O truta do Leminski e do índio que ri em câmera lenta

Edvaldo Santana é ZL na veia e traz em suas letras referências da cultura popular com toques que vão do blues ao reggae

Estou tocando sem parar desde março “Jataí“, sétimo CD de Edvaldo Santana, que recebi enviado diretamente por ele, com direito a um autógrafo!

Para quem ainda não o conhece, uma breve, mas suficiente informação: Edvaldo Santana é cantor e compositor da fervente e fervorosa cidade paulistana de São Miguel Paulista, é ZL na veia, na pele, no corpo, na alma. Poeta que ama a lua feito lobo solitário e usa o brilho dela para viajar, afinado com os passarinhos, sabe o tempo e o modo certos de podar rosas e de cultivar bromélias.

Capa da obra prima “Jataí”, o sétimo disco de Edvaldo Santana, com arte de Elifas Andreato

Edvaldo Santana bebe nas fontes de Baudelaire, Sérgio Sampaio e outros “malditos”, e com amigos fecha bares enquanto o papo rola no vapor. Nem santo, muito menos quem não presta, tem muito de blues, de folk, de rock … mas com a malemolência de quem chacoalha em trens do ramal Brás-Calmon Viana manda bem também nos sambas. Com bênçãos dos terreiros, umbanda e candomblé, dos manos, da vó que fazia comida pra toda a família.

Em suas músicas deste “Jataí” Edvaldo Santana alerta que é um “cara estragado pelo medo e pelo susto”, contudo não se enquadra no papel de pop star, não dá colher de chá, nem põe mel no cigarro de revistas mesquinhas; que sabe que cada mídia tem um lado e o que ele (convidado) vai falar, deixando o sujeito acabrunhado. Por isso (se) preserva e preza a independência, as posturas típicas de quem precisa driblar indiferenças e preconceitos, ginga típica de quem desde pivete precisa ralar na periferia mais distante dos centros (inclusive das atenções), mas bota fé no taco e, mesmo com quase todo mundo contra, leva muito em conta o que o próprio coração diz.

Quando tira a viola e o violão do saco, Edvaldo Santana canta pra um mundão que chega até além do Piauí de gente que joga fora o guardanapo e topa comer com a mão. “Quando Deus quer, até o diabo ajuda”, sabe. E assim vai seguindo dando certo um sujeito que acredita na franqueza, na liberdade que o orienta, que chegara ao mundo para dar errado mas conquistou a proteção do índio que ri em câmera lenta, venceu o temor pelos inimigos, mas sem perder a ternura e o tino.

A jornalista Teresa Albuquerque, do Correio Braziliense escreveu sua opinião sobre este guerrilheiro, samurai que aprendeu a costurar as próprias roupas quando as flores eram poucas, que seguiria o próprio destino sem dogmas e sem fé: “Edvaldo Santana é camarada de Tom Zé e Arnaldo Antunes. Assim como foi de Paulo Leminski, Haroldo de Campos e Itamar Assumpção (só para citar seus parceiros mais famosos)”.

O disco “Jataí”, ainda de acordo com Teresa, é o primeiro em que ES assina todas as faixas sozinho. Ai ela pondera e questiona: “achava que as letras chamavam a atenção porque eram escritas pelos parceiros? Que nada. As letras do novo CD (que vem com bela capa do artista Elifas Andreato) são muito boas. E as alquimias, como ele chama as misturas que faz — de blues, reggae, baião, xote, música cubana e o que mais vier à cabeça — continuam lá, assim como a voz rouca, ainda que em tom mais suave”.

Precisa mais? Então que tenha a palavra o próprio:

“Jataí tem uma sonoridade diferente dos outros discos que lancei. É semiacústico, mais baseado no meu violão. E a voz não está tão alta, dei uma suavizada”, comenta. “Continuo compondo com parceiros, claro. Mas, às vezes, as parcerias não batem com o momento que estou vivendo e acabam entrando em outro disco. Desta vez, quis gravar coisas bem minhas. Jataí tem muito do que estou pensando, do que estou sentindo.”

N.R.: Matéria publicada na revista eletrônica Kalang

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2 Mares aporta em Centro Cultural da Lapa

Katya Teixeira

 O Centro Cultural de Estudos Superiores Authos Pagano, no Alto da Lapa (rua Tomé de Souza, 997, SP), recebeu em 29 de março Luiz Salgado e Katya Teixeira para apresentação de pré-lançamento do álbum “2 Mares“, em mais uma edição do projeto “Conversa Com Verso”. O disco ambos produziram recentemente, pela Catarse, plataforma que recolhe contribuições coletivas pela internet para financiamentos de projetos culturais (crowfunding). Se ambos, normalmente, já são muito bem humorados e talentosos, imagine quando eles ficam juntos! 2 mares

A proposta de trabalho em conjunto e a cuidadosa pesquisa sobre as raízes de Brasil e de Portugal, arrematada após árdua produção que envolveu artistas como Consuelo de Paula e Rolando Boldrin só poderia dar ótimos resultados. O “2 Mares” esteve cotado para receber um dos prêmios de melhor disco de 2014 (ô loco, meu: mas este é aquele para valer, viu, galera, não tem nada a ver com o que desmoralizou tanta gente de qualidade e que tem grandes méritos e trampo de verdade por trás!). E, em breve, deverá ganhar uma versão em DVD (com as bênçãos de São Gonçalo do Amarante, ora e viva!).

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Luiz Salgado

Estas novidades, além da maioria das faixas do disco, entre outras adicionais da carreira solo de Luiz Salgado, animaram o público que prestigiou a dupla no Authos Pagano. Contribuíram para o ambiente de descontração e alegria, ainda, os causos populares e as histórias de bastidores e curiosidades sobre as gravações que ambos contaram.

 

Fotos: Marcelino Lima

 

 

Tributo à dupla Cascatinha e Inhana une Wilson Teixeira e Sarah Abreu

O cantor e compositor Wilson Teixeira gravou em maio participação no programa Sr. Brasil, do apresentador Rolando Boldrin (TV Cultura). O autor de “Almanaque Rural” ocupou o palco do teatro do SESC Pompeia ao lado de Sarah Abreu, com quem compartilha projeto de resgate e preservação da obra de Cascatinha e Inhana.
Wilson e Sarah cantaram no primeiro bloco do programa que ainda não tem data definida para ir ao ar. “Índia” foi a primeira música do repertório da consagrada dupla que ambos relembraram. Depois, a pedido de Boldrin, o publico ouviu “Meu primeiro amor”. A guarânia “Colcha de retalhos” finalizou a gravação sob efusivos aplausos da plateia e do próprio Sr. Brasil. A viola de Wilson Teixeira e a voz de Sarah Abreu, que faz parte do grupo Nhambuzim, tiveram o competente apoio dos companheiros de estrada Vinícius Bini, Walter Bini e Thadeu Romano.

Wilson Teixeira sustenta uma carreira independente que desponta como uma das mais promissoras e primorosas entre os violeiros da atualidade que se dedicam a preservar a música de raiz, de alma caipira, aquela que faz jus ao rótulo sertaneja. Suas composições e jeito de tocar também evocam e flertam com muita qualidade com o blues e com o folk conforme comprovam a maioria das faixas do seu curto, mas premiado álbum de estreia, “Almanaque Rural”, de 2006. As 10 composições gravadas com apoio de amigos e de admiradores renderam a ele, em 2013, um dos troféus de melhor disco solo do III Prêmio Rozini de Excelência de Música de Viola. Wilson Teixeira recebeu a homenagem em 17 de junho, no Memorial da América Latina, em solenidade de gala encerrada com show de Almir Sater.

Wilson Teixeira e Sarah Abreu relembraram três clássicos de Cascatinha e Inhana no palco do Sr.Brasil (Foto: Marcelino Lima)

Natural de Avaré, residente em São Paulo, Wilson Teixeira prepara o segundo disco. A exemplo de “Almanaque Rural” deverá sair do próprio bolso  e deverá ser lançado ainda em 2014. E está, ainda, engajado a projeto pessoal de resgate das memórias e obras de Tonico e Tinoco, integra o “4 Cantos” ao lado dos também exímios violeiros e compositores Cláudio Lacerda (São Paulo), Luiz Salgado (Pato de Minas) e Rodrigo Zanc (Araraquara/São Carlos).

Wilson Teixeira já participou de e venceu vários festivais de viola, entre os quais o de Tatuí, com a música “No último pé do pomar”. Ao final de abril,  ao lado de parceiros de estrada como Jonavo e Tuia Lencioni, além de Chico Teixeira e o pai Renato (apesar do sobrenome, os três não têm parentesco, ao menos sanguíneo), ele passou pelo palco do Bourbon Street, consagrada casa de shows de Moema que já recebeu B.B.King. Durante 4 horas, foi uma das estrelas da Festa Folk Brasil. Os irmãos Bini também estavam lá.

Foi em festivais pelo Interior paulista que Wilson Teixeira conheceu Sarah Abreu, com quem voltou pela terceira vez ao palco do Sr. Brasil. A voz de Sarah é uma das condutoras dos cantos do Nhambuzim, grupo que em 2008 lançou “Rosário: Canções Inspiradas no Sertão de Guimarães Rosa”, pelo selo Paulus.

O álbum é inspirado na obra do escritor mineiro e foi lançado em 27 de junho daquele ano, data do centenário do nascimento do filho ilustre de Codisburgo. O show teve entrada franca, no Centro Cultural São Paulo, e apresentou as 17 canções das quais duas pertencem à tradição oral do norte das Alterosas (“Aboio”, originalmente entoada pelo vaqueiro Manuelzão, e “Encomendação de Almas”). Outro par é contribuição de Milton Nascimento e Caetano Veloso (“A Terceira Margem do Rio”), e João de Aquino e Paulo César Pinheiro (“Sagarana”), interpretada por Clara Nunes.

O Nhambuzim mescla gêneros e linguagens partindo de elementos da cultura regional inseridos em contexto contemporâneo. Assim pode-se notar nas faixas toques de jazz e de música erudita, apoiados em arranjos vocais e nas conexões da música popular com narrativas regionais e contação de histórias. Em “Rosário” soam aboios, cantos de rezadeiras, congadas, catiras, moçambiques e folia de reis. Em matéria assinada para a versão digital do “Correio Popular”, de Campinas, Carlota Cafieiro observa que as letras evocam Guimarães a partir do olhar dos compositores do grupo. Ainda de acordo com a jornalista, enquanto “Pé no Chão” é inspirada no livro “Manuelzão e Miguilim”, “Redenção” bebe do conto “A Hora e Vez de Augusto Matraga”. “Acerto de Contas”, por sua vez, surgiu de “Grande Sertão: Veredas”, continua Carlota. Há, por fim, as participações de Renato Braz (“Um Miguilim”), do mestre violeiro Paulo Freire (“Sagarana” e “Nonada de Mim“) e do acordeonista Gabriel Levy (“Arvorecer“).

O grupo Nhambuzim tem nascimento lavrado em 2002. Desde então vem caminhando com André Oliveira (percussão), Edson Penha (voz e berrante), Itamar Pereira (baixo), Joel Teixeira (voz, viola e violão), Rafael Mota (percussão) Xavier Bartaburu (piano e arranjos vocais) e Sarah. Em outubro de 2012, eles lançaram “Bichos de Cá” (Canções para os bichos do Brasil).

Sarah também tem carreira solo e nesta estrada, entre outros projetos, revelou a Boldrin que está estudando a obra do músico e compositor norte-americano nascido em Indiana Cole Porter (1891-1964). Pela plataforma de financiamento coletivo “Catarse”, sistema conhecido por crowfunding, está em campanha de arrecadação para gravar “Violeta: terna e eterna”, trabalho que dedicará à memória de Violeta Parra.

Para saber mais sobre o Nhambuzim e Sarah Abreu:

http://nhambuzim.wordpress.com/
http://povosdamusica.blogspot.com.br/2009/05/nhambuzim-rosario-2008.html
http://www.nhambuzim.com/
https://pt-br.facebook.com/pages/Nhambuzim
http://catarse.me/pt/violetaparra2

Para saber mais sobre Wilson Teixeira:
www.wilsonteixeira.mus.br

Para saber mais sobre Cascatinha e Inhana

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cascatinha_%26_Inhana
http://letras.mus.br/cascatinha-e-inhana/

Colabore com o projeto “Violeta – Terna e Eterna”!

Sarah Abreu integra o "Nhambuzim" e canta em projeto de tributo a Cascatinha e Inhana, ao lado de Wilson Teixeira
Sarah Abreu integra o “Nhambuzim” e canta em projeto de tributo a Cascatinha e Inhana, ao lado de Wilson Teixeira

Até 27 de junho ainda será possível colaborar com o projeto de gravação do álbum “Violeta – Terna e Eterna, por meio do qual a cantora e professora de canto Sarah Abreu pretende homenagear Violeta Parra, artista chilena e uma das maiores referências da cultura latino-americana em todos os tempos. A captação dos recursos necessários está sendo feita pela plataforma de financiamentos coletivos Catarse, e, até o momento, já recebeu 51 adesões.

Compositora, pesquisadora, instrumentista, tecelã, ceramista, figura comprometida com as causas sociais de seu tempo, incansável batalhadora, Violeta Parra ficou conhecida no Brasil pelo Tarancón, pelas vozes de Milton Nascimento, Mercedes Sosa e Elis Regina, profundos representantes da música de nosso continente. Músicas como ”Volver a los 17”, “Gracias a la Vida” e “Casamiento de Negros” fazem parte do universo de toda uma geração dos anos da década de 1970 e merecem ser conhecidas pelas novas gerações pela sua beleza estética e importância histórica.

Sarah Abreu é integrante do Nhambuzim e tem participações em vários outros álbuns. Em maio, ao lado de Wilson Teixeira, gravou participação no programa Sr. Brasil, de Rolando Boldrin, ainda não levado ao ar. Naquela ocasião, os convidados cantaram três sucessos consagrados pela dupla Cascatinha e Inhana.

Chega a vez de Ribeirão ouvir “Fruto da Lida”

Zanc em apresentação de “Fruto da Lida” (Marcelino Lima, SESC de Piracicaba, abril de 2014)

As músicas de “Fruto da Lida”, novo álbum de Rodrigo Zanc,  serão apresentadas ao público do SESC de Ribeirão Preto neste sábado, 14, a partir das 16h30. O disco de 2013 é o segundo da carreira do violeiro de Araraquara radicado em São Carlos e traz composições dele com Isaías Andrade, Wolf Maia, Ricieri Nascimento e Cláudio Lacerda, além da regravação de “Quem saberia perder”, de Ivan Lins, que fez parte da trilha sonora da novela Pantanal” (1990) interpretada por Sá e Guarabyra. Em seus vários shows, Rodrigo Zanc também brinda o público com sucessos consagrados por outros artistas, como “Bandeira do Divino”, além de faixas de “Pendenga”, primeiro disco da carreira.

O SESC de Ribeirão Preto fica na rua Tibiriçá, 50, Centro. A entrada é franca.

 

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Paulo Mourão lança novo álbum em BH

O violeiro Paulo Mourão faz temporada de 13 a 16 de junho na Assembleia Legislativa de Minas Gerais para lançar “Flores e Feridas”, com shows sempre a partir das 21 horas. Mourão já tem gravados os álbuns “Brilhantes Pedras Finas”, “Grande Viagem de Luz”, “Minas é Gerais” e “Os “Caboclos da Mata”. A música “Carroças do Tempo”, que faz parte de “Brilhantes Pedras Finas”, integra o álbum com a seleção as melhores do 2º Prêmio Syngenta de Música Instrumental de Viola.  Paulo Mourão lança novo álbum em BH

Tião Mineiro comemora 50 anos de estrada

Tião Mineiro será homenageado pelo show "Acordar com os passarinhos"
Tião Mineiro será homenageado pelo show “Acordar com os passarinhos”

Neste domingo, 15 de junho, uma cantoria para lá de especial, marcada para começar por volta das 17 horas, à beira do rio Atibaia, no distrito de Sousas, em Campinas, está programada para festejar os 50 anos de carreira do mestre Tião Mineiro, o querido Sebastião Vitor Rosa. Vai ter viola , sanfona, batuque, folia de reis e presenças ilustres como dos violeiros João Arruda e Levi Ramiro, entre outros convidados para abrilhantar o show “Acordar com os passarinhos”. Parabéns ao mestre!

Noite para contar aos netos!

A noite de 4 de junho ficará na memória! Estive no teatro do SESC Pompeia e em privilegiado assento na primeira fila acompanhei a gravação de mais uma participação do Rodrigo Zanc para o programa Sr. Brasil. Ao meu lado estavam Wilson Teixeira, Cláudio Lacerda, Andreia Regina Beillo, Elisa Espíndola, Enos Emerick, Isaías Andrade e tantos outros bons amigos.

Zanc cantou três faixas de "Fruto da Lida"
Zanc cantou três faixas de “Fruto da Lida”

Zanc cantou com apoio de Bruno Bernini, Thadeu Romano e Thiago Carreri as faixas “Eu sou da roça”, “Entalhes da Vida” e “Luz das Candeias”, contidas em “Fruto da Lida”, lançado em outubro de 2013. Este é o segundo trabalho do compositor de Araraquara, atualmente morando em São Carlos. Em 2006, Zanc colhera do seu variado e fértil pomar o álbum “Pendenga”.

O anfitrião, Rolando Boldrin, estava ainda melhor do que sempre é. Descontraído, iniciou o programa com o poema de sua autoria “Vamos tirar o Brasil da gaveta”. Assim que Zanc concluiu a primeira canção, Boldrin solicitou a viola do convidado e por um instante mostrou para a plateia o quanto é exímio no trato com as cordas. Era apenas uma “palhinha”, um “esquenta” para o ponto alto que ocorreria no terceiro bloco, quando brindou o público com duas composições dele. Que honra foi presenciar o próprio criador há apenas alguns metros cantando e tocando com brilhosos olhos de felicidade, como quem realmente se sente entre amigos, sua peça mais famosa: “Vide e Vida Marvada”! Moço vai ouvindo, vai ouvindo: não sei como contive as lágrimas por tamanha benção caída do céu, onde com certeza, Deus repetia o refrão fazendo um sinal de positivo para São Pedro “é que a viola fala alto no meu peito humano…”

Boldrin contou causos divertidíssimos e cantou "Vide e Vida Marvada".
Boldrin contou causos divertidíssimos e cantou “Vide e Vida Marvada”.

Não chorei, mas como ri e gargalhei de até perder fôlego. Aliás, mentira: chorei sim, mas de tanto rachar o bico com os causos que Boldrin contou já que meus dois de ver ficaram bem marejados. Uma das anedotas era sobre um caipira que resolveu criar uma galinha “americana”, gringa da crista aos pés, altiva, de olhos verdes, lavada a xampu e, perfumosa. Ao chegar ao galinheiro onde já “veviam” algumas aves brasileiras depenadas, feias, magras, piolhentas, a nova moradora bota banca, marrenta e com saracoteios de superioridade joga terra nos olhos das veteranas ao ciscar, entre outras hilárias tentativas de se impor.

Só estes momentos valeriam pelo valor do ingresso — que, se por acaso fosse cobrado, teria sido muito bem pago. Lucas Ventania, Daniel Franciscão e Sérgio Turcão ocuparam o palco durante o segundo bloco para a apresentação de mais três músicas. Ventania narrou que adotou como artista o nome antigo da aprazível cidade de Minas Gerais da qual saiu para a estrada. O município, atualmente, é Alpinópolis, cantinho emoldurado por montanhas na porção Norte das Alterosas.

 Lucas Ventania é de Alpinópolis (MG), antiga cidade cujo antigo nome ele adotou para tocar viola
Lucas Ventania é de Alpinópolis (MG), cidade cujo antigo nome ele adotou para tocar viola

Além dos mimos para Boldrin (uma “branquinha”, pimenta cumaru curtida em cachaça, queijo, uma colherzinha de madeira para os goles), o violeiro trouxe na bagagem os três álbuns da carreira e uma gaita. Com o instrumento de boca, Ventania iniciou a execução de “Peão”, sucesso de Almir Sater e Renato Teixeira, atendendo ao pedido do Sr. Brasil. Antes cantara “Orgulhosa” (Nhô Pai e Mário Zan) e “Felicidade de Caboclo” (Liu e Léo). Boldrin ainda fez uma reverência a Nhô Pai, abrindo esta parte do programa cantando, em coro com a plateia “Beijinho Doce”.

Encerradas as apresentações, a poesia das cantorias virou prosa no camarim. Entre um gole de café, novos e pitorescos causos ou piadas cheia de picardia e bom humor todos os convidados se confraternizaram, com Cláudio Lacerda e Wilson Teixeira reforçando a talentosa roda. Elogios mútuos e troca de gentilezas não faltaram. Turcão (integrante da famosa dupla com Jyca) e Daniel Franciscão (um dos membros da Orquestra de Violeiros Terra da Uva, de Jundiaí), por exemplo, presentearam este blogueiro com exemplares de álbuns de suas carreiras, pelos quais agradeço muitíssimo!

O Sr. Brasil gravado em 4 de junho ainda não tem data para ir ao ar. Mas fique atento às chamadas da TV Cultura e, enquanto ele não rola, vá curtindo outros que já estão programados e que costumam ser apresentados aos domingos, a partir das 10 horas, com reapresentação na quarta-feira posterior, a partir das 22 horas.

Agradecimentos especiais a Patrícia Maia Boldrin, produtora do Sr. Brasil, pela acolhida tão especial e simpatia.

Da dir. para a esq.: Bruno Bernini, Thadeu Romano, Thiago Carreri, Rodrigo Zanc e o Sr. Brasil, Rolando Boldrin
Da dir. para a esq.: Bruno Bernini, Thadeu Romano, Thiago Carreri, Rodrigo Zanc e o Sr. Brasil, Rolando Boldrin
Da dir. para a esq.: Sérgio Turcão, Daniel Franciscão, Lucas Ventania e Rolando Boldrin
Da dir. para a esq.: Sérgio Turcão, Daniel Franciscão, Lucas Ventania e Rolando Boldrin

 

 

 

Sepultura e Iron Maiden com sotaques caipira

Vignini e Zé Helder durante a apresentação no SESC Osasco
Vignini e Zé Helder durante a apresentação no SESC Osasco

O SESC Osasco trouxe a dupla Ricardo Vignini e Zé Helder na quinta-feira, 5 de junho, para a abertura do projeto “Caldo com Sons Brasileiros”. Ambos os violeiros integram o “Matuto Moderno”, banda reconhecida pela fusão da sonoridade da música caipira com clássicos do rock e se juntaram para tocar no Deck da Cafeteria faixas do premiado álbum “Moda de Rock – Viola Extrema”, gravado em 2011. O show começou com “Aces High“, do Iron Maiden. Depois o público curtiu momentos de raro virtuosismo com ambos dedilhando nas 10 cordas entre outros conjuntos cultuados pelos roqueiros de todas as idades Sepultura, Led Zeppelin e Pink Floyd, da qual emendaram magistralmente “In the flash“, do “The Wall”, com “Saudades de Matão“, composta em 1904 por Jorge Galati, maestro da banda brasileira Italo-Araraquara.

Ricardo Vignini
Ricardo Vignini

Vignini e Zé Helder, professores de viola, ainda tocaram Tião Carreiro, Índio Cachoeira e Gedeão da Viola. The Rolling Stones e “Matuto Moderno” também foram lembrados. Da segunda banda, que já tem 15 anos de estrada a música escolhida, “Topada”, é parceria de Vignini com  André Abujamra, ex-“Os Mulheres Negras”. O encerramento homenageou amantes da música clássica com a execução da Nona Sinfonia de Bethoven. Desta, brotou “Aqualung”, do Jethro Tull. O bis rolou com “Norwegian Wood”, de “Rubber Soul” (1965), um dos mais famosos trabalhos do The Beatles. Esta foi a primeira música que George Harrison utilizou sua cítara.

Quem perdeu a apresentação não precisa se lamentar. Os violeiros Ricardo Vignini e Zé Helder estarão de volta ao mesmo palco em 26 de julho, a partir das 19 horas, em mais uma ediçãodo projeto “Viola com Sons Brasileiros”.

Zé Helder
Zé Helder