1213 – Dante Ramon Ledesma, argentino naturalizado brasileiro, canta a liberdade, o amor e a igualdade em 19 poéticos álbuns ignorados no Sudeste

Nascido em Río Cuarto, na Córdoba, onde foi perseguido pela ditadura argentina pela militância católica, naturalizado brasileiro desde 1978, cantor admirado pelo carisma e pela coragem vive na região metropolitana de Porto Alegre (RS) e nem um derrame que paralisou parte do seu corpo o fez parar de cantar

Nos últimos dias, boas prosas com o amigo gaúcho de Caxias do Sul Valdir Verona — cantor, compositor, professor e pesquisador, um dos melhores violeiros do país na atualidade–, levaram minhas atenções a se concentrar em alguns expoentes da música do Sul do país, notadamente a produzida por alguns conterrâneos dele, de vários rincões do Rio Grande do Sul – ritmos e gênero, que, grosso modo, correndo o grande risco de cometermos gafes, tendemos a rotular por aqui de “nativistas”.

Claramente há preferências mercadológicas dos setores de entretenimento e radiodifusão aqui no Sudeste “maravilha”. Elas reduzem quase tudo — como se os tais fossem suprassumos — a Maiaras e Simarias, Sangalos e Anittas, Luccos e Safadões, Zezés e Santanas, Lucianos e outros quejandos e assim burlam de quem não se sintoniza em canais alternativos o acesso a outro estilo de música — apenas para ficarmos nesta forma de manifestação artística –, que não seja meramente comercial, rasa, descomprometida com nossos mais ancestrais e identitários valores. Numa avaliação (ainda que simplista) tal recorte nos achata a todos como se fossemos meros consumidores desprovidos de criticidade, apuro, tradições e de bandeiras. Nesta toada, às vezes até bate uma tristeza profunda: é como se a gente vivesse em um país pouco plural, encerrado nas suas mais, digamos assim, badaladas capitais e agitos delas, empurram-nos ouvidos abaixo melôs de cornos e mulheres irresistíveis, pancadões e pôperos como se o extenso continente Brasil e sua diversidade morasse e se reduzisse em uma redoma sem sotaques e, no máximo, pindorama que, dependendo da conveniência do momento, aceitasse fora do mainstream um baiano aqui, um pernambucano acolá, quem sabe? um goiano…

Agendas assim não só nos empobrecem como nação, deixa-nos ignorantes às nossas origens, riquezas e diversificado patrimônio multicultural. Se o futebol de quando em vez nos faz lembrar que existem no mundo da bola tupiniquim os simpáticos CSAe o Clube do Remo e que no Amapá e no Piauí também temos Santos e Flamengo, apenas a curiosidade e o pensar fora da caixinha nos pode revelar que entre nós também se ergue, literalmente falando, a voz de um cantor e intérprete com a força e o carisma de um Nelson Gonçalves, mas circunscrito à sua região, ainda que por lá seja tão adorado pelos seus fãs e amigos como sempre foi (talvez por que no Sul as visões sejam mais amplas e generosas) o inesquecível e saudoso boêmio Nelson Gonçalves: Dante Ramon Ledesma.

Quantas linhas, embora pertinentes, para chegarmos a este nome, Dante Ramon Ledesma, perfil que, agora, entretanto, resumirei em uma única frase: um arauto das liberdades, do amor, da igualdade, da fraternidade e da resistência do pueblo latino-americano — sejamos nós gaúchos, argentinos, portenhos, índios, negros, mamelucos, cafuzos– e, por extensão paulistas, mineiros, cariocas, baianos, alagoanos, piauienses, amapaenses; “yo tengo tantos hermanos que no lós puedo contar” já cantava Atahualpa Yupanqui, “en el valle, la montaña, en la pampa y en el mar/cada cual con sus trabajos, con sus sueños, cada cual, con la esperanza adelante…”

Escolhi Dante Ramon Ledesma para abrir as audições matinais de todos os sábados aqui no boteco do Barulho d’água Música, em São Roque(SP) neste sábado, 20, não apenas pela beleza, engajamento e construções poéticas das músicas do repertório que entoa em emblemática voz, começando a ouvi-lo pelas faixas de Alma e Vida, álbum de 1993, mas e, sobretudo, pelo que elas invocam e põem no ar: um brado, antes de nada mais, à resistência, à união, à luta por um país que não tenha donos e que neste momento sugere “não tem governo e nunca [mais] terá” e que não pode seguir tendo o tamanho tacanho que vem adquirindo à medida que há temos nos postos de comando quem afirme (e quem nele acredite), arrotando lautos cafés da manhã, que nem ao menos fome passaríamos.

Vista de Rio Cuarto, em Córdoba, terra natal de Dante Ramon Ledesma

Dante Ramon Ledesma nasceu em Río Cuarto, na província de Córdoba, a cerca de 580 quilômetros de Buenos Aires, Argentina, mas “naturalizou-se” brasileiro em 1978. Cantor desde os 5 anos de idade, formou-se em Sociologia pela Universidade de Córdoba. Ainda em seu país natal, quando jovem foi integrante da Organização Não governamental (ONG) Carismaticos, de perfil católico e já demonstrando imensa capacidade de cantar venceu o famoso Festival Nacional de Folklore  de Cosquín, na categoria juvenil, com a canção Memória del Che

No ano de sua naturalização, os argentinos sofriam sob as botas e a baioneta do general-presidente Jorge Rafael Videla e o governo perseguia quem militava na juventude carismática, por considera-la ajuntamento de “subversivos” — adjetivo e razão para perseguições, torturas, mortes e condenações ao desterro tão em moda no Cone Sul àquela época. Desde então, e naquele momento para escapar das perseguições (mesmo que fugindo da brasa, pudesse ter caído no espeto!), Dante Ramon Ledesma, que começava a despontar no canto popular argentino, escolheu viver no Rio Grande do Sul, estabelecendo-se em Canoas, cidade da Grande Porto Alegre, onde, alias, recentemente, a Câmara Municipal lhe outorgou um título de cidadania.

Em 1991, já “brazuca”, portanto, participando do Festival Acordes Cataratas, de Foz do Iguaçu (PR), Ledesma tornou-se finalista com A Vitória do Trigo (“basta um pedaço de terra/para a semente ser pão/enquanto a fome faz guerra/a paz espera no chão), hoje uma espécie de hino de sem-terras em países da Europa e latino-americanos. Outra das canções que compõem sua trajetória, de autoria de Fernando Alves e Alberto Zanatta, América Latina é invariavelmente pedida em todas as suas apresentações por ser um alerta à consciência crítica e à união entre os povos até hoje explorados, do México à Guiana, passando pelo Haiti, pela Nicarágua, por Honduras, pela Bolívia…

Ambas as músicas, diga-se de passagem, enchem 19 álbuns e três DVDs que renderam a Ledesma nove discos de ouro e a vendagem de mais de três milhões e meio de cópias! Em sua biografia consta, ainda, que decorridos já mais de 30 anos de carreira, protagonizou 7 mil espetáculos em todo o Brasil e América Latina, muitos de caráter beneficente.

Sobre Dante Ledesma escreveu Renan Bernardi para o blogue Tenho Mais Discos que Amigos ao vê-lo cantar e tocar no 10º Festival Pira Rural, realizado entre 19 e 21 de abril recentes, na cidade gaúcha de Ibarama, situada na região de Santa Maria: “Foi o mais emocionante e significativo show do Pira Rural”. Dante Ramon Ledesma, prosseguiu Bernardi, encantou “um público que parecia muito próximo do reconhecido artista: o folclore e o orgulho da cultura latino-americana, gaúcha, indígena e rural faziam parte dos discursos de Dante nos intervalos das canções, que bradava contra o imperialismo e a música de massa, pré-fabricada”. Para arrematar, o jornalista observou: Dante cantou e tocou “homenageando movimentos sociais, amor e o respeito” e “encantou todo o público acumulado em frente ao palco”.

A parte estas força e carisma, registre-se: Dante Ramon Ledesma, para manter se “cantor de ofício” assim como preconizou sua contemporânea Mercedes Sosa, tornou-se, ainda, símbolo de superação e de determinação: em maio de 2014, sofreu um sério Acidente Vascular Cerebral (AVC) que afetou seu corpo, paralisando o lado esquerdo e prejudicando a fala. A situação depois se agravaria quando ele foi diagnosticado com diabetes. Mesmo com todos os problemas e as limitações, Dante Ramon Ledesma conseguiu voltar à ativa em 2016 e segue a fazer o que mais sabe: cantar, como em 19 de maio no Centro Cultural de Constantina (RS), onde protagonizou o concerto O Recomeço. Atualmente, Ledesma se faz acompanhar nas apresentações com o filho Maximiliano e o neto Juanito.

Dante Ledesma (ao centro), entre o neto, Juanito, e o filho, Maximiliano

O TÍTULO EM CANOAS

A primeira vez que ouvi falar sobre e as canções de Dante Ramon Ledesma estava em Canoas, fraternalmente acolhido por uma família do bairro Nossa Senhora das Graças, em 1989.

Eu era um garoto que amava The Beatles, The Rolling Stones e Pink Floyd (tanto na ida, quanto na volta, viajei os pouco mais de 1.100 quilômetros entre SP/POA, pelas BR-116 e BR-101, ouvindo a bordo dos ônibus da Viação Penha fitas cassetes do Pink Floyd), mas também já curtia Clube da Esquina, Katya Teixeira, Fagner, 14 Bis etc. Meus anfitriões demonstravam forte admiração por Ledesma e lembro-me de ter ficado impressionado com o tom e os temas das canções dele que rodava no meu walkman, gravados em uma fita Basf da qual não deu para fazer cópia, sentado sobre a cama que me ofereceram e em cujas paredes do quarto havia uma bandeira do Rio Grande do Sul, outra do Internacional, agasalhado por um poncho (estava muito frio!) e sorvendo uma cuia de chimarrão.

Pois lá, em Canoas, em 19 de maio de 2016, Ledesma foi agraciado com o título de Cidadão Canoense pela contribuição à música nativista do Estado e por sua relação com o município, situado a 14 quilômetros de Porto Alegre.

Ledesma (sem óculos), no dia em que recebeu o título de cidadão de Canoas (Foto: Williyan Bertotto)

A homenagem partiu do então vereador Pedro Bueno (PT). Antes da perseguição na Argentina. Já asilado no RS, Dante primeiro morou no bairro Niterói e, depois, transferiu-se para o Rio Branco, ambos em Canoas. Na chegada ao Brasil, precisou vendeu livros e ministrou palestras para pais e mestres até conseguir retomar a carreira de cantor. Cinco anos depois, em 1983, atingiu o sucesso com Orelhano, um dos seus mais aclamados sucessos. Em 1984, ele participou pela primeira vez da Tertúlia de Santa Maria, do qual saiu consagrado como revelação. No mesmo ano, venceu a 14ª Califórnia da Canção, de Uruguaiana, com O Grito dos Livres.

É casado com Norma Beatriz Ledesma, com quem teve o filho, Maximiliano, hoje seu parceiro e ritmista. “Como poucos, Ledesma fez realmente de seu canto uma maneira de viver e cantar a vida”, disse Pedro Bueno, proponente do título outorgado pela Câmara Municipal de Canoas. “Gaúchos, argentinos, brasileiros, latino-americanos cresceram ao som de Orelhano, Negro da Gaita, O Grito dos Livres, A Vitória do Trigo e tantas canções que ultrapassam os sotaques, os idiomas, os ritmos e as fronteiras.”

As palavras seguintes também foram proferidas por Bueno durante aquela sessão solene: “Dante é um homem que luta por liberdade, sonho e esperança. É uma honra para a nossa cidade. Seu espírito revolucionário ultrapassou barreiras, inclusive as da censura”.

Ao utilizar a tribuna, Ledesma recordou o período de terror vivido durante a ditadura argentina e mencionou pessoas que o ajudaram no começo da vida no Brasil. Destacando a importância da família, comentou sobre a recuperação do AVC que sofrera dois anos antes: “O maior milagre da vida é o amor e fraternidade que Deus nos dá”. Em seguida, exaltou a defesa da democracia brasileira: “Em primeiro lugar deve vir a Pátria e, somente depois, os interesses políticos”, ponderou, dedicando o reconhecimento recebido da Câmara de Canoas à memória do pai, Rudecindo Ledesma.

O Portal Cegos Brasil disponibiliza para serem baixados, armazenados em formato ZIP, os arquivos em Mp3 de nove álbuns de Ledesma, dos quais quatro são duplos. O endereço para o linque é http://cegosbrasil.net/discografias/dante-ramon-ledesma-9-cds.

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1208 – Rio Grande do Sul dá adeus a Ubirajara Matana: emudece um dos últimos baluartes do violão campeiro-serrano

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1208 – Rio Grande do Sul dá adeus a Ubirajara Matana: emudece um dos últimos baluartes do violão campeiro-serrano

Músico  fez parte do grupo Os Cobras do Teclado, ao lado de Adelar Bertussi,  do irmão Itajaiba  e Paulo Santos,  e tornou-se um dos maiores instrumentistas na década dos anos 1970 animando bailes por todo o Sul do Brasil

Com Valdir Verona e Milena Schafer (milena.schafer@pioneiro.com)

O cenário musical do Rio Grande do Sul, notadamente a classe artística de Caxias do Sul, está de luto desde a quinta-feira, 4 de julho, quando desencarnou na cidade o violonista Ubirajara Matana. Aos 75 anos, Matana não resistiu às complicações de um tumor no sistema linfático. A despedida, cercada por parentes e centenas de amigos, ocorreu no mesmo dia da passagem com a cremação do corpo, ao final da tarde, no Memorial Crematório São José, em Caxias do Sul. De acordo com informações dos familiares, Matana estava internado no Hospital do Círculo há cerca de 20 dias. O tumor fora detectado há pelo menos dois meses e chegou a ser combatido com radioterapia e quimioterapia. 

Natural dos campos de Vila Seca, interior do município, Matana foi um dos principais nomes do violão gaúcho na década dos anos 1970. Nessa época integrava o grupo Os Cobras do Teclado ao lado de Adelar Bertussi,  do irmão Itajaiba Matana (acordeões) e Paulo Santos (bateria), animando bailes por todo o Sul do Brasil.

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1178 – Espirais em Aquarela, álbum de estreia do Araucana (RS), inaugura a estética da “milonga desconstrutiva”

Disco lançado no Festival de Música de Rua de Caxias do Sul tem nove faixas que buscam  fusão de pessoas de mundos diferentes dentro de um mesmo trabalho, mesclando ritmos latinos com groove, rock e trip-hop

As audições matinais dos sábados pela manhã aqui no boteco do Barulho d’água Música começou neste dia 13/4 com Espirais em Aquarela, primeiro álbum do grupo Araucana, de Caxias do Sul (RS), gentilmente nos enviado pelo amigo daquela cidade, o violeiro e produtor musical Valdir Verona, a quem agradecemos em nome do grupo. O Araucana propõe em nove faixas apresentar o estilo que batizou de “milonga desconstrutivista”, fundindo vertentes da música latino-americana  com groove, rock e trip-hop para tentar imprimir nas composições o clima de temperaturas amenas do Sul do Brasil, que, conforme os músicos observam, é o ambiente ideal para as araucárias

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1176 – Sidnei de Oliveira ministra aula introdutória à filosofia da viola caipira na Casa do Saber (SP)

Mário de Andrade em diálogo com Nietzsche, Schopenhauer e Adorno para a elucidação e entendimento da filosofia que reveste a viola caipira e os elementos desta cultura é a proposta da aula aberta programada para ser ministrada pelo compositor, arranjador e violeiro Sidnei de Oliveira em 3 de maio, entre 20 e 22 horas, na Casa do Saber (clique para acessar o portal) situada na cidade de São Paulo. A inscrição é gratuita, mas precisará ser efetivada com antecedência pelo portal da Casa do Saber. Como as vagas serão limitadas e sujeitas à lotação do espaço, no dia do evento a ocupação dos lugares  respeitará a ordem de chegada  e não haverá reserva de assentos. Após Sidnei iniciar, os lugares ainda disponíveis serão cedidos àqueles  que estiverem aguardando por vaga, por isso recomenda-se aos que se inscreverem procurarem se organizar e evitar atrasos.

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1175 – “Violas ao Sul” estreia em álbum que reúne músicas do cancioneiro gaúcho e brasileiro

O quarteto difunde a versatilidade da viola de 10 cordas como instrumento musical e de manifestação cultural empregada para tocar desde canções folclóricas a músicas contemporâneas de qualquer região do país e do mundo, com foco especial àquelas que trazem marcas de pertencimento à cultura gaúcha

A audição matinal dos sábados neste 6 de abril, aqui no boteco do Barulho d’água Música, finalista do 5° Prêmio Profissionais da Música, começou pelas 13 faixas do álbum de estreia do quarteto Violas ao Sul. O disco nos foi enviado gentilmente por Valdir Verona, um dos seus integrantes e querido amigo, ao qual em nome dos parceiros Angelo Primom, Mário Tressoldi e Oly Júnior somos gratos. O disco foi gravado entre outubro de 2018 e janeiro, com produção geral de Tressoldi.

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1153- Rainha do Mar, Iemanjá é festejada em várias cidades do país; ouça músicas que a homenageiam*

*Com Camila Moraes  (da surcusal brasileira do portal El País) e blogues SignificadoConexão Planeta e iQuilibrio

Odoyá!

Hoje, 2 de fevereiro, cidades como Salvador (BA), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e Rio Grande (RS), entre outras, celebram cultos e promovem festas, entre outras iniciativas de louvor, a Iemanjá, orixá feminino de origem africana e presente nas religiões Candomblé e Umbanda. Por sincretismo, entre os católicos é tratada por Nossa Senhora da Conceição — em São Paulo — das Candeias (celebrada, também em 8/12) — na Bahia –, e dos Navegantes — no Rio Grande do Sul. Em Belém, capital do Pará, e São Paulo, devotos organizam procissões e cultos em 8 dezembro, o que demonstra a popularidade desta divindade cujo nome também ocorre iniciado pela letra Y: YemanjáNa África,o nome tem origem nos termos do idioma Yorubá “Yèyé Omo Ejáque significa “Mãe dos filhos-peixe”. 

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978 – Rota Lunar (RS) volta às atividades com álbum que rememora sucessos do Musical Vertente

Vertente: o que fica na memória,  disco do momento aqui na redação do Barulho d’água Música, do grupo gaúcho Rota Lunar, é um grato presente que enriquece o acervo do blogue, enviado de Caxias do Sul pelo “correspondente” Valdir Verona. O violeiro — que nas horas de folga, quando não está afinando as cordas dos instrumentos, tem se empenhado em ‘secar’ o Corinthians, posto que é gremista dos quatro costados e não se conformara em vir a terminar a temporada, no máximo, apenas como vice-campeão brasileiro! –, produziu o segundo álbum dos conterrâneos que integram a Rota Lunar: Selestino Oliveira (voz e violão), Vasco Machado (violão, viola, charango e vocais), João Geraldo Silveira (bateria e percussão) e Jonas Reis (baixo, teclado, violão e vocais) –, nova denominação do antigo Musical Vertente, nascido a partir de encontros proporcionados pelos festivais estudantis, em 1978, e que atuou com essa denominação até reestrear, após um período de recesso, em 1994.

Capa do disco gravado em 2016/Grupo Musical Vertente, 1987: Selestino Oliveira, José Carlos e Vasco Machado (em pé), Gioconda Menegazzo, Lauro Biassio e João Geraldo Silveira/Apresentação do Musical Vertente na III Balada da Composição do Estudante Caxiense, em 1976, com Vasco Machado, Selestino Oliveira e José Costa

Produzindo shows e participando de festivais e dos eventos estudantis artísticos, o Musical Vertente, conforme João Geraldo nos conta, chegou a ser considerado o conjunto independente de maior constância da aprazível cidade da serra gaúcha. Durante o estradar,  o grupo já alternou várias formações, conservando em suas fileiras, do time original, Selestino Oliveira, Vasco Machado e João Geraldo Silveira. Sob o financiamento da Lei de Incentivo à Cultura, em 2004, lançou Sobre a Cidade, disco cujas musicas reunem  poemas de escritores de Caxias do Sul e região. Em um dos mais concorridos daqueles citados festivais, o da Balada da Composição do Estudante Caxiense, ao lado das canções de Selestino Oliveira, tocando em dupla com seu irmão Vasconcelos Machado de Oliveira (Vasco Machado), integraram-se cantores e instrumentistas com afinidades sonoras e de pensamento. A quinta edição da Balada, em 1978, especialmente pela premiação máxima para a canção Reza de Viola, pode ser considerada o ponto de partida para o surgimento da banda. E as reuniões informais, para troca de ideias e de conhecimentos musicais entre amigos, logo se transformaram em ensaios, com pretensões artísticas sérias.

O idealismo e a paixão pela música alimentaram o estímulo dos rapazes provenientes das classes trabalhadora e universitária para ir construindo, aos poucos, o sonho de se expressarem culturalmente. Com o impulso dos festivais, o Musical Vertente ingressou numa etapa caracterizada pelo desenvolvimento de trabalhos de maior fôlego, sempre encontrando receptividade e sucesso junto às plateias — seja em Caxias do Sul ou no roteiro por outros importantes pontos do Rio Grande do Sul. Isso aconteceu durante o Roda Moinho, em 1981; Caminhos Novos, em 1982; O que fica na memória, em 1983 ; Xote do Osso, em 1984;  Novelo, em 1985 e 1986; e A Beleza está nos Olhos, em 1988. As composições do Musical Vertente começaram a cair no gosto de amigos e admiradores (sobretudo por jamais se renderem àquelas de rotulação fácil), misturando nativismo, balada, toada, rock, MPB e blues, com levadas essencialmente acústicas. As letras, assinadas por Selestino Oliveira, não permitem concessões e revelam cuidado especial com a mensagem da poesia, tematizando questões que inquietavam uma geração: crítica social e política, discussão ética, sentimentos humanos, preocupação com a ecologia, e cultura regional, marcadas por lirismo refinado como pode ser verificado em Roda moinho, faixa 5 do álbum aqui divulgado:

Como sorrir se vejo o povo/Clamando pão, clamando abrigo/Como ter fé nos grandes homens/Gordos, vestidos, cheios de promessas/E o povo que beba lama/Que coma grama/E durma no chão

E o povo que dê o troco/Que seja louco e solte o cão/Que crave os dentes da viração/Tomem ruas e praças/Todas as raças num coro só/É água que move a pedra/Tritura o grão e tira o pó/Faz a farinha/Move moinhos

É assim, com este jeito próprio, que a agora Rota Lunar apresentava uma visão questionadora ao momento vivenciado. Para quem estiver sentindo saudades ou às novas plateias interessadas, o grupo comunica que está em fase de ensaios e, ainda neste semestre, deverá conforme João Geraldo protagonizar compromissos para lançamento do álbum O que fica na memória — que conta com participações de Rafael de Boni (acordeon), Marcelo Taynara (efeitos vocais), Marco de Ros (guitarra) e André Tamanini (guitarra). Este Barulho d’água Música desde já se coloca à espera da agenda e compromissado fica de “espaiá” a notícia assim que ela for anunciada! Boa sorte nesta empreitada Selestino Oliveira,Vasco Machado, João Geraldo Silveira e Jonas Reis, mas que nosso parceiro Verona possa compreender lá pelos primeiros dias de dezembro vindouro que, no futebol, assim como nos festivais de canções… nem sempre vencem os melhores!

Integrantes do Musical Vertente por ordem de chegada: Selestino Machado de Oliveira/Vasconcelos Machado de Oliveira/José Costa/Airton Martins/Laucir Erlo De Alexandre/José de Oliveira Ramos Neto/Clóvis Moacir Matana Ramos/José Geraldo Chaves Silveira/Lauro Biassio/Gioconda Menegazzo/João Francisco Matana Ramos/Rodrigo Cadorim/Luiz Marchetto/Marcos Roberto Santos da Silva 

Contatos com a Rota Lunar para encomenda de discos, mais informações e contratação de shows e eventos poderão ser feitos por meio dos números de telefone 54 3221-2599 e endereço postal virtual rotalunar@gmail.com

950 – Katya Teixeira volta ao Sesc Belenzinho (SP) e recebe convidados para lançar Flores do Meu Terreiro

A cantora, instrumentista e compositora paulistana Katya Teixeira ocupará o palco da unidade Belenzinho do Sesc de São Paulo na noite deste sábado, 13 de maio, para lançamento de As Flores do Meu Terreiro, nome que escolheu para o sexto álbum da carreira em cuja trajetória vem se destacando como ícone da música regional brasileira. Conhecida e querida tanto pela fibra, quanto pela generosidade que complementam seu indiscutível talento, Katya Teixeira não apenas representa uma bandeira em defesa da música independente e de qualidade: carrega-a, literalmente, pelo país afora e também pelo exterior, transmitindo e recolhendo por onde passa saberes e sonoridades que contribuem para revelar não apenas traços da mestiça identidade brasileira, mas descobrir o que em nós há de comum com outros povos. 

Desta forma e neste intercâmbio a garimpar novos e ancestrais valores pelo Brasil, o trabalho de Katya Teixeira tanto reflete as andanças – os quais acabam por serem incorporados à sua musicalidade — como é correia pela qual repassa os próprios. À medida que, ainda, presta reverência aos mestres populares que a influenciam em 23 anos de estrada, vem percorrendo nesta missão países da América do Sul e da Europa para promover shows, vivências e oficinas. Nascida em família de músicos e pesquisadores, portanto, estamos diante de um nome que personifica uma tríade brasileira e latino-americana (euro-afro-indígena) protagonista de um rico diálogo artístico no qual todas as linguagens não apenas se tornam possíveis, mas complementares e universais.

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939 – Gaúchos Valdir Verona e Juarez Machado de Farias celebram parceria com “O violeiro e o poeta”

Parceiros de estrada já há longa data, Valdir Verona (Caxias do Sul/RS) e Juarez Machado de Farias (Piratini/RS) levaram à amizade ao estúdio e brindaram amigos e fãs com O Violeiro e o Poeta, álbum independente que traz no repertório poemas de Juarez Machado musicados por Valdir Verona e as canções inéditas A Bomba da Paz, Luas e LançasTapera. O disco já faz parte do acervo do Barulho d’água Música e também recorda a criação mais conhecida da dupla, Avisooriginalmente gravada como faixa de Tons da Terra – Acit (2000), mais a Toada de Reis Um Outro Natal, selecionada para a Tafona da Canção Nativa de Osório (RS), em 2016. Completam a obra Estradas e Tardes, O Andarilho e a Estrada e Parem as Rodas dos Carros (poesias escritas e recitadas por Machado, com trilha musical de Verona) e os temas instrumentais Zamba del Violero OlvidadizoMilonga Pra Don Coletti, em homenagem póstuma à Eugênio Coletti; e Catavento, adaptada para viola de nove cordas, originalmente composta para violão e também integrante do Tons da Terra-2000.

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