1298 – Em Ser Tão, Moraes Moreira busca resgate das próprias origens e passa de “cantor a cantador”

Cantor e compositor começou a carreira que trocou pela Medicina ainda garoto, no sertão baiano, e depois de brilhar com os  revolucionários Novos Baianos, optou pela carreira solo interrompida “na alvorada dos setenta” , enquanto dormia , por um infarto

 (…) O sertão, essa vaga ficção geográfica que sempre foge à localização precisa. Pode-se entrar pelo sertão, que sempre haverá um sertão mais para o interior do país.””, Aires da Mata Machado Filho, O negro e o garimpo em Minas Gerais, página 33 (III, Sob o signo do diamante), Editora Itatiaia Limitada, 1985

“Sertão é o sozinho”.
“Sertão: é dentro da gente”.
Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa, Livraria José Olympio, 1956

O último disco gravado pelo cantor e compositor Moraes Moreira, lançado em 2018, Ser Tão, foi o escolhido para abrirmos neste dia 18 de abril mais uma audição matutina dos sábados pela manhã, cumprindo a determinação de nos mantermos isolados durante a pandemia do coronavírus (Covid-19) aqui no boteco do Barulho d’água Música, em São Roque, cidade do Interior paulista a cerca de 60 quilômetros da cidade de São Paulo.

A morte de Moraes Moreira ocorrida na segunda-feira, 13, de infarto do miocárdio enquanto dormia em sua casa (assim como Belchior, em 2017, e Tunai, mais recentemente) na cidade do Rio de Janeiro, indiscutivelmente deixa mais uma vez de luto a cultura popular, abalando não apenas o universo musical brasileiro, mas como um todo nesta época de pandemônio federal o combalido meio artístico no qual ele despontou nos começo dos anos 1970 como um dos integrantes dos revolucionários Novos Baianos. A passagem ao Plano Maior, entretanto, não apagará a obra grandiosa que nos legou o baiano de Ituaçu frequentemente associado a ritmos mais quentes como o frevo, o samba, as marchas de carnaval, o baião, o maracatu e mesmo o rock, mas que recentemente, no auge da maturidade, vinha buscando uma nova identidade que, na verdade, o levava de volta às próprias raízes, o fazia experimentar uma verdadeira “alvorada” aos 70 anos.

Ser Tão é um disco breve, de nove faixas apenas, e saiu pelo Selo Discobertas seis anos após o estrondoso sucesso entre a crítica e o público do álbum antecessor, A Revolta dos Ritmos — o que, talvez, não tenha rendido à empreitada os devidos elogios que Moraes esperava. Mais afeito à poesia e à lapidação da palavra nos últimos dias, Moraes Moreira à la Patativa de Assaré, Zé Limeira e Cego Aderaldo vinha flertando e produzindo várias peças em cordel (como o poema, agora épico, que escreveu sobre a Covid-19, que estará ao final desta atualização) e em Ser Tão já se evidenciava com mais força parte deste resgate, já que era paixão que trazia adormecida em seu peito desde a infância.

A revista Isto É, em um texto publicado em sua versão on-line à época do lançamento do álbum e com base em informações do jornal O Estado de São Paulo, lembrava que a reaproximação de Moraes Moreira com a literatura de  cordel e tudo que envolve esse universo já era notada em A Revolta dos Ritmos, remonta à infância do músico, vivida no interior na Bahia e servia de amálgama à transição que ele pretendia e já festejava, de cantor para cantador. Vou fazer minha passagem/De cantor pra cantador/E durante essa viagem/O tempo que é passador/Vai me dar uma guarida/E muitos anos de vida/Na cantoria do amor”, são versos da faixa De Cantor Pra Cantador, na qual Moraes ora declama, ora canta, mostrando que uma habilidade não descarta a outra. “Hoje, ele é as duas coisas”, sentenciou a revista na matéria cuja integra poderá ser lida clicando aqui.

Nesse disco, pude fazer essa ideia que tenho de juntar literatura de cordel, a influência dos cantadores, dos repentistas, essa coisa da cantoria”, disse Moraes, segundo a Isto É. “É uma cantoria, às vezes, falada, mas, na maioria das vezes, cantada, é claro”, emendou. “Essa relação já vem desde criança, e eu vivia muito isso, a coisa da sanfona, bem sertaneja mesmo, o violonista de serenata. Então, essa memória toda eu carrego.”

Ser Tão é, portanto, completamente autoral, embora inclua uma parceria com Armandinho na faixa Nas Paradas. “”O Armandinho ficou ali meio representando os outros parceiros e eles entenderam isso, que era um momento muito meu, eu tinha que me concentrar nisso. É coisa de viola, de sanfona, quase não tem guitarra. Pedia menos guitarra e mais viola.

Inevitavelmente, o disco acaba sendo biográfico, de uma maneira mais direta, como na já citada De Cantor Pra Cantador e em Alvorada dos Setenta, cujos versos são declamados pelo próprio músico, fechando o repertório. Ou mais indireta, quando ele se envereda por suas raízes e memórias, como em O Nordestino do Século, também declamada, e Origens, recitada e cantada. No blues I Am The Captain of My Soul, o refrão em inglês entoado na letra em português pode até causar estranheza nesse trabalho tão impregnado de Nordeste. Mas, para Moraes, o refrão fazia mais sentido assim, sem tradução. “Esse verso, ‘eu sou o capitão da minha alma’, eu li num livro. Fui pesquisar sobre isso, esse verso era de um poema, Invictus, de Ernest Henley, um inglês da época vitoriana. Um dia, me peguei cantando ‘I am the captain of my soul’. Depois, fiz a parte B da música, em português, e aí volta sempre o refrão, que tinha de ser em inglês”, disse. “São os sertões se encontrando: o sertão de lá e de cá.”

Ainda durante a conversa reproduzida por Isto É, Moraes Moreira observara que em seus tempos de Novos Baianos, nos quais o grupo criava, literalmente, a própria música, suas raízes nunca desapareceram. “Por exemplo, Preta Pretinha é uma coisa interiorana, é muito brejeira. Então, sempre teve ali um pouquinho.O Selo Discobertas, ao lançar Ser Tão, produziu o seguinte press-release, que não apenas reforçou este perfil de Moraes Moreira, mas ampliou-o ao frisar que:

Se a Música Popular Brasileira fosse uma cidade, Moraes Moreira seria aquele caminhante que passa por todos os bairros, cruza todas as ruas, vira em todas as esquinas… e por onde anda ele se sente em casa. Não importa se é num afoxé carnavalesco ou num arrasta-pé junino, numa batucada de samba ou numa balada urbana, sua música é como um líquido que toma a forma de todos esses vasos, sem perder o sabor. Ser Tão não chega a ser uma novidade na obra desse compositor tão litorâneo e ensolarado, tão urbano e beira-mar. aquífero acessível a quem se dispõe a ir um pouco mais fundo. Há um subterrâneo de sertão por baixo de toda a cidade-Brasil. Há uma memória de sertão juntando histórias, lendas, melodias, ritmos e personagens.

Musicalmente, Moraes sempre foi um aproximador de águas, um acolhedor de belezas. A lição tropicalista foi rapidamente assimilada por sua geração para quem o rock e o samba eram bairros vizinhos que tinham a aprender um com o outro. Canções como I am the Captain of My Soul e Nas Paradas têm um sabor geracional cuja novidade não se perdeu, cuja tinta ainda não secou. Baladas de estrada, com algo de blues e das road songs que acompanharam as histórias dos andarilhos num dos muitos sertões que o Brasil descobriu dos anos 1960 para cá .Este é Moraes Moreira, sertanejo acampado à beira-mar, capitão da própria alma, setentão sempre jovem a cruzar um sertão eterno”.

Estetoscópio de pinho

De acordo com a biografia de Antonio Carlos Moreira Pires publicada pela Enciclopédia Itaú Cultural (EIC). a carreira do compositor, cantor e violonista que adotou o nome artístico de Moraes Moreira começou quando ele ainda era adolescente, tocando sanfona de 12 baixos. Com pouco tempo de aprendizado, o piá já animava festas de São João, casamentos e batizados. Em 1963, fez o curso científico na cidade de Caculé, no interior da Bahia, onde conheceu diversos violonistas e se apaixonou pelo violão. Com 19 anos, mudou-se para Salvador com o intuito de fazer o curso de Medicina, mas optou por estudar música no Seminário de Música da Universidade Federal da Bahia. Na pensão em que morava, conheceu os futuros parceiros do grupo Novos Baianos: Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão. que o apresentou ao cantor e compositor baiano Tom Zé, professor de violão no seminário e com o qual Moraes Moreira trocava informações sobre harmonia e composição.

Seus amigos de pensão começaram, então, a elaborar o espetáculo de estreia do grupo Novos Baianos, O Desembarque dos Bichos depois do Dilúvio Universal, em 1968. Contando também com a cantora Baby Consuelo (atual Baby do Brasil) e o guitarrista Pepeu Gomes na formação, o grupo deslocou-se até São Paulo para participar do 5º Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record (1969), defendendo a música De Vera, de Moraes Moreira, com letra de Galvão. Em seguida, saiu o primeiro disco, Ferro na Boneca, antecedendo o clássico Acabou Chorare, que em 1972 venderia mais de 100 mil cópias. Ícone da discografia nacional com decisiva participação de João Gilberto, Acabou Chorare inclui no repertório, entre outras o samba Brasil Pandeiro, de Assis Valente, além das composições próprias do grupo.

Moraes Moreira deixou os Novos Baianos e partiu para a carreira solo ainda em 1975, abraçado ao primeiro parceiro nessa caminhada, o guitarrista Armandinho. Já nesta fase, ele tocou com o trio elétrico de Dodô e Osmar (pai de Armandinho) em 1976, consagrando-se como o primeiro cantor de trio elétrico, embalando os seguidores com marchinhas como Pombo Correio, parceria dele com Dodô e Osmar. Rapidamente, Moraes Moreira ganhava fama e passava a ser apontado como um dos principais responsáveis pelo crescimento do carnaval de rua em Salvador.

Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, outro dos seus sucessos, saiu em 1979, com canções em parceria com Pepeu Gomes, Jorge Mautner, Antonio Rizério, Abel Silva, Fausto Nilo, Armandinho e Oswaldinho do Acordeon. Santa Fé, parceria dele o poeta Fausto Nilo, é escolhida para ser o tema de abertura da novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, mas a trama, censurada pelo governo militar em 1975, acabaria engaveta até 1985, quando enfim foi exibida pela Rede Globo.

Um novo encontro com os Novos Baianos ocorreu em 1997, para o lançamento do disco ao vivo Infinito Circular, com canções dos discos anteriores e algumas inéditas. Dez anos mais tarde, Moraes Moreira enveredou pelo mercado editorial ao publicar o A História dos Novos Baianos e Outros Versos e nesta publicação já adotou a linguagem de cordel, dando pistas da transição que viria adiante.

Análise da EIC

O diálogo entre gêneros musicais é  a marca da trajetória artística de Moraes Moreira. Ao começar a carreira, seu estilo tende para o rock, mas nutre também paixão pelo samba e pelo choro, e aponta nomes como Braguinha, Lamartine Babo, Zé Kéti e Jacob do Bandolim como seus maiores inspiradores. Sua obra dialoga com as produções de Roberto Carlos, Jimi Hendrix, e com a estética do tropicalismo, proposto por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé e outros artistas. Tais referências estão presentes em Ferro na Boneca, primeiro disco do seu grupo Os Novos Baianos, que, nos anos 1960, vive numa espécie de comunidade alternativa.

A presença de João Gilberto na comunidade dos Novos Baianos contribui para acentuar o caráter musical multifacetado do grupo, fundindo sonoridades do samba, frevo e baião com o rock. Moraes Moreira aprende a maneira original de João Gilberto tocar violão e com ele se aproxima do repertório de compositores como Assis Valente. Logo cria, com Pepeu Gomes, um regional com cavaquinho e violão para o maior sucesso do autor, Brasil Pandeiro, gravado pelos Novos Baianos no álbum Acabou Chorare (1972). A canção, feita em 1940, exalta a entrada do samba no mercado musical dos Estados Unidos, alavancada principalmente por Carmen Miranda, intérprete de grande parte das músicas de Assis Valente.

As composições com Luiz Galvão vão de canções de simples harmonias, como o maior sucesso do Novos Baianos, Preta Pretinha (Acabou Chorare), de dois acordes apenas, até as de complexas estruturas, caso de Os Pingos da Chuva (Novos Baianos F.C., 1973). As influências da Bossa Nova, Jovem Guarda, tropicalismo e da música internacional resultam na sonoridade particular do grupo.

Integrando o trio elétrico de Dodô  e Osmar, expande suas referências ao ser apresentado a compositores como Capiba, Nelson Ferreira, Duda, Antônio Maria (1921 – 1964) e outros nomes do frevo pernambucano.  Moraes Moreira compõe a letra para uma música original de Dodô e Osmar que se torna outro grande sucesso, Pombo Correio, típica marchinha dos trios que animam o Carnaval de Salvador. Introduz a voz nos trios elétricos, que até então é só instrumental, até por uma questão técnica. Seu pioneirismo faz escola e fomenta o surgimento de uma geração de cantores de trio.

Lança seu quarto disco solo, Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, em 1979. Além da faixa-título, que se torna hit nacional, o álbum traz canções que marcam o carnaval baiano, como Eu Sou o Carnaval, Chão da Praça e Assim Pintou Moçambique. Esta, em parceria com Antonio Rizério, é um marco na história da música baiana, pela mistura do frevo dos trios elétricos com o batuque dos blocos afro, prenunciando as fusões que animam o Carnaval e abrindo um novo caminho na música da Bahia, que culmina na chamada geração axé music.

No CD O Brasil Tem Conserto, de 1994, em parceria com o maestro e arranjador Vitor Santos, realiza um trabalho que mescla música popular com a erudita. Nesse álbum, reforça a harmonia e a melodia, mantendo as características rítmicas de suas composições. O baião e o samba são misturados no CD Bahião com H, de 2000, que aproveita na época o oportuno interesse das novas gerações pela música regional brasileira. Em 2005, o álbum De Repente funde o hip-hop com o repente nordestino, trazendo elementos da música eletrônica e do rap, ou da “palavra falada”, como Moraes classifica.

Leia abaixo o poema em cordel deixado por Moraes Moreira sobre a Covid-19, conforme consta na página do Diário Causa Operária (DCO) sobre a morte do cantor e compositor, veículo que relatou ainda que, recentemente, Moreira e Baby Consuelo teriam protagonizado um desentendimento que demonstra a personalidade forte, a autenticidade e o respeito às próprias convicções e à história que ele tinha.

Em novembro de 2019 estreou o espetáculo Novos Baianos, no qual treze atores contavam a história da banda, com direção musical de Pedro Baby (filho de Baby Consuelo) e Davi Moraes (filho de Moraes). Esse musical, conforme o DCO, teria causado uma desavença de Moraes com Baby Consuelo, hoje em dia a evangélica Baby do Brasil. Baby queria que o espetáculo ignorasse o uso de drogas pelo grupo. Moraes afirmou que “Baby queria que o espetáculo fosse evangélico. Que não dissesse que fumou maconha, que tomou ácido, que fez tudo. Assim os Novos Baianos não seriam revolucionários. João Gilberto deve estar se revirando na sepultura. Porque o nosso grupo fumou, sim, tomou ácido, sim, fez músicas maravilhosas em estado de fumar maconha, sim. A gente fazia música inclusive pra ela. As canções dela que fizeram sucesso como A Menina Dança, Tinindo, Trincando, Os Pingos da Chuva e tantas outras, foram feitas na onda, porque naquele tempo a onda era essa”.

O DCO também observou que Moraes esteve ativo até o final da vida. No carnaval deste ano cantou no Pelourinho, mesmo já aparentando estar debilitado. Desde março ele estava recolhido à sua casa por causa do coronavírus, mas ainda compondo e escrevendo. Uma de suas últimas obras foi o cordel que fala da Covid-19, mas também lembra de Marielle Franco:

Eu temo o coronavirus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida,
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida

Assombra-me a pandemia
Que agora domina o mundo
Mas tenho uma garantia
Não sou nenhum vagabundo,
Porque todo cidadão
Merece mais atenção
O sentimento é profundo

 Eu não queria essa praga
Que não é mais do Egito
Não quero que ela traga
O mal que sempre eu evito,
Os males não são eternos
Pois os recursos modernos
Estão aí, acredito

De quem será esse lucro
Ou mesmo a teoria?
Detesto falar de estupro
Eu gosto é de poesia,
Mas creio na consciência
E digo não a todo dia

Eu tenho medo do excesso
Que seja em qualquer sentido
Mas também do retrocesso
Que por aí escondido,
Às vezes é o que notamos
Passar o que já passamos
Jamais será esquecido

Até aceito a polícia
Mas quando muda de letra
E se transforma em milícia
Odeio essa mutreta,
Pra combater o que alarma
Só tenho mesmo uma arma
Que é a minha caneta

Com tanta coisa inda cismo.
Estão na ordem do dia
Eu digo não ao machismo
Também a misoginia,
Tem outros que eu não aceito
É o tal do preconceito
E as sombras da hipocrisia

 As coisas já forem postas
Mas prevalecem os relés
Queremos sim ter respostas
Sobre as nossas Marielles,
Em meio a um mundo efêmero
Não é só questão de gênero
Nem de homens ou mulheres

 O que vale é o ser humano
E sua dignidade
Vivemos num mundo insano
Queremos mais liberdade,
Pra que tudo isso mude
Certeza, ninguém se ilude
Não tem tempo, nem idade

Leia também no Barulho d’água Música: 

1101- “Acabou Chorare”, melhor disco já gravado no Brasil, faz a fama dos Novos Baianos sob as bênçãos de João Gilberto

Clique e ouça o último disco de Moraes Moreira:

Ser Tão

1297 – Autor de cinco álbuns instrumentais, Rafael Carvalho é referência maior da viola da terra dentro e fora de Portugal

Dedicado à música desde os 13 anos, músico que vive em uma das ilhas açorianas ganhou fama também como pesquisador e exímio docente, além de autor de trinca de livros com métodos para o instrumento

#fiqueemcasa

 

Paralelo 38 é um dos álbuns da discografia de Rafael Carvalho dedicado à viola da terra

O Barulho d’água Música graciosamente recebeu, enviados à redação pelo próprio Rafael Carvalho, cópias integrais dos cinco álbuns por ele gravados entre 2014 e 2019, todos instrumentais, e um deles duplo, com nada mais, nada menos, que 80 faixas! Rafael Carvalho, amigos e seguidores, é um jovem e carismático músico de não completados, ainda, 40 anos de idade (marca que conquistará em setembro próximo), mas em sua trajetória artística iniciada no viço dos seus 13 anos já se tornou em um dos maiores dinamizadores do instrumento que além-mar, onde ele vive, é popularmente conhecido por viola da terra, com o qual alcançou fama e por ele é hoje referência cultural e acadêmica, dentro e fora de seu país. Compositor, além de exímio docente e pesquisador dedicado, autor de uma consagrada trinca de livros os quais compartilha seu Método para Viola da Terra – Iniciação, Básico e Avançado, Carvalho é de Ribeira Quente, freguesia da ilha de São Miguel, uma das nove que formam em Portugal o arquipélago dos Açores.   

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1285- Duo Aduar (MG) lança primeiro álbum em selo de Chico Lobo em parceria com a Kuarup

O Duo Aduar, formado pelos músicos Gabriel Guedez e Thobias Jacó, estará na cidade de São Paulo na sexta-feira, 13 de março, como atração da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, local escolhido para lançamento no Piso Deck do álbum Riachinho das Pedras. Primeiro disco da dupla, Riachinho das Pedras tem oito faixas e está sendo lançado pelo selo Lobo Kuarup, do violeiro Chico Lobo que inicia seu projeto fonográfico de curadoria de artistas para gravar e lançar novos talentos da música regional e brasileira em parceria com a produtora e gravadora Kuarup. Um exemplar do cedê nos foi gentilmente enviado pelo diretor artístico da Kuarup, Rodolfo Zanke, ao qual agradecemos, e abriu as audições matinais dos sábados neste dia 7 de março aqui no boteco do Barulho d’água Música, em São Roque, no Interior de São Paulo.

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1255 – John Mueller, de Blumenau (SC), afirma-se no cenário nacional com Na Linha Torta*

Após receber mais um prêmio em São Paulo, cantor e compositor indicado o melhor do Estado natal em 2018 e com disco entre os melhores da MPB, com participações de Cristóvão Bastos em dois trabalhos já lançados, anuncia que já iniciou os trabalhos para o terceiro álbum da carreira solo.

* Com Nane Pereira

Na Linha Torta, segundo álbum do catarinense de Blumenau John Mueller, abriu as audições matinais que promovemos todos os sábados aqui no boteco do Barulho d’água Música, neste dia 2 de novembro. O disco nos foi gentilmente cedido pelo próprio cantor e compositor no Centro Cultural da Galeria Olido, em São Paulo, pouco tempo depois da cerimônia na qual ele acabara de ser um dos quinze agraciados de várias partes do Brasil com um dos troféus do 6º Prêmio Grão de Música. As doze faixas de Na Linha Torta também já haviam rendido o troféu de Melhor Cantor do Prêmio da Música Catarinense 2018 e com ele Mueller concorre à estatueta A Parada da Música, troféu que será entregue neste final de semana em Brasília (DF) aos finalistas de 67 categorias do 5º Prêmio Profissionais da Música (PPM). Mueller poderá, portanto, deixar a capital federal com mais esta consagração, o reconhecimento como melhor da categoria Autor, a mesma para o qual foi um dos finalistas na edição do PPM/2018, quando também esteve no páreo da categoria Cantor.

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1252 – Ouça clássicos brasileiros, de Violeta Parra e dos Beatles em disco de Ulisses Rocha com cello, baixo elétrico, trompete e viola caipira

Destacado violonista e compositor carioca que integrou o D’Alma é um dos mais influentes da atual geração brasileira, admirado por um estilo inconfundível que transita entre os mundos da música brasileira,da música erudita e do jazz 

O Quinteto, álbum instrumental de Ulisses Rocha, lançado em 2017, abriu as audições matinais que promovemos todos os sábados aqui no boteco do Barulho d’água Música, em São Roque (SP), neste dia 26 de outubro. Gravado com 10 faixas que são releituras de clássicos universais de músicos de diversos estilos — de João do Valle e Luiz Vieira a John Lennon e Paul McCartney, passando por Violeta Parra, Heitor Villa Lobos, Luizinho e Teddy Vieira e chegando a Milton Nascimento — O Quinteto reúne, além de Ulisses Rocha: Raïff Dantas Barreto (cello), Vitor Loureiro (baixo elétrico), Walmir de Almeida Gil (trompete) e Ivan Vilela (viola caipira), oferecendo um mini-concerto que poderá ser apreciado tanto no portal eletrônico do autor, quanto em várias plataformas digitais nas quais estão disponíveis, ainda, várias outras joias da discografia de Ulisses Rocha, trabalho que totaliza 16 discos e inclui os produzido ainda como integrante do extinto grupo D’Alma, fora as participações em álbuns de amigos e parceiros de estrada.

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1251 – Com uma viola caipira nas mãos, Lu Pasinato (SP/PR) revalida ditado “quem puxa aos seus não degenera… e a todos eleva!”

O Barulho d’água Música apresenta aos amigos e seguidores Lu Pasinato, nascido em Parapuã (SP). Por influências de um berço no qual a música sempre teve vez, desde muito cedo Lu Pasinato se sentiu despertado pela música e à medida que cresceu descobriu suas aptidões naturais para instrumentos de cordas,  Em 1989, como ocorre com muitos que acabam conhecendo a viola caipira, rendeu-se à sonoridade singular das dez cordas e ela passou a ser seu instrumento de trabalho, juntamente com a guitarra.

Roberto Prado escreveu recentemente para o programa especial Grandes talentos da música brasileira do Paraná, apresentado por Rogéria Holtz na Rádio Educativa do Paraná (FM 97,1), que o compositor e instrumentista  Luciano Pasinato, o Lu Pasinato, nasceu em 1975. Descendente de italianos e espanhóis, filho de Domingos Pasinato e Antônia Errerias Pasinato, Lu teve o privilégio de ser o mais novo entre cinco irmãos de uma família extremamente musical, na qual a arte fazia parte do dia a dia. Os pais de Lu, conforme apontou Prado, sustentaram a família por muito tempo como barbeiro e costureira, mas logo depois do nascimento dele, decidiram se tornar comerciantes.

A nova atividade dos pais os levou a mudarem várias vezes para cidades de São Paulo e do Paraná, uma vivência que possibilitou ao caçula conhecer muitas pessoas, culturas, paisagens diferentes, formando um vasto arquivo de memórias que até hoje inspiram sua criação. No final dos anos 1980, os Pasinato se fixaram na cidade de Rancharia, na região da Alta Sorocabana, onde Lu passou a infância e a juventude. Nessa cidade do Interior de São Paulo, ele teve um encontro fundamental com a viola caipira, que se tornaria sua grande paixão.

O irmão mais velho de Luciano, Ruba Pasinato, músico profissional, sempre foi a inspiração dele e sua guia no mundo da música brasileira de qualidade. Outra forte referência foi o tio do violeiro, José Errerias. Zequinha do Acordeon, como ficou popularmente conhecido, tocou e gravou com diversos artistas da música sertaneja de raiz na década dos anos 1950 e 1960, pois além da qualidade técnica e criativa, era exímio leitor de partituras. Entre outras funções, Zequinha atuou como acordeonista oficial da dupla Tonico & Tinoco, participando, inclusive, de filmes dos famosos irmãos, ícones até hoje do universo caipira.

Nesta atmosfera musical, desde sempre Lu soube que seria músico profissional, mas com a diferença que, em sua casa, ao contrário da grande maioria, um filho ser músico era visto com ótimos olhos. Assim. desde piá — na escola, nas festas e com os amigos –, os violões sempre acabavam nas mãos de Lu Pasinato. Até que em agosto de 1989, quando tinha 14 anos de idade, Lu viveu uma experiência definitiva: em uma exposição folclórica, realizada no colégio no qual estudava, em Rancharia, travou seu primeiro contato com a viola; deste dia, até hoje, ele nunca mais se separou do instrumento.

Viola caipira Lu Pasinato aprendeu a tocar ouvindo e vendo os grandes violeiros da sua terra, tais quais Espirro, Zé Vilela, Flávio da Amoreira e tantos outros, além de beber nas fontes de mestres como Tião Carreiro, Renato Andrade, Almir Sater,  Goiano e Mazinho Quevedo. A partir deste aprendizado, foi adquirindo identidade sonora, experimentando, criando, agregando o toque de viola original que desenvolvia ouvindo outros ritmos em sua casa.

Lu Pasinato começou a carreira profissional ainda aos 15 anos, tocando guitarra em bandas de bailes de Rancharia e região, enquanto, ao mesmo tempo, desenvolvia sua técnica pessoal de encantar com a viola caipira. Em 1996, veio para Curitiba a convite do baterista Wagner Venceslau, o Waguinho Batera, hoje radicado em Maringá (PR), para tocar guitarra em uma casa noturna. Mas o que Lu Pasinato queria, mesmo, como ele próprio recorda, era mostrar sua violinha na grande Capital, abrir espaço para o seu modo diferente de tocar e compor com o instrumento.

A vinda para Curitiba, portanto, significou uma importante guinada na formação e na carreira de Lu Pasinato. Foi naquela cidade que pode trocar ideias e aprimorar a técnica e a criatividade em contato com grandes instrumentistas. Na Capital do estado gravou também seus dois álbuns autorais, Mudernage e Aldeia, e vem atuando intensamente como instrumentista em gravações e em concertos no Brasil e no Exterior, acompanhando artistas como João Pedro Teixeira, Hermeto Pascoal e Cacao de Queiroz, para ficar apenas em alguns exemplos. Além disso, ministra frequentes workshops e oficinas de viola caipira nas quais divide com os alunos a técnica, a história e a paixão pelo instrumento.

Lu Pasinato também tem atuado como violeiro e guitarrista em teatros, casas de shows, bares, estúdios de gravação e como side-man, além de participar ativamente de gravações de discos, DVDs e jingles. Em sua trajetória já acompanhou, gravou e/ou dividiu palcos com João Pedro Teixeira, Hermeto Pascoal e Cacao de Queiróz, Almir Sater, Ivan Lins, Toquinho, Ney Matogrosso, Kleyton e Kledyr, Moraes Moreira, Johnny Alf, entre outros.

Por este precioso currículo, é dos mais requisitados e aplaudidos na cena curitibana e cidades próximas, onde em seus workshops de viola caipira aborda as inúmeras e inusitadas possibilidades sonoras deste instrumento que no estado tem, ainda, representantes tais como Fernando Deghi (embora também paulista, lá radicado), Cláudio Avanso, Emiliano Pereira, João Triska, Oswaldo Rios, o pai e filho Rogério e Victor Gulin, Ricardo Denchuski e Lydio Roberto. Pasinato é endorser das Palhetas Cerne, para a qual assina a palheta Gota 3mm Lu Pasinato, e também do luthier Marcos Jackel, de Curitiba.

A discografia solo é composta pelos dois álbuns anteriormente mencionados, ambos dedicados à viola instrumental. O primeiro, Mudernage (2008), apresenta composições próprias, e o segundo, Aldeia (2014), resgata a viola caipira e seus ritmos tradicionais como o Pagode, a Catira, o Chamamé, a Folia de Reis em composições autorais, mantendo sua identidade tanto nas composições, quanto na execução do instrumento.

Atualmente, Lu Pasinato vem se apresentando em diversas formações de música instrumental, com música brasileira, música regional e jazz. Em 2018, viajou para Paris e na capital francesa gravou Encontro Universal, de João Pedro Teixeira e Cacao de Queiróz. Há alguns dias, em 11 de outubro, foi atração no Centro Cultural Teatro Guaíra da Exposição Ars Sonora que abordou a obra de Hermeto Pascoal, durante a 14ª Bienal de Arte Contemporânea de Curitiba.

Para saber mais sobre e contratar Lu Pasinato ele disponibilizou o número de telefone (41) 99716-9460 e o endereço eletrônico lu_pasinato@yahoo.com.br. Pelos linques abaixo se poderá ouvir seus dois álbuns e baixar e assistir vídeos de suas apresentações e trabalhos. Os dois álbuns podem ser encomendados tanto com o próprio violeiro, quanto com a gravadora e distribuidora curitibana Gramofone, cujo endereço é Rua Curupis, 450, bairro Santa Quitéria, Curitiba, CEP 80310. Para mais informações, os telefones da Gramofone são +55 41 98516-5131 e +55 41 3228-1044 e o endereço eletrônico gramofone@gramofone.com.br

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Cinema Paradiso/Maturitè (Ennio Morricone)  – Viola

Sauveiro – Chamamé Viola Caipira (Lu Pasinato) – Viola

Terra Canção – 2014 (Bloco 1) -Viola

Terra Canção – 2014 (Bloco 2) – Viola

Encontro Universal  Teaser (Paris)

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1250 – Walter Franco(SP) embarca numa boa brisa e, sempre diamante, ascende para provocar outros céus

Gênio para alguns, maldito para outros, ambos para muitos, mas incontestavelmente marcante para todos, gostassem dele ou não, tanto nos palcos, como fora dele: Walter Franco embarcou numa vela aberta e se afastou pelo mar rumo à Serra do Luar na madrugada desta quinta-feira, 24/10, na cidade de São Paulo, viagem que torna mais banzaró nosso anseio por navegar e, quando possível, com a mente quieta e a espinha ereta por águas mais tranquilas, equilibradas, justas e artisticamente mais ricas.

Sofrendo uma dor que dilacera enquanto canalhas de plantão metem fogo na mata (e no cabaré) e à base de canetadas esvaziam árduas conquistas, a cultura brasileira está mais uma vez de luto, desta vez pela passagem, aos 74 anos, do cantor e compositor que agitou a cena dos primeiros festivais, ganhando um dos certames — na opinião da plateia e parte dos jurados como Nara Leão, Júlio Medaglia, Rogério Duprat e Roberto Freire, antes de eles serem defenestrados e emudecidos –, só que não — de acordo com a palavra final da ditadura, da milicaiada e dos censores que ferviam, dentro e fora do ginásio do Maracanãzinho (RJ), que os organizadores chapas brancas acataram com as calças nas mãos.

Walter Rosciano Franco estava internado desde o começo do mês, após sofrer um acidente vascular cerebral que o deixou inconsciente desde então. O filho, Diogo, foi quem trouxe a mensagem às redes sociais. “Agradeço a todas as orações e boas vibrações nesses últimos dias, mas sinto dar a notícia de que nosso Walter Franco partiu tranquilamente”, escreveu. Tranquilamente, como sempre foi, apesar de polêmico, inovador, provocativo, transgressor e se sabe lá quantos mais rótulos nele tentaram pespegar e ele, de fato, tenha encarnado, embora não admirasse o de “maldito”. Pois o paulistano pai de Diogo, controvérsias à parte em sua biografia, consolidou-se como um dos expoentes da vanguarda brasileira, legando ora petardos contra as conveniências e a subserviência do período, cutucando com suas letras, arranjos e voz comportamentos e mentes  da corruptela e apaniguados dos anos de chumbo, ora baladas mais suaves, o que fazia dele para outros tantos apenas um rapaz… boa praça, bem educado, no fundo difícil de enquadrar em esteriótipos.   

A mídia e a indústria do entretenimento gostam de rótulos, mas Walter Franco paira acima de todos os esteriótipos e ficará na história da MPB pelo conjunto da obra que, no início de sua trajetória, abriu os caminhos para consagra-lo

Cabeça, Canalha, Me Deixe Mudo, Vela Aberta, Mamãe d’água, entre outros, estão entre alguns dos seus sucessos mais virais; outros diriam “mais virulentos”, talvez. Inicialmente apontada como favorita a vencedora (juntamente com Nó na Cama, de Ari do Cavaco e Cesar Augusto), Cabeça causou furor, despertou reações acaloradas, temperadas com vaias, sopapos e ameaças ao final do Festival Internacional da Canção, de 1972, o último da Era dos Festivais que, consumado em “marmelada”, acabou consagrando (seguindo os votos de um júri novo, formado nos bastidores, apenas por estrangeiros) como vencedora Fio Maravilha, de Jorge Ben, interpretada por Maria Alcina – ambos, é bom que se registre, nada têm a ver com isso.

Um ano mais tarde, a canção em tela  integrava Ou Não, álbum de estreia de Walter Franco e que deixou a crítica trocando par ou ímpar para — conforme apontou Thales de Menezes em artigo da Folha de São Paulo que escreveu no dia da morte do autor — ficar estabelecido qual seria o disco mais experimental e inovador da época, se Ou Não ou Araçá Azul, de Caetano Veloso. Com apenas uma mosca na capa, as composições não passaram batidas por conter, entre outros elementos, pitadas de poesia concreta e psicodelia, algumas das tendências estéticas que vigoravam na época trazidos, inicialmente, nas boas ondas da Tropicália.  

Em uma de suas apresentações, ainda no palco, Walter Franco é cercado por fãs (Foto: Marcus Preto)

Walter Franco, entretanto, botou para quebrar, mesmo, em 1975, ano em que trouxe para o baile Revolver, seu segundo álbum, tema da atualização 1138 deste Barulho d’água Música, publicada em 26 de dezembro de 2018. Revolver contem, entre outras faixas, Eternamente, Feito Gente, Mamãe d’água, Cachorro Babucho e Pirâmides, gravadas em um “estilo mântrico”, que sugere flertes com o zen budismo, conforme também apontou Thales, e remete, ainda ao lendário Abbey Road (1969), dos The Beatles, em cuja capa o quarteto mais famoso que Jesus Cristo caminha sob uma faixa pintada na célebre avenida londrina, com John Lennon, todo de branco, puxando a fila; pois Walter Franco, embora sozinho em sua capa, também vem todo de branco e cabeludo  tal qual Lennon, sem contar que a faixa 3, Mamãe D’água, lembra em alguns momentos Lucy In  the Sky With Diamonds, do Seargent Pepper’s… (1967). Nos anos seguintes, a discografia de Franco aumentou com Respire Fundo (1978), Vela Aberta (1979), Walter Franco (1982) e Tutano (2001), com a participação do titã Arnaldo Antunes.

No sentido horário, as capas dos álbuns de Walter Franco, em ordem cronológica

Mesmo sem jamais cair no ostracismo, já tiozão optar pela reclusão em um sítio cercado de árvores frutíferas e açude piscoso, sem dependurar as chuteiras, do último disco em diante Walter Franco fez apenas alguns shows esporádicos — todos sempre coalhados de gente, nos quais o repertório entremeava músicas contestadas com os sucessos menos agressivos — como Serra do Luar, regravado por Leila Pinheiro e que se notabilizou pelo verso viver é afinar o instrumento/De dentro pra fora/De fora pra dentro. O ex-cabeludo daqueles tempos nos quais também despontaram Sérgio Sampaio como figurinha carimbada do mesmo álbum dos “malditos” matinha uma banda desde 2015 e cantava sempre acompanhado por Diogo, um dos quatro herdeiros. Thales de Menezes informou que Walter Franco estaria preparando um novo disco, que seria o sétimo da trajetória.

O corpo de Walter Franco, após o velório na Bela Vista, foi cremado em Vila Alpina, ambos bairros paulistanos. A toda hora, a todo o momento, entretanto, que sua obra seja lembrada pela originalidade, pela coragem, pela ousadia de quem soube inovar e andar à frente de seu tempo quando o bicho [que julgávamos morto e enterrado] pegava por aqui.

Leia sobre e ouça a música Cabeça neste texto de Elisa Oieno, publicado em 25 de julho de 2017, clicando na palavra em destaque!

1222 – Wilson Dias e Pereira da Viola relançam “Pote- A Melodia do Chão”, com poemas de João Evangelista Rodrigues, em Beagá (MG)

Rústico e refinado, disco produzido a partir de poemas de João Evangelista Rodrigues é um encontro de três mananciais que expressam com sensibilidade a alma sertaneja que temos, apesar dos avanços da urbanidade e da desconstrução das tradições populares

As tradicionais audições matinais que promovemos aos sábados aqui no boteco do Barulho d’água Música, em São Roque, aprazível cidade do Interior de São Paulo, começaram com o disco Pote – A Melodia do Chão, que o cantor e compositor mineiro Wilson Dias lançou em  outubro de 2010 em parceria com o conterrâneo Pereira da Viola, ambos violeiros, com distribuição pela  Sonhos e Sons, O disco é todo baseado em poemas do poeta das Alterosas e companheiro dos músicos, jornalista João Evangelista Rodrigues, e por ser tão apreciado pelos fãs e amigos do trio motivou um concerto de relançamento que a Picuá Produções programou para esta quarta-feira, 21 de agosto, a partir das 20 horas, no concorrido palco do Grande Teatro do Sesc Palladium, situado em Belo Horizonte (MG).

O texto de divulgação do show destaca que os três mineiros provêm de águas fortes e confluentes que brotaram, respectivamente, nos Vales do Mucuri, do Jequitinhonha e do São Francisco. As gravações começaram há dez anos e depois de gravado Pote é um projeto que continua florindo nos caminhos dos amantes da boa música de viola. No Palladium, a década será brindada com inigualáveis sabores daquelas poéticas águas sonoras, trazendo um convite para quem experimentou voltar a se deliciar à fartura e àqueles que ainda não os sabem saciar a sede. Como bons sertanejos que somos, te esperamos com água fresquinha no ‘Pote’”, disse Wilson Dias. Com seu humor e bom astral habitual, Pereira da Viola complementou: “Vai ser uma alegria astronômica, uma incelente maravilha que, se melhorar, vira rapadura!”

O CD  Pote pode ser definido como contemporâneo e primitivo. Rústico e refinado. Feito a mão. Modelado pela sensibilidade da palavra e conduzido pelo fio mágico dos acordes da viola. O Pote emerge da imaginação, dá asas ao sentimento e vivifica as coisas e objetos perdidos e ou esquecidos no sertão. O mesmo infinito e indefinido sertão de João Guimarães Rosa a um tempo íntimo, concreto e transcendental. Um sertão que todos somos ainda apesar das urbanidades e desurbanidades contemporâneas.

Em todas suas dimensões de utensílio, de arte, o pote é sagrado pelos segredos que contém e revela, por suas qualidades pictóricas. Um pote pode servir de sepultura, de túmulo, e isto só aumenta e valoriza seu potencial significativo. Sua transcendência. Em nada diminui, portanto, a magia de sua beleza. Quando animado pela poesia e pela música cria asas, canta e voa a feito de pássaro entre montanhas mineiramente latinas.

O disco é uma homenagem à palavra poética pela valorização da letra no processo de composição musical. É também um reconhecimento do trabalho de criação do poeta João Evangelista que, além da música, utiliza-se de várias linguagens e campos de conhecimento para expressão como filosofia, jornalismo, literatura e fotografia. Foi a intenção de destacar o papel da letra na construção da canção que orientou todas as etapas de produção do álbum, desde a composição, passando pelos arranjos, processo de gravação, interpretação, mixagem e concepção gráfica do encarte. É por isso que ao manusear e ouvi-lo pode-se perceber com todos os sentidos a intensidade e o sabor de cada palavra, de cada imagem, sua textura e visualidade.

Wilson Dias, João Evangelista e Pereira da Viola em uma das páginas do encarte

Pote é um verdadeiro cinema sonoro onde a música feita na viola revela as tonalidades de cada história. A palavra cantada torna-se palavra encantada. Música necessária e mágica, fruto de um encontro espiritual e artístico entre os três compositores. Uma trindade que só vem enriquecer a música feita na viola caipira, em Minas Gerais, instrumento que é patrimônio cultural imaterial do Estado. Por isso mesmo, está cada vez mais valorizada no complexo cenário musical brasileiro da atualidade e ganha uma nova aliada: a poesia que se mistura, de maneira equilibrada e harmônica, com o timbre e com a autêntica sonoridade do instrumento. Assim, tanto do ponto de vista temático, quanto musical e poético, pode-se dizer que há uma verdadeira sintonia criativa e estética.

A melodia do chão

 Pote, assim como o show, é marcante. Pode ser entendido como uma metáfora da condição do homem no mundo contemporâneo. Uma evocação do ambiente do mineiro a partir de uma visão crítica. Cercado de simbologia, um objeto real e mítico, que reflete a arte, a cultura, os valores, a religiosidade e as contradições da mineiridade. O pote guarda a água, símbolo da vida, ecoa a essência, marca o lugar e a passagem para o imaginário. Para um mundo real onde a poesia e a música, o sorriso e o diálogo, a prosa e a viola ainda são possíveis.

O Sesc Palladium fica na Avenida Augusto de Lima, 420 – Centro, Belo Horizonte. Para mais informações há o telefone  (31) 3270-8100

Ficha Técnica do espetáculo:

Pereira da Viola e Wilson Dias (voz e viola caipira e violão)/Wallace Gomes Pedro Gomes e Dito Rodrigues (violões)/ Gladson Braga (percussão)/ Daniel Guedes (percussionista)/ Técnico de som: Marcos Vinícios e Alan/ Técnico de luz: Túlio

Informações: Ingressos: Venda na bilheteria do teatro

Inteira: R$30,00/Meia: R$15,00 (Estudante, idoso, menor carente, menor de 21 anos, deficiente)

https://www.ingressorapido.com.br

Produção – Nilce Gomes/Telefone (31) 98515-7122 email:picuaproducoes@gmail.com

Assessoria de Imprensa:  Lilian Macedo/ Telefone (31) 99600-0651

Saibam mais a respeito e leiam outros conteúdos sobre Pereira da Viola e Wilson Dias no Barulho d’água Música clicando nos linques abaixo!

https://barulhodeagua.com/tag/wilson-dias/

https://barulhodeagua.com/tag/pereira-da-viola/

1196 – Clássico do Mês vai a Londres e apresenta novo álbum de Mark Knopfler

Disco produzido por Guy Fletcher traz elementos de jazz e funk e maiores pitadas de rock, sem deixar de lado canções temperadas por blues e folk que caracterizam a carreira solo do líder do Dire Strais, somados à  doses de nostalgia na sonoridade que fãs mais saudosistas celebram.

O Barulho d’água Música retoma neste dia 31 de maio a série Clássico do Mês, mas esta nova atualização, inicialmente planejada para o álbum de Roberto Carlos, de 1971, excepcionalmente, será dedicada a outro luminoso astro da música universal, que faz sucesso dentro e fora do Brasil: o escocês de Glasgow Mark Knopfler. Neste sentido, o disco comentado hoje também não será um que fez sucesso e marcou época quando foi lançado há algumas décadas, mas, sim o mais recente do carismático e até hoje afamado ex-líder do Dire Straits. Lançado em novembro, o nono álbum solo de Knopfler chama-se Down the Road Wherever, encontra-se disponível nas mais concorridas plataformas digitais e, para quem tiver a sorte de residir ou nestes dias estiver dando um rolê nos estranjas poderá ser curtido ao vivo em um dos shows que ele, Knopfler, promoverá em sua turnê de lançamento ao longo deste mês em países como a Noruega, a Suécia, a Dinamarca, a França, a Alemanha e ainda a República Checa, entre outras nações europeias. Como adendo fica a informação: os shows se estenderão e chegarão aos Estados Unidos e Canadá, mas não contemplarão até 29 de setembro nenhum país das demais Américas. É melhor não acreditar em Papai Noel, mas quem sabe depois, né?

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1191 – Titane (MG) apresenta no Tusp, em curta temporada, álbum gravado para celebrar a obra de Elomar (BA)

Mineira se embrenha nas estradas do menestrel que nos levam ao sertão profundo e inova mais uma vez ao se dedicar de forma inédita a gravar repertório de um único compositor

A audição matinal de todos os sábados aqui no boteco do Barulho d’água Música começou neste dia 18/5 com Titane canta Elomar – Na Estrada Das Areias De Ouro, que a cantora e intérprete mineira de São João Del Rey lançou para celebrar a obra do menestrel baiano Elomar Figueira Mello e cujo repertório ela apresentará em curta temporada a partir de 30 de maio, no Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp). O disco tem (apenas!) 10 faixas e ao final dele fica um gostinho de “quero mais”, bate a vontade de não mais se desplugar de uma das plataformas de streaming nas quais está disponível (Spotify, Deezer, Amazon, Apple Music, Youtube, Napster, Claro Música, Google Play). E ter o álbum físico em mãos é ainda melhor, pois é como tocar em uma moeda rara de rico tesouro, adornado por um primoroso encarte.

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