1312 – Bacurau abriga o desbunde tropicalista, o lirismo de Chico e o engajamento de Vandré

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Os seguidores dos tropicalistas achavam os de Vandré caretas e os dois consideravam Chico excessivamente lírico e passadista

Por Julinho Bittencourt

Julinho Bittencourt, músico, jornalista e editor do caderno de Cultura da Revista Fórum, escreveu na segunda-feira, 22, o artigo de opinião que vocês, amigo e seguidor, poderão ler abaixo, na íntegra, sobre um dos mais aclamados filmes nacionais de todos os tempos, lançado e exibido no circuito comercial de cinemas há menos de um ano, após entrar em cartaz no dia 23 de agosto de 2019.

Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi indicado ao Oscar 2020 e desde a sua estreia mundial no 72º Festival de Cannes choveram convites para ser atração em mais de 100 outros festivais e mostras mundo afora. Por onde passou, Bacurau arrebatou público e crítica, faturando o Prêmio do Júri do evento francês e vencendo como melhor filme no Festival de Cinema de Munique, entre outras láureas. Em seu texto, cujo linque poderá ser acessado clicando aqui, Julinho aponta possíveis relações entre a trama e os estilos e canções das obras de três dos nossos mais consagrados cantores e compositores: Caetano Veloso, Geraldo Vandré e Chico Buarque.

Em contrapartida à autorização de Julinho Bittencourt e da Revista Fórum para compartilharmos o artigo, pelo que agradecemos, reforçamos aqui a campanha on-line dos produtores da revista para mantê-la ativa e cumprindo seu ofício de bem informar sobre assuntos diversos, com independência, qualidade e seriedade. Saiba como fazer doações ou se tornar um sócio Fórum ou assine um dos planos de apoio disponíveis em https://revistaforum.com.br/socio-forum/financiamento-coletivo-e-recorrente/

Boa leitura a todos!

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1304 – Billynho Blanco (RJ) lança pela Kuarup disco de estreia

Com repertório eclético que vai da bossa nova ao rock, passando pelo folk, disco traz em onze faixas canções inéditas e duas regravações, uma do pai do cantor, compositor e ator: Billy Branco

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O cantor e compositor carioca Billy Branco Júnior está lançando pela gravadora Kuarup o álbum Billynho Branco, gravado em 2019, na cidade do Rio de Janeiro, com um grupo de jovens talentosos músicos formado por Gustavo Tibi (piano e teclados), Marco Vasconcelos (guitarra), Carlos Jannarelli (baixo) e Pedro Mamede (bateria e percussão). Billynho tocou os violões e alguns pianos no disco que traz onze canções, um apanhado de nove composições dele com seus parceiros Paulinho Mendonça (autor de Sangue Latino, gravada pelos Secos & Molhados); Lucas Sigaud, jovem poeta, doutor em Física que é fã ardoroso de Bob Dylan, John Reed e Leonard Cohen e escreve apenas em inglês, mais Ailan Ross, amigo de longa data e parceiro dos tempos em que Billynho morava em Nova York. Em francês, Mes Arais foi escrita em dueto com a poetisa Paula Padilha e celebra a amizade. Já as duas faixas restantes têm assinaturas de Caetano Veloso (O nome da cidade) e do pai de Billynho, Billy Blanco (Onda/Estrada do Nada). Um exemplar do disco, gentilmente enviado pela Kuarup (a quem agradecemos em nome do diretor artístico do selo, Rodolfo Zanke), abriu as tradicionais audições matinais dos sábados neste dia 23 de maio aqui na redação do Barulho d’água Música, em São Roque, no Interior de São Paulo.

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1300 – Fique em casa com boas músicas ouvindo playlists e lançamentos da gravadora Kuarup

Selo disponibiliza seleções de sucessos de cantores e compositores de seu catálogo e anuncia novos discos de Tuia Lencioni e das irmãs Célia e Celma

#Fiqueemcasa #ForaBolsonaro

Em tempos de pandemia por conta da propagação do novo coronavírus (Covid-19), ouvir boas músicas pode nos ajudar a cumprir a quarentena com mais tranquilidade e aliviar, ao menos, parte dos pesares que possam abalar o espírito. A Kuarup, que recentemente disponibilizou nas plataformas de streaming duas listas com sucessos de artistas que gravaram álbuns pelo selo (As Mais Tocadas e Renato Teixeira e Convidados), mesmo impedida de promover novos lançamentos com a presença de público, realizando, por exemplo, os seus já tradicionais pocket-shows em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, segue anunciando a chegada de novos álbuns às lojas e às plataformas, aumentando a oferta que em seu catálogo já é uma das mais ricas e ecléticas do mercado fonográfico. Dentre estes mais recentes discos, a Kuarup destaca Tuia, Versões de Vitrola 1, com Tuia Lencioni, e 50 anos Duas Vidas Pela Arte Ao Vivo, das irmãs Célia e Celma.

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1298 – Em Ser Tão, Moraes Moreira busca resgate das próprias origens e passa de “cantor a cantador”

Cantor e compositor começou a carreira que trocou pela Medicina ainda garoto, no sertão baiano, e depois de brilhar com os  revolucionários Novos Baianos, optou pela carreira solo interrompida “na alvorada dos setenta” , enquanto dormia , por um infarto

 (…) O sertão, essa vaga ficção geográfica que sempre foge à localização precisa. Pode-se entrar pelo sertão, que sempre haverá um sertão mais para o interior do país.””, Aires da Mata Machado Filho, O negro e o garimpo em Minas Gerais, página 33 (III, Sob o signo do diamante), Editora Itatiaia Limitada, 1985

“Sertão é o sozinho”.
“Sertão: é dentro da gente”.
Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa, Livraria José Olympio, 1956

O último disco gravado pelo cantor e compositor Moraes Moreira, lançado em 2018, Ser Tão, foi o escolhido para abrirmos neste dia 18 de abril mais uma audição matutina dos sábados pela manhã, cumprindo a determinação de nos mantermos isolados durante a pandemia do coronavírus (Covid-19) aqui no boteco do Barulho d’água Música, em São Roque, cidade do Interior paulista a cerca de 60 quilômetros da cidade de São Paulo.

A morte de Moraes Moreira ocorrida na segunda-feira, 13, de infarto do miocárdio enquanto dormia em sua casa (assim como Belchior, em 2017, e Tunai, mais recentemente) na cidade do Rio de Janeiro, indiscutivelmente deixa mais uma vez de luto a cultura popular, abalando não apenas o universo musical brasileiro, mas como um todo nesta época de pandemônio federal o combalido meio artístico no qual ele despontou nos começo dos anos 1970 como um dos integrantes dos revolucionários Novos Baianos. A passagem ao Plano Maior, entretanto, não apagará a obra grandiosa que nos legou o baiano de Ituaçu frequentemente associado a ritmos mais quentes como o frevo, o samba, as marchas de carnaval, o baião, o maracatu e mesmo o rock, mas que recentemente, no auge da maturidade, vinha buscando uma nova identidade que, na verdade, o levava de volta às próprias raízes, o fazia experimentar uma verdadeira “alvorada” aos 70 anos.

Ser Tão é um disco breve, de nove faixas apenas, e saiu pelo Selo Discobertas seis anos após o estrondoso sucesso entre a crítica e o público do álbum antecessor, A Revolta dos Ritmos — o que, talvez, não tenha rendido à empreitada os devidos elogios que Moraes esperava. Mais afeito à poesia e à lapidação da palavra nos últimos dias, Moraes Moreira à la Patativa de Assaré, Zé Limeira e Cego Aderaldo vinha flertando e produzindo várias peças em cordel (como o poema, agora épico, que escreveu sobre a Covid-19, que estará ao final desta atualização) e em Ser Tão já se evidenciava com mais força parte deste resgate, já que era paixão que trazia adormecida em seu peito desde a infância.

A revista Isto É, em um texto publicado em sua versão on-line à época do lançamento do álbum e com base em informações do jornal O Estado de São Paulo, lembrava que a reaproximação de Moraes Moreira com a literatura de  cordel e tudo que envolve esse universo já era notada em A Revolta dos Ritmos, remonta à infância do músico, vivida no interior na Bahia e servia de amálgama à transição que ele pretendia e já festejava, de cantor para cantador. Vou fazer minha passagem/De cantor pra cantador/E durante essa viagem/O tempo que é passador/Vai me dar uma guarida/E muitos anos de vida/Na cantoria do amor”, são versos da faixa De Cantor Pra Cantador, na qual Moraes ora declama, ora canta, mostrando que uma habilidade não descarta a outra. “Hoje, ele é as duas coisas”, sentenciou a revista na matéria cuja integra poderá ser lida clicando aqui.

Nesse disco, pude fazer essa ideia que tenho de juntar literatura de cordel, a influência dos cantadores, dos repentistas, essa coisa da cantoria”, disse Moraes, segundo a Isto É. “É uma cantoria, às vezes, falada, mas, na maioria das vezes, cantada, é claro”, emendou. “Essa relação já vem desde criança, e eu vivia muito isso, a coisa da sanfona, bem sertaneja mesmo, o violonista de serenata. Então, essa memória toda eu carrego.”

Ser Tão é, portanto, completamente autoral, embora inclua uma parceria com Armandinho na faixa Nas Paradas. “”O Armandinho ficou ali meio representando os outros parceiros e eles entenderam isso, que era um momento muito meu, eu tinha que me concentrar nisso. É coisa de viola, de sanfona, quase não tem guitarra. Pedia menos guitarra e mais viola.

Inevitavelmente, o disco acaba sendo biográfico, de uma maneira mais direta, como na já citada De Cantor Pra Cantador e em Alvorada dos Setenta, cujos versos são declamados pelo próprio músico, fechando o repertório. Ou mais indireta, quando ele se envereda por suas raízes e memórias, como em O Nordestino do Século, também declamada, e Origens, recitada e cantada. No blues I Am The Captain of My Soul, o refrão em inglês entoado na letra em português pode até causar estranheza nesse trabalho tão impregnado de Nordeste. Mas, para Moraes, o refrão fazia mais sentido assim, sem tradução. “Esse verso, ‘eu sou o capitão da minha alma’, eu li num livro. Fui pesquisar sobre isso, esse verso era de um poema, Invictus, de Ernest Henley, um inglês da época vitoriana. Um dia, me peguei cantando ‘I am the captain of my soul’. Depois, fiz a parte B da música, em português, e aí volta sempre o refrão, que tinha de ser em inglês”, disse. “São os sertões se encontrando: o sertão de lá e de cá.”

Ainda durante a conversa reproduzida por Isto É, Moraes Moreira observara que em seus tempos de Novos Baianos, nos quais o grupo criava, literalmente, a própria música, suas raízes nunca desapareceram. “Por exemplo, Preta Pretinha é uma coisa interiorana, é muito brejeira. Então, sempre teve ali um pouquinho.O Selo Discobertas, ao lançar Ser Tão, produziu o seguinte press-release, que não apenas reforçou este perfil de Moraes Moreira, mas ampliou-o ao frisar que:

Se a Música Popular Brasileira fosse uma cidade, Moraes Moreira seria aquele caminhante que passa por todos os bairros, cruza todas as ruas, vira em todas as esquinas… e por onde anda ele se sente em casa. Não importa se é num afoxé carnavalesco ou num arrasta-pé junino, numa batucada de samba ou numa balada urbana, sua música é como um líquido que toma a forma de todos esses vasos, sem perder o sabor. Ser Tão não chega a ser uma novidade na obra desse compositor tão litorâneo e ensolarado, tão urbano e beira-mar. aquífero acessível a quem se dispõe a ir um pouco mais fundo. Há um subterrâneo de sertão por baixo de toda a cidade-Brasil. Há uma memória de sertão juntando histórias, lendas, melodias, ritmos e personagens.

Musicalmente, Moraes sempre foi um aproximador de águas, um acolhedor de belezas. A lição tropicalista foi rapidamente assimilada por sua geração para quem o rock e o samba eram bairros vizinhos que tinham a aprender um com o outro. Canções como I am the Captain of My Soul e Nas Paradas têm um sabor geracional cuja novidade não se perdeu, cuja tinta ainda não secou. Baladas de estrada, com algo de blues e das road songs que acompanharam as histórias dos andarilhos num dos muitos sertões que o Brasil descobriu dos anos 1960 para cá .Este é Moraes Moreira, sertanejo acampado à beira-mar, capitão da própria alma, setentão sempre jovem a cruzar um sertão eterno”.

Estetoscópio de pinho

De acordo com a biografia de Antonio Carlos Moreira Pires publicada pela Enciclopédia Itaú Cultural (EIC). a carreira do compositor, cantor e violonista que adotou o nome artístico de Moraes Moreira começou quando ele ainda era adolescente, tocando sanfona de 12 baixos. Com pouco tempo de aprendizado, o piá já animava festas de São João, casamentos e batizados. Em 1963, fez o curso científico na cidade de Caculé, no interior da Bahia, onde conheceu diversos violonistas e se apaixonou pelo violão. Com 19 anos, mudou-se para Salvador com o intuito de fazer o curso de Medicina, mas optou por estudar música no Seminário de Música da Universidade Federal da Bahia. Na pensão em que morava, conheceu os futuros parceiros do grupo Novos Baianos: Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão. que o apresentou ao cantor e compositor baiano Tom Zé, professor de violão no seminário e com o qual Moraes Moreira trocava informações sobre harmonia e composição.

Seus amigos de pensão começaram, então, a elaborar o espetáculo de estreia do grupo Novos Baianos, O Desembarque dos Bichos depois do Dilúvio Universal, em 1968. Contando também com a cantora Baby Consuelo (atual Baby do Brasil) e o guitarrista Pepeu Gomes na formação, o grupo deslocou-se até São Paulo para participar do 5º Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record (1969), defendendo a música De Vera, de Moraes Moreira, com letra de Galvão. Em seguida, saiu o primeiro disco, Ferro na Boneca, antecedendo o clássico Acabou Chorare, que em 1972 venderia mais de 100 mil cópias. Ícone da discografia nacional com decisiva participação de João Gilberto, Acabou Chorare inclui no repertório, entre outras o samba Brasil Pandeiro, de Assis Valente, além das composições próprias do grupo.

Moraes Moreira deixou os Novos Baianos e partiu para a carreira solo ainda em 1975, abraçado ao primeiro parceiro nessa caminhada, o guitarrista Armandinho. Já nesta fase, ele tocou com o trio elétrico de Dodô e Osmar (pai de Armandinho) em 1976, consagrando-se como o primeiro cantor de trio elétrico, embalando os seguidores com marchinhas como Pombo Correio, parceria dele com Dodô e Osmar. Rapidamente, Moraes Moreira ganhava fama e passava a ser apontado como um dos principais responsáveis pelo crescimento do carnaval de rua em Salvador.

Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, outro dos seus sucessos, saiu em 1979, com canções em parceria com Pepeu Gomes, Jorge Mautner, Antonio Rizério, Abel Silva, Fausto Nilo, Armandinho e Oswaldinho do Acordeon. Santa Fé, parceria dele o poeta Fausto Nilo, é escolhida para ser o tema de abertura da novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, mas a trama, censurada pelo governo militar em 1975, acabaria engaveta até 1985, quando enfim foi exibida pela Rede Globo.

Um novo encontro com os Novos Baianos ocorreu em 1997, para o lançamento do disco ao vivo Infinito Circular, com canções dos discos anteriores e algumas inéditas. Dez anos mais tarde, Moraes Moreira enveredou pelo mercado editorial ao publicar o A História dos Novos Baianos e Outros Versos e nesta publicação já adotou a linguagem de cordel, dando pistas da transição que viria adiante.

Análise da EIC

O diálogo entre gêneros musicais é  a marca da trajetória artística de Moraes Moreira. Ao começar a carreira, seu estilo tende para o rock, mas nutre também paixão pelo samba e pelo choro, e aponta nomes como Braguinha, Lamartine Babo, Zé Kéti e Jacob do Bandolim como seus maiores inspiradores. Sua obra dialoga com as produções de Roberto Carlos, Jimi Hendrix, e com a estética do tropicalismo, proposto por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé e outros artistas. Tais referências estão presentes em Ferro na Boneca, primeiro disco do seu grupo Os Novos Baianos, que, nos anos 1960, vive numa espécie de comunidade alternativa.

A presença de João Gilberto na comunidade dos Novos Baianos contribui para acentuar o caráter musical multifacetado do grupo, fundindo sonoridades do samba, frevo e baião com o rock. Moraes Moreira aprende a maneira original de João Gilberto tocar violão e com ele se aproxima do repertório de compositores como Assis Valente. Logo cria, com Pepeu Gomes, um regional com cavaquinho e violão para o maior sucesso do autor, Brasil Pandeiro, gravado pelos Novos Baianos no álbum Acabou Chorare (1972). A canção, feita em 1940, exalta a entrada do samba no mercado musical dos Estados Unidos, alavancada principalmente por Carmen Miranda, intérprete de grande parte das músicas de Assis Valente.

As composições com Luiz Galvão vão de canções de simples harmonias, como o maior sucesso do Novos Baianos, Preta Pretinha (Acabou Chorare), de dois acordes apenas, até as de complexas estruturas, caso de Os Pingos da Chuva (Novos Baianos F.C., 1973). As influências da Bossa Nova, Jovem Guarda, tropicalismo e da música internacional resultam na sonoridade particular do grupo.

Integrando o trio elétrico de Dodô  e Osmar, expande suas referências ao ser apresentado a compositores como Capiba, Nelson Ferreira, Duda, Antônio Maria (1921 – 1964) e outros nomes do frevo pernambucano.  Moraes Moreira compõe a letra para uma música original de Dodô e Osmar que se torna outro grande sucesso, Pombo Correio, típica marchinha dos trios que animam o Carnaval de Salvador. Introduz a voz nos trios elétricos, que até então é só instrumental, até por uma questão técnica. Seu pioneirismo faz escola e fomenta o surgimento de uma geração de cantores de trio.

Lança seu quarto disco solo, Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, em 1979. Além da faixa-título, que se torna hit nacional, o álbum traz canções que marcam o carnaval baiano, como Eu Sou o Carnaval, Chão da Praça e Assim Pintou Moçambique. Esta, em parceria com Antonio Rizério, é um marco na história da música baiana, pela mistura do frevo dos trios elétricos com o batuque dos blocos afro, prenunciando as fusões que animam o Carnaval e abrindo um novo caminho na música da Bahia, que culmina na chamada geração axé music.

No CD O Brasil Tem Conserto, de 1994, em parceria com o maestro e arranjador Vitor Santos, realiza um trabalho que mescla música popular com a erudita. Nesse álbum, reforça a harmonia e a melodia, mantendo as características rítmicas de suas composições. O baião e o samba são misturados no CD Bahião com H, de 2000, que aproveita na época o oportuno interesse das novas gerações pela música regional brasileira. Em 2005, o álbum De Repente funde o hip-hop com o repente nordestino, trazendo elementos da música eletrônica e do rap, ou da “palavra falada”, como Moraes classifica.

Leia abaixo o poema em cordel deixado por Moraes Moreira sobre a Covid-19, conforme consta na página do Diário Causa Operária (DCO) sobre a morte do cantor e compositor, veículo que relatou ainda que, recentemente, Moreira e Baby Consuelo teriam protagonizado um desentendimento que demonstra a personalidade forte, a autenticidade e o respeito às próprias convicções e à história que ele tinha.

Em novembro de 2019 estreou o espetáculo Novos Baianos, no qual treze atores contavam a história da banda, com direção musical de Pedro Baby (filho de Baby Consuelo) e Davi Moraes (filho de Moraes). Esse musical, conforme o DCO, teria causado uma desavença de Moraes com Baby Consuelo, hoje em dia a evangélica Baby do Brasil. Baby queria que o espetáculo ignorasse o uso de drogas pelo grupo. Moraes afirmou que “Baby queria que o espetáculo fosse evangélico. Que não dissesse que fumou maconha, que tomou ácido, que fez tudo. Assim os Novos Baianos não seriam revolucionários. João Gilberto deve estar se revirando na sepultura. Porque o nosso grupo fumou, sim, tomou ácido, sim, fez músicas maravilhosas em estado de fumar maconha, sim. A gente fazia música inclusive pra ela. As canções dela que fizeram sucesso como A Menina Dança, Tinindo, Trincando, Os Pingos da Chuva e tantas outras, foram feitas na onda, porque naquele tempo a onda era essa”.

O DCO também observou que Moraes esteve ativo até o final da vida. No carnaval deste ano cantou no Pelourinho, mesmo já aparentando estar debilitado. Desde março ele estava recolhido à sua casa por causa do coronavírus, mas ainda compondo e escrevendo. Uma de suas últimas obras foi o cordel que fala da Covid-19, mas também lembra de Marielle Franco:

Eu temo o coronavirus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida,
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida

Assombra-me a pandemia
Que agora domina o mundo
Mas tenho uma garantia
Não sou nenhum vagabundo,
Porque todo cidadão
Merece mais atenção
O sentimento é profundo

 Eu não queria essa praga
Que não é mais do Egito
Não quero que ela traga
O mal que sempre eu evito,
Os males não são eternos
Pois os recursos modernos
Estão aí, acredito

De quem será esse lucro
Ou mesmo a teoria?
Detesto falar de estupro
Eu gosto é de poesia,
Mas creio na consciência
E digo não a todo dia

Eu tenho medo do excesso
Que seja em qualquer sentido
Mas também do retrocesso
Que por aí escondido,
Às vezes é o que notamos
Passar o que já passamos
Jamais será esquecido

Até aceito a polícia
Mas quando muda de letra
E se transforma em milícia
Odeio essa mutreta,
Pra combater o que alarma
Só tenho mesmo uma arma
Que é a minha caneta

Com tanta coisa inda cismo.
Estão na ordem do dia
Eu digo não ao machismo
Também a misoginia,
Tem outros que eu não aceito
É o tal do preconceito
E as sombras da hipocrisia

 As coisas já forem postas
Mas prevalecem os relés
Queremos sim ter respostas
Sobre as nossas Marielles,
Em meio a um mundo efêmero
Não é só questão de gênero
Nem de homens ou mulheres

 O que vale é o ser humano
E sua dignidade
Vivemos num mundo insano
Queremos mais liberdade,
Pra que tudo isso mude
Certeza, ninguém se ilude
Não tem tempo, nem idade

Leia também no Barulho d’água Música: 

1101- “Acabou Chorare”, melhor disco já gravado no Brasil, faz a fama dos Novos Baianos sob as bênçãos de João Gilberto

Clique e ouça o último disco de Moraes Moreira:

Ser Tão

1280 – Silencia no sertão a viola de Manoel de Oliveira, o Mestre Manelim, autor do álbum Urucuia, com Paulo Freire

Menos de uma semana depois de a música brasileira perder o pernambucano menino passarinho Luiz Vieira, que desencarnou aos 91 anos na cidade do Rio de Janeiro na quinta-feira, 16/1, também bateu asas e subiu ao Mundo Maior, na terça-feira, 21, Manoel de Oliveira, o Mestre Manelim, violeiro que nasceu e viveu em Urucuia, uma pequena cidade no Noroeste de Minas Gerais que inspirou Guimarães Rosa, a 600 quilômetros de Belo Horizonte.

Mestre Manelim estava com 86 anos . Em Brasília (DF), durante uma ida à casa da filha no mês de dezembro,  ele recebeu recebeu visita do também violeiro Paulo Freire, seu mais notório discípulo, que com ele conviveu longamente e aprendeu vários toques que estão fora dos manuais didáticos dedicados ao ensino do instrumento.

Freire, que também é escritor, pesquisador e contador de causos dos bons, mora em Campinas, no interior de São Paulo e em 2006 ajudou a trazer à luz o único álbum gravado pelo mestre, Urucuia, contribuindo desta maneira para não deixar relegado apenas ao seu pequeno e encantador universo um baluarte da cultura popular — assim como mais recentemente o fizeram o poeta e compositor mineiro Paulo César Nunes e os músicos Danilo Gonzaga Moura e Victor Mendes, do Trio José, de São José dos Campos (SP), que nos revelaram e nos apresentaram à extensa e plural obra  do sêo Juca da Angélica, poeta da oralidade que atravessava seus últimos dias em Lagoa Formosa (MG) e que o Brasil ignorava até então, mas que pelo esforço deles ganhou um mínimo de notoriedade e carinho antes de subir para o Plano Celestial, aos 97 anos; vale lembrar, ainda, que a pantaneira Dama da Viola, Helena Meirelles, só “explodiu” cá em Pindorama  após ser “descoberta” pela edição norte-americana da Revista Guitar Player, já octogenária, no final da década dos 80.  

Sobre a vida, a partida e a obra de Manoel de Oliveira, portanto, não há ninguém melhor do que  Paulo Freire para nos contar — embora fosse admirado, ainda, basta ver os comentários à mensagem de Paulinho, por muitos craques dos gêneros caipira e regional, como Roberto Corrêa. É de Freire o pungente, emocionado depoimento que abaixo reproduzimos e compartilharemos, publicado também pela Revista Fórum, e cujas palavras explicitam o tamanho da importância de preservarmos a qualquer custo a memória de nossos artistas — notadamente aqueles que estão fora do mainstream, quando se faz apologia aos pilares do nazifascismo como modelo de cultura a ser seguido — que nos legam obras essencialmente brasileiras, que preservam e difundem nossos mais caros e imprescindíveis valores fundantes.

Na sequência do depoimento de Freire nesta atualização, o amigo e seguidor lerá texto de apresentação do álbum Urucuia que acompanha no sítio Em Canto Sagrado da Terra os arquivos, em formato Mp3, das 16 faixas do disco.

Hoje, 21 de janeiro de 2020, faleceu seu Manoel de Oliveira, mestre Manelim. Meu mestre. Não vou falar “encantou-se”, como diria o Rosa, pois não consigo ver poesia em sua partida. Mesmo sendo o Rosa quem me fez conhecer o seu Manoel e o grande sertão. Uma palavra melhor, ou mais adequada, seria: devastação.
Mestre Manelim me ensinou a enxergar a viola na natureza. Foi um exemplo de pai. Um outro pai. Sou irmão de seus filhos, e filho também de dona Vicentina. A lembrança do café na beira do cerrado, amanhecendo, no frio do sertão, em volta da fogueira, com o mundo despertando, até ouvir o chamado do mestre para todos irmos trabalhar na roça. No final do dia, no terreiro tão bem cuidado de dona Vicentina, pontear a viola e grudar a atenção no que estava acontecendo. Para onde vai tudo isso? Como permanece dentro de mim e deles, sem o seu Manoel?
Acredito cada vez mais que não existe céu e inferno, quer dizer, não existe só isso. Tem muito mais assunto. A alma é um assunto. E existem vários caminhos para se trilhar. Dentro desse nosso couro que vai enrugando, e fora desse couro. Os toques de viola que ele me ensinou, como o sapo e o veado, o papagaio, lagartixa, mostravam como poderíamos ser estes bichos, como entrar no sentido deles e, assim, esticar nossas vidas. Tenho certeza que estes últimos dias, mesmo bem longe dele, o seu Manoel esteve aqui ao lado. E dentro. Senti fundo um chamado, como o dia que ele foi me buscar na roça adivinhando uma tristeza que baixou em mim. Como o seu Manoel percebia isso? Me senti ao seu lado, no silêncio que ele carregava, e o peito apertando…
Não conseguirei ir à despedida do seu Manoel, amanhã, no Urucuia. O seu Manoel sabe por quê. Meus irmãos urucuianos e dona Vicentina também. Já que não consigo, vou de outro jeito. Desligar do que não tô precisado e deixar ele me guiar para algum outro lugar em comum. Em dezembro estive com ele, dona Vicentina, e minhas irmãs Joaninha e Valdinea, em sua casa, em Brasília. Seu Manoel estava se recuperando de uma pneumonia, mas bem fraquinho. Pediu que eu tocasse o “rio abaixo”. Peguei a viola e toquei. Experimentei passar a viola pra ele. Mesmo sem forças, o Manelim mostrou que não estava certo o meu ponteado. Tentei de novo, pelejando com o detalhe. E ele enfim disse: “um dia você aprende”. Com seu jeito doce e sentimento firme. Como que dizendo: continua, não para, não esmorece, olha eu aqui! O Cacai Nunes tava bem do ladinho e viu tudo.

Santíssima trindade: O mestre Manelim (sentado), o instrumento que os unia e o discípulo violeiro Paulo Freire

Desde cedo eu senti que hoje era um dia no lugar errado. A respiração não sai nem entra direito. Olhava para o telefone a todo momento, já que estou desacostumado do caminho das almas. Até que veio a notícia. Saí para andar. Procurei um canto que pudesse entender o acontecido, ou buscar forças para enfrentar a devastação. Fui num lugar que nunca tinha ido e uma árvore me buscou. Uma paineira. Fiquei calado o dia inteiro. Só uma conversinha de trabalho. E as trocas de afetos com meus irmãos, filhos do Manelim. Sei que tem um bocado de amigo passeando por aqui, então vim esvaziar o peito.
Vão ouvindo, seu Manoel tá quieto aqui na rede, fazendo um pinicado na viola, uma besteirinha, como ele dizia, diamante puro, água fresca de vereda, capaz de ultrapassar qualquer explicação de amor e saudade.

Urucuia é a terra natal de Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. A cidadezinha de 11 mil habitantes fica no noroeste de Minas Gerais, na margem do rio homônimo, um dos afluentes do Rio São Francisco. Reza a lenda que o escritor Guimarães Rosa nunca esteve por lá, mas foi de pessoas de lá que ouviu, na venda do pai, diversas histórias da região que povoam sua fantástica literatura, cujo cinquentenário está sendo comemorado neste ano [2006, quando o álbum foi lançado].

É de lá também Manoel de Oliveira, o “Manelim”, um violeiro que dedilha pelo menos dois séculos de tradição foliã. É música que certamente Guimarães Rosa ouviu e que está registrada em disco pela primeira vez com ajuda do violeiro Paulo Freire. O disco Urucuia traz Mestre Manelim tocando e cantando 16 músicas, entre 11 criações próprias e cinco de domínio público que estão aquém do sertão de Minas. Atinge outros sertões como Caninha Verde, que toma diferentes feições por diversas regiões do País.

Criação própria e domínio público formam algo que se confunde na obra de Manelim, como na obra dos músicos anônimo do sertão, diz Paulo Freire, violonista já conhecido que foi aluno de Mestre Manelim. “Sempre quis gravar a música dele, mas como ele quase não sai de lá, aproveitei uma das raras visitas dele a São Paulo para trancá-lo num estúdio”, brinca Freire, que produziu o álbum convidando Adriano Busko (percussão), Zé Esmerindo (violão e voz) e Thomas Roher (rabeca) para o ornamento instrumental das músicas. Instigado pela leitura de Guimarães Rosa, Paulo Freire se embrenhou no sertão mineiro no final dos anos 70, quando descobriu e tornou-se seguidor do ponteio de Mestre Manelim, para ele, o mais importante violeiro da região.

Agricultor e marceneiro, Manoel de Oliveira aprendeu a pontear a viola com Onora Martins Alves, mulher que o criou. Onora era a fazendeira do lugar para quem os pais de Manelim trabalhavam e confiaram a criação do filho. O mestre tem 76 anos, por certo não conheceu Guimarães Rosa, mas já ouviu muitas histórias sobre o escritor famoso, conta Paulo Freire.

A música de Manelim é simples, ingênua até, de ponteado calcado nas folias de reis com temas que denotam a ancestralidade oral da cultura popular de sua terra (e brasileira, por extensão). Não há nem mesmo a influência de variações dadas ao gênero pelo pagode de Tião Carreiro ou a sofisticação de arpejos de Renato Andrade, por exemplo, o que aumenta o interesse histórico do álbum. De voz frágil, Manelim canta em apenas quatro faixas, concentrando-se no toque do instrumento que revela esmero igual ao dos artesãos urucuianos com o manejo da palmeira de buriti. Os temas versam sobre a natureza, o jeito de ser do sertanejo e as crendices que cercam a viola, como o pacto com o capeta. Aproveitando essa riqueza oral na obra do mestre, Paulo Freire aproveitou para registrar duas “conversas” no estúdio com Mestre Manelim. Numa delas, ele relata o causo d´A Corrida do Sapo e o Veado e noutra comenta o tal pacto em Laço do Capeta.

Várias músicas feitas no Brasil com incidência no imaginário criado por Guimarães Rosa são sugeridas sempre que se fala em Grande Sertão: Veredas. As mais frequentes são de medalhões da MPB, como Gilberto Gil (que fez Casinha Feliz no disco Dia Dorim Noite Neon, de 1985), Caetano Veloso (que fez com Milton Nascimento a canção A Terceira Margem do Rio, do disco Circuladô, 1991) e Chico Buarque de Assentamento, tema mais MST do que roseano, do álbum As Cidades (1998). Em que pese a beleza inegável destas composições, nenhuma delas, no entanto, são tão próximas e muito menos concernentes ao universo do escritor mineiro quanto este e outros violeiros brasileiros. Se Guimarães Rosa tiver que ter uma trilha sonora, esta deveria passar necessariamente por criadores como Mestre Manelim.

Para acessar o linque que dá acesso à cópia do disco Urucuia no site Em Canto Sagrado da Terra clique na palavra em destaque.

 

1278 – Luiz Vieira (PE) não resiste a infarto na cidade do Rio de Janeiro e bate asas

Cantor e compositor pernambucano vivia em Copacabana e deixou como legado mais de 500 composições, como Prelúdio para ninar gente grande e Paz do meu amor, que marcam gerações

Os amantes da boa música lamentam desde a quinta-feira, 16, o desencarne na cidade do Rio de Janeiro do cantor, compositor e radialista Luiz Vieira (Luiz Rattes Vieira Filho). Uma parada cardíaca levou ao Mundo Maior o autor consagrado por músicas que há anos embalam gerações como A paz do meu amor (Menino Passarinho) e Prelúdio para ninar gente grande, dois dos seus maiores sucessos entre mais de 500 canções que deixou como legado. Vieira, que tinha 91 anos, sentiu-se mal em sua casa em Copacabana na noite anterior e não resistiu às sequelas do infarto. O corpo foi sepultado na tarde de sexta-feira, 17, no Cemitério São João Batista, no bairro carioca de Botafogo.

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1269 – André Fernandes e Vinícius Paes lançam PAR em três cidades da região de Sorocaba (SP)

Álbum com 12 faixas, tocadas ao violão, celebra a parceria iniciada durante uma viagem  dos músicos entre o Espírito Santo e São Paulo, em 2013, e tem participações de Selma Fernandes, Matheus Pezzotta, Fabio Gouvea

Os cantores e compositores André Fernandes e Vinícius Paes, cumprindo agenda de lançamento do disco PAR, protagonizarão neste final de dezembro três apresentações em cidades da região de Sorocaba, município situado a cerca de 90 quilômetros da Capital de São Paulo, todas sem cobrança de ingresso, com colaborações espontâneas ao final de cada uma delas. Um destes locais é São Roque, no qual ambos serão atração neste sábado, 21, a partir das 20 horas, da Casa Rosa Manjericão (ver guia Serviços). Com 12 faixas, PAR celebra a parceria que brotou durante o 8º Festival Nacional da Viola promovido na capixaba Itapina, em 2013. Ambos se tornaram amigos na viagem de volta a São Paulo, quando Paes ofereceu carona para Fernandes e assim descobriram as múltiplas afinidades e referências musicais em comum, atributos que os levaram a promover vários shows em dupla, desde então.

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1263 – Eliana Pittman lança álbum acústico, pela Kuarup, e resgata show gravado em Paris há 50 anos

Disco tem o dedo do produtor Thiago Luiz Marques e traz 18 músicas em formato acústico, com violão e percussão

Chega ao mercado, pela Kuarup Produtora, Ontem, Hoje e Sempre, novo trabalho da cantora Eliana Pittman. O álbum, gravado em formato acústico com violão e percussão, reúne 10 regravações de músicas de autores como Vinicius de Moraes, Martinho da Vila, Fito Paez, Caetano Veloso, Chico Cesar, Candeia, Cazuza e Gilberto Gil entre outros e um exemplar do disco nos foi gentilmente enviado pela Kuarup, a cuja equipe agradecemos em nome do seu diretor artístico, Rodolfo Zanke. Como bônus, há mais oito faixas, ao vivo, resgatadas de um show gravado em 1970, em Paris, capital da França, na boate Dom Camillo, com repertório de clássicos da Bossa Nova.Com este trabalho, festejo com orgulho e gratidão o meu ontem e o meu hoje, que vem a ser o meu sempre”, afirmou a cantora. 

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1261 – Baiano por afeição, Walter Lajes é mais uma joia da ditosa galeria dos cantores e compositores da Boa Terra

Paranaense de berço, depois de passar pela cidade do Rio de Janeiro e também morar em Pernambuco, músico  que já lançou oito álbuns fixou-se em Vitória da Conquista, município onde um dos vereadores acaba de homenageá-lo por mais uma exitosa participação em festival, na cidade paulista de Barueri

A Bahia é generosa com o país e a cultura popular quando o assunto é a contribuição para a boa música e o enriquecimento do nosso cancioneiro. Partindo de Dorival Caymmi e toda a sua família, passando por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Pepeu Gomes — para ficar apenas em algumas consagradas joias do estilo popular –, passamos por Elomar, Xangai, Roque Ferreira, Gereba e seu parceiro Capinam — mais dedicados ao que o mercado gosta de classificar como “regional” — entre tantos outros exemplos, chega-se sem surpresas à conclusão que o estado de Castro Alves nada deixa a dever aos que consideram como referencial apenas o Sudeste maravilha — premissa que, por sinal, vale ainda para outros da região Nordeste, sem exceção de nenhuma de suas unidades federativas.

E colocando mais dendê na conversa, ainda que paranaense de nascimento “por um acidente de percurso”, conforme ele mesmo declarou ao Barulho d’água Música, o compositor, poeta, cordelista e como o próprio também se define, cantador Walter Lajes, joga fácil nesta seleção de baianos e tem feito por merecer que holofotes e emissoras, produtores e agentes de espetáculos e programas, bem como a indústria fonográfica, sejam mais generosos e o escalem sem medo de caneladas e de tomar gols contra.

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1250 – Walter Franco(SP) embarca numa boa brisa e, sempre diamante, ascende para provocar outros céus

Gênio para alguns, maldito para outros, ambos para muitos, mas incontestavelmente marcante para todos, gostassem dele ou não, tanto nos palcos, como fora dele: Walter Franco embarcou numa vela aberta e se afastou pelo mar rumo à Serra do Luar na madrugada desta quinta-feira, 24/10, na cidade de São Paulo, viagem que torna mais banzaró nosso anseio por navegar e, quando possível, com a mente quieta e a espinha ereta por águas mais tranquilas, equilibradas, justas e artisticamente mais ricas.

Sofrendo uma dor que dilacera enquanto canalhas de plantão metem fogo na mata (e no cabaré) e à base de canetadas esvaziam árduas conquistas, a cultura brasileira está mais uma vez de luto, desta vez pela passagem, aos 74 anos, do cantor e compositor que agitou a cena dos primeiros festivais, ganhando um dos certames — na opinião da plateia e parte dos jurados como Nara Leão, Júlio Medaglia, Rogério Duprat e Roberto Freire, antes de eles serem defenestrados e emudecidos –, só que não — de acordo com a palavra final da ditadura, da milicaiada e dos censores que ferviam, dentro e fora do ginásio do Maracanãzinho (RJ), que os organizadores chapas brancas acataram com as calças nas mãos.

Walter Rosciano Franco estava internado desde o começo do mês, após sofrer um acidente vascular cerebral que o deixou inconsciente desde então. O filho, Diogo, foi quem trouxe a mensagem às redes sociais. “Agradeço a todas as orações e boas vibrações nesses últimos dias, mas sinto dar a notícia de que nosso Walter Franco partiu tranquilamente”, escreveu. Tranquilamente, como sempre foi, apesar de polêmico, inovador, provocativo, transgressor e se sabe lá quantos mais rótulos nele tentaram pespegar e ele, de fato, tenha encarnado, embora não admirasse o de “maldito”. Pois o paulistano pai de Diogo, controvérsias à parte em sua biografia, consolidou-se como um dos expoentes da vanguarda brasileira, legando ora petardos contra as conveniências e a subserviência do período, cutucando com suas letras, arranjos e voz comportamentos e mentes  da corruptela e apaniguados dos anos de chumbo, ora baladas mais suaves, o que fazia dele para outros tantos apenas um rapaz… boa praça, bem educado, no fundo difícil de enquadrar em esteriótipos.   

A mídia e a indústria do entretenimento gostam de rótulos, mas Walter Franco paira acima de todos os esteriótipos e ficará na história da MPB pelo conjunto da obra que, no início de sua trajetória, abriu os caminhos para consagra-lo

Cabeça, Canalha, Me Deixe Mudo, Vela Aberta, Mamãe d’água, entre outros, estão entre alguns dos seus sucessos mais virais; outros diriam “mais virulentos”, talvez. Inicialmente apontada como favorita a vencedora (juntamente com Nó na Cama, de Ari do Cavaco e Cesar Augusto), Cabeça causou furor, despertou reações acaloradas, temperadas com vaias, sopapos e ameaças ao final do Festival Internacional da Canção, de 1972, o último da Era dos Festivais que, consumado em “marmelada”, acabou consagrando (seguindo os votos de um júri novo, formado nos bastidores, apenas por estrangeiros) como vencedora Fio Maravilha, de Jorge Ben, interpretada por Maria Alcina – ambos, é bom que se registre, nada têm a ver com isso.

Um ano mais tarde, a canção em tela  integrava Ou Não, álbum de estreia de Walter Franco e que deixou a crítica trocando par ou ímpar para — conforme apontou Thales de Menezes em artigo da Folha de São Paulo que escreveu no dia da morte do autor — ficar estabelecido qual seria o disco mais experimental e inovador da época, se Ou Não ou Araçá Azul, de Caetano Veloso. Com apenas uma mosca na capa, as composições não passaram batidas por conter, entre outros elementos, pitadas de poesia concreta e psicodelia, algumas das tendências estéticas que vigoravam na época trazidos, inicialmente, nas boas ondas da Tropicália.  

Em uma de suas apresentações, ainda no palco, Walter Franco é cercado por fãs (Foto: Marcus Preto)

Walter Franco, entretanto, botou para quebrar, mesmo, em 1975, ano em que trouxe para o baile Revolver, seu segundo álbum, tema da atualização 1138 deste Barulho d’água Música, publicada em 26 de dezembro de 2018. Revolver contem, entre outras faixas, Eternamente, Feito Gente, Mamãe d’água, Cachorro Babucho e Pirâmides, gravadas em um “estilo mântrico”, que sugere flertes com o zen budismo, conforme também apontou Thales, e remete, ainda ao lendário Abbey Road (1969), dos The Beatles, em cuja capa o quarteto mais famoso que Jesus Cristo caminha sob uma faixa pintada na célebre avenida londrina, com John Lennon, todo de branco, puxando a fila; pois Walter Franco, embora sozinho em sua capa, também vem todo de branco e cabeludo  tal qual Lennon, sem contar que a faixa 3, Mamãe D’água, lembra em alguns momentos Lucy In  the Sky With Diamonds, do Seargent Pepper’s… (1967). Nos anos seguintes, a discografia de Franco aumentou com Respire Fundo (1978), Vela Aberta (1979), Walter Franco (1982) e Tutano (2001), com a participação do titã Arnaldo Antunes.

No sentido horário, as capas dos álbuns de Walter Franco, em ordem cronológica

Mesmo sem jamais cair no ostracismo, já tiozão optar pela reclusão em um sítio cercado de árvores frutíferas e açude piscoso, sem dependurar as chuteiras, do último disco em diante Walter Franco fez apenas alguns shows esporádicos — todos sempre coalhados de gente, nos quais o repertório entremeava músicas contestadas com os sucessos menos agressivos — como Serra do Luar, regravado por Leila Pinheiro e que se notabilizou pelo verso viver é afinar o instrumento/De dentro pra fora/De fora pra dentro. O ex-cabeludo daqueles tempos nos quais também despontaram Sérgio Sampaio como figurinha carimbada do mesmo álbum dos “malditos” matinha uma banda desde 2015 e cantava sempre acompanhado por Diogo, um dos quatro herdeiros. Thales de Menezes informou que Walter Franco estaria preparando um novo disco, que seria o sétimo da trajetória.

O corpo de Walter Franco, após o velório na Bela Vista, foi cremado em Vila Alpina, ambos bairros paulistanos. A toda hora, a todo o momento, entretanto, que sua obra seja lembrada pela originalidade, pela coragem, pela ousadia de quem soube inovar e andar à frente de seu tempo quando o bicho [que julgávamos morto e enterrado] pegava por aqui.

Leia sobre e ouça a música Cabeça neste texto de Elisa Oieno, publicado em 25 de julho de 2017, clicando na palavra em destaque!