João Bá comemora 80 anos e lança “Cavaleiro Macunaíma” no SESC Itaquera

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João Bá, abraçado pelo violeiro Paulo Freire, é uma das referências para vários cantores e artistas que preservam a cultura popular e dedicam-se aos temas do sertão (Foto: Marcelino Lima)

O Brasil tem sido prodigioso em gerar compositores, músicos e escritores que com sua genialidade retratam e perpetuam as belezas dos sertões, sua gente e suas riquezas, seja o físico, aquele que tem suas vastas extensões territoriais, por exemplo, o agreste, seja aquele que Elomar define como “profundo”, no qual só se penetra por meio de portais como o que se abre a partir da pedra de Itaúna — ou seja, a porção mítica, imaginada, fantástica, que atravessa todos os tempos — ou também a que é  explicada por uma forma de ser, um estado de espírito, conforme o sentido roseano. O próprio menestrel sertanez que tornou-se dissidente do estado no qual nasceu, a Bahia (entendida apenas como Salvador, cidades do Recôncavo e litorâneas) por esta dar as costas ao e relegar o sertanejo, é um destes bardos, assim como vem sendo Levi Ramiro, Paulo Freire, Pereira da Viola e o foram João Guimarães Rosa, Luiz Gonzaga, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna e Dércio Marques.

O cantador, ator de cinema e teatro, e poeta João Bá também guerreia nesta cruzada e integra este panteão, e ainda hoje, no ápice dos seus 80 anos de idade, é um dos seus mais profícuos atalaias. Autor de mais de duzentas músicas, muitas gravadas por expoentes como Almir Sater, Diana Pequeno, Marlui Miranda, Hermeto Paschoal e o parceiro São Dércio, o menino que nasceu em Crisópolis  (BA) e que imediatamente após a queda do primeiro dente já se viu obrigado a trabalhar para ajudar no sustento da família de lavradores parece, ainda, morar dentro dele. A lida com a enxada e as dificuldades da infância pobre não impediram que já aos 12 anos João Bá começasse a compor e a cantar, sempre reverenciando e inspirando-se na natureza que o rodeava, tema recorrente até os dias de hoje em suas canções. Hoje cantador respeitado por onde passa e já visitou, a obra está reunida em sete discos independentes, além da participação em quatro faixas do álbum Aruanã, de 2005, lançado pela Warner-Chapelli/Y Records*.

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Com 80 anos completados e sete álbuns independentes, João Bá ainda carrega a alegria de um menino

“Cavaleiro Macunaíma”, a mais recente contribuição de João Bá na preservação e na divulgação destes universo e ânimo, está sendo lançado neste ano, justamente no qual ele torna-se octogenário, porém incansável. E vai ser apresentado ao público neste domingo, 31 de agosto, na Praça de Eventos SESC de Itaquera, em show entremeado por textos e movimentação cênica.. Acompanhado por Nanah Correia (voz e percussão), João Arruda (vocais e violas), Levi Ramiro (viola, violão e voz), Gabriel Levi (acordeom), Manoel Pacífico (percussão). João Bá subirá o palco às 19 horas.

O disco já está disponível e chega com cirandas, bois, toadas, xotes, repentes, batuques, canções populares de rendeiras e lavadeiras que falam de paisagens, personagens e ritmos da cultura popular brasileira. Participam da obra Toninho Carrasqueira, João Arruda, Ivone Cerqueira, Fernando Guimarães, Sérgio Turcão, Sérgio Teixeira e Edu Barreto, Levi Ramiro, Joaquim Celso Freire, Nádia Campos, e Rita de Cássia Costa, Déa Trancoso, Vidal França, Xangai, Gereba, Carlinhos Ferreira, Katya Teixeira, Ney Couteiro entre outros tantos cavaleiros.

O show faz parte do projeto “Festas Brasileiras- Brasis de Macunaíma” e  não será necessário retirar ingresso ou convites.

 

*Baixe a discografia de João Bá pelo linque http://quadradadoscanturis.blogspot.com.br/2014/01/joao-ba-discografia-para-download.html.

Abaixo a capa de três dos álbuns.

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Dércio Marques, 67 anos

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Dércio Marques contraria o ditado popular, desmente quem  bota fé no dito “ninguém é insubstituível”. Há pouco mais de dois anos o poeta e cantador nascido em Uberlândia (MG), mas que tinha a consciência de pertencer não apenas a um lugar justamente pelo rico universo interior tão fantástico quanto crítico que o inteirava, virou luz. Dércio desencarnou e, desde então, os que ficaram órfãos de sua genialidade e grandeza sentem esta ausência, tanto que nunca se cansam de venerá-lo e de homenageá-lo em suas apresentações. Boas árvores, entretanto, sempre deixam suas raízes, e sabia natureza, elas se reproduzem, sabiás que ajudam a espalhar a semente de um mundo mais encantador, ainda que a maldade e a transgressão insistam em desafinar os versos da bela canção que seguirá sendo a vida e certos vazios jamais se preencham. Aves e flores, frutos do legado do homem que hoje completaria 67 anos, são para ele, mas extensiva a vocês estas linhas; é pela valiosa obra de vocês Katya Teixeira, João Arruda, João Bá, Déa Trancoso, Levi Ramiro, Wilson Dias, Pereira da Viola, João Bá, Rolando Boldrin e tantos outros artistas que, mesmo sem o termos conhecido de perto, nós do Barulho d’Água Música ficamos cada vez mais íntimos dele, gratos a Dércio Marques. É por ele, e por vocês, que neste dia especial também merecem nossos parabéns por seguir abrigando as utopias do mestre e ajudar a minorar uma saudade estranha, posto que com ele não convivemos, ao menos fisicamente, que renovamos nossa teimosia de ainda seguir insistindo também nos nossos sonhos.  E nós!

Déa Trancoso e Carlinhos Ferreira no SESC da Vila Mariana

 

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 Déa Trancoso e Carlinhos Ferreira, mineiros e duas das maiores expressões da música brasileira, estão completando 50 anos de idade. Para comemorar, ambos resolveram juntar talentos, vozes e instrumentos para brindar o público com a turnê “Concerto nu para voz e percussão”. As apresentações começaram em março por Diamantina, e depois de passar por outras cidades próximas, chegou a São Paulo. A acolhida, com direito a lotação esgotada e vários músicos na plateia, foi proporcionada pelo SESC da Vila Mariana, na noite de quarta-feira, 16. Aplaudiram e pediram bis, por exemplo, Tita Parra, neta de Violeta Parra, Sarah Abreu e os violeiros Júlio Santin e Ricardo Vignini.

As flautas de PVC são usadas na abertura das apresentações. Os ouvintes já mergulham no ambiente do concerto, que busca despertar a espiritualidade e a atenção para valores ancestrais

Fiz propositadamente a menção ao fato de Déa e Ferreira serem frutos das Alterosas, respectivamente nascidos e Almenara e de Governador Valadares. Terra fértil e inesgotável da qual já brotaram nomes consagrados em vários setores da arte e da cultura, o Estado parece ter um bendito compromisso de só revelar à nação gente muito boa seja fazendo música, literatura, pintura, escultura, jogando bola, trem bão pelo qual o mundo inteiro acaba agradecido, uai! Drummonds e Cacasos, como expressa a joia “Ó, Minas Gerais”, de Sérvulo Augusto e Eduardo Santana, canção que Augusto gravou em “Coletivo” com a participação de Jane Duboc; “minas de ouro, minas de rimas, de tantos tesouros”, Tavinhos e Brants que parecem florescer em cada clube ou esquina; Rosas e Tostões que são patrimônios culturais como o pão de queijo, a broa de milho ou as estátuas de Aleijadinho; santuários de pretos em ruas de pé de moleque, montanhas douradas de verde ou veredas que conduzem a sertões e jequitinhonhas, berços de folias ancestrais, batuques e congadas.

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A cantora Déa Trancoso é natural de Almenara, das Minas Gerais que revelam talentos em vários setores da cultura nacional…

Deste múltiplo universo abençoado e sagrado também pela intervenção de orixás e de santos, das águas pelas quais correm marianas e franciscos e às margens cantam tropeiros e lavadeiras, Déa e Ferreira recolheram temas e cantigas de domínio público para costurar o repertório do concerto que inclui entre as músicas “Saudação aos orixás”, “Mandei caiar o meu sobrado” e “Eu sou bem pequenininho”. Apenas com voz e instrumentos bastante peculiares de percussão, de cordas ou de sopro como tumbi, pandeirão, flautas de PVC, cabaças, rabeca de duas cordas (Fá e Dó) cuja caixa de ressonância é uma lata de sardinha, alguns confeccionados por Ferreira os dois apresentam ainda novos arranjos e interpretações para vários sucessos populares. Isto sem contar tambores, bongô chinês e berimbau, que muitos acreditam ser da Bahia, mas que apenas foi abrasileirado.

Na Vila Mariana, por exemplo, eles acrescentaram à lista “Cara de índio” (Djavan), “Cio da terra” (Chico Buarque e Milton Nascimento), “Cego com cego” (Tom Zé e Zé Miguel Wisnik) e canções escritas pela artista, como “Cósmica” e “Ogum de frente”, além do ainda inédito “Eu também faço samba”. Estes concertos padrão A de arrebatadores, alegóricos, alcandorados também têm sido de reverência e tributos a Dércio Marques, cantor e compositor que morreu há dois anos e que além de Déa Trancoso e Carlinhos Ferreira influenciou Katya Teixeira, João Arruda e Wilson Dias entre vários expoentes da atual geração das músicas de raiz e regional. Do conterrâneo de Uberaba, a dupla lembrou, por exemplo, “Natureza Oculta”, faixa que está em “Segredos Vegetais” (1988) e que Déa cantou à capela em um dos momentos mais marcantes do espetáculo.

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… e canta com devoção, respeito e intensidade tanto as composições de parceiros consagrados, entre os quais Dércio Marques, quanto cantigas de lavadeiras do Vale do Jequitinhonha

Em São Paulo, ambos também fizeram homenagens a percussionistas que ajudaram-nos a abrir os caminhos tais quais Naná Vasconcelos, Dinho Nascimento e Papete; Ferreira inclui ao lado de Marques no panteão dos maiores representantes na América Latina da vertente que classificou como música de protesto Violeta Parra, explicando que o “protesto não é apenas ou necessariamente expresso no sentido político, mas ainda enquanto proposta de fortalecer a cultura popular e de ser a fonte de diversos ritmos”.

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Carlinhos Ferreira, de Governador Valadares, é luthier e muitos dos instrumentos que toca ele mesmo é quem confecciona ou adapta para retirar dele sons mais identificados com a brasilidade

“Fazer parte deste concerto é um trabalho de muita responsabilidade”, disse Carlinhos Ferreira”. “Eu e Déa estamos apresentando o canto chão, um tipo de música que traz em sua essência a mais profunda espiritualidade e religiosidade dos povos”.

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Déa Trancoso e Carlinhos Ferreira atraíram ao SESC da Vila Mariana público e admiradores dos mais qualificados e atentos, entre os quais a cantora Sarah Abreu (Fotos de Marcelino Lima)

 

 

Lume de Olhos d’ Água, pedra de encanto e de belezas

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Exemplar de “Lume”, lançado em BH, em novembro de 2013, autografado com carinho pelo querido Wilson Dias

 

Resgato do meu Facebook este texto de novembro de 2013:

Olha ai, galera, o que me esperava em casa quando cheguei do trabalho hoje: O novo álbum do violeiro Wilson Dias,Lume“, o sexto da carreira! O disco, que estou curtindo agora, foi feito em parceria com a querida Déa Trancoso, o talentoso e multinstrumentista André Siqueira e ainda tem a participação de Ná Ozetti, entre outros músicos de primeira. Muitas das letras são de autoria do Wilson com o João Evangelista Rodrigues, com o qual o mineiro de Miradouro (antiga Olhos d’Água) já trabalhou em “Pote“, ainda com o acréscimo do Pereira da Viola para deixar aquela obra mais bela! Wilson Dias está, atualmente, em Belo Horizonte, onde lançará “Lume”, oficialmente, na noite de quarta-feira, 20 de novembro, no Sesc Palladium. Toda esta gente boa citada nas linhas acima lá estará. Eu também estaria caso não tivesse por aqui minhas obrigações profissionais, que pena!

Meu exemplar de “Lume” baixou aqui autografado, e não veio só, não! No mesmo pacotim que os Correios entregaram acompanhavam-no um exemplar de “Outras Estórias” e de “Pequenas Histórias“, primeiros trabalhos do Wilson Dias, para completar minha coleção dele que já tinha “Mucuta” e “Picuá“, além de “Pote” e o “Viva Viola” — este reunindo timaço no qual ele compartilha o palco com Pereira da Viola, Bilora, Joaci Ornelas, Gustavo Guimarães e ainda Chico Lobo, uau, uai!

Bom, agora, se os amigos me dão licença, vou curtir estas preciosidades, ouvi-las até enjoar, se isto, claro, for possível. Obrigado Wilson Dias, Déa Trancoso, André Siqueira, Pedro Henrique Gomes, Nilce e pessoal da Picuá Produções! Parabéns a todos por mais esta pedra preciosa, repleta de luz e belezas, de lume, propriamente dito. Casa cheia os aguarde e os aplauda na quarta-feira, em BH, queridos. E que este “Lume” alumie por aqui, e por acolá também!

Nota: “Deus é violeiro”, de Wilson Dias e do João Evangelista Rodrigues, abre o Lume: assista aqui a apresentação dela ao programa Sr. Brasil, de Rolando Boldrin:

Marcelino Lima, Wilson Dias e Katya Teixeira, após show dele no SESC Consolação (agosto 2013). Na plateia estiveram ainda Levi Ramiro e Julio Santin.