Subtotal grava com Edvaldo Santana álbum ao vivo

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O acervo do Barulho d’Água acaba de ser enriquecido com o álbum M.úsica P.ropositalmente B.izarra, enviado pelos manos Drausio e Douglas Silva, de Oz, nome pelo qual popularmente é conhecida Osasco, cidade da Grande São Paulo onde já comi muita grama, mas que tem talentos brotando em todas as áreas desde bem antes da chegada do trem trazido por Antonio Agu. Entre estes poetas, compositores e músicos oriundi estão os irmãos do Grupo Subtotal, que nos enviaram um exemplar do álbum e do DVD simultaneamente gravados ao vivo em agosto de 2012, no SESC Belenzinho. O trabalho é biscoito fino, com duas letras assinadas pelo Drausião em poemas com o saltimbanco Paulo Netho, parceiro do também músico Salatiel Silva no projeto “Balaio de Dois”.

Para tornar o trabalho ainda mais instigante, o Subtotal convidou Edvaldo Santana, camarada lá de São Miguel Paulista cuja obra retrata o cotidiano das periferias em sambas, baladas, rock, folk, blues e que neste blog vai sempre navegar na janelinha da canoa. Santana canta “Raios do Oriente Médio” e, depois, no encerramento, volta com “Quem é que não quer ser feliz”.

Tá dado o recado Douglas, Dráuzio, Gilberto Campos, Jurah di Anin, Marco Soledade (Pepito). Agora é degustar umas empadas e umas brejas lá no Sr. Glutton por conta do Sala e do Paulo Netho…

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Capa do primeiro álbum do Subtotal, gravado ao vivo, no SESC Pinheiros em agosto de 2012, com participação de Edvaldo Santana e letras do poeta Paulo Netho

 

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Festa junina do Pinheiros recebe Wilson Teixeira

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Teixeira é autor de “Almanaque Rural” e um dos melhores violeiros da atualidade (Foto de Nalu Fernandes)

 

Um dos shows da festa junina deste ano do Esporte Clube Pinheiros deste domingo, 29 de junho, Dia de São Pedro, terá como atração o cantor e compositor Wilson Teixeira. O autor de “Almanaque Rural” desembarca de Americana (SP), onde tocou ontem com os irmãos Vinícius e Walter Bini para ocupar o palco a partir das 15h30. Geraldo Azevedo cantará em seguida a Teixeira, dono de promissora carreira que além do trabalho solo inclui, ainda, participação no projeto 4 Cantos e tributos a Tonico e Tinoco e a Cascatinha e Inhana, este em parceria com Sarah Abreu.

Além de comidas e brincadeiras típicas, há atrações musicais no arraial do Pinheiros, um dos maiores da cidade. O ingresso é vendido apenas aos associados e convidados.

Hoje é dia de louvar o pescador que virou o porteiro do Paraíso

Hoje, 29, é dia de louvor a mais um dos santos motivadores das festas caipiras do mês de junho. O reverenciado, desta vez, é São Pedro, um cara que em vida teria sido turrão, mas por cuja simplicidade, bondade e força Jesus se encantou a ponto de enxergar no pescador de Cafarnaum qualidades para ser a viga mestra de apoio à doutrina que pregava e o líder dos seus apóstolos. Assim, tornou-se o primeiro discípulo do carpinteiro nascido em Nazaré, e, de acordo com a fé popular, santo cujas barbas todos nós, fatalmente, iremos ver no dia em que tivermos de prestar contas de nossos atos terrenos. Ele possui a chave do reino do Céu e só abre o portão de entrada para o Paraíso a quem no balanço não apresentar a mesma sorte da maioria daqueles que mantém uma conta bancária.

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O pescador de Cafarnaum, que chamava-se Simão ao ser convocado por Jesus, tem na mão esquerda a chave do Paraíso e a atribuição de controlar as chuvas

São Pedro ainda seria o chefe da ACC (Agência Celeste de Chuvas), o controlador lá em cima das torneiras, mangueiras e chuveiros que despencam água cá em baixo, às vezes em volume tão intenso que, dependendo de onde se vive, a consequência é uma desgraceira só! Esta função, por sinal tem trazido muita dor de cabeça e rendido nos últimos meses injustas cobranças à sentinela cuja espada decepou uma das orelhas de um centurião romano encarregado de levar Jesus ao suplício. Pois é: Pedro virou Cristo de políticos que cochilaram durante a vigília, e, por falta de planejamento, não promoveram obras capazes de poupar a maior região metropolitana do país de uma seca que ainda pode vir a ser dos infernos! Nesta porção de São Paulo ameaçada de racionamento de água situa-se, por sinal, Carapicuíba, uma das cidades brasileiras que cultuam São Pedro como Padroeiro.

Álbum de estreia do “Vozes Bugras” está disponível em várias lojas

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O grupo Vozes Bugras surgiu em 2002 e já possui dois discos gravados, “Folia”, e “Vozes Bugras” (Foto: Ulisses Matandos)

Amigos: o grupo Vozes Bugras, formado por sete belas aves cantadeiras, lançou recentemente o álbum “Folia”, com show no teatro do antigo Cine Olido. Este é o segundo trabalho das meninas que estão juntas desde 2002 e têm como norte de pesquisas dos repertórios a valorização de canções, contos, ritos, mitos e lendas que remetem à identidade mestiça brasileira. É uma delicada tarefa, por meio da qual  se busca renovar a cada apresentação o sentido de rituais ancestrais, celebrando a riqueza e a diversidade de nossas raízes culturais, e promover a reflexão sobre o sagrado e o feminino no nosso legado cultural.

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Cada do primeiro CD

“Folia” antecede o abre-alas “Vozes Bugras”, que ao ser gravado contou com participação especial de alguns instrumentistas, a percussão do Barbatuques, a craviola de Stenio Mendes e a voz de Marcelo Pretto. Sobre ele, um aviso: elas não dispõem mais de cópias para venda direta, mas o disco pode ser encontrado em várias lojas espalhadas pelo Brasil. Aqui em Sampa um endereço certo é o da Livraria da Vila da Fradique Coutinho, na Vila Madalena, e o da Cultura do Shopping Villa Lobos. Clique agora Vozes Bugras”, abra o linque com os endereços de todos os locais onde o álbum poderá ser localizado e entre as cantigas e canções ouça, por exemplo, a bela lenda da curumim tupi-guarani Mani, cujo pai despreza e acaba tornando-se alimento para a tribo, um dos mais belos mitos de nossa cultura.

Ricardo Vignini e Zé Helder voltam a Osasco e anunciam “Moda de Rock 2”

Na noite de ontem, 26 de junho, o Barulho d’Água acompanhou a segunda apresentação dos músicos e professores de viola caipira Ricardo Vignini e Zé Helder, que voltaram ao Deck da Cafeteria, espaço para pequenas apresentações do SESC Osasco, mais uma vez para mostrar ao público as músicas do “Moda de Rock-Viola Extrema”. Para quem ainda não conhece este trabalho, uma breve descrição: a dupla toca sucessos de bandas e de expoentes do rock mundial, adaptadas para as dez cordas do instrumento que talvez melhor represente o Brasil, embora a viola tenha raízes ibéricas.

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O repertório do álbum, gravado em 2011, é de tirar o chapéu. Rola Led Zeppelin (Kashmir), Pink Floyd (In the Flash), Iron Maiden (Aces High), Mettallica (Master of Pupets), Sepultura (Kaiowas), Jethro Tull (Aqualung), Norwegian Wood (The Beatles), e Jimi Hendrix (May this be love) entre outros. Além destes clássicos, Ricardo Vignini e Zé Helder ainda brindam a plateia com Ramones, The Rolling Stones, Matuto Moderno e até a Quinta Sinfonia de Ludwig van Beethoven e pagodes de Tião Carreiro, Índio Cachoeira e Gedeão da Viola. No retorno ao SESC após três semanas para mais uma edição do projeto “Caldos com Sons Brasileiros”, eles informaram que o segundo volume de “Moda de Rock – Viola Extrema” já é projeto jurado e sacramentado e chegará em breve, com direito, inclusive, a faixas como “Why Worry”, do famoso álbum “Brothers in Arms”, do Dire Straits, quase uma cantiga de ninar que Sir Mark Knopfler toca utilizando um violão metálico National.

O primeiro “Moda de Rock-Viola Extrema”, possui ainda uma versão em DVD e outra gravada ao vivo no Teatro do SESC Pinheiros, em junho de 2011. Naquela ocasião, Vignini e Zé Helder contaram no palco com uma participação ilustre, o guitarrista Pepeu Gomes. O bom soteropolitano que encanta várias gerações mostrou toda sua arte e manhas em “Bilhete para Didi” (Jorginho Gomes), “May this be love”, do Hendrix, e ainda “Preta Pretinha”, de Moraes Moreira e Luiz Galvão. MK_guitars_nationalreissue

As apresentações de Ricardo Vignini e Zé Helder, que integram ainda a banda Matuto Moderno, merecem adjetivos maiores que a reducionista expressão “show”. Classificá-los como concertos a quatro mãos, talvez, faça mais jus ao que os caras tiram e como tiram das violas, explorando todas as possibilidades melódicas dos cinco pares de arames metodicamente afinados e bem entrosados. Neste sentido, são produções que merecem ser curtidas em total estado de concentração, pois são capazes, inclusive, de nos fazer transcender o ordinário. Sobre esta observação, por sinal, cabe nestas mal traçadas linhas um puxão de orelhas na direção do SESC de Osasco, que na noite de ontem por um triz quase melou o clima de contemplação programando simultaneamente ao “Caldos com Sabor Brasileiro” mais uma sessão do “Cine Chaparral”. Os diálogos da crônica “Boleiros”, uma joia de película do Ugo Georgetti que estava sendo exibido ao ar livre, a poucos metros do Deck da Cafeteria, em vários momentos sobrepuseram-se às violas, cortando a onda e atrapalhando a relação. O pior é que não é a primeira vez que isto ocorre…

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Beethoven e Dire Straits, do sir Mark Knopfler (acima, à esq.), vão pintar no Moda de Rock 2, de Vignini (dir.) e Zé Helder (Fotos da dupla: Marcelino Lima)
Foto de Marcelino Lima
Ricardo Vignini e Zé Helder entre admiradores do “Moda de Rock”: com ambos as novas gerações aprendem a tocar rock na viola caipira, mas primeiro conhecem os pagodes de Tião Carreiro, Índio Cachoeira e Gedeão da Viola

 

 

 

 

 

Edvaldo Santana levanta a camiseta e presta homenagem a parceiro em blues do “Jataí”

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Edvaldo Santana: carreira chega aos 40 anos e ele segue tocando música redonda e de primeira, sem firulas

Edvaldo Santana é um daqueles caras sangue bom, que chega aos 40 anos de carreira como quem, quase como brincadeira, segue fazendo boa música e jogando muita bola. E a parte toda a genialidade de suas composições que vão do baião ao folk, passando por sambas que retratam o cotidiano das periferias, é ainda um homem grato, reconhece não ter vencido sozinho: tabelou rumo ao sucesso com e teve muitos “carregadores de piano” a apoia-lo, craques que rolaram a pelota para ele estufar as redes e sair para o abraço, consagrado.

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O amigo Waldir Aguiar, um ponta de lança que tabelava com Edvaldo e sempre o colocava na cara do gol

Um destes parceiros Santana homenageia na música cuja letra e linque seguem abaixo“Ai Joe”, blues que escreveu  em memória do amigo e produtor Waldir Aguiar, faz parte do sétimo disco do paulistano da cidade de São Miguel Paulista, o ótimo “Jataí”, em cuja gravação cantou e fez embaixadas ao violão com o auxilio luxuoso do pianista Daniel Szafran.

 

 

Ai Joe

Foi chegando como se não quisesse nada meu bom
Foi deixando o papo rolar no vapor
Se instalou no fundo da casa na cadeira sentou
Bebeu todo wisque da mesa e sonhou
Bebeu todo wisque da mesa e sonhou

Tava Baudelaire muita gente de pé
Tinha até irlandês no Bloomsday
Com colar de pajé 


Levantou a poeira do solo sagrado
Pegou sua voz e voou
Foi pra Vila cantar Jorge Amado Oxalá e Nono

Ai Joe onde é que você anda?
Na última que eu te vi
Nós fechamos o bar
Aí Joe onde é que você anda?
Naquela noite sem fim
Você queria falar

 

http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/edvaldo-santana/ai-joe/2520432

 

Bebericando nos ribeirões e fazendo samba de primeira, Osni Ribeiro se afirma em Botucatu

Botucatu, município de São Paulo no qual viveu Angelino de Oliveira, compositor de Tristeza do Jeca”, é também a terra natal de Osni Ribeiro, um dos mais versáteis violeiros da atual safra paulista e entre os que se dedicam no país à preservação da música de raiz. Presença marcante em vários festivais nacionais na década dos anos 1990, nas composições de Ribeiro ecoam tendências das mais variadas. O samba, inclusive, pelo qual transita com desenvoltura como se comprova ouvindo um dos álbuns de sua carreira, “Bebericando”, no qual o gênero está representado pela faixa título, “Samba,e, i, o, u” e “Me chama que eu vou”, um hino em homenagem ao Corinthians, time do coração.

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Osni Ribeiro, à direita, com Rubens Brito, durante show que ambos promoveram em 2012

A intimidade com a viola caipira e a valorização das origens interioranas, entretanto, formaram ao longo da vida de Osni Ribeiro laços mais estreitos, refletem-se com mais intensidade no repertório que ele vem construindo ao longo da carreira que já completou mais de duas décadas. As criações incluem canções do disco “Gênesis”, trilhas sonoras e temas para documentários como “Encontro das Águas”, da EPTV, revelam-nos a sua veia poética em composições primorosas como “Realeza” (com a qual disputou a edição de 1997 do Festival de Música e Poesia de Paranavaí, no Paraná), “Azuis reflexos” e “Viola afinada ao fim do dia”, todas integrantes de “Bebericando”.

O linque abaixo permite ouvir “Brinquedo”, cuja letra é uma síntese de todas as qualidades de quem para arrematar ainda produz modas nas quais paixões e envolvimentos amorosos passam longe do modismo,  não são derramados em rimas pobres e de gosto duvidoso, mas sim apresentados com sutileza e intimismo, exaltam a vida e nos convida a viver com mais alegrias e prazeres.

https://soundcloud.com/osni-ribeiro/brinquedo

Ricardo Vignini e Zé Helder retornam a Osasco com “Moda de Rock”

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Ricardo Vignini e Zé Helder tocam em violas caipiras clássicos do rock mundial

    Hoje, 26 de junho, a partir das 19 horas, tem mais uma edição do projeto “Caldos com Sons Brasileiros” no Deck da Cafeteria do SESC de Osasco. A atração, na verdade, as atrações, são mais uma vez Ricardo Vignini e Zé Helder, dupla integrantes da banda “Matuto Moderno”, reconhecida pela fusão da sonoridade da música caipira com o rock.  Ambos já tocaram naquele espaço  em 5 de junho e estarão de volta para mais uma vez apresentar ao público músicas de “Moda de Rock – Viola Extrema”, álbum gravado em 2011 no qual os músicos resgatam suas origens roqueiras interpretadas ao som da viola caipira de 10 cordas.

Foto: Ulisses Matandos

 

Wilson Dias apresenta “Mucuta” no Teatro Anchieta, do SESC Consolação

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Wilson Dias toca com simplicidade, mas tem técnica apurada e com a viola em mãos parece se elevar e trazer lá de dentro toda sua força e espiritualidade

 Olá amigos e seguidores!

Estou adicionando  ao Barulho d’Água Música por meio dos linques abaixo dois vídeos em que Wilson Dias, de Olhos d’Água (MG), apresenta toda a sua técnica de violeiro que transita entre o tradicional e o moderno, tocando com sensibilidade e entrega músicas de sua autoria as quais, em vários momentos, soam como peças de composição clássica de rara beleza. Em ambos há informações e depoimentos sobre a carreira que já resultou em seis discos gravados, as dificuldades do começo da vida pessoal em uma cidade do Vale do Jequitinhonha onde faltava na infância água e luz elétrica e ele precisava caminhar 16 quilômetros para ir à escola, por exemplo, e o envolvimento desde pequeno com a preservação da natureza e a divulgação da cultura do norte mineiro, motivado pelo ambiente familiar no qual a música e elementos da religiosidade,  os costumes e o comportamento típicos de um sertanejo que luta com tenacidade pela sobrevivência e sua afirmação no mundo sempre regavam as descobertas e apontavam os caminhos que o menino, mais tarde, viria a  seguir.

O primeiro vídeo, de pouco mais de 25 minutos, produzido pelo SESC para o programa “Passagem de Som”, mostra Wilson Dias em três ocasiões, nas quais em duas está em companhia do amigo e também violeiro Levi Ramiro. Em Campinas, ambos haviam acabado de encerrar um show do Projeto Café com Viola, no SESC local, quando começaram uma agradável prosa com Luís Franco, conhecido no meio por “Candeeiro”. Na sequência, Wilson e Levi aparecem narrando histórias pessoais e pitorescas no apartamento localizado em São Paulo do cardiologista e igualmente violeiro Júlio Santin. Os três revelam curiosidades como a alegria de ver chegar à casa da avó o primeiro lampião a gás (“que iluminava mais do que a lamparina”), os primórdios da música caipira em São Paulo (cuja origem se localiza no triângulo formado por Botucatu, Piracicaba e Sorocaba, cidades nas quais se encontram os primeiros registros fonográficos deste gênero em todo o Estado) e a inspiração para seguir a mesma trilha do pai, esteio e ídolo para o qual um deles afinava a viola utilizada em cantorias durante as quais este filho também tinha a oportunidade de ver a mãe cantar, acompanhando o marido festeiro.

O terceiro momento, ainda do primeiro vídeo, traz imagens do  bate-papo e do ensaio de Wilson Dias e dos músicos que o acompanhavam, cujas imagens foram captadas horas antes  da apresentação deles no projeto “Instrumental SESC Brasil”, coordenado por Patrícia Palumbo,  no palco do Teatro Anchieta, do SESC Consolação (SP). A gravação na integra daquela edição do SESC Instrumental realizada em 12 de agosto de 2013 é o que se poderá curtir assistindo ao segundo vídeo, durante cuja exibição valerá a pena prestar bastante atenção à narração de Patrícia.

“Neste show relembro cada momento que eu vivi na roça, cada música é uma fotografia da minha vida”, informou Wilson Dias ao público presente. Eu estava na plateia naquela fria noite em que após sofrer as agruras de andar de trem e de metrô em pleno horário de rush noturno, e entrar no Teatro atrasado, com a apresentação já rolando, tive a grata oportunidade de conhecer pessoalmente  Wilson Dias, Augusto Cordeiro (violão), Gladson Braga (percussão), André Siqueira (flauta e violão), e Pedro Gomes (baixo).  Depois viramos amigos, o que é uma satisfação, pois além de talentoso com a viola caipira nas mãos, Wilson Dias é descontraído e, como todo mineiro, tem aquele jeito brejeiro, acolhedor, doce e simpático. Como escrevi acima, algumas das músicas do “Mucuta” tocadas no Teatro Anchieta são verdadeiros concertos, revelam todo o apuro e excelência de Wilson Dias e do seu time que tem a esposa Nilce Gomes sempre atenta e dedicada nos bastidores e no qual a participação do professor da Universidade de Londrina (PR), arranjador e multi-instrumentista  André Siqueira, também merece destaque.  Siqueira é produtor de vários discos do mineiro, entre os quais “Lume”, lançado em novembro do ano passado, com participações de Déa TrancosoNá Ozetti e do poeta e jornalista João Evangelista Rodrigues, senhor compositor que assina várias belezuras do Wilson Dias e de outros bambas como Pereira da Viola.

 

Linques para ver os vídeos:

http://passagemdesom.sesctv.org.br/artistas/wilson-dias/programa-passagem-de-som-em-15-julho-2013

http://www.instrumentalsescbrasil.org.br/artistas/wilson-dias

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Da dir. para a esq.: Siqueira, Pedro Gomes, Wilson Dias, Patrícia Palumbo, Augusto Cordeiro e ao fundo,Gladson Braga (Fotos de Marcelino Lima)

 

Uma vez estrela, sempre estrela, seja na terra, seja no ar

A querida cantora Katya Teixeira compartilhou com seu público e amigos um registro em vídeo de Dércio Marques cantando no programa Brasil Caboclo “Serra da Boa Esperança”, composição de Lamartine Babo, autor de sucessos populares e famosas marchinhas de Carnaval como “O teu cabelo não nega” e dos hinos dos cinco principais clubes do futebol carioca, incluindo o alvirrubro América FC, entre outros. Lamartine Babo, que se casou com Maria José, irmã de Dércio, hoje é aclamado como uma das estrelas de mais intenso fulgor entre os compositores brasileiros de todos os tempos. A constelação, por sinal, é a mesma na qual agora pulsa também toda a magnificência do cunhado, astro de grandeza e brilho não menos cintilante que aquele, cuja voz há dois anos se calou em um fatídico 26 de junho de 2012.

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As canções de Dércio Marques se notabilizam pela defesa da natureza e de valores dos povos mais simples, presentes em congadas e folias de reis

Sempre acompanhei a carreira do mineiro de Uberaba Dércio Marques, mas não tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. Poucos dias depois da morte em um hospital de Salvador, decorrente de complicações após uma cirurgia de retirada de três órgãos vitais, é que soube do ocorrido. E, acreditem, foi por acaso, já que procurava informações sobre outro assunto na internet quando visualizei um linque para a lacônica nota a respeito do óbito. Pasmei: a perda de um ícone como Dércio Marques quase não repercutiu além do círculo mais íntimo de amigos, admiradores, parceiros e familiares; foi tratada como uma pauta menor, corriqueira, sem atenção alguma fora das páginas, dos blogs especializados e dos programas que cultivam o cancioneiro de raiz e iberoamericano, duas das vertentes ao qual ele mais se dedicava na hora de escrever suas obras.

A trajetória marcante e luminosa de Dércio Marques, por sinal, começou a ser traçada em plenos “Anos de Chumbo”, na década dos anos 1970, o que já faz dele alguém cuja biografia merece todo o respeito, assim como se cultua Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Taiguara, por exemplo. Filho de uruguaio, despontou no circuito universitário e independente de shows cantando para os companheiros e para o público canções de Violeta Parra e Atahualpa Yupanqui, entre outros nomes da música do continente. Era um período turbulento demais para letras com cunho libertário e avesso ao poder estabelecido por meio de fuzis, tanques, baionetas e torturas, a ideologização imperava na música popular, mas Dércio assim como Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo escolheu marchar pela contramão, sustentando com coragem bandeiras proibidas entre as quais reivindicações políticas e ligadas à ecologia e à valorização da diversidade da cultura nacional, sem jamais fazer concessões.

E assim seguiu até expirar, sempre com a irmã Dorothy Marques ao seu lado, parceiros como a mencionada Katya Teixeira, João Bá, João do Vale, Paulinho Pedra Azul, Pereira da Viola, Dani Lasalvia, Xangai, Hilton Accioly, Carlos Pita, Milton Edilberto, Luiz Perequê, Diana Pequeno, Elomar, presentes em shows ou assinando com ele letras de conteúdo crítico e identidade. Dércio participou de vários projetos ligados às manifestações do nosso folclore como congado e folia de reis, além de promover entre outros benefícios e bons serviços à sociedade oficinas para crianças e jovens em várias regiões do Brasil. Os álbuns da carreira, como “Fulejo”, “Terra, Vento, Caminho”, “Monjolear”, “Segredos Vegetais”, “Cantigas de Abraçar I e II” não têm ao menos uma faixa em que possa ser acusado de fazer média para afagar meios de comunicação e empresários, nada desvia de seus valores e da sensibilidade de seu modo de olhar desde os pequenos seres até a grandeza de uma floresta que precisa ser preservada; sim, ah, Dércio: tomara que seja verdade, que exista mesmo disco voador que traga até nós um povo inteligente, que valorize a paz e o amor, quiçá tenha lições e soluções a curto prazo para um sistema global de produção e de vida coletiva que já começam a dar sinais de colapso evidenciados por eventos extremos e de proporções calamitosas. Vai ver deriva desta postura engajada o motivo de sua partida ter sido relegada, ofuscada; vai ver tratou-se de uma espécie de troco de emissoras, gravadoras e produtoras que não conseguiram tirar dele compromissos com seus lucros, não conseguiram banalizar seu profícuo trabalho e esvaziar suas mensagens de amor à natureza, aos bichos, aos homens, à vida.

Mas quem nasceu para ser estrela jamais perde o encanto, o viço, a capacidade de orientar, de despertar admiração, de alimentar a poesia, os sonhos. Tal qual os próprios astros que se espalham pelo firmamento, haverá de brilhar ainda por muito tempo. Mesmo que seu corpo já tenha se desintegrado e seja apenas a sua luz que viaje pelo espaço até nossos olhos e corações.