Nome de ponta da MPP, Jean Garfunkel lança 13 Pares e um Fado Solitário em São Paulo

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Joana Garfunkel, Jean Garfunkel, Natan Marques, Pichu Borreli, Sergio Bello e Pratinha Saraiva durante a apresentação em São Paulo

Poeta, publicitário, ator, cantor e compositor. Jean Garfunkel é um nome não apenas para o qual amantes da boa música e seguidores deste Barulho d’Água Música devem ficar sempre atentos, mas guardar com carinho, sem deixar, é claro, de procurar conhecer e curtir sua obra de diversificada trajetória. Paulistano da gema, boêmio inspirado que até de suas voltas por praças e parques tira maravilhas, Jean Garfunkel é craque de um timaço de músicos de Sampa em cuja escalação consta, entre outros, Paulo Vanzolini, Adoniran Lula Barbosa, Júlio Medaglia, Eduardo Gudin, o mano Paul Garfunkel, Natan Marques, Pratinha Saraiva, Cláudio Lacerda, Léa Freire, Renato Braz; Elis Regina, embora fosse gaúcha de berço, também não ficaria sem uma camisa no escrete da MPP (Música Popular Paulista).

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SESC Consolação reserva manhãs dos sábados de janeiro para gurizada ouvir “Bichos de Cá”, do Nhambuzim

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O Nhambuzim, formado em 2002, gravou dois discos com repertórios que mesclam vários ritmos brasileiros e que contemplam os amantes do escritor mineiro da cidade de Codisburgo, Guimarães Rosa,  e o público infantil (Fotos: Reproduções de vídeo do grupo)

 

Crianças também têm vez no Barulho d’água Música e em nome delas o blog convoca pais e responsáveis a levarem filhos, sobrinhos, netos, afilhados, enteados e coleguinhas destes a uma das cantorias que o grupo Nhambuzim fará aos sábados, durante o mês de janeiro, no Sesc Consolação, no Centro paulistano, sempre a partir das 11 horas, divulgando as músicas do álbum Bichos de Cá. Neste dia 10, por exemplo, até nosso pessoal vai esquecer que já tem barba e cabelos brancos e estará presente na unidade que fica na Rua Doutor Vila Nova, 245, a 900 metros da estação República, a 1.000 metros da estação Santa Cecília, ambas do Metrô, ou a 850 metros do terminal Amaral Gurgel. Para mais informações tecle 11 3234-3000. 

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Rodrigo Delage lança “Périplo”, terceiro álbum da carreira que dialoga com o sertão e ás águas do universo roseano

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Périplo – Viola Caipira, é o terceiro disco do mineiro de BH Rodrigo Delage, em cujo obra ecoa as águas de rios como o São Francisco, os causos, as lendas e os bichos do sertão tanto místico, quanto real, inspirador de Guimarães Rosa (Fotos: Reproduções do álbum)

O Barulho d’água Música recebeu um exemplar de Périplo-Viola Caipira, terceiro disco autoral do músico Rodrigo Delage (MG). Mais uma preciosidade para a coleção do blog, o álbum foi uma colaboração do cantador Cláudio Lacerda, um dos vários parceiros de composição e de cantoria de Rodrigo Delage.

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Mineiro, Fabrício Conde extrapola adjetivos como violeiro, escritor e contador de causos repleto de predicados

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Márcio Hallack, Fabrício Conde e Zé Nogueira foram atrações de mais uma edição do Instrumental SESC Brasil (Fotos de Marcelino Lima)

Genial. Notável. Impecável. Sim, só que não, ou… não apenas. Seja qual for o adjetivo que se empregue para definir Fabrício Conde ainda será um vocábulo reducionista e que não exprimirá, em toda sua completude, o talento deste mineiro de Juiz de Fora (MG), terra situada lá na Zona da Mata que conheço tão bem e para a qual sempre me arrastam várias das minhas memórias afetivas. E ao buscarmos esta definição a qual Fabrício Conde estaríamos nos referindo? Seria possível haver um Fabrício Conde, violeiro, e outro, poeta, escritor e contador de causos, ou vários, coexistindo? 

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Sarah Abreu, voz condutora do Nhambuzim, faz aniversário hoje

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Hoje, 16 de novembro, está comemorando mais um aniversário a cantora  Sarah Abreu, mineira de Varginha que adotou São Paulo. A voz de Sarah Abreu é uma das condutoras dos cantos do Nhambuzim, grupo regional que em 2008 lançou o álbum Rosário: Canções Inspiradas no Sertão de Guimarães Rosa. O disco saiu pelo selo da Paulus Editora.

 

O álbum é inspirado na obra do escritor mineiro e foi lançado em 27 de junho daquele ano, data do centenário do nascimento do filho ilustre de Codisburgo. Reúne 17 canções das quais duas pertencem à tradição oral do norte das Alterosas (Aboio, originalmente entoada pelo vaqueiro Manuelzão, e Encomendação de Almas). Outro par é contribuição de Milton Nascimento e Caetano Veloso (A Terceira Margem do Rio), e João de Aquino e Paulo César Pinheiro (Sagarana), interpretada por Clara Nunes.

O grupo Nhambuzim tem nascimento lavrado em 2002. Desde então vem caminhando com André Oliveira (percussão), Edson Penha (voz e berrante), Itamar Pereira (baixo), Joel Teixeira (voz, viola e violão), Rafael Mota (percussão) Xavier Bartaburu (piano e arranjos vocais) e Sarah. Em outubro de 2012, eles lançaram Bichos de Cá/Canções para os bichos do Brasil.

Sarah também tem carreira solo e nesta estrada, entre outros projetos, está estudando a obra do músico e compositor norte-americano nascido em Indiana Cole Porter (1891-1964). Pela plataforma de financiamento coletivo Catarse, sistema conhecido por crowfunding, junto com Carlinhos Antunes e o Sexteto Mundano, arrecadou contribuições para gravar Violeta: terna e eterna, trabalho dedicado à memória de Violeta Parra, com a participação da neta da chilena, Tita Parra. O álbum está em fase de conclusão e em breve será distribuído aos colaboradores.

Sarah Abreu ainda atua em parceria com Wilson Teixeira em um projeto de tributos à Cascatinha e Inhana, recentemente exibido no programa Sr. Brasil, de Rolando Boldrin.

Receba querida amiga Sarah Abreu os parabéns de toda a equipe do Barulho d’água Música e nossos votos de sucesso em todos os projetos!

Aldy Carvalho recebe Eufra Modesto e Marisa Serrano, entre outros amigos, e lança Cantos d’Algibeira em SP

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O petrolinense Aldy Carvalho lançou o terceiro álbum da carreira na Livraria Cortez (SP) cercado por amigos; Cantos d’Algibeira está selecionado para o 26º Prêmio da Música Brasileira (Fotos: Marcelino Lima)

O cantor e compositor Aldy Carvalho atraiu vários amigos e admiradores à Livraria Cortez, situada no bairro de Perdizes, em São Paulo, para o show de lançamento de Cantos d’Algibeira, terceiro da carreira, na tarde de sábado, 1º de novembro. Composto por doze canções, o álbum sucede Alforje (2011) e Redemoinho (1999), obras que receberam vários elogios da crítica especializada, e foram arranjados pelo maestro Tony Marshall. Cantos d’Algibeira está selecionado para concorrer ao 26º Prêmio da Música Brasileira, que será entregue em 2015.

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Aldy Carvalho lança Cantos d’Algibeira, terceiro álbum da carreira, na Livraria Cortez

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Aldy Carvalho está chegando ao terceiro álbum da carreira, que será lançado na Livraria Cortez com as presenças de Waldeck de Garanhuns e de Marisa Serrano (Foto: Marcelino Lima)

Cantos d’Algibeira, terceiro álbum de Aldy Carvalho, selecionado para o 26º Prêmio da Música Brasileira, será lançado neste sábado, 1º de novembro, na Livraria Cortez, espaço que sempre abre suas portas para acolher atividades que envolvem artistas populares e, entre outros eventos, desde 2002 promove o Sarau Cortez, dedicado à Literatura de Cordel. Aldy, natural de Petrolina (PE), contará na ocasião com as presenças de Waldeck de Garanhuns e da cantora Marisa Serrano. A entrada é franca e a cantoria está prevista para ocorrer entre 17 e 19 horas. A Cortez fica na rua Bartira, 317, no bairro da zona Oeste paulistana Perdizes, ao lado do campus da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

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João Bá comemora 80 anos e lança “Cavaleiro Macunaíma” no SESC Itaquera

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João Bá, abraçado pelo violeiro Paulo Freire, é uma das referências para vários cantores e artistas que preservam a cultura popular e dedicam-se aos temas do sertão (Foto: Marcelino Lima)

O Brasil tem sido prodigioso em gerar compositores, músicos e escritores que com sua genialidade retratam e perpetuam as belezas dos sertões, sua gente e suas riquezas, seja o físico, aquele que tem suas vastas extensões territoriais, por exemplo, o agreste, seja aquele que Elomar define como “profundo”, no qual só se penetra por meio de portais como o que se abre a partir da pedra de Itaúna — ou seja, a porção mítica, imaginada, fantástica, que atravessa todos os tempos — ou também a que é  explicada por uma forma de ser, um estado de espírito, conforme o sentido roseano. O próprio menestrel sertanez que tornou-se dissidente do estado no qual nasceu, a Bahia (entendida apenas como Salvador, cidades do Recôncavo e litorâneas) por esta dar as costas ao e relegar o sertanejo, é um destes bardos, assim como vem sendo Levi Ramiro, Paulo Freire, Pereira da Viola e o foram João Guimarães Rosa, Luiz Gonzaga, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna e Dércio Marques.

O cantador, ator de cinema e teatro, e poeta João Bá também guerreia nesta cruzada e integra este panteão, e ainda hoje, no ápice dos seus 80 anos de idade, é um dos seus mais profícuos atalaias. Autor de mais de duzentas músicas, muitas gravadas por expoentes como Almir Sater, Diana Pequeno, Marlui Miranda, Hermeto Paschoal e o parceiro São Dércio, o menino que nasceu em Crisópolis  (BA) e que imediatamente após a queda do primeiro dente já se viu obrigado a trabalhar para ajudar no sustento da família de lavradores parece, ainda, morar dentro dele. A lida com a enxada e as dificuldades da infância pobre não impediram que já aos 12 anos João Bá começasse a compor e a cantar, sempre reverenciando e inspirando-se na natureza que o rodeava, tema recorrente até os dias de hoje em suas canções. Hoje cantador respeitado por onde passa e já visitou, a obra está reunida em sete discos independentes, além da participação em quatro faixas do álbum Aruanã, de 2005, lançado pela Warner-Chapelli/Y Records*.

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Com 80 anos completados e sete álbuns independentes, João Bá ainda carrega a alegria de um menino

“Cavaleiro Macunaíma”, a mais recente contribuição de João Bá na preservação e na divulgação destes universo e ânimo, está sendo lançado neste ano, justamente no qual ele torna-se octogenário, porém incansável. E vai ser apresentado ao público neste domingo, 31 de agosto, na Praça de Eventos SESC de Itaquera, em show entremeado por textos e movimentação cênica.. Acompanhado por Nanah Correia (voz e percussão), João Arruda (vocais e violas), Levi Ramiro (viola, violão e voz), Gabriel Levi (acordeom), Manoel Pacífico (percussão). João Bá subirá o palco às 19 horas.

O disco já está disponível e chega com cirandas, bois, toadas, xotes, repentes, batuques, canções populares de rendeiras e lavadeiras que falam de paisagens, personagens e ritmos da cultura popular brasileira. Participam da obra Toninho Carrasqueira, João Arruda, Ivone Cerqueira, Fernando Guimarães, Sérgio Turcão, Sérgio Teixeira e Edu Barreto, Levi Ramiro, Joaquim Celso Freire, Nádia Campos, e Rita de Cássia Costa, Déa Trancoso, Vidal França, Xangai, Gereba, Carlinhos Ferreira, Katya Teixeira, Ney Couteiro entre outros tantos cavaleiros.

O show faz parte do projeto “Festas Brasileiras- Brasis de Macunaíma” e  não será necessário retirar ingresso ou convites.

 

*Baixe a discografia de João Bá pelo linque http://quadradadoscanturis.blogspot.com.br/2014/01/joao-ba-discografia-para-download.html.

Abaixo a capa de três dos álbuns.

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“Arreuni” de agosto põe no mesmo palco oito atrações e homenageia “pais” Dércio Marques e Guimarães Rosa

 

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Pereira da Viola, Célio Sene, Levi Ramiro, Paulo Freire (fileira de trás), João Arruda, Tião Mineiro, João Bá e Wilson Dias: oito batutas no palco de Campinas (Fotos: Marcelino Lima)

A edição do “Arreuni” de agosto, promovida no domingo, 10, Dia dos Pais, tinha tudo para ser e já estava sendo inesquecível apenas com a presença das quatro principais atrações no palco do Centro Cultural Casarão do Barão Geraldo, em Campinas. Os violeiros de Minas Gerais Pereira da Viola (Vale do Mucuri) e Wilson Dias (Olhos d´Água), acompanhados pelo anfitrião João Arruda, até já haviam cantado com total interação do público uma música cujo refrão diz “se melhorar, vira rapadura”. Era, quem sabe, um prenúncio da apoteose que estaria por vir.

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Pereira da Viola, mineiro do Vale do Mucuri, cantou com devoção canções como a homenagem a Dércio Marques, “Tributo”, do disco “Pote, a melodia do chão”
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Célio Sene deu um toque de docilidade ao “Arreuni” com sua flauta

Já com Tião Mineiro (um dos “pais” de Arruda e que recentemente atingiu 50 anos de carreira) entre os três da formação inicial, o irrequieto coordenador da cantoria — que até com uma caneta já tinha demonstrado sua inesgotável capacidade de tocar entre tantos outros instrumentos um violão de doze cordas –, chamou para entrarem na roda, antes do encerramento e do “bis”, mais três ilustres músicos que figuravam na plateia.

Eles eram, vai ouvindo, vai ouvindo, simplesmente os violeiros Levi Ramiro e Paulo Freire, duas das mais respeitadas referências do meio, e o cantor e compositor João Bá — este no auge dos 80 anos, mas ainda demonstrando possuir a alegria de um menino. A convocação também reconduziu para a reunião Célio Sene. O flautista havia acompanhado Pereira da Viola na execução das primeiras músicas. 

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Wilson Dias, de Olhos d’Água (MG) deixou a plateia paralisada para o acompanhar durante a música “Canção de Siruiz”, poema do escritor João Guimarães Rosa

Arruda, Pereira da Viola, Wilson Dias e Tião Mineiro, antes das músicas de despedida, já haviam mostrado caprichado repertório. A lista incluía entre as canções uma ode a São Dércio Marques, “Tributo”, presente no álbum “Pote, A Melodia do Chão”, gravado por Pereira e por Dias, em parceria com o compositor João Evangelista Rodrigues. Natural de Uberlândia (MG), Dércio Marques desencarnou há dois anos, em Salvador (BA). Em vida terrena, Dércio teve João Bá entre os vários companheiros de criação. João Bá é autor de “Cavaleiro Macunaíma” e “Carrancas”, entre tantos discos que marcaram época e influenciam até hoje novos valores do regionalismo. E foi tratado por “pai” pelo pupilo Arruda, condição respeitosa e de gratidão a qual alçou ainda Dércio, Levi Ramiro e Tião Mineiro.

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João Arruda, anfitrião da festa em Barão Geraldo, com Tião Mineiro, cantador de modas de viola que já atingiu 50 anos de carreira e no dia 10 apresentou “Acordar com os passarinhos”
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O músico João Arruda, inventivo pupilo de Dércio Marques e de João Bá, toca as cordas de seu instrumento com uma caneta emprestada na hora pelo público

Arruda, por sinal, é João, como Bá. É João, como Evangelista Rodrigues. É João, como Guimarães Rosa, este sempre lembrado e grandiosamente homenageado na ocasião por Wilson Dias ao entoar “Canção de Siruiz” — épico poema do consagrado escritor de “Sagarana” e de “Grande Sertão: Veredas” que, no momento da interpretação do mineiro, mergulhou o Centro Cultural Casarão em profundo silêncio de admiração; quem fechou os olhos talvez tenha avistado Diadorim e Riobaldo juntos à terceira margem do rio debatendo se teria ou não, de fato, sido fechado o “pacto”, os códigos de honra dos jagunços e certos procedimentos do sertão cujas bases não poderiam ser jamais afrontadas, apesar da bem querência entre ambos.

Para quem conhece tanto Arruda, quanto os demais músicos e os acompanha (felicidade e honra da qual desfruta este Barulho d’Água), não cabem discussões quanto a estas observações alusivas aos talentos de cada um.

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Os mestres João Bá e Paulo Freire estavam na plateia, mas chamados ao palco por João Arruda, abrilhantaram ainda mais a apresentação regida pela luz da Super Lua

Dércio Marques e João Bá, por exemplo, têm obras à altura das contribuições de um Heitor Villa-Lobos ou de um Tom Jobim à cultura popular brasileira, ainda que estes possam ser mais conhecidos e cultuados como eruditos. Como a Irene de Manuel Bandeira ao chegar no céu, Elomar Figueira de Mello entra sem precisar pedir licença neste universo e compõe o timaço pelo qual também podem transitar e para o qual ser convocados a vestir a camisa e jogar em qualquer posição os oito expoentes da recente edição do “Arreuni”.

O menestrel baiano do vale do Rio Gavião, autor de “Arrumação” e de “Cantiga do Boi Encantado”, vate criador de bodes e de tarântulas, trovador dos mundos da quadrada das águas perdidas, maestro de outros vastos sertões onde habitam Antenoro, Faviela, Quilimero e tantos vaqueiros e malungos, fez, nos idos de 1980, parte de um projeto que entrou para a história: o “Cantoria”, com Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Xangai, que resultou em dois antológicos álbuns, gravados pela Kuarup e patrocinados pela Funarte, no Teatro Castro Alves (BA).

Pois bem, leitores amigos e seguidores: arrisco afirmar que diferença entre o “Arreuni” do Dia dos Pais e o “Cantoria” talvez resida apenas nos lugares onde ocorreram e nas personagens que os protagonizaram. Se um não teve a merecida atenção dedicada ao outro, a vantagem do espetáculo realizado em Campinas é que os ouvintes voltaram para casa com as palmas e os pés doloridos depois de tanto aplaudirem e caírem na folia, sob as bênçãos da magnífica Super Lua, cheia de encantos e de luz. E olha que no palco a alegria era tanta que choveu até fulô.

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Tião Mineiro e Levi Ramiro, dois dos mais conceituados violeiros do interior paulista, momentos antes de o Arreuni do Dia dos Pais começar no Centro Cultural Casarão

Música e haicai se encontram em “Rosas para João”

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Capa do álbum “Rosas para João”, de Renato Motha e Patrícia Lobato

 

 Fecha o tempo no sertão
É chuva vindo
Um rai cai, um clarão

Escrever, ler e estudar (sobre) haicais, assim como a moda de viola, é uma das minhas paixões. Sobre o instrumento não sou capaz de arranhar uma mísera corda. Mas acredito que consigo compensar esta frustração, de vez em quando, compondo algum poema em três linhas, nem sempre rigorosamente de acordo com as normas clássicas recomendadas pelas cartilhas japonesas do gênero, porém chego bem perto; desastre mesmo, acredito, seria tentar tocar um pagode ao modo de Tião Carreiro e Pardinho ou arriscar-me a pontear os dez arames com os quais muita gente talentosa tem conseguido pavimentar uma boa estrada.

As particularidades do haicai, por sinal, talvez pela brevidade e apesar de toda a beleza que os versos evocam, parecem dificultar que eles apareçam em letras de músicas, deixando-o gênero quase que restrito apenas ao campo da escrita literária — embora algumas experimentações associadas a vídeos ou fotografias sejam bem sucedidas. Toda a regra, felizmente, parece ter sua exceção e Valter Braga conseguiu ao fintar esta faturar em 2005 o troféu do Festival da TV Cultura com a composição “Haicai Baião”, da qual destaquei os versos acima.

A música de Braga que mereceu o primeiro lugar naquela ocasião conquistou a plateia interpretada pelo casal mineiro Renato Motha e Patrícia Lobato, que a incluiu entre as faixas de “Rosas para João”, primeiro álbum de ambos. O disco constava até há pouco tempo do catálogo da gravadora “Sonhos e Sons”, de Belo Horizonte, e também é digno de nota elogiosa. Mais do que registrar a joia de Braga, o trabalho autoral de Motha e Patrícia guarda mais uma grande homenagem ao ilustre João Guimarães Rosa, escritor também nascido nas Alterosas. E é uma mostra do talento da dupla que canta junta também em outros álbuns de rara beleza, entre os quais “Antigas Cantigas”. Em “Dois em Pessoa”, eles abrem o baú de Fernando Pessoa e, inclusive em ritmo de samba, relembram vários dos poemas clássicos do português e de seus heterônimos.

Renato Motha, individualmente, ainda assina outros títulos que valem a pena conhecer. Destaco “Trilha das mãos”, instrumental, e “Amarelo”, ambos de 1999. Quem adquirir “Todo” ou “Caixa de Sonhos” também não amargará arrependimento. Já Patrícia Lobato iniciou voo solo com “Suspirações”.

Veja abaixo a letra completa de “Haicai Baião”, formada por três haicais, e já apresentada noo programa “Sr.Brasil”, de Rolando Boldrin apresenta na TV Cultura. Embora grafada por Braga com “x”, a expressão “baxô” é uma clara referência a Matsuo Bashô, um dos mestres do haicai no Japão e em todo o mundo.

Fecha o tempo no sertão/É chuva vindo/Um rai cai, um clarão (2x)
 
Trovão e tambor
No céu, no roçado zabumbam

7169030GG
Guimarães Rosa, escritor de Codisburgo (MG)
O santo baxô* (2x)
 
Manhã de água e cor
Até do outro lado do mundo
O chão fulorô (2x)
 
 

https://www.youtube.com/watch?v=LI_urK3NWfI&hd=1