2017, elaborado pelo Acnur. Segundo este órgão, os números brasileiros acompanham um movimento global: em todo o mundo, o número de refugiados e deslocados internos chegou a 68,5 milhões em 2017, nível recorde pelo quinto ano consecutivo.

De posse deste levantamento, o Acnur atualizou os números relativos ao Brasil até aquela data: 10.264 refugiados reconhecidos e quase 86 mil solicitantes, contingente que somado ao de estrangeiros que receberam outro tipo de proteção – como a permissão temporária de residência, por exemplo, somavam quase 150 mil pessoas. E  os venezuelanos, com 17.900 pedidos, ocupavam o primeiro lugar na lista de nacionalidades que pediram refúgio em terras brasileiras. Em seguida estão cubanos (2373), haitianos (2362) e angolanos (2036).

O número de refugiados pelo mundo tem aumentado ao longo dos anos. Segundo o Acnur, em 1950, 2 milhões de pessoas se deslocaram pelo mundo. Já em 2015 foram 53 milhões. Atualmente, de acordo com o mesmo organismo, 65,6 milhões de pessoas são consideradas refugiadas, o que possui um impacto em todo planeta.

Quem são os refugiados?

Refugiado é aquele que deixa seu país de origem e teme voltar ali por causa de suas opiniões políticas, religiosas ou por pertencer a um grupo social perseguido. Neste sentido, o refugiado é diferente do imigrante que, geralmente, abandona seu país natal por motivos econômicos ou desastres naturais. Por isso, dizemos que todo refugiado é um imigrante, mas nem todo imigrante é refugiado.

Em 1951, uma convenção das Nações Unidas sobre o tema determinou que os refugiados não poderiam ser devolvidos ao seu lugar de origem. Então, para garantir este direito, os Estados que recebessem refugiados deveriam assegurar a possibilidade do refugiado solicitar o direito de asilo. Por isso, deve providenciar condições de comida, assistência médica e escola para as crianças. No entanto, esta mesma convenção não determinou nenhuma sanção caso o país de acolhida não cumprisse estas normas. A realidade é bem diferente: os refugiados muitas vezes são confinados em centros de detenção que se assemelham às prisões. Alguns têm a sorte de serem atendidos por Organizações não-governamentais (ONG) ou ordens religiosas que tentam integrá-los ao novo país.

Origem dos refugiados

Os refugiados vêm, sobretudo, de regiões que estão em guerra ou em situação de pobreza extrema. Contudo podem pertencer a um grupo populacional que seja perseguido especificamente como é o caso dos curdos. Já a Guerra da Síria é a responsável pelo maior deslocamento de contingente populacional, atualmente, e nações da África subsaariana também inspiram cuidados, especialmente o Sudão do Sul. Considerada a mais nova nação do mundo, o país enfrenta uma guerra civil que deixa milhares de pessoas sem lar.

Destino dos refugiados

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a maior parte dos refugiados realiza deslocamentos dentro do seu próprio país ou para nações vizinhas. Apesar dos países desenvolvidos serem o grande chamariz para quem deseja mudar de vida, a maioria acaba permanecendo em países próximos ao seu continente.

Deste modo, segundo o Acnur, os países que mais acolhem refugiados são:

Turquia 3,5 milhões
Uganda 1,4 milhões
Líbia 1 milhão
Irã 979 000

 

Refugiados na Europa

A União Europeia vem se mostrando cada vez menos generosa na hora de acolher os refugiados. Em 2017 foram concedidos 538 000 solicitações de asilo, 25% menos se comparado ao ano de 2016. Os países que mais acolhem são Alemanha, França, Suécia e Itália. No entanto, devido a mudanças no governo italiano, o país tem rejeitado um número cada vez maior de solicitações de asilo.

O bloco europeu propôs que os países dividissem os refugiados entre si, de acordo com a população e a capacidade de cada um. Contudo, a sugestão foi duramente criticada pela Polônia e República Checa, que simplesmente não aceitam mais de 15 refugiados por milhão de habitantes.

Refugiados no Brasil

O Brasil é um país tradicionalmente aberto aos refugiados e projeta uma imagem de país tolerante no mundo. Por isso, tem se tornado um destino de acolhida para vários refugiados que se veem obrigados a deixar seu país. Apesar disso, esses novos habitantes só representam 0,05% da população.

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicados em 2017, os maiores contingentes de solicitantes de asilo no Brasil são:

Sírios ( O Brasil já acolheu cerca de 2.500 sírios desde o começo da guerra naquele país em 2010) 22,7%
Angolanos 14%
Colombianos 10,9%
Congoleses 10,4%
Libaneses 5,1%

 

Venezuelanos no Brasil

crise econômica e social na Venezuela fez a população daquele país buscar a vida nos países vizinhos. Dados da Organização Internacional para Migrações (OIM) – Agência das Nações Unidas para Migrações – revelam que o Brasil recebeu cerca de 30 mil venezuelanos nos anos de 2015 a 2018. Grande parte dos venezuelanos, porém, não é considerada como de refugiados, mas de imigrante. Aproximadamente 8.231 venezuelanos pediram asilo no ano de 2017, conforme o Ministério da Justiça. Como o Brasil atravessa sua própria crise política e econômica, teme-se que a xenofobia cresça no país.

1) Texto originalmente publicado na Revista E do Sesc São Paulo, edição de janeiro/2019

2) *Com Lu Sudré, do portal Brasil de Fato, São Paulo (SP)  e Juliana Bezerra, professora de História, do portal Toda Matéria

Leia também no Barulho d’água Música:

864 – Abraço Cultural abriga em São Paulo 2º Sarau pró refugiados com filmes, música e dança
1061 – Orquestra de refugiados é atração especial do MCB (SP) para Dia das Mães

 

 

1138 – Revolver, segundo álbum de Walter Franco, é tema de mais um “Clássico do Mês”

Segundo disco da carreira do paulistano já passou pela casa dos 40 anos de história e ainda hoje ninguém que o ouve pela primeira vez fica indiferente aos arranjos e às letras que consagraram as 14 faixas, todas autorais

O Barulho d’água Música, passado mais um Natal, está chegando a edição 12 da série Clássico do Mês, que pinça um álbum que bombou na história da música brasileira e ficou na memória de muitas gerações. Haja paciência e método para  destacar os títulos que merecem estar neste espaço, pois qualidade é o que não falta neste nicho, o que nem sempre torna a decisão fácil. O escolhido para a atualização deste mês de dezembro é Revolver, verbo revolver, segundo disco do paulistano Walter Franco, lançado em 1976 e que causou tanto buxixo e estranhamento que até hoje há quem reaja perplexo ao ouvi-lo — como minha parceira Andreia Beillo, que é descolada e cabeça aberta, mas entre outros adjetivos para as faixas que rolavam enquanto redigia este texto tascou “confuso”, “desarmônico”, “perturbador”, “não dá para ouvir a seco, só com um estímulo psicodélico…” Disse para ela: “Mandei bem, então!  42 anos depois, o Walter Franco deverá ficar contente de saber que Revolver ainda provoca as mesmas reações da época do lançamento e ninguém fica indiferente ao ouvi-lo”.

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1137 – Marcelo Quintanilha (SP) lança Caju, álbum em homenagem a Cazuza

Cantor e compositor paulistano faz releitura em 12 faixas da obra do consagrado carioca que marcou a MPB com composições de amor e protesto e se tornou referência após sua precoce morte de de luta contra a AIDS

“O sabor mais acentuado de Caju reside nos arranjos de Quintanilha e do maestro Rodrigo Petreca, para tentar renovar um cancioneiro já formatado pelas gravações originais” Mauro Ferreira (G1/Globo)

“Uma homenagem à irreverência e atualidade das canções de Cazuza” — Revista Continente (Recife/PE)

“Quintanilha se distanciou das versões originais, criando novas possibilidades” — Revista Sucesso!

A tradicional audição dos sábados pela manhã aqui no cafofo/redação do Barulho d’água Música hoje, 22/12, relembrou um dos mais aclamados cantores das últimas gerações, o carioca Cazuza, pela voz do cantor e compositor paulistano Marcelo Quintanilha. O disco que rolou na vitrolinha, Caju, foi recentemente gravado e chegou até nós como mais uma colaboração dos amigos Beto Previero e Moisés Santana, da Tambores Comunicações, aos quais mais uma vez somos gratos. “Atual” é o adjetivo que Quintanilha utilizou para definir o trabalho de Cazuza (1958/1990), que partiu bem antes do combinado e em 2018  completaria  60 anos. Caju era o jeito que o poeta era chamado pelos amigos mais chegados.

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1130 – Ednardo (CE) rememora “Romance do Pavão Mysterioso” em duas rodadas, no Sesc Belenzinho (SP)*

Cantor e compositor que já conta com 45 anos de trajetória volta à São Paulo para apresentar com sua banda repertório do seu mais famoso disco, cuja faixa-título é inspirada em um clássico folhetim da literatura de cordel
* Com Eliene Verbena, Verbena Comunicações

A unidade Belenzinho do Sesc da cidade de São Paulo reservou o palco de seu teatro para as apresentações de Ednardo, um dos mais aclamados cantores e compositores do país. Natural de Fortaleza (CE), Ednardo e a banda de sete músicos que o acompanham – entre os quais o violeiro Manassés de Sousa, que participou da gravação do disco e assina trabalhos importantes da música brasileira desde a década dos anos 1970 — serão atração nos dias 1º e 2 de dezembro para relembrarem, na íntegra, as músicas do primeiro e mais famoso disco dele, Romance do Pavão Mysteriozo (veja detalhes na guia Serviços). Os shows integram o projeto Álbum da unidade, pelo qual o Sesc visa a remontar a memória da música brasileira por meio de registros fonográficos.

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1121- Samba-enredo da Mangueira vai homenagear Marielle Franco, vereadora carioca morta por defender minorias

Ativista corajosa e defensora de pobres e de negros, executada no auge da vida , ela é uma das personalidades citadas na composição que tira a poeira dos porões e revela o Brasil que não está mencionado nos livros de história*

*Com Agência Brasil (EBC)

A Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira cantará na Marques de Sapucaí durante o desfile do Carnaval 2019 da cidade do Rio de Janeiro (RJ) o samba-enredo História para ninar gente grande, que entre outras personagens homenageará a ex-vereadora do PSOL Marielle Franco. A “Verde-e-Rosa” iniciará sua passagem na passarela por volta das 2h40 da segunda-feira, 4 de março, e terá até 3h15 para apresentar o enredo que deverá levantar as arquibancadas e ainda cita os cantores Leci Brandão e Jamelão. A composição de Deivid Domênico, em parceria com Tomaz Miranda, Mama, Márcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, foi escrita para tirar as poeiras dos porões, reverenciar quem foi de aço nos anos de chumbo, resgatar a história que a história não conta de mulheres, tamoios e mulatos e de um país que não está no retrato. Ou seja: a ideia é revelar  o ‘lado B’ de Pindorama desde 1.500, com versões mais críticas a feitos atribuídos a Pedro Álvares Cabral, Princesa Isabel, Dom Pedro I e Marechal Deodoro, entre outros “heróis” do almanaque tupiniquim.

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1116 – Cátia França, Consuelo de Paula e Déa Trancoso cantam em “Mamelucas”, no Sesc Pompeia

Show é uma das atrações da I Mostra Elas em Cena, que terá encontros inéditos entre compositoras com o objetivo de proporcionar contato e  troca entre sonoridades e processos criativos de diferentes universos musicais

As cantoras e compositoras Cátia de França (PB), Consuelo de Paula (MG) e Déa Trancoso (MG) protagonizarão uma apresentação inédita no Espaço Cênico do Sesc Pompeia no próximo sábado, 13, como atração da I Mostra Elas em Cena. Em Mamelucas, nome dado ao show, as três revelarão sinergias, organicidades e cumplicidades, envoltas em muitas texturas cheias de profundos diálogos e espiritualidades, convidando o público a abraçar as composições poéticas, os sentires e os saberes da gênese cultural brasileira. O Sesc, que costuma ser britanicamente pessoal, marcou o início da cantoria para 21h30 e está limitando a venda de ingresso, já iniciada tanto pela internet, quanto na bilheteria da casa, a dois por pessoa (veja guia Serviços)

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1113 – Adeus a Luhli, compositora que ao lado de Lucina está na história da cultura brasileira por romper padrões

“Sendo a soma de tudo me aceito humana e divina e numa espécie de mágica a música nunca termina” Luhli

 

Ainda mal digerindo a perda neste mundo terreno do “capitão” Antonio Roberto Espinosa, que ocorreu na terça-feira, 25/9, em Osasco — emblemática cidade da Grande São Paulo onde eu o conheci, pelas mãos dele ingressei no Jornalismo e me tornei o profissional que conforme dizem hoje eu seria –, recebi na noite de quarta-feira, 26, e novamente pela voz de minha companheira Andreia Regina Beillo, a notícia de que cantoras e amigas queridas como Consuelo de Paula e Socorro Lira estavam lamentando a morte de Luhli. Um pouco perturbado pela morte do Espina, puxei pela memória, mas não consegui, no ato da conversa com Andreia, recordar quem fora Luhli; momentos depois, entretanto, outro golpe: constatei que perdíamos nada mais, nada menos, que uma das mais inovadoras, revolucionárias e férteis cantoras e compositoras de todos os tempos da música brasileira, que em minha juventude amei tanto quanto os Beatles, os Rolling Stones, o Pink Floyd, o Iron Maiden, a moçada da Vanguarda Paulista, o 14 Bis, o Chico, o Fagner, o Milton, o Belchior, o Ednardo, a Elis, a Rita Lee, a Lucia Turnbull, a Dulce Quental, o Tarancón, as duplas Tião Carreiro e Pardinho e Tonico e Tinoco; artista que cantando em dupla com Lucina, àquela época ainda Luli, embalou meus anos de utopia durante os quais sonhávamos com o país que o Espinosa defendeu quase que com a vida (aos 20 e poucos anos!) e nos impelia a construir (“ousar sonhar, ousar lutar!”).

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1112 – Bernardo Pellegrini (PR) lança em São Paulo “Outros Planos”, com Alzira E e Edvaldo Santana*

O álbum revela o manancial criativo do cantor e compositor e um cancionista maduro e intenso, que redefine afro-brasilidades, jazz e ritmos latinos, consolidando sua assinatura musical e sua estética autoral

O cantor e compositor Bernardo Pellegrini (PR) será atração nesta sexta-feira, 28, da unidade paulistana Belenzinho do Sesc, onde ocupará o palco a partir das 21 horas para lançamento de Outros Planos, sexto álbum da carreira. Com seu violão, Pellegrini cantará acompanhado pelo Bando do Cão Sem Dono, formado por Edu Batistella (bateria e vocal), Hermano Pellegrini (guitarra e vocal), Filipe Barthem (contrabaixo e trompete), Sofia Pellegrini (sax e vocal) e Emilio Mizão (guitarra e violão). Como convidados para abrilhantar a apresentação, ele receberá Alzira E. e Edvaldo Santana (ver a guia Serviços).

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