1311 – TV Aparecida programa festival com temática caipira para marcar mês das festas juninas

#Música Caipira #MúsicaDeQualidade #CulturaPopular #FestasJuninas

#Tolerância #Respeito #Diversidade #Pluralidade #Liberdade #Democracia

#ImprensaLivre #Jornalistas Antifascistas

#FiqueEmCasa #MáscaraSalva

#ForaBolsonaro

Uma homenagem às Irmãs Galvão pelos 70 anos de carreira e o documentário Viola Perpétua, ambos inéditos na telinha, fazem parte da programação da emissora católica que será fechada com  registro da visita de Gilberto Gil a arraiais do Nordeste e do Sudeste

A TV Aparecida encontrou uma maneira de promover a cultura caipira neste mês reservado às festas que celebram os santos Antônio (13), João (24) e Pedro (29), quando boa parte das nossas tradições ligadas ao gênero e a fé católica são revividas, mas que neste ano serão prejudicadas por conta da pandemia do coronavírus (Covid-19). Como a quarentena nos obriga a ficar em casa, longe das fogueiras e das quadrilhas, a emissora preparou uma seleção de filmes e documentários para o Festival Caipira que já está rolando desde o dia 3 e terá atrações até dia 28.

Elementos vinculados à música caipira, ao sertanejo, à arte e à lida do campo e suas mais diversas histórias estarão na tela, oferecendo entre os títulos trilhas inéditas. O elenco das produções apresenta atores e artistas consagrados como As Irmãs Galvão – que ganharam tributo pelos 70 anos de carreira, enquanto Viola Perpétua oferecerá um passeio pelo universo caipira e as sonoridades do instrumento. O pacote será completado por Viva São João, estrelado por Gilberto Gil.

Continue Lendo “1311 – TV Aparecida programa festival com temática caipira para marcar mês das festas juninas”

1308 – A identidade lusófona nas dez cordas da viola, por Ivan Vilela (MG)

Em 30 de maio, o compositor, pesquisador e professor de viola caipira Ivan Vilela (Itajubá/MG) concedeu entrevista a José Carlos da Silva, correspondente brasileiro residente em Campinas (SP) do Portal Galego da Língua (PGL), sítio eletrônico que visa a informar acerca da atualidade da língua na Galiza cujo conteúdo abaixo reproduzimos, na íntegra, e formato de perguntas e respostas (ping-pong).

Um dos maiores incentivadores deste Barulho d’água Música, Ivan Vilela é professor na Faculdade de Música e no Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) na área de musicologia e etnomusicologia, onde também leciona na graduação viola brasileira, história da Música Popular Brasileira, Percepção Musical, Rítmica, Música de Câmera e Produção Radiofônica. Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo, mestre e graduado em Composição Musical pela Universidade de Campinas (Unicamp), suas produções e pesquisas acadêmicas estão voltadas ao estudo das culturas populares e da música popular brasileira e portuguesa. Atua como compositor, arranjador e instrumentista e mantém intensa atividade artística musical e didática no Brasil e no exterior. Atualmente é pesquisador principal do Projeto AtlaS (Atlântico Sensível) e estuda os trânsitos e as relações sociais de instrumentos portugueses, notadamente a viola e o cavaquinho, pelo Atlântico lusófono, projeto acolhido no Instituto de Etnomusicologiada Universidade de Aveiro (Inet-md) no triênio 2018-2021.


Viola caipira, viola sertaneja, viola de dez cordas, viola cabocla, viola de arame, viola de folia, viola nordestina, viola de repente, viola brasileira. Não se assuste leitor, comecei listando tantos nomes, para mostrar o quanto a viola caipira (de 10 cordas) é popular no Brasil, sendo um dos porta-vozes do interior do Brasil.

Mesmo com tanta identidade por todo o Brasil, a origem da viola é lusitana, navegou com os portugueses por todo o Globo, quando o “mar com fim era grego ou romano e, o mar sem fim era português”. “No século XVI (16) vários tipos de viola de mão coexistiam na Península Ibérica”.

O Espaço Brasil entrevistou Ivan Vilela, um dos mais renomados instrumentistas brasileiros, com uma sólida carreira de 18 discos gravados e ainda, Professor Doutor e criador do primeiro curso de viola brasileira em âmbito universitário no mundo, na Universidade de São Paulo (USP) e que agora está na Universidade de Aveiro, Portugal, envolvido no Projeto AtlaS, uma importante pesquisa sobre os instrumentos de corda, em especial o cavaquinho e a viola portuguesa (e a viola caipira, obviamente).

Ivan Vilela além de destacado músico e pesquisador, é o responsável por colocar a Cultura Caipira e a viola em um patamar mais elevado na arte. Sua obra, musical e acadêmica, ocupa lugar de excelência na música mundial.

Apesar de nos remeter ao mundo rural, a viola tem um passado urbano, tanto em Portugal quanto no Brasil.

Desde 2018, você está em Portugal, pesquisando na Universidade de Aveiro. Qual é o objetivo do Projeto “Memória e mediação das práticas e dos instrumentos musicais na circulação entre comunidades interligadas”?

O projeto se chama AtlaS, Atlântico Sensível e pretende estudar as relações sociais e mudanças organológicas alavancadas pelos instrumentos de cordas dedilhadas portugueses no espaço da lusofonia no Atlântico. Mais notadamente as violas e os cavaquinhos, mas também dando atenção ao bandolim.

Tem havido uma revitalização no uso desses instrumentos supracitados bem como uma manifesta mobilidade de seu uso para outros segmentos musicais e funções nas celebrações. Cremos que uma série de fatores internos, em cada país, e externos têm movido esta roda de transformações como um efeito colateral à tentativa de globalização como uniformização dos mercados pela via do consumo. Isto gerou manifestações contrárias, de afirmação das culturas locais em todo o planeta. O próprio mercado fonográfico, percebendo isto, incorporou este fazer de fusões sonoras dando caminho a um novo segmento que foi chamado em meados da década dos anos 1980 de World Music, ou música étnica, música dos povos; quando não apresentadas em seu estado natural, estas manifestações eram fundidas a elementos de uma música porque tem pretensões de universalidade no mercado fonográfico.

Também há a ideia de pensamento ecológico que acabou por valorizar a diversidade cultural e, nisto, as manifestações das culturas populares perceberam um espaço de divulgação de suas naturezas.

No caso do Brasil, uma certa desilusão com o viver numa grande cidade fez as pessoas, impossibilitadas de retornar ao campo ou cidades pequenas, buscarem valores que outrora fizeram parte de suas vidas, muitos ligados aos seus universos de origem, frequentemente um mundo mais ruralizado e onde as relações humanas passavam por um outro crivo, diferente do imposto pelo capitalismo nas cidades mais populosas.

É importante repararmos que todos estes países em foco têm uma realidade de sobreposição de tempos históricos em seus territórios, ou seja, há uma diversidade de valores convivendo contemporaneamente num mesmo país. Como exemplo podemos apontar que há vários Brasis, o Brasil do século XXI das grandes cidades, o Brasil de 1940 dos interiores, o Brasil de 1910 dos interiores mais profundos. O mesmo ocorre em Portugal e em Cabo Verde. Enfim, há uma malha de sobreposição de tempos históricos que de certa forma resulta, também, na sobreposição de valores culturais. E certamente a viola e o cavaquinho protagonizam ações dentro desses diferentes tempos históricos.

A presença de artistas como o Almir Sater em telenovelas, a presença de artistas cabo-verdianos no cenário da música mundial como a Cesária Évora, dentre outros mais jovens, e a revitalização das culturas locais em Portugal também são fatores que muito ajudam na exposição e aceitação desses instrumentos em uma prática mais contemporânea de música e de cultura.

A cabo-verdiana Cesária Évora

Note o fenômeno das quase duas centenas de ensembles de viola (chamados de Orquestras de viola) no Brasil, das orquestras de bandolins e de cordofones dedilhados de Portugal Continental e da Madeira, dos grupos de cavaquinhos (braguinhas e machinhos) na Madeira, dos grupos de violas nos Açores. Há todo um universo de reapropriação destes instrumentos afirmando as suas raízes e agora dando-lhes asas para voar por outras paisagens sonoras.

Enfim, há todo um campo a ser estudado e onde esses instrumentos podem ser vistos agora como agentes de uma expressiva modificação cultural e não apenas como objetos passivos nas mãos dos tocadores e fabricantes.

Os instrumentos de cordas ganharam os mares e o mundo com as navegações portuguesas e foram “alterados” em cada país. Podemos dizer que cada nativo colocou a sua identidade nesses instrumentos?


Sim. Partindo da ideia de que os efeitos específicos das forças globais dependem da maneira como são mediados em esquemas locais, uma ideia afirmada pelo antropólogo estadunidense Marshall Sahlins, é muito claro como cada povo foi criando soluções de adaptação dos instrumentos à sua cultura específica. Haja vista no Brasil as violas feitas de buriti, de lata, de cabaça, de bambu. Os multiformatos dos instrumentos, as adaptações a recursos eletrônicos como os cavaquinhos de Cabo Verde e também as violas do Brasil, algumas de corpo sólido como as utilizadas pelos violeiros que tocam rock’nroll. A criatividade humana se manifesta para que não falte nunca a música em seus ritos, festas e manifestações de louvor à vida, à amizade, ao amor.

Explique qual é a situação atual da viola de Portugal (braguesa, amarantina, beiroa, toeira e campaniça)

Notamos que tem havido uma revitalização no uso destes instrumentos nos países em questão (Brasil, Cabo Verde e Portugal; não conseguimos verba para chegar em São Thomé e Príncipe, na Guiné e em Angola) mas estes processos têm sido diferente em cada país, o que nos motivou a entender quais as razões de tantas diferenças e, no caso do Brasil e de Portugal, um dos fatores esteve ligado a como o chamado Estado Novo – Getúlio Vargas, no Brasil e Salazar, em Portugal – trataram as suas culturas populares a partir dos anos 1930.

Antonio Ferro, um dos idealizadores do projeto cultural salazarista, nas décadas dos anos 1930-40, percebeu que os grupos folclóricos (em Portugal chamados de ranchos folclóricos) poderiam muito bem ser a estampa de manifestação identitária de Portugal diante da Europa e, por conseguinte, do mundo. Desta forma buscou-se algo idílico como uma Portugal do século XIX (19) que ainda estivesse manifesta nesses grupos (difícil imaginar como eram exatamente essas manifestações no século XIX pela própria falta de registros mais detalhados, dada a ausência de recursos fotográficos, videográficos e até iconográficos desta época).

Assim foi ocorrendo um engessamento dessas manifestações no sentido de uniformizá-las e as tornarem mais “artísticas” e performáticas que folclóricas no que tocam às suas coreografias, instrumental e canto. Até encontros lugares onde as pessoas vivenciavam como era viver na idade média, com ritos, vestimentas e comportamentos que ocorreram neste período em questão.

Ora, acabaram por inventar uma nova tradição, por recontarem a história à maneira que imaginariam que ela serviria melhor ao ideário do regime ditatorial de Salazar.

Nesta medida, o que era a manifestação de um conjunto de crenças, de um conteúdo, que chamamos de folclore, passou a ser uma manifestação de uma ideia preconcebida onde a forma, outrora resultante de uma percepção de mundo passasse agora a viver por si própria e pelo ideário político-ideológico que a orientava. No Brasil tratamos estas manifestações pelo nome de parafolclórico, pois as expressões estão desconectadas das cosmologias que as geraram.

Aí, as vestimentas e a maneira de se tocar os instrumentos passaram de uma forma livre e espontânea para uma forma fixa, predeterminada. Ocorreu então uma musealização do folclore enquanto expressão natural e espontaneidade de um povo. A viola acabou entrando nesta circunscrição, o que impediu que ela se desenvolvesse no quesito de tocabilidade, de ser mais afeita a um desenvolvimento performático mais amplo, pois a própria estrutura física (organológica) do instrumento muitas vezes não favorece a essas demandas.

 A viola caipira, no final dos anos 1980, ganhou novos adeptos, formas de tocar e despertou interesse em uma juventude acostumada com música estrangeira, chegando à Universidade de São Paulo como curso de graduação, com centenas de inscritos. O que é preciso para a viola portuguesa alcançar esse patamar?


Ótima pergunta. Um dia numa loja de discos vi uma estante de souvenires musicais como pequenos instrumentos, avulsos e em suas várias formações. Assim, tinha uma pequena orquestra na vitrine. Havia também uma big band, um grupo de fado e instrumentos avulsos. Enquanto manifestação identitária da cultura do país, a guitarra portuguesa, ou guitarra de fado como aqui é chamada, tinha em suas várias formas e formações. Em nenhum momento encontrei nesta vitrine uma viola, nenhum modelo de uma das cinco violas existentes em Portugal. Isso pra mim disse muito de como a viola é vista e sentida de maneira geral pela cultura portuguesa.

É certo também que esta situação vem se modificando desde a criação de um projeto no Alentejo, em Castro Verde, onde um jovem em 2003 aprendeu os toques da viola campaniça com os velhos tocadores e passou a ensiná-los a outros jovens. Pedro Mestre, este notável músico, acabou por protagonizar um movimento de resgate das violas portuguesas que a cada dia se fortalece mais aqui em Portugal. Em Braga, aqui no Norte do país, já se criou a Associação da Viola Braguesa (Avibra) que promove encontros e cursos permanentemente. A viola e o cavaquinho têm entrado

Pedro Mestre protagoniza um movimento de resgate das violas portuguesas que a cada dia se fortalece mais naquele país 

em alguns currículos de ensino público aqui em Portugal continental. Na Madeira, este processo já se encontra bem mais andado e com visíveis resultados musicais de disseminação e apropriação desses instrumentos em questão pelas camadas mais jovens da população. Isto ocorre a partir do trabalho de músicos e professores locais como é o caso da Associação Xarabanda. Nos Açores, a viola também está no ensino da rede pública e há muitos anos é um instrumento presente no ensino musical em conservatórios com cadeira de viola, métodos e bons professores.

Tem ocorrido em diversas cidades aqui de Portugal, Encontros de Cultura Popular onde fabricantes, músicos, pesquisadores e artista de outros segmentos podem trocar impressões entre si e com o público que lota esses espaços. Vários deles com participação de músicos e agentes culturais galegos como Ramón Almuinha e Mauro Sanin, dentre outros. Cidades como Braga, Odemira, Santo Tirso, Vila Real, Caminha e Amarante mantém encontros permanentes de ensino pesquisa e difusão desses instrumentos em questão.

Creio que a viola em Portugal caminha a passos largos para um reconhecimento e aceitação. Este movimento se dá por simpatizantes e também por ações nas Câmaras onde legislações e apoio físico e financeiro são criados a estas manifestações.


Quais serão os desdobramentos dessa pesquisa? Livros, discos, concertos, cursos, palestras etc.

Exatamente. O AtlaS é projeto para uma vida inteira e pretendemos, cada qual em sua universidade, manter uma frente de estudos na pós-graduação com este fim. Estamos trabalhando em videodocumentários, a edição de, pelo menos, dois livros, dos quais um será escrito a partir das indagações levantadas nas entrevistas. Cursos e palestras já começaram a ocorrer desde o ano passado. Também a apresentação acadêmica em congressos nacionais e internacionais. Quanto aos discos temos ideia de fazer um com as vozes dos cantadores entrevistados e também outros para o quais chamaríamos cantores da lusofonia para interpretar músicas tradicionais recolhidas por nós ou já muito presentes nesses cancioneiros.

A viola de Braga, típica da região do Minho, obviamente teve (e ainda deve ter) grandes tocadores galegos. Este projeto pretende incluir a Galiza e suas obras para viola?


Certamente. Esta foi uma das minhas primeiras propostas quando aqui cheguei e curioso que depois comecei a constatar o imenso trânsito cultural que existe entre a Galiza e o Norte de Portugal. Não podemos nos esquecer que as origens de Portugal se dão num território galego, se não me falha a memória histórica. Falam a mesma língua, tem afeições um pela cultura do outro, e universos culturais muito aproximados. Curioso também com a Galiza é a proximidade com alguns povos de regiões do Brasil. Guimarães Rosa explorou muito esta questão em sua literatura.

O pesquisador Ivan Vilela está em pleno desenvolvimento em Aveiro. E o músico Ivan Vilela, com 17 discos gravados, como está aparecendo no continente europeu?


De maneira muito acanhada (risos) e depois desta pandemia então, nem se fala. Embora haja um estímulo do coordenador do AtlaS, o professor Jorge Castro Ribeiro, e da diretora do Instituto de Etnomusicologia da Universidade de Aveiro (Inet), a professora Susana Sardo, onde o projeto está sediado, eu não me sinto muito à vontade de fazer desse tempo de pesquisa, para o qual fui contratado, um período de desenvolvimento pessoal de minha carreira artística.

Minhas saídas foram poucas e rápidas. Em 2019, no Rudolstadt Festival, na cidade de Rudolstadt, Alemanha; também em Berlim, no Sarau Mundi, e em Weimar, na comemoração dos dez anos da criação pela Unesco da Cátedra de Estudos Transculturais na Universidade de Weimar, sob a batuta do antropólogo Tiago de Oliveira Pinto. Por ocasião de uma palestra que fiz na Universidade de Viena, aproveitei para tocar em Viena e em Krems, a convite da professora de línguas românicas Marina Ellend Corrêa.

Em abril eu faria duas apresentações em Paris e em algumas cidades de Portugal com a violeira francesa Fabienne Magnant, mas fomos impedidos pelas condições de confinamento impostas pelos governos em função da pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Neste mês de junho iria para a Madeira e possivelmente para os Açores, em outubro, mas tudo ficará suspenso até segunda ordem.

Fiz algumas apresentações em Portugal nesses encontros acima citados e em outras ocasiões de festivais e encontros.

Para conhecer mais a viola caipira, Ivan Vilela é o professor do curso livre e gratuito de viola caipira idealizado pelo Sesc São Paulo, disponível aqui.

Contatos

Facebook = https://www.facebook.com/ivanvilela1

Instagram = @ ivanvilela10cordas

E-mail = contato.ivanvilela@gmail.com

Leia também no Barulho d’água Música:

1297 – Autor de cinco álbuns instrumentais, Rafael Carvalho é referência maior da viola da terra dentro e fora de Portugal

E sobre Ivan Vilela ou conteúdos a ele relacionados

Paisagens

1307 – IJC (SP) lança campanha para ajudar artistas em situação de vulnerabilidade devido à pandemia

Ideia é distribuir recursos para sobrevivência dos frequentadores do espaço situado no bairro paulistano do Sumarezinho mesmo depois do fim da quarentena social

#FiqueEmCasa #MáscaraSalva

#IJC #Cultura #Música

#Liberdade #Pluralismo #Respeito #Tolerância #Diversidade #BLM #Democracia

#ForaBolsonaro

O Instituto Juca de Cultura (IJC), situado no bairro paulistano de Sumarezinho, está promovendo uma pesquisa socioeconômica com a finalidade de levantar dados e recursos e por em ação uma campanha permanente de apoio financeiro aos artistas ligados àquele espaço cultural e de convivência que estejam em situação mais vulnerável e com dificuldades de sobrevivência neste momento de quarentena e isolamento social por causa da pandemia do coronavírus (Covid-19). A meta nesta primeira fase é beneficiar artistas que frequentam o espaço, mas a intenção dos organizadores da ação é estendê-la conforme a necessidade e a evolução dos acontecimentos também à comunidade artística da cidade de São Paulo. Os dados ficarão retidos e em sigilo e, depois de usados, serão apagados.

Um formulário, que o IJC pede para não ser compartilhando, já foi disparado aos frequentadores contendo questões para o levantamento do perfil; as perguntas com asteriscos exigem respostas obrigatórias. Em caso de sugestões para a inclusão de alguém para ter acesso ao fundo, pede-se que os responsáveis pela campanha sejam procurados. Para o envio de mensagens solicitando a resolução de dúvidas está disponível o endereço virtual
pacenunes@yahoo.com.br.

Continue Lendo “1307 – IJC (SP) lança campanha para ajudar artistas em situação de vulnerabilidade devido à pandemia”

1306 – Músicos mineiros protagonizam segunda rodada regional da mostra “Dandô em Casa”

#DandoEmCasa #CircuitoDando #DercioMarques #CulturaPopular #MusicaDeQualidade  #BrasilProfundo

#FiqueEmCasa #MáscaraSalva #LaveBemAsMãos #Quarentenas

#Liberdade#Respeito#Pluralidade#Diversidade#Tolerância#ImprensaLivre#Democracia

#ForaBolsonaro

O Dandô Circuito de Música Dércio Marques também está se reinventando neste momento de pandemia provocada pelo surgimento do coronavírus e anunciando aos amigos e admiradores a realização de várias mostras virtuais que todos poderemos acompanhar ao vivo, pelo Facebook e pelo Youtube, sem que precisemos sair da residência e burlar a recomendação de isolamento domiciliar durante a quarentena, como preconizam as autoridades de saúde em combate à Covid-19. A primeira transmissão do projeto Dandô Em Casa rolou em maio e, doravante, haverá mais quatro, sempre no primeiro sábado de cada mês, entre  junho e setembro., começando às 17 horas; os linques para acompanhá-las estarão disponíveis ao final desta atualização.

Artistas do Circuito Minas Gerais estarão na rodada de junho, marcada para o dia 6. Com apresentação de Márcio Vesoli, terá as participações de Beatriz Faria (Belo Horizonte), Giancarlo Borba e Sol Bueno (Moeda) e Marcelo Taynara (Uberaba).

Continue Lendo “1306 – Músicos mineiros protagonizam segunda rodada regional da mostra “Dandô em Casa””

1303 – Produtora cultural paulistana promove apresentações virtuais para comemorar 90 anos de Sivuca (PB)

Autor de composições e trabalhos que incluem, dentre outros ritmos, choros, frevos, forrós, jazz, baião, música clássica e até blues, ele ganhará homenagens das mais especiais pelo aniversário durante uma semana inteira, a partir da terça-feira, 19, ancoradas por Thadeu Romano e Marcelo Caldi

#luluculturalinfluencer #redecolaborativalulu #luciapro

#FiqueemCasa

#ForaBolsonaro

Um dos mais queridos multi-instrumentista, maestro, arranjador, compositor, orquestrador e cantor brasileiro, o paraibano Sivuca passou ao Mundo Maior em dezembro de 2006, mas ao lado de outros “bambas” como Luiz Gonzaga e Dominguinhos continua presente no nosso dia a dia, influenciando novos artistas e reverenciado em todos os setores da cultura popular. Natural de Itabaiana (PB), Sivuca era Severino Dias de Oliveira, nascido em 26 de maio de 1930, data que dentro de alguns dias completará 90 anos. Autor de composições e trabalhos que incluem, dentre outros ritmos, choros, frevos, forrós, jazz, baião, música clássica e até blues, ele ganhará homenagens das mais especiais pelo aniversário durante uma semana inteira, a partir da terça-feira, 19, promovidas pela paulistana Rede Colaborativa LuLu. Com rodas de conversas, debates, vídeos, indicações de música e apresentações ao vivo (lives), o projeto terá como âncoras os acordeonistas, pianistas, compositores e arranjadores Thadeu Romano e Marcelo Caldi, que são artistas que têm muita intimidade e interpretam com propriedade o repertório do mestre.

Continue Lendo “1303 – Produtora cultural paulistana promove apresentações virtuais para comemorar 90 anos de Sivuca (PB)”

1302 – Festival Nova Viola Instrumental, totalmente virtual, reúne expoentes que executam o instrumento com abordagens que vão além do universo caipira

Fernando Sodré e Letícia Leal, organizadores do evento, pretendem congregar esforços teórico-metodológicos e experiências dos profissionais que trabalham com a viola instrumental da atualidade., reunindo uma geração  que têm trabalhos inovadores e conceituais; conteúdo ficará disponível  um ano para assinantes que se inscreverem 

#FiqueemCasa #MáscaraSalva #ForaBolsonaro

Em tempos de pandemia do coronavírus nos quais a quarentena para tentar conter a expansão da Covid-19 impõe o isolamento domiciliar e o distanciamento social em todo o mundo, as apresentações virtuais de cantores e músicos para seus públicos se tornaram frequente e, nesta onda, também resolveram surfar os violeiros mineiros Fernando Sodré e Letícia Leal. Entre os dias 15 e 17 de maio, eles estarão à frente do Festival A Nova Viola Brasileira Instrumental, que oferecerá em transmissões pela internet onze workshops, palestras, nove concertos e uma mesa redonda de debate com nomes renomados, entre os quais a francesa Fabienne Magnant, além da participação de um consagrado luthier e um técnico de áudio, ambos especialistas na atuação deste instrumento. Para ter acesso aos conteúdos pelo telefone celular, pelo computador ou pela televisão será necessário fazer inscrição prévia que liberará os sinais para a tela, cuja taxa está cotada em R$ 200, valor que poderá ser dividido em até doze vezes. Quem assinar poderá rever as atrações por até um ano visitando a plataforma que hospedará o evento. O endereço eletrônico para mais informações e providenciar a inscrição é https://www.novaviolabrasileira.com.br/

Continue Lendo “1302 – Festival Nova Viola Instrumental, totalmente virtual, reúne expoentes que executam o instrumento com abordagens que vão além do universo caipira”

1299 – João Mulato, parceiro de Bambico e de Pardinho, deixa de luto música de raiz

Mineiro que vivia em Bauru, no Interior paulista, fez história como primeiro violeiro canhoto e integrante de várias duplas, cujo acompanhante sempre se chamou Douradinho, e era admirado pelo rigor estilístico

O cantor e compositor mineiro João Mulato, que se tornou célebre no meio sertanejo de raiz ao lado de vários parceiros com os quais formou sucessivas duplas batizadas sempre como João Mulato e Douradinho — a primeira delas iniciada no começo dos anos 1970, ao lado de Bambico (Domingos Miguel dos Santos, violeiro de fundamental importância na criação do ritmo do pagode de viola)– morreu na segunda-feira, 20, em Bauru, cidade do Interior de São Paulo, onde residia há 12 anos. Mulato, desde há cerca de um ano, combatia um câncer que se expandiu por vários órgãos e não mais respondia às sessões de quimioterapia, levando o seu estado clínico a piorar e a obrigar na sexta-feira, 17, a sua internação no Hospital Estadual de Bauru. Aos 69 anos, ele não mais resistiu. A filha, Daniella da Silva Leôncio de Melo, confirmou a passagem e comentou que o pai foi um ídolo que admirou até o último dia, apesar de admitir “diferenças” sobre as quais não entrou em detalhes, pois “o respeito foi mútuo”. O que importou mais para Daniella frisar é que Mulato “era artista e seus únicos e grandes amores foram a viola e a música, as quais ele se dedicou. Não admitiu erros. Por isso, suas músicas foram marcantes e seus arranjos, inesquecíveis“.

Continue Lendo “1299 – João Mulato, parceiro de Bambico e de Pardinho, deixa de luto música de raiz”

1296 – Prepare saborosos pratos caipiras, ao som de modas de viola, com Rodrigo Zanc (SP)

Em torno de um fogão a lenha e ponteando canções autorais e de amigos de estrada, violeiro radicado em São Carlos compartilha com o público deliciosas receitas para deixar menos salgada quarentena imposta pela pandemia do coronavírus

Cantor e compositor residente em São Carlos, cidade do Interior de São Paulo a cerca de 240 quilômetros da Capital, Rodrigo Zanc como todo bom violeiro é inquieto e valoriza, por menor que possam parecer, todos os detalhes e elementos que tenham relação com a sua “verdade interior” — espelho nítido que dele reflete, entre outras qualidades ímpares, a intensa relação com suas raízes de homem nascido e criado, com orgulho, na roça, onde aprendeu a cultivar e prezar as nossas mais antigas tradições populares, em particular, dentro deste universo, a cultura caipira. Autor de dois álbuns que mesclam músicas deste gênero e sucessos da música popular brasileira e regional, integrante dos projetos 4 Cantos e Tributo a Pena Branca e Xavantinho, além de idealizador de Viola para Dominguinhos, Zanc também é apaixonado por gastronomia e como cozinha tão bem quanto toca e dá voz às suas emoções, decidiu aproveitar a quarentena provocada pela pandemia do coronavírus que o afastou temporariamente dos palcos para compartilhar em um de seus canais virtuais o programa Fogo e Viola.

Continue Lendo “1296 – Prepare saborosos pratos caipiras, ao som de modas de viola, com Rodrigo Zanc (SP)”

1281 – Disco Canteiro de Alumiá revisita o Movimento Armorial, com elogios de Antonio Madureira e Ivan Vilela

Dez canções de arranjos artesanais e sonoridade armorial compõem o álbum Canteiro de Alumiá, de Ricardo Dutra e Quinteto Aralume, lançado em agosto de 2019, no Teatro Martins Pena, na cidade de São Paulo, com participação da cantora Letícia Torança e apresentação do violeiro, pesquisador e compositor Ivan Vilela, professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). O disco, disponível nas plataformas digitais, foi o escolhido para abrirmos neste dia 25 de janeiro mais uma rodada das audições matinais que promovemos aos sábados aqui no boteco do Barulho d’água Música. Chamado de “trovador contemporâneo”, o compositor, cantador e instrumentista Ricardo Dutra, com o Quinteto Aralume, de maneira poética e imbuídos de lirismo melódico, abordam nas faixas do álbum histórias do povo brasileiro e a natureza que os rodeia, unidas ao refinamento artesanal dos arranjos que bebem nas fontes do Quinteto Armorial.

Continue Lendo “1281 – Disco Canteiro de Alumiá revisita o Movimento Armorial, com elogios de Antonio Madureira e Ivan Vilela”

1280 – Silencia no sertão a viola de Manoel de Oliveira, o Mestre Manelim, autor do álbum Urucuia, com Paulo Freire

Menos de uma semana depois de a música brasileira perder o pernambucano menino passarinho Luiz Vieira, que desencarnou aos 91 anos na cidade do Rio de Janeiro na quinta-feira, 16/1, também bateu asas e subiu ao Mundo Maior, na terça-feira, 21, Manoel de Oliveira, o Mestre Manelim, violeiro que nasceu e viveu em Urucuia, uma pequena cidade no Noroeste de Minas Gerais que inspirou Guimarães Rosa, a 600 quilômetros de Belo Horizonte.

Mestre Manelim estava com 86 anos . Em Brasília (DF), durante uma ida à casa da filha no mês de dezembro,  ele recebeu recebeu visita do também violeiro Paulo Freire, seu mais notório discípulo, que com ele conviveu longamente e aprendeu vários toques que estão fora dos manuais didáticos dedicados ao ensino do instrumento.

Freire, que também é escritor, pesquisador e contador de causos dos bons, mora em Campinas, no interior de São Paulo e em 2006 ajudou a trazer à luz o único álbum gravado pelo mestre, Urucuia, contribuindo desta maneira para não deixar relegado apenas ao seu pequeno e encantador universo um baluarte da cultura popular — assim como mais recentemente o fizeram o poeta e compositor mineiro Paulo César Nunes e os músicos Danilo Gonzaga Moura e Victor Mendes, do Trio José, de São José dos Campos (SP), que nos revelaram e nos apresentaram à extensa e plural obra  do sêo Juca da Angélica, poeta da oralidade que atravessava seus últimos dias em Lagoa Formosa (MG) e que o Brasil ignorava até então, mas que pelo esforço deles ganhou um mínimo de notoriedade e carinho antes de subir para o Plano Celestial, aos 97 anos; vale lembrar, ainda, que a pantaneira Dama da Viola, Helena Meirelles, só “explodiu” cá em Pindorama  após ser “descoberta” pela edição norte-americana da Revista Guitar Player, já octogenária, no final da década dos 80.  

Sobre a vida, a partida e a obra de Manoel de Oliveira, portanto, não há ninguém melhor do que  Paulo Freire para nos contar — embora fosse admirado, ainda, basta ver os comentários à mensagem de Paulinho, por muitos craques dos gêneros caipira e regional, como Roberto Corrêa. É de Freire o pungente, emocionado depoimento que abaixo reproduzimos e compartilharemos, publicado também pela Revista Fórum, e cujas palavras explicitam o tamanho da importância de preservarmos a qualquer custo a memória de nossos artistas — notadamente aqueles que estão fora do mainstream, quando se faz apologia aos pilares do nazifascismo como modelo de cultura a ser seguido — que nos legam obras essencialmente brasileiras, que preservam e difundem nossos mais caros e imprescindíveis valores fundantes.

Na sequência do depoimento de Freire nesta atualização, o amigo e seguidor lerá texto de apresentação do álbum Urucuia que acompanha no sítio Em Canto Sagrado da Terra os arquivos, em formato Mp3, das 16 faixas do disco.

Hoje, 21 de janeiro de 2020, faleceu seu Manoel de Oliveira, mestre Manelim. Meu mestre. Não vou falar “encantou-se”, como diria o Rosa, pois não consigo ver poesia em sua partida. Mesmo sendo o Rosa quem me fez conhecer o seu Manoel e o grande sertão. Uma palavra melhor, ou mais adequada, seria: devastação.
Mestre Manelim me ensinou a enxergar a viola na natureza. Foi um exemplo de pai. Um outro pai. Sou irmão de seus filhos, e filho também de dona Vicentina. A lembrança do café na beira do cerrado, amanhecendo, no frio do sertão, em volta da fogueira, com o mundo despertando, até ouvir o chamado do mestre para todos irmos trabalhar na roça. No final do dia, no terreiro tão bem cuidado de dona Vicentina, pontear a viola e grudar a atenção no que estava acontecendo. Para onde vai tudo isso? Como permanece dentro de mim e deles, sem o seu Manoel?
Acredito cada vez mais que não existe céu e inferno, quer dizer, não existe só isso. Tem muito mais assunto. A alma é um assunto. E existem vários caminhos para se trilhar. Dentro desse nosso couro que vai enrugando, e fora desse couro. Os toques de viola que ele me ensinou, como o sapo e o veado, o papagaio, lagartixa, mostravam como poderíamos ser estes bichos, como entrar no sentido deles e, assim, esticar nossas vidas. Tenho certeza que estes últimos dias, mesmo bem longe dele, o seu Manoel esteve aqui ao lado. E dentro. Senti fundo um chamado, como o dia que ele foi me buscar na roça adivinhando uma tristeza que baixou em mim. Como o seu Manoel percebia isso? Me senti ao seu lado, no silêncio que ele carregava, e o peito apertando…
Não conseguirei ir à despedida do seu Manoel, amanhã, no Urucuia. O seu Manoel sabe por quê. Meus irmãos urucuianos e dona Vicentina também. Já que não consigo, vou de outro jeito. Desligar do que não tô precisado e deixar ele me guiar para algum outro lugar em comum. Em dezembro estive com ele, dona Vicentina, e minhas irmãs Joaninha e Valdinea, em sua casa, em Brasília. Seu Manoel estava se recuperando de uma pneumonia, mas bem fraquinho. Pediu que eu tocasse o “rio abaixo”. Peguei a viola e toquei. Experimentei passar a viola pra ele. Mesmo sem forças, o Manelim mostrou que não estava certo o meu ponteado. Tentei de novo, pelejando com o detalhe. E ele enfim disse: “um dia você aprende”. Com seu jeito doce e sentimento firme. Como que dizendo: continua, não para, não esmorece, olha eu aqui! O Cacai Nunes tava bem do ladinho e viu tudo.

Santíssima trindade: O mestre Manelim (sentado), o instrumento que os unia e o discípulo violeiro Paulo Freire

Desde cedo eu senti que hoje era um dia no lugar errado. A respiração não sai nem entra direito. Olhava para o telefone a todo momento, já que estou desacostumado do caminho das almas. Até que veio a notícia. Saí para andar. Procurei um canto que pudesse entender o acontecido, ou buscar forças para enfrentar a devastação. Fui num lugar que nunca tinha ido e uma árvore me buscou. Uma paineira. Fiquei calado o dia inteiro. Só uma conversinha de trabalho. E as trocas de afetos com meus irmãos, filhos do Manelim. Sei que tem um bocado de amigo passeando por aqui, então vim esvaziar o peito.
Vão ouvindo, seu Manoel tá quieto aqui na rede, fazendo um pinicado na viola, uma besteirinha, como ele dizia, diamante puro, água fresca de vereda, capaz de ultrapassar qualquer explicação de amor e saudade.

Urucuia é a terra natal de Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. A cidadezinha de 11 mil habitantes fica no noroeste de Minas Gerais, na margem do rio homônimo, um dos afluentes do Rio São Francisco. Reza a lenda que o escritor Guimarães Rosa nunca esteve por lá, mas foi de pessoas de lá que ouviu, na venda do pai, diversas histórias da região que povoam sua fantástica literatura, cujo cinquentenário está sendo comemorado neste ano [2006, quando o álbum foi lançado].

É de lá também Manoel de Oliveira, o “Manelim”, um violeiro que dedilha pelo menos dois séculos de tradição foliã. É música que certamente Guimarães Rosa ouviu e que está registrada em disco pela primeira vez com ajuda do violeiro Paulo Freire. O disco Urucuia traz Mestre Manelim tocando e cantando 16 músicas, entre 11 criações próprias e cinco de domínio público que estão aquém do sertão de Minas. Atinge outros sertões como Caninha Verde, que toma diferentes feições por diversas regiões do País.

Criação própria e domínio público formam algo que se confunde na obra de Manelim, como na obra dos músicos anônimo do sertão, diz Paulo Freire, violonista já conhecido que foi aluno de Mestre Manelim. “Sempre quis gravar a música dele, mas como ele quase não sai de lá, aproveitei uma das raras visitas dele a São Paulo para trancá-lo num estúdio”, brinca Freire, que produziu o álbum convidando Adriano Busko (percussão), Zé Esmerindo (violão e voz) e Thomas Roher (rabeca) para o ornamento instrumental das músicas. Instigado pela leitura de Guimarães Rosa, Paulo Freire se embrenhou no sertão mineiro no final dos anos 70, quando descobriu e tornou-se seguidor do ponteio de Mestre Manelim, para ele, o mais importante violeiro da região.

Agricultor e marceneiro, Manoel de Oliveira aprendeu a pontear a viola com Onora Martins Alves, mulher que o criou. Onora era a fazendeira do lugar para quem os pais de Manelim trabalhavam e confiaram a criação do filho. O mestre tem 76 anos, por certo não conheceu Guimarães Rosa, mas já ouviu muitas histórias sobre o escritor famoso, conta Paulo Freire.

A música de Manelim é simples, ingênua até, de ponteado calcado nas folias de reis com temas que denotam a ancestralidade oral da cultura popular de sua terra (e brasileira, por extensão). Não há nem mesmo a influência de variações dadas ao gênero pelo pagode de Tião Carreiro ou a sofisticação de arpejos de Renato Andrade, por exemplo, o que aumenta o interesse histórico do álbum. De voz frágil, Manelim canta em apenas quatro faixas, concentrando-se no toque do instrumento que revela esmero igual ao dos artesãos urucuianos com o manejo da palmeira de buriti. Os temas versam sobre a natureza, o jeito de ser do sertanejo e as crendices que cercam a viola, como o pacto com o capeta. Aproveitando essa riqueza oral na obra do mestre, Paulo Freire aproveitou para registrar duas “conversas” no estúdio com Mestre Manelim. Numa delas, ele relata o causo d´A Corrida do Sapo e o Veado e noutra comenta o tal pacto em Laço do Capeta.

Várias músicas feitas no Brasil com incidência no imaginário criado por Guimarães Rosa são sugeridas sempre que se fala em Grande Sertão: Veredas. As mais frequentes são de medalhões da MPB, como Gilberto Gil (que fez Casinha Feliz no disco Dia Dorim Noite Neon, de 1985), Caetano Veloso (que fez com Milton Nascimento a canção A Terceira Margem do Rio, do disco Circuladô, 1991) e Chico Buarque de Assentamento, tema mais MST do que roseano, do álbum As Cidades (1998). Em que pese a beleza inegável destas composições, nenhuma delas, no entanto, são tão próximas e muito menos concernentes ao universo do escritor mineiro quanto este e outros violeiros brasileiros. Se Guimarães Rosa tiver que ter uma trilha sonora, esta deveria passar necessariamente por criadores como Mestre Manelim.

Para acessar o linque que dá acesso à cópia do disco Urucuia no site Em Canto Sagrado da Terra clique na palavra em destaque.