1095 – Lírica, engajada e cáustica, obra de Gonzaguinha ganha brandura e delicadeza na voz de Mirianês Zabot (RS)

“A voz suave de Mirianês Zabot desliza com segurança pelas canções de Gonzaguinha. A delicadeza dos arranjos ressalta um estilo próprio e é mais do que um convite para se deliciar com os dois: Mirianês e Gonzaguinha”.
Regina Echeverria. Jornalista e biógrafa, autora de Gonzaguinha e Gonzagão Uma História Brasileira, em que se baseou o filme Gonzaga De Pai pra Filho.
Marcelino Lima, com  texto de Oscar Pilagallo, jornalista e escritor

No ano em que o país lembrou um 25 anos do adeus prematuro a Gonzaguinha (2016), a cantora Mirianês Zabot “com voz distinta, suave e límpida” renovou entre nós,  amigos e fãs da obra do filho do Velho Lua, a certeza da eterna presença do compositor carioca, conforme observou à época o jornalista e escritor Oscar Pilagallo. Marianês acabar de gravar o álbum que recentemente enviou para o Barulho d’água Música em tributo ao cantor e compositor de Sangrando,  “com um poder balsâmico capaz de ao cantar transformar aspereza em brandura, rascância em delicadeza, derramamento em contenção”, ainda conforme o texto de Pilagallo — que, abaixo, a partir do segundo parágrafo, seguirá na integra. “E tudo isso enquanto, mais do que preservar a essência do cancioneiro do homenageado, empresta-lhe novas e insuspeitadas possibilidades de interpretação.”

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1026 – Clássico do Mês destaca Cicatrizes, álbum crítico do MPB4 desafiador para os anos de chumbo

O Barulho d’água Música fez uma mudança em sua programação e nesta atualização destaca para a quarta edição da série Clássico do Mês um dos álbuns do MPB4, Cicatrizes (1972), deixando para o mês seguinte Ramilonga/A Estética do Frio, do gaúcho Vitor Ramil. Cicatrizes é o sexto título da discografia do grupo formado em 1964 por Miltinho (Milton Lima dos Santos Filho), Magro (Antônio José Waghabi), Aquiles (Aquiles Rique Reis) e Ruy Faria (Ruy Alexandre Faria), todos nascidos no estado do Rio de Janeiro. Dois anos antes, em 1962, Ruy, Aquiles e Miltinho respondiam pelo suporte musical do Centro Popular de Cultura (CPC), da Universidade Federal Fluminense (filiado ao CPC da UNE), em Niterói.

Em 1963, com a adesão de Magro, o trio aumentou e passou a atuar como Quarteto do CPC em casas de espetáculos como a Boate Petit Paris (Niterói, ainda capital do estado da extinta Guanabara), palco da estreia do grupo que também participava à época dos efervescentes festivais de música popular, principalmente ao lado de Chico Buarque. Por conta desta ligação com o músico carioca, censores do regime de exceção tesouraram bastante o trabalho do MPB4 , conforme apontou o Homem Traça, autor do blogue Criatura de Sebo, um dos nichos de resistência da música de qualidade e independente que disponibilizam obras antológicas na blogosfera. Traça ainda comentou que as faixas de Cicatrizes reúnem diversas canções que dão o tom daquele momento político do país, quando muitos defensores da democracia ou caiam presos, eram torturados e mortos ou acabavam exilados. O blogueiro paulistano classifica como exemplar a faixa Pesadelo, para ele um sinal dos tempos, que, infelizmente, também nos atormentam ainda hoje.

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1017 – Débora Leite reverencia Clara Nunes no Centro Cultural Cine São José, em São Roque (SP)*

* Com matéria publicada na revista Retrospectiva 2017 do jornal O Democrata

Clara Nunes, uma das mais consagradas cantoras e intérpretes da música brasileira de todos os tempos, será homenageada pela cantora Débora Leite  na noite de 27 de janeiro, a partir das 20h30, no palco do Centro Cultural Cine São José, situado em São Roque, aprazível cidade do Interior paulista a menos de 60 quilômetros da Capital. Clara Guerreira, que partiu bem antes do combinado, com 41 anos incompletos e no auge do sucesso, deixou para o público que a estimava uma obra composta por ritmos como afoxés e sambas, com fartas referências aos orixás e aos elementos da natureza, além de tributos à Portela, de compositores do naipe de Paulo César Pinheiro, João Bosco, Aldir Blanc e Chico Buarque, entre outros “bambas”. Deste cativante repertório, Débora escolheu canções como Conto de Areia e Canto das Três Raças, que apresentará acompanhada por Rodrigo Ferreira, ao violão, e o percussionista Manu Neto.

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1010 – Consulado da Portela (SP) recolhe composições históricas para registro em seu Acervo Musical

“Se for falar da Portela, hoje não vou terminar!” (Monarco)

O Acervo Musical, projeto do Consulado da Portela de São Paulo, está requisitando a amigos, aos admiradores, aos compositores portelenses e seus parceiros o envio de composições históricas que possuam para registro em uma única plataforma. O objetivo da campanha é garantir o acesso à perpetuação da memória da Águia Altaneira e da enorme comunidade que representa a atual campeã do Carnaval de 2017 (o título foi dividido com a Mocidade Independente de Padre Miguel) tanto no Rio de Janeiro, quanto no Brasil e no resto do mundo.  Para participar basta fazer o cadastro visitando o linque http://www.consuladodaportelasp.com.br/acervo/logar.php

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999 – Paraná guarda com carinho e saudade a obra de Romano Nunes, o Cabelo, desde menino exímio violonista

“O violão de Cabelo vale por uma orquestra inteira. Só assim para dar noção do talento desse músico paranaense. Mas, mesmo prevenido, você ainda pode sofrer de queixo caído quando ouvir a mágica” Beto Feitosa**, crítico musical fluminense

O Paraná despediu-se em 27 de fevereiro de 2015 de João Batista Nunes, um dos mais talentosos e virtuosos multi-instrumentista do Estado. Cabelo, como ficou conhecido pelos admiradores de todo o país, também utilizava o nome artístico Romano Nunes, sofria de trombose e morreu na véspera, em Curitiba, em consequência do entupimento de uma das vias do coração por um coágulo, após sofrer uma queda. O corpo do músico que estava com 65 anos encontra-se sepultado em Jacarezinho– cidade para a qual a família se mudou em 1951 (oriunda da terra natal, Carlópolis) formada pelos pais, Juvêncio Antônio e Rosa, e mais quatro filhos — um deles a menina Maria Margarida, com a qual, aos 7 anos, João Batista já cantava no programa A Bola da Semana, produzido em Jacarezinho. Aos 17 anos, levando entre os itens da bagagem a primeira guitarra elétrica, Cabelo trocou o Interior pela Capital, onde apesar da natureza humilde e tímida amadureceu profissionalmente, desenvolvendo a maior parte da carreira de violonista, de violeiro, de cavaquinista e de guitarrista, além de compositor, diretor musical e arranjador.

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995 – Para além do boto-cor-de-rosa: conheça o Imbaúba, grupo fundado pelo poeta Celdo Braga que canta o universo da Amazônia

“O Brasil não conhece o Brasil”, em uma adaptação do refrão que remete às Querellas do Brasil,  na qual Aldir Blanc e Maurício Tapajós escreveram “O Brazil não conhece o Brasil” para a canção imortalizada por Elis Regina em Transversal do Tempo (1978), é um bordão difícil de contestar em qualquer campo ou assunto artístico-cultural que se ponha em debate na roda. Para ficar apenas no vasto terreiro da música de Pindorama, a se julgar pelas playlists da maioria das emissoras de rádio, ainda vale mais por estes trópicos a frase original de Blanc e Tapajós, aquela com “z”. Em um país que  embora apresente variedade de estilos e de ritmos – que vão do samba ao caipira, do baião ao chamamé, do fandango ao xaxado, do choro ao Clube da Esquina –, tem prevalecido a porcaria movida tanto a jabá, quanto pela preguiça de programadores — se ruins ou sonsos, mesmo, pouca diferença faz. Entretanto, desde que a internet passou a oferecer ferramentas não apenas para divulgar, mas também compartilhar obras e carreiras, os hábitos de consumo e de produção de música vêm mudando, possibilitando a criação de públicos mais críticos, pluralistas e exigentes. E nesta onda blogues e serviços de streaming conseguem democratizar e oferecer (a baixos ou totalmente sem custos) não apenas novidades e lançamentos que a mídia teima em desprezar, sobretudo os alegadamente “independentes”, deixando disponível na rede para serem baixados em tablets, computadores e celulares conteúdos dos mais diversificados, ecléticos e muito, muito bons.

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982 – Tunai e Wagner Tiso apresentam “Saudades da Elis” na estação ferroviária de Poços de Caldas (MG)

Em mais uma rodada do projeto Composição Ferroviária, moradores de Poços de Caldas e região e turistas que estiverem aproveitando o inverno passeando pelo município sul mineiro poderão curtir, gratuitamente, na manhã de domingo, 30 de julho, apresentação dos músicos Tunai e Wagner Tiso, protagonistas do show Saudades da Elis. Antes de eles subirem ao palco do pátio da estação ferroviária, o público terá a oportunidade de matar saudades de músicas que embalam a memória afetiva de várias gerações, recordadas a partir das 10 horas pelo Choro a Dois. O duo é formado por Gabriel Carbonari (violão) e Jéssica Rosado (bandolim), novos talentos que têm encantado a cidade.

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772 – Graça Braga reverencia Candeia e Maria Alcina relembra sucessos de Luiz Gonzaga no Sesc Campo Limpo (SP)

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A irreverente Maria Alcina protagonizará espetáculo em homenagem ao Rei do Baião (Foto: Vinícius Campos e arte da xilogravura em destaque de Ariovaldo Leite)

A unidade do Sesc Campo Limpo programou ótimas atrações musicais para os dias seguintes ao Natal e à entrada do Ano Novo para quem mora em São Paulo e não vai pegar a estrada em viagem de férias ou estiver na cidade ou região metropolitana a passeio. Uma das apresentações dará ao público a oportunidade de curtir Maria Alcina, um dos ícones da cultura brasileira, que levará à plateia em 3 de janeiro uma releitura da obra do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, com entrada franca, a partir das 18h30!

Júnior Meirelles, compositor e multi-instrumentista, abrirá a lista das boas opções no sábado, 26 de dezembro, a partir das 20 horas. A apresentação integra a turnê do projeto Pra Quem Tem Coragem de lançamento do álbum homônimo. O repertório é dos mais vibrantes, combina gêneros tradicionais como o samba e pop com timbres e arranjos contemporâneos de metais possibilitando um encontro que promete curar quem por acaso ainda estiver com ressaca de panetone, de peru e de champanha ou amarrando bode por não ter curtido o presente do amigo-oculto.

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A apresentação de Júnior Meirelles dará sequência à turnê do projeto Pra Quem Tem Coragem de lançamento do álbum homônimo (Foto: Divulgação)

A Poesia Samba Soul, banda liderada por seu fundador, multi-instrumentista e produtor musical Cláudio Miranda, ocupará o palco no domingo, 27, a partir das 18h30. O repertório destacará músicas próprias com pegada dançante dos álbuns Antes Soul do que Mal Acompanhado e Favela da Paz. Claudinho Miranda, Fabio Bass, Pikeno, Paulinho e Hellem Fernandes começaram o projeto em 1988, no extremo sul da cidade de São Paulo, desde então já produziram seis discos e agora estão lançando o terceiro DVD (comemorativo aos 25 anos de estrada) com composições cujas letras transmitem mensagens de incentivo e histórias do cotidiano. A banda já tocou em países como Portugal, Espanha, França, Alemanha e Suíça, muito por conta da música e dos projetos que desenvolve em São Paulo por meio do Instituto Favela da Paz e o Estúdio Áudio Visual, localizado no Jardim Ângela, bairro da zona Sul da cidade.

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Graça Braga: potente voz em reverência a mestres como Candeia, Nelson Cavaquinho, Herivelto Martins e Adoniran Barbosa (Foto: Divulgação)

Graça Braga, que estará no Sesc Campo Limpo  quando os ponteiros cravarem 20 horas do sábado, 2 de janeiro, é intérprete e compositora dona de voz potente. Egressa do Samba da Vela, Graça Braga celebra o compositor Candeia (1935 – 1978), um dos papas do samba carioca, autor de canções como Réu Confesso e Preciso Me Encontrar e participa de vários projetos musicais em São Paulo nos quais presta tributos a Adoniran Barbosa, a Nelson Cavaquinho, e a Herivelto Martins. Eu Sou Brasil, primeiro álbum autoral, lançado em 2007, faturou o Troféu Catavento, reconhecido pela Rádio Cultura como melhor produção independente de samba e melhor música (Dona do Samba, dela em parceria com Paquera). Em 2011, saiu o segundo disco, Dia de Graça – Samba de Candeia, produzido por Thiago Marques Luiz com direção musical de Everson Pessoa, participação de Leci Brandão e Marcos Sacramento. Graça Braga participa também dos CDs 100 Anos de Adoniran Barbosa, 100 Anos de Nelson Cavaquinho e 100 anos de Herivelto Martins.

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Maria Alcina será a estrela de Asa Branca, em tributo ao Velho Lua, que promete interpretar com o merecido respeito, mas sem abrir mão de sua conhecida irreverência para trazer ao público entre mais de 20 sucessos do Rei do Baião clássicos como Paraíba Mulher Macho, Baião, Sabiá e Qui Nem Jiló, com acompanhamento de Olívio Filho (percussão/bateria, violão e o acordeon). A direção artística de Asa Branca será de Fran Carlo,  que também  está à frente de projeto no qual Vânia Bastos reedita o repertório que ela gravara em 1992 Vânia Bastos Cantando Caetano [Veloso].

Natural de Cataguases (MG), Maria Alcina começou a brilhar ainda naquele município antes de se estabelecer na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Os primeiros trabalhos marcaram o chamado “Teatro de Revista”, no qual conviveu e atuou com a atriz Leila Diniz, e em casas de espetáculos. A  projeção nacional veio a partir de 1972 quando gravou Fio Maravilha (Jorge Ben Jor), seguida de interpretações de sucessos de artistas consagrados como Rita Lee, João Bosco e Aldir Blanc e Eduardo Dusek. Em 2003,  Maria Alcina voltou a surpreender fãs e críticos ao gravar Agora com o grupo de música eletrônica Bojo, com direito a participação durante a Feira de Música Popkomn, em Berlim.  Em 2009, a mineira ganhou o Prêmio da Música Brasileira nas categorias de melhor cantora, melhor álbum e melhor produção com Confete e Serpentina.

O Sesc Campo Limpo fica na rua Nossa Senhora do Bom Conselho, 120, a 500 metros da estação Campo Limpo da Linha 5 Lilás do Metrô e do terminal de ônibus do bairro. Para mais informações há o telefone 11 5510-2700.

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759 – Após 38 atrações, entre as quais o Conversa Ribeira, projeto Imagens do Brasil Profundo (SP) entra em recesso

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O Conversa Ribeira, trio formado  desde 2002 por Andrea dos Guimarães (voz), Daniel Muller (piano e acordeom) e João Paulo Amaral (voz e viola caipira) foi atração de encerramento da segunda temporada do Projeto Imagens do Brasil Profundo e se apresentou na quarta-feira, 9, no palco do auditório Rubens Borba de Moraes da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Iniciativa do professor de Sociologia Jair Marcatti, o projeto Imagens do Brasil Profundo estará de volta em 13 abril, e as rodadas em 2016 ocorrerão sempre às quartas-feiras, às 20 horas, com entrada franca.

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739 – Vânia Bastos reedita show que interpreta obra de Caetano Veloso e começa turnê nacional lotando duas noites o Sesc Ipiranga

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Vânia Bastos gravou as canções que canta no show em 1992, mas Caetano Veloso tem um obra atemporal que com a força e beleza da interpretação dela fica ainda mais valorizada e  presente na memória afetiva dos fãs… de ambos! (Fotos acima, no destaque e abaixo: Altiery Monteiro)

Aos fãs de Caetano Veloso, duas boas notícias: o repertório dele está sendo carinhosamente cultivado por uma das cantoras cuja voz está entre as mais marcantes de todos os tempos: Vânia Bastos! Segue, agora, a manchete que estamparemos em nossa capa: Vânia Bastos percorrerá o país para relembrar as onze músicas do álbum Vânia Bastos – Cantando Caetano (gravado em 1992), mescladas a outras composições do autor de Alegria, Alegria e de Grafitti, inclusive sucessos lançados depois do antológico disco. Atentem, por fim, à legenda da matéria especial: com direito à lotação máxima do Sesc Ipiranga (SP), tanto no sábado, 21, quanto no domingo, 22, a turnê já começou!

O Barulho d’água Música acompanhou a segunda apresentação de Vânia Bastos às margens do riacho e concluiu: assim como de uma flor ou do voo de pássaro que estamos “carecas” de ver é possível extrair um haicai, dependendo de como se olhar para eles, uma obra supostamente “esgotada” — posto que já amplamente conhecida e divulgada — pode gerar novos encantamentos sim, sobretudo se interpretada com brilho nos olhos, com a generosidade de quem sentiu o doce e o sal presentes em cada verso e o canta como se fosse seu, usando os melhores recursos artísticos que possui — sem esticar a canção além do tempo, sem nenhum lá-ia-lá-iá ou agudo sobejante; até as caras e bocas e breves coreografias que Vânia Bastos protagoniza como complemento às letras acabam devidamente encaixadas, por fim rimam com a densa e sutil obra que, mais do que interpretar, ela traz, traduz e transmite.

A um recado em cada canção de Caetano neste repertório de Vânia Bastos. Pode ser uma declaração de amor ao próximo, a alguém ou a si próprio, pode ser um convite a carnavalizar a vida ou um modo sutil de sacar a natureza que ela captou e ao seu modo comunica ora apenas semi articulando os lábios — para que deles flua quase em um sussurro e se diga causando e sentindo-se o arrepio “tome esta canção como um beijo!” –, acolá abrindo os braços, voando, super bacana, como quem interroga e convida: “eu vou, por que não, por que não?” 

Em Vânia Bastos -Cantando Caetano há, enfim, muito mais tesão do que tensão, sai contemplado quem veste as cores da tropicália, quem assiste novela (pode ser sociologicamente ou não!), quem de bobeira cruzava as avenidas e resolveu: vou ao teatro! E se não há demasiadas palavras, sobra sobriedade sem que o show escorregue no previsível, para o que contém de trivial não fique sem o tempero adequado e o acarajé frite insosso.

Vânia Bastos entra em cena emoldura ou iluminada por uma caprichada iluminação que ao variar tons e intensidades também consegue dialogar com as sutilezas de cada canção e explora, ainda, muito bem, sua presença de palco. Com direção artística de Fran Carlo, musical de Ronaldo Rayol e produção executiva de Petterson Mello, o trio Moisés Alves (piano), Eric Budney (baixo) e Nahame Casseb (bateria) a acompanha a maior parte do tempo desta viagem poética que atravessa de Sampa a Santo Antônio da Purificação recordando a bordo do Trem das Cores Trilhos Urbanos, No Dia Em Que Eu Vim Me Embora, O Leãozinho, Louco por Você, Este Amor e, cerejas do bolo: Peter Gast e Luz do Sol.

As interpretações de Peter Gast e Luz do Sol, por sinal, acabam forçando um obséquio: se quem ouve Vânia Bastos interpretar Paulista, de Eduardo Gudin, mal pensa em quem seria o pai da obra, Caetano Veloso que nos perdoe, compreenda e, elegante como, é deixe por escrito, registrado em cartório — assim como já devem ter feito Aldir Blanc e Guinga em Choro pro Zé (que está no álbum dela Diversões não eletrônicas): “sou o autor intelectual de ambas as canções, mas as concebi pensando em dar todos os méritos delas à Vânia Bastos!” A artista, é claro, não pretende ou precisa se apropriar de nada, pavimentou sua própria trajetória, pelos próprios méritos, desde a boa vanguarda paulistana da turma do Arrigo, do Nego Dito, da Tetê e da Suzana, entre outros, mas bem que merecia a coautoria destes sucessos que tendem a ser infinitos enquanto durem. Sem contar que, sofisticada lady que é, segue despertando alguma coisa em nossos corações, atemporal como chama…

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O show Vânia Bastos – Cantando Caetano tem iluminação sob medida, concebida para dialogar com as marcantes interpretações que Vânia protagoniza acompanhada por um trio de músicos notável

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