1280 – Silencia no sertão a viola de Manoel de Oliveira, o Mestre Manelim, autor do álbum Urucuia, com Paulo Freire

Menos de uma semana depois de a música brasileira perder o pernambucano menino passarinho Luiz Vieira, que desencarnou aos 91 anos na cidade do Rio de Janeiro na quinta-feira, 16/1, também bateu asas e subiu ao Mundo Maior, na terça-feira, 21, Manoel de Oliveira, o Mestre Manelim, violeiro que nasceu e viveu em Urucuia, uma pequena cidade no Noroeste de Minas Gerais que inspirou Guimarães Rosa, a 600 quilômetros de Belo Horizonte.

Mestre Manelim estava com 86 anos . Em Brasília (DF), durante uma ida à casa da filha no mês de dezembro,  ele recebeu recebeu visita do também violeiro Paulo Freire, seu mais notório discípulo, que com ele conviveu longamente e aprendeu vários toques que estão fora dos manuais didáticos dedicados ao ensino do instrumento.

Freire, que também é escritor, pesquisador e contador de causos dos bons, mora em Campinas, no interior de São Paulo e em 2006 ajudou a trazer à luz o único álbum gravado pelo mestre, Urucuia, contribuindo desta maneira para não deixar relegado apenas ao seu pequeno e encantador universo um baluarte da cultura popular — assim como mais recentemente o fizeram o poeta e compositor mineiro Paulo César Nunes e os músicos Danilo Gonzaga Moura e Victor Mendes, do Trio José, de São José dos Campos (SP), que nos revelaram e nos apresentaram à extensa e plural obra  do sêo Juca da Angélica, poeta da oralidade que atravessava seus últimos dias em Lagoa Formosa (MG) e que o Brasil ignorava até então, mas que pelo esforço deles ganhou um mínimo de notoriedade e carinho antes de subir para o Plano Celestial, aos 97 anos; vale lembrar, ainda, que a pantaneira Dama da Viola, Helena Meirelles, só “explodiu” cá em Pindorama  após ser “descoberta” pela edição norte-americana da Revista Guitar Player, já octogenária, no final da década dos 80.  

Sobre a vida, a partida e a obra de Manoel de Oliveira, portanto, não há ninguém melhor do que  Paulo Freire para nos contar — embora fosse admirado, ainda, basta ver os comentários à mensagem de Paulinho, por muitos craques dos gêneros caipira e regional, como Roberto Corrêa. É de Freire o pungente, emocionado depoimento que abaixo reproduzimos e compartilharemos, publicado também pela Revista Fórum, e cujas palavras explicitam o tamanho da importância de preservarmos a qualquer custo a memória de nossos artistas — notadamente aqueles que estão fora do mainstream, quando se faz apologia aos pilares do nazifascismo como modelo de cultura a ser seguido — que nos legam obras essencialmente brasileiras, que preservam e difundem nossos mais caros e imprescindíveis valores fundantes.

Na sequência do depoimento de Freire nesta atualização, o amigo e seguidor lerá texto de apresentação do álbum Urucuia que acompanha no sítio Em Canto Sagrado da Terra os arquivos, em formato Mp3, das 16 faixas do disco.

Hoje, 21 de janeiro de 2020, faleceu seu Manoel de Oliveira, mestre Manelim. Meu mestre. Não vou falar “encantou-se”, como diria o Rosa, pois não consigo ver poesia em sua partida. Mesmo sendo o Rosa quem me fez conhecer o seu Manoel e o grande sertão. Uma palavra melhor, ou mais adequada, seria: devastação.
Mestre Manelim me ensinou a enxergar a viola na natureza. Foi um exemplo de pai. Um outro pai. Sou irmão de seus filhos, e filho também de dona Vicentina. A lembrança do café na beira do cerrado, amanhecendo, no frio do sertão, em volta da fogueira, com o mundo despertando, até ouvir o chamado do mestre para todos irmos trabalhar na roça. No final do dia, no terreiro tão bem cuidado de dona Vicentina, pontear a viola e grudar a atenção no que estava acontecendo. Para onde vai tudo isso? Como permanece dentro de mim e deles, sem o seu Manoel?
Acredito cada vez mais que não existe céu e inferno, quer dizer, não existe só isso. Tem muito mais assunto. A alma é um assunto. E existem vários caminhos para se trilhar. Dentro desse nosso couro que vai enrugando, e fora desse couro. Os toques de viola que ele me ensinou, como o sapo e o veado, o papagaio, lagartixa, mostravam como poderíamos ser estes bichos, como entrar no sentido deles e, assim, esticar nossas vidas. Tenho certeza que estes últimos dias, mesmo bem longe dele, o seu Manoel esteve aqui ao lado. E dentro. Senti fundo um chamado, como o dia que ele foi me buscar na roça adivinhando uma tristeza que baixou em mim. Como o seu Manoel percebia isso? Me senti ao seu lado, no silêncio que ele carregava, e o peito apertando…
Não conseguirei ir à despedida do seu Manoel, amanhã, no Urucuia. O seu Manoel sabe por quê. Meus irmãos urucuianos e dona Vicentina também. Já que não consigo, vou de outro jeito. Desligar do que não tô precisado e deixar ele me guiar para algum outro lugar em comum. Em dezembro estive com ele, dona Vicentina, e minhas irmãs Joaninha e Valdinea, em sua casa, em Brasília. Seu Manoel estava se recuperando de uma pneumonia, mas bem fraquinho. Pediu que eu tocasse o “rio abaixo”. Peguei a viola e toquei. Experimentei passar a viola pra ele. Mesmo sem forças, o Manelim mostrou que não estava certo o meu ponteado. Tentei de novo, pelejando com o detalhe. E ele enfim disse: “um dia você aprende”. Com seu jeito doce e sentimento firme. Como que dizendo: continua, não para, não esmorece, olha eu aqui! O Cacai Nunes tava bem do ladinho e viu tudo.

Santíssima trindade: O mestre Manelim (sentado), o instrumento que os unia e o discípulo violeiro Paulo Freire

Desde cedo eu senti que hoje era um dia no lugar errado. A respiração não sai nem entra direito. Olhava para o telefone a todo momento, já que estou desacostumado do caminho das almas. Até que veio a notícia. Saí para andar. Procurei um canto que pudesse entender o acontecido, ou buscar forças para enfrentar a devastação. Fui num lugar que nunca tinha ido e uma árvore me buscou. Uma paineira. Fiquei calado o dia inteiro. Só uma conversinha de trabalho. E as trocas de afetos com meus irmãos, filhos do Manelim. Sei que tem um bocado de amigo passeando por aqui, então vim esvaziar o peito.
Vão ouvindo, seu Manoel tá quieto aqui na rede, fazendo um pinicado na viola, uma besteirinha, como ele dizia, diamante puro, água fresca de vereda, capaz de ultrapassar qualquer explicação de amor e saudade.

Urucuia é a terra natal de Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. A cidadezinha de 11 mil habitantes fica no noroeste de Minas Gerais, na margem do rio homônimo, um dos afluentes do Rio São Francisco. Reza a lenda que o escritor Guimarães Rosa nunca esteve por lá, mas foi de pessoas de lá que ouviu, na venda do pai, diversas histórias da região que povoam sua fantástica literatura, cujo cinquentenário está sendo comemorado neste ano [2006, quando o álbum foi lançado].

É de lá também Manoel de Oliveira, o “Manelim”, um violeiro que dedilha pelo menos dois séculos de tradição foliã. É música que certamente Guimarães Rosa ouviu e que está registrada em disco pela primeira vez com ajuda do violeiro Paulo Freire. O disco Urucuia traz Mestre Manelim tocando e cantando 16 músicas, entre 11 criações próprias e cinco de domínio público que estão aquém do sertão de Minas. Atinge outros sertões como Caninha Verde, que toma diferentes feições por diversas regiões do País.

Criação própria e domínio público formam algo que se confunde na obra de Manelim, como na obra dos músicos anônimo do sertão, diz Paulo Freire, violonista já conhecido que foi aluno de Mestre Manelim. “Sempre quis gravar a música dele, mas como ele quase não sai de lá, aproveitei uma das raras visitas dele a São Paulo para trancá-lo num estúdio”, brinca Freire, que produziu o álbum convidando Adriano Busko (percussão), Zé Esmerindo (violão e voz) e Thomas Roher (rabeca) para o ornamento instrumental das músicas. Instigado pela leitura de Guimarães Rosa, Paulo Freire se embrenhou no sertão mineiro no final dos anos 70, quando descobriu e tornou-se seguidor do ponteio de Mestre Manelim, para ele, o mais importante violeiro da região.

Agricultor e marceneiro, Manoel de Oliveira aprendeu a pontear a viola com Onora Martins Alves, mulher que o criou. Onora era a fazendeira do lugar para quem os pais de Manelim trabalhavam e confiaram a criação do filho. O mestre tem 76 anos, por certo não conheceu Guimarães Rosa, mas já ouviu muitas histórias sobre o escritor famoso, conta Paulo Freire.

A música de Manelim é simples, ingênua até, de ponteado calcado nas folias de reis com temas que denotam a ancestralidade oral da cultura popular de sua terra (e brasileira, por extensão). Não há nem mesmo a influência de variações dadas ao gênero pelo pagode de Tião Carreiro ou a sofisticação de arpejos de Renato Andrade, por exemplo, o que aumenta o interesse histórico do álbum. De voz frágil, Manelim canta em apenas quatro faixas, concentrando-se no toque do instrumento que revela esmero igual ao dos artesãos urucuianos com o manejo da palmeira de buriti. Os temas versam sobre a natureza, o jeito de ser do sertanejo e as crendices que cercam a viola, como o pacto com o capeta. Aproveitando essa riqueza oral na obra do mestre, Paulo Freire aproveitou para registrar duas “conversas” no estúdio com Mestre Manelim. Numa delas, ele relata o causo d´A Corrida do Sapo e o Veado e noutra comenta o tal pacto em Laço do Capeta.

Várias músicas feitas no Brasil com incidência no imaginário criado por Guimarães Rosa são sugeridas sempre que se fala em Grande Sertão: Veredas. As mais frequentes são de medalhões da MPB, como Gilberto Gil (que fez Casinha Feliz no disco Dia Dorim Noite Neon, de 1985), Caetano Veloso (que fez com Milton Nascimento a canção A Terceira Margem do Rio, do disco Circuladô, 1991) e Chico Buarque de Assentamento, tema mais MST do que roseano, do álbum As Cidades (1998). Em que pese a beleza inegável destas composições, nenhuma delas, no entanto, são tão próximas e muito menos concernentes ao universo do escritor mineiro quanto este e outros violeiros brasileiros. Se Guimarães Rosa tiver que ter uma trilha sonora, esta deveria passar necessariamente por criadores como Mestre Manelim.

Para acessar o linque que dá acesso à cópia do disco Urucuia no site Em Canto Sagrado da Terra clique na palavra em destaque.

 

1044 – Morte de Índio Cachoeira silencia os ponteios de um mestre que fugia de casa para ficar perto das violas

Músico querido por ex-alunos e ex-parceiros não resistiu às sequelas de um acidente de trânsito que sofreu em Alfenas (MG), onde o corpo foi sepultado após homenagens de entidades locais e da Prefeitura 

Marcelino Lima, com o blogue Brasil Festeiro, Primeira Página (São Carlos), Cidade Escola Alfenas e Graciela Binaghi

 

O universo da viola caipira mineiro, paulista e nacional está de luto, dos mais sentidos, desde quarta-feira, 4 de abril, quando — conforme costuma dizer Rolando Boldrin em momentos tristes como estes – bem antes do combinado foi se embora para outro Plano José Pereira de Souza, com apenas 65 anos! Pelo nome de pia, talvez o conheciam apenas os mais chegados, familiares e amigos que juntou enquanto esteve entre nós. O nome artístico, entretanto, o levou à fama que apenas poucos Josés conseguem alcançar — ainda mais no boicotado meio em que resolveu nos brindar com seu talento e virtuosismo. Estamos falando de Índio Cachoeira, agora mais uma estrela na constelação na qual já brilham, ora, sim senhor, Tião Carreiro, Gedeão da Viola, Angelino de Oliveira, Raul Torres, Renato Andrade, José Fortuna, Helena Meirelles, se não todos violeiros, com certeza ícones de tradições e de uma cultura que formam o perfil brasileiro; se fossemos fazer uma comparação com ídolos do círculo dos mais cotados da MPB ou de outras vertentes brasileiras, Índio Cachoeira seria, por exemplo, um artista da primeira linha, não menos que João Gilberto, Toquinho ou Guinga.

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1015 – Contribua para a volta do “Oscar da Viola Caipira”, prêmio nacional de incentivo à cadeia produtiva da viola

Ficará aberta somente até 27 de janeiro a campanha que por meio de uma das plataformas nacionais de crowdfunding visa a arrecadar contribuições para a realização de nova edição do Prêmio Nacional de Excelência da Viola, que os organizadores divulgam como sendo “O Oscar da Viola Brasileira”. A meta é atingir ao menos R$30 mil, montante que permitiria promover, ainda neste ano, a quarta edição do evento, nos moldes das anteriores, e acolher inscrições para mais de 20 categorias — das quais, cinco de cada, receberão certificados e troféus que serão entregues aos indicados n“A Noite de Gala da Viola”. Aos contribuintes estão previstas recompensas que variam de acordo com o valor cedido e que incluem, por exemplo, o direito de chancelar o evento com suas marcas, obtendo, assim, destaque em todas as divulgações diárias em mídias sociais como Facebook, Instagram, Twitter e mídia espontânea, além de outros benefícios a serem negociados.

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983 – Prestigie Rodrigo Caçapa (PE), convidado de nova rodada do projeto Violada, na casa Mora Mundo

A casa Mora Mundo, de São Paulo, receberá na noite de sábado, 29 de julho, o violeiro pernambucano Rodrigo Caçapa, convidado de mais uma rodada do projeto Violada – circuito autoral das violas brasileiras. Caçapa será chamado ao palco pelo anfitrião Fábio Miranda (violeiro de Brasília radicado em São Paulo e autor dos álbuns Caravana Solidão e Chamamento) para o show que promoverá a partir das 21 horas, com contribuição solidária partindo de R$ 10,00, além da consumação. Ao final da apresentação, o microfone estará à disposição e os músicos e demais presentes que levarem os próprios instrumentos poderão também tocar e cantar.

Os concertos do projeto Violada promovem a circulação de violeiros de várias regiões do Brasil, favorecem o intercâmbio entre os participantes e estimulam a formação de admiradores para a nova produção musical de viola. Quem já conta com reconhecido trabalho ou aqueles que ainda estão começando a se projetar no cenário musical podem, assim, alcançar admiradores e simpatizantes, divulgando ao vivo suas respectivas obras, por enquanto movimentando nas cidades paulistas de São Paulo, São José dos Campos e Monteiro Lobato.

Vale a pena destacar, ainda, que o instrumento carrega vários elementos da identidade cultural do país. Ponteado em diversas afinações, pode ser denominado como viola caipira, viola nordestina, viola de cocho, viola de fandango, viola de machete, viola de buriti e viola de cabaça, mas independentemente de como é chamado é portador de forte expressão regional e de valiosa história, encantando sucessivas gerações desde o período colonial brasileiro. E esta trajetória, associada à preservação e à divulgação de memórias e de afetos, também enriquece movimentos de inovação, renovação e de resistência artísticos — sem contar que a viola simboliza, entre outras tradições, a lida rural e do homem do campo.

Para além da forte representação do universo caipira, onde se encaixou como instrumento solista por excelência, a viola, ao longo dos tempos, também vem sendo alçada à condição de protagonista de estilos e sonoridades que bebem em fontes da MPB e das canções nordestina, caiçara, fronteiriça, nativista e latina americana, chegando com personalidade, inclusive, ao território do rock e do blues, às rodas de choro, de rap e de samba e às sessões de jazz. Esta pluralidade e versatilidade dos vários tipos de viola só reforçam a importância do circuito Violada, iniciativa que tem curadoria de Fábio Miranda e Beto Sanches ampliadora dos espaços de atuação dos violeiros, notadamente os independentes, posto que esta parcela do segmento segue carente de locais para execução de sua obra.

As atrações convidadas por Miranda e Sanches conseguem encontrar a oportunidade de dialogar com estabelecimentos comerciais, parceiros, patrocinadores, apoiadores e o público, valorizando o artista visitante e o próprio circuito. Cada apresentação conta sempre com um anfitrião, o artista encarregado de receber o visitante da vez e abrir os concertos de, aproximadamente, 1h30. Ao final deste tempo a cantoria poderá ser sucedida por um bate-papo entre os músicos e as plateias. É possível ainda, pensar em outras atividades relacionadas ao espetáculo, tais quais oficinas, aulas, rodas de violas, palestras etc.

O circuito Violada não visa ao lucro de pequenos grupos: é um esforço coletivo que pretende facilitar a divulgação dos trabalhos autorais, custeando as despesas básicas. O mutirão cultural, entretanto, só pode ser mantido com a parceria de colaboradores, além da compreensão, apoio e benção dos violeiros.

A casa Mora Mundo fica na rua Barra Funda, 391, a uma caminhada leve da estação Marechal Deodoro da linha 3 Vermelha do Metrô. Em dias de espetáculos abre as portas às 19 horas.

 

Cordas eletrificadas*

Rodrigo Caçapa é compositor, arranjador e produtor musical, nascido na cidade do Recife (PE). Ao longo de 15 anos de atividade profissional, já colaborou com Alessandra Leão, Siba e a Fuloresta, Nação Zumbi, Biu Roque, Tiné, SaGrama, Renata Rosa, Iara Rennó, Kiko Dinucci, Florencia Bernales (Argentina), Maciel Salu, Chão e Chinelo, Mio Matsuda (Japão) e Orquestra à Base de Cordas de Curitiba. Em 2011 lançou Elefantes na Rua Nova, primeiro álbum autoral, composto de temas instrumentais para viola dinâmica, instrumento que ajudou a projetar Helena Meirelles, a Dama da Viola, e também é utilizado pelo conterrâneo de Caçapa, o violeiro Adelmo Arcoverde. Elefantes na Rua Nova tem participação de Alessandra Leão (percussões) e Hugo Linns (linhas de baixo). Por meio da eletrificação e afinações de violas de 12 e de 10 cordas criadas especialmente para as gravações, Caçapa produziu uma obra enxuta, acompanhada, ainda, por violões-baixo, pandeiro e ganzá, além de utilizar pedais de efeito como tremolo, reverb e delay.

* Com o blogue Eu Ovo

651- Da série “Vale a pena guardar”: Um tereré com a aniversariante Helena Meirelles!

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Um dia destes, organizando minhas tralhas cá no Solar da Lageado (onde instalamos a redação do Barulho d’água Música), entre meus bolachões de vinil encontrei o folheto cujas imagens compartilharemos aqui. Uma relíquia agora, o folder informa que entre 11 e 14 de agosto de 1994 estaria no Sesc Pompeia, em São Paulo, Helena Meirelles e Banda, conforme pode-se notar na parte frontal. As páginas do meio trazem dados biográficos e o repertório das apresentações.

A “grande dama da viola”, que recentemente caíra nas graças do público e da mídia (mas apenas após ser “descoberta” e merecer destacada matéria na revista Guitar Player, em novembro de 1993), na ocasião completaria 70 anos, em 13 de agosto de 1994. Naquele dia, fui prestigiá-la e, após o show, tive a honra de compartilhar no camarim um tereré com ela e com os músicos,  enquanto a parabeniza, e ouvi relatos muito interessantes sobre sua vida; Helena Meirelles era uma mulher de baixa estatura, se tanto não mais do que 1,60 m, e lembro-me perfeitamente de sua fragilidade: ao abraçá-la, pude sentir os seus ossos das costelas.

Dias depois, em 17 de agosto de 1994, dona Helena e a banda, da qual fazia parte o sobrinho, Mário Araújo, tocariam no Sesi da avenida Paulista (repare no alto da capa do folheto que anotei os então números do telefone dele, e a data na qual ocorreria a nova apresentação, agora no prédio da Fiesp). A convite de Mário Araújo, mais uma vez, fui vê-los. Até hoje tenho na memória a imagem dela tocando a caráter, usando chapéu pantaneiro, de camisa impecavelmente branca, calça preta, botas, lenço em torno do pescoço; marcou-me a intimidade com a qual ela dedilhava as cordas da viola dinâmica, produzindo uma sonoridade que permanece inigualável aos meus ouvidos; se não estou levando um passa-moleque da memória, em afinação “cebolão”, assim chamada porque ao ser tocada faz como a cebola ao ser cortada os olhos de quem ouve chorarem.

As letras “HM” que estão assinaladas também na capa do folheto é o autógrafo dela, suas iniciais, já que não sabia escrever. Helena Meirelles morreu quase dez anos depois, em Presidente Epitácio (SP), no dia 28 de setembro de 2005, gozando de um merecido prestígio, embora hoje esteja mais uma vez obliterada, sendo “apagada” e largada, desrespeitando-se sua obra e memória, a exemplo do que sofre, por exemplo, o legado de Dércio Marques, que só não prossegue no auge do anonimato por conta da obstinação de um punhado de fãs, de amigos e de pupilos. A Grande Dama da Viola, sem aspas, era natural de Bataguassu (MS), onde nascera em 13 de agosto de 1924.

Choro de tristeza, tiros de alegria

Em 13 de agosto próximo, a instrumentista sul-mato-grossense Helena Meirelles chega aos 70 anos em esplêndida forma, e os comemora no palco do Teatro Sesc Pompéia com quatro dias de shows. Ser reverenciada pela mídia nacional e norte-americana já se tornou um fato corriqueiro na vida repleta de acontecimentos insólitos dessa mulher, que viveu 67 anos em total ostracismo artístico.

O jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, tem a música de Helena Meirelles como “a herança folclórica do Mato Grosso em estado bruto, sem sofisticações. Os rasqueados que saltam de sua viola são integrados por melodias e harmonias ancestrais, frutos do aprendizado auditivo feito com o passar dos anos. É a tradição musical de uma região do Brasil, que chega incrivelmente intacta aos ouvidos de uma grande metrópole como São Paulo.” Nada mal para uma mulher analfabeta, que foi considerada a Spotlight Artist (Revelação) do mês de novembro passado pela Guitar Player, principal publicação especializada em violão e guitarra do mundo.

Em sua edição deste mês de julho, a Guitar Player apresenta a famosa palheta de chifre de boi que Helena faz às sextas-feiras santas, entre uma coleção de 101 palhetas pertencentes aos grandes heróis da guitarra, entre elas Eric Clapton, Jeff Beck, John Mac Laughlin, B. B. King,. Pete Townshend, Keith Richards, George Benson e muitos outros famosos nas últimas décadas. Em breve, Helena se tornará tema de um filme a ser dirigido pelo cineasta novaiorquino Douglas Cooper, prestes a chegar ao Brasil com esse propósito, além de que terá um CD lançado pelo selo Arhoolie, da Califórnia.

A história da vida de Helena Meirelles poderia ter sido tema para alguns dc nossos escritores regionalistas. Nascida numa sexta-feira treze, do mês de agosto, na fazenda Jararaca, próxima a Campo Grande (MS), a artista é uma virtuose que executa solos ligeiros e vibrantes cm instrumentos de corda como a viola caipira e o violão, este em diferentes afinações.

Helena Meirelles viveu perambulando por seu nativo Mato Grosso do Sul, animando festas, bares e bordéis frequentados por boiadeiros, tendo, também, sido parteira – fez sozinha, por onze vezes, os seus próprios partos – e benzedeira. Seus solos incluem raridades do repertório folclórico-sertanejo mato-grossense, com acentuada influência do Paraguai, e dentre eles podemos citar as polcas Guaxo, com a qual imita o ruído de um pássaro comedor de laranjas, e Araponga. No espetáculo comemorativo de seus 70 anos, Helena Meirelles convida a plateia a tomar um tereré, o chimarrão frio mato-grossense, e não conta causos, mas passagens reais de sua aventurosa vida, ilustradas com muitos dos belos solos que faziam valentes boiadeiros não apenas “chorar de tristeza”, como também “dar tiros de alegria”

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Discografia e filmes de e com Helena Meirelles

  • 1994 – Helena Meirelles
  • 1996 – Flor de Guavira
  • 1997 – Raiz pantaneira
  • 2002 – Ao vivo (também conhecido como De volta ao Pantanal)
  • 2004 – Os bambas da viola (compilação com um tema de Helena Meirelles)
  • Helena Meirelles – A Dama da Viola (2004); direção de Francisco de Paula
  • Dona Helena (2004); direção de Dainara Toffoli

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Milton Araújo dá sequência em Osasco ao projeto do Sesc Caldos com Sons Brasileiros

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Frio é um bom sinônimo de inverno. Sopa é um bom sinônimo de frio. Música e sopa para rebater o frio são excelentes dicas. Música de qualidade e sopa, em um ambiente aconchegante onde o frio do inverno acaba por ser bem-vindo, esperam pelo público que frequenta a unidade Osasco (SP) do Sesc e curte o talento dos violeiros do país que vêm à cidade como convidados do projeto Caldos com Sons Brasileiros. As cantorias ocorrem sempre às quintas-feiras, durante os meses em que o termômetro costuma subir pouco a escada dos graus, a partir das 19 horas, e apresentam baluartes da viola caipira que representam vários estados, tocam em afinações diferentes e assim ilustram em pouco mais de sessenta minutos a diversidade sonora e rítmica que enriquece o Brasil.

Enquanto a música rola, a plateia degusta caldos dos mais variados sabores. Para 25 de junho, o palco da Tenda 1 estará reservado  a Milton Araújo, músico especialista em viola dinâmica, com afinação rio abaixo, considerada uma das mais propícias para solos e solistas. Sobrinho da dama da viola Helena Meirelles, Milton Araújo apresentará músicas de sua própria autoria, além de canções tradicionais, folclóricas e de domínio público do Mato Grosso do Sul, de onde a família se origina, utilizando os ritmos rasqueado, polca e chamamé, entre outros. Um dos pontos altos dos seus shows é a reprodução de cantos de aves como araponga, seriema, guaxo, pássaro campana e pássaro tiuí. Milton Araújo ganhou uma das estatuetas do Prêmio Rozini de Excelência de Música de Viola Caipira, na categoria Referência, em 2013. 

O Sesc Osasco, que neste ano já trouxe para o projeto o carioca Yassír Chediak,  fica na avenida Sport Club Corinthians Paulista, no bairro Jardim das Flores, a dois quilômetros da estação Comandante Sampaio da CPTM, contíguo ao campus da Unifesp. Oferece Comedoria, cobra R$ 7,00 por uma tigela de caldos, mas não isenta de tarifa a utilização do estacionamento.

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Yassír Chediak abre temporada do projeto Caldos com sons brasileiros no SESC de Osasco (SP)

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Carioca, filho de mineiro e de cearense, Yassír Chediak é hoje considerado um dos melhores violeiros do país e estará em Osasco (SP) para duas apresentações no projeto Caldos com sons brasileiros, e ambas acompanhado pelo violinista Ernani Teixeira

 

O Sesc de Osasco retomará no dia 11 de junho o projeto Caldos com sons brasileiros, que durante os meses de inverno, sempre a partir das 19 horas  e às quintas-feiras, reúne violeiros, cantadores e contadores de causos em rodas aquecidas por saborosos caldos quentes. A cantoria ocorre na tenda 2 e na edição deste ano o primeiro convidado é Yassír ChediakCarioca criado em Minas Gerais, filho de pai mineiro e mãe cearense, Yassír Chediak também será a atração da semana seguinte, ou seja, estará de volta na quinta-feira, 18.

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Agenda do Caipirapuru de 2014 traz shows de viola, almoço caipira, feira regional e festa do milho entre 26 e 28 de dezembro

Olhem ai, povos!

Já está definida a agenda de apresentações de violeiros, duplas e grupos, além dos eventos do Caipirapuru,  festival de viola caipira que neste ano ocorrerá entre 26 e 28 de dezembro, na cidade paulista de Irapuru, situada na Alta Paulista, na região de Dracena e Junqueirópolis, e distante 640 quilômetros da Capital. Todas as cantorias e atividades como  Festa do Milho e a Feira Regional Caipira terão entrada franca e serão realizadas na praça Leite Ribeiro, promovidas pela Associação Cultural Caipirapuru com apoio da Prefeitura, da Câmara Municipal, empresas e estabelecimentos do comércio locais. 

Uma das atrações, entre os violeiros, será Júlio Santin, nascido na cidade do festival, atualmente residindo em São Paulo. Autor de Sentimento Matuto e Capim Dourado, Santin vai se apresentar no dia 28, quando os shows começarão mais cedo, às 12 horas, com direito a um almoço caipira. Nomes consagrados como Levi Ramiro, Arnaldo Freitas, Rogério Gulin e Thadeu Romano, entre outros, também estarão em Irapuru. Outro destaque serão os documentários Dona Helena e Gedeão, em homenagem a dama da viola pantaneira Helena Meirelles e ao mestre Gedeão da Viola, responsáveis por duas das escolas mais virtuosas da viola brasileira.

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Júlio Santin (Foto: Marcelino Lima)
Arnaldo Freitas aprendeu a tocar viola aos 8 anos
Arnaldo Freitas (Divulgação)
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Thadeu Romano (Foto: Nalu Fernandes)

 

Levi Ramiro (Foto: Marcelino Lima)

Arnaldo Freitas traz sucessos de “Divisa das águas” ao SESC Osasco

Arnaldo Freitas aprendeu a tocar viola aos 8 anos
Arnaldo Freitas (Foto: Pedro Hummel)

 Arnaldo Freitas, violeiro nascido em Marília, no interior paulista,  um dos músicos integrantes desde 2006  do regional do programa do programa “Viola, Minha Viola”, será a atração do projeto “Caldos com Sons Brasileiros”, que o SESC de Osasco promoverá na quinta-feira, 28 de agosto. A apresentação do autor do álbum “Divisa das águas” (2010) começará às 19 horas no Deck da Cafeteria e poderá ser apreciada enquanto se degusta uma gostosa sopa, vendida ao preço único de R$ 6,50. Em caso de mal tempo, os organizadores costumam transferir o evento para a Tenda 1. O SESC fica na avenida Sport Club Corinthians Paulista, 1.300, no jardim das Flores, ao lado da Unifesp, com estacionamento gratuito.

 Com sua técnica apurada e interpretação emocionante, Arnaldo Freitas é considerado um dos principais violeiros da nova safra da música instrumental brasileira. Foi vencedor da categoria “Melhor instrumentista de viola do festival Voa Viola” . Neste show interpreta clássicos de mestres violeiros de todas as gerações como Tião Carreiro, Tinoco (Tonico e Tinoco), Helena Meirelles, Bambico, Inezita Barroso, Teddy Vieira, Gedeão da viola, Zé do Rancho, Serrinha, Tião do Carro, Goiano, Cacique (Cacique e Pajé), Almir Sater, Roberto Correa, além de comentar sobre as influências de cada um

Helena Meirelles, a “Dama da Viola”, ganha homenagem no “Viola, minha Viola”

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Helena Meirelles teve apenas doze anos de carreira, que iniciou já aos 67 anos, mas tocava desde garota com maestria em bailes e até bordéis (Foto Rui Mendes)

O programa Viola, minha viola”, apresentado por Inezita Barroso da manhã deste domingo, 13 de julho, fez uma homenagem a Helena Meirelles, reapresentando uma participação dela ocorrida em 1997, no palco do anfiteatro do SESC Pompeia. O programa está atingindo a marca de 34 anos no ar e vem tirando das prateleiras do acervo da TV Cultura vários momentos deste período, matando saudades de muitos telespectadores que apreciam os gêneros caipira e regional, tanto reavivando a memória do público que é fiel há mais de três décadas, quanto revelando às novas gerações expoentes que, com o passar do tempo, sempre tendem a ficar esquecidos.

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A “Dama da Viola” tocava com afinações exigentes polcas, chamamés e rasqueados (Foto: Mário Araújo)

Helena Meirelles, para quem ainda não a conhece, violeira, cantora e compositora nascida em Bataguassu (MS), em 1924, apenas ganhou a atenção da mídia nacional e dos setores relacionados à divulgação da música regional em meados da década dos anos 1990, descoberta pela revista “Guitar Player”. Antes, apenas a própria Inezita Barroso, por meio do programa “Mutirão”, e Pena Branca & Xavantinho, dedicavam-se a tirá-la do anonimato. Corria 1993 quando repercutiu em vários centros a ampla reportagem sobre a franzina senhora que animava magistralmente festas, bailes, bares e até bordéis no Centro Oeste e interior paulista que, em vida, aprendera a tocar viola escondida e para o que teve de fugir de casa (driblando, assim, a proibição dos pais), frequentava rodas de peões e comitivas e casou-se três vezes, inclusive com um paraguaio tocador de harpa.

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Capa de um dos álbuns de Helena Meirelles

A Guitar Player acabara de elegê-la naquele ano como uma das 100 melhores instrumentistas do mundo, com voto do pop star Eric Clapton. As portas dos palcos e dos auditórios tanto de televisão, quanto de rádio, entidades e casas de espetáculos, além das páginas de diversos veículos especializados e gravadoras, enfim se abriram. Em curto espaço de tempo, o sucesso após a primeira aparição pública em um teatro, já quando somava 67 anos, consumou-se e ela atingiu a merecida fama com direito, inclusive, a dois filmes para o cinema nacional. Sua vida marcada por fatos pitorescos, alguns narrados em voz própria como parir sozinha, à beira de rios, os próprios rebentos, onze no total, motivaram as películas. Nesta altura, já recebia o tratamento de “Dama da Viola”.

Até a morte, em Presidente Epitácio, no dia 28 de setembro de 2005, foram doze anos de aplausos e consagração. Este blogueiro teve a oportunidade de apreciá-la em vários shows e de compartilhar uma roda de mate das mais animadas com ela nos camarins do Teatro do SESC Pompeia, onde Helena Meirelles acabara de encantar a plateia em uma memorável cantoria, sempre acariciando nos intervalos sua inseparável viola de aço.  A carreira durante a qual defendeu com técnica incomum e afinações das mais exigentes músicas nativas como polcas, rasqueados e chamamés, além de costumes do Mato Grosso do Sul e do Pantanal, poderia ter sido bem mais gloriosa. Ficou registrada em quatro álbuns autorais, alguns hoje raros. A revista “Rolling Stones” a incluiu em 2012 na lista dos trinta maiores ícones brasileiros da guitarra e do violão (categoria Raízes Brasileiras).

Outra láurea póstuma veio em junho de 2013, conferida pelo Instituto Brasileiro de Viola Caipira, no Memorial da América Latina. Um sobrinho de Helena Meirelles, emocionado, recebeu a estatueta do 3º Prêmio Rozini de Excelência de Música de Viola, ao qual fez jus na categoria “Referência”, entregue também a representante do compositor Bambico.

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Sobrinho de Helena Meirelles recebe em São Paulo troféu do 3o. Prêmio Rozini em nome da tia consagrada após matéria da revista Guitar Player (Foto: Marcelino Lima)
 Álbuns de Helena Meirelles

Helena Meirelles (1994)/ Flor da Guavira (1996)/ Raiz Pantaneira (1997)/ De volta ao Pantanal (2002, ao vivo)/ Os bambas da viola (2004)

Filmes

Helena Meirelles – A Dama da Viola (2004), direção de Francisco de Paula/ Dona Helena (2004), direção de Dainara Toffoli

Linque para ver Helena Meirelles tocando:

http://rollingstone.uol.com.br/blog/musica-popular-brasileira/helena-meirelles-e-sua-viola-genial-que-toca-alma-da-gente