1524- Dulce Quental (RJ) exalta o silêncio em Sob o Signo do Amor, um disco de enamoramento e resistência*

#MPB #Rock #Literatura #CulturaPopular

Em seu sexto álbum de estúdio, a compositora carioca convida o ouvinte a mergulhar nas pausas de suas novas canções enquanto vive uma história de amor num mundo que está desabando

*Com Marcelo Costa e Eliane Verbena

 

Silêncio. Dulce Quental tem algo para revelar: “Voltei pra mim / Estou de volta”, ela canta em A Pele do Amor, faixa que acena para John Lennon (Hold On) e também traz o título de seu sexto disco solo, Sob o Signo do Amor (Cafezinho Edições, 2022), primeiro disco de inéditas desde Beleza Roubada (Sony/BMG, 2004). Nesse intervalo, Dulce lançou o vinil Música e Maresia (Discosaoleo/Cafezinho Edições, 2016), resgatando canções “perdidas” gravadas na década dos anos 1990, e o DVD homônimo gravado ao vivo e em parceria com o Canal Brasil, em 2017, além de compor e ser gravada por diversos parceiros.

A espinha dorsal de Sob o Signo do Amor, porém, foi composta num autoexílio involuntário em Angra dos Reis (RJ) refugiada numa casinha rústica à beira mar, em 2020, em meio à pandemia de Covid-19, quando compôs e registrou a maioria das canções no formato violão e voz enquanto dividia o espaço com a natureza, o oceano, o céu, a lua, morcegos, golfinhos, pescadores e tartarugas. São canções novas, frescas, emocionais e repletas de silêncios que convidam o ouvinte a entrar num universo tão pessoal quanto social.

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1512 – Graziela Medori (SP) grava pela Kuarup releitura de disco clássico de Caetano Veloso eleito um dos dez melhores do Brasil

#MPB #Afoxé #Pop #Rock #Reggae #CulturaPopular

Com novos arranjos e elementos, Transando o Transa está disponível nas plataformas digitais e apresenta as canções originais do “discobjeto” Transa, que o baiano concebeu durante o exílio na década dos anos 1970

A cantora paulistana Graziela Medori está lançando Transando o Transa, uma releitura do célebre Transa, que Caetano Veloso gravou em 1971 e chegou ao mercado nacional em 1972 – um álbum, portanto, que tem meio século, mas conserva-se clássico. O projeto é da Produtora e Gravadora Kuarup, que já trouxera Graziela ao final de 2020, ao lado de Alexandre Vianna, reinterpretando canções do Clube da Esquina em Nossas Esquinas.

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1413 – Com trio e quarteto, Neymar Dias (SP) promove apresentações virtuais que mesclam composições autorais, moda caipira, rock e música clássica*

#MPB #MúsicaCaipira #MúsicaClássica #MúsicaErudita #Rock #ViolaBrasileira #ViolaCaipira #ViolaInstrumental

* Com Miriam Bemelmans

O compositor, pesquisador e arranjador multi-instrumentista Neymar Dias fará neste mês uma série de apresentações virtuais —  formando com músicos um quarteto ou um trio, dependendo do programa a ser tocado–, sempre a partir das 19 horas. Os concertos online serão transmitidos sem cobrança de taxas pelo canal eletrônico de Neymar, cujo linque estará ao final desta atualização. O projeto foi contemplado pela Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc (Lei 14.017/20, do Governo Federal), prevista no ProAC (Programa de Ação Cultural) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo.

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1347 – Disco Antonio Brasileiro abre segunda temporada de programa que homenageia Tom Jobim

#MPB #TomJobim #CulturaPopular #BossaNova

“Longa é a arte, tão breve é a vida…”

Último álbum do maestro carioca ilustrou reestreia do projeto que Fábio Caramuru e Babu Baia levam ao ar, todas as sextas-feiras, na paulistana Rádio Cultura FM

As tradicionais audições aos sábados pela manhã aqui no cafofo do Barulho d’água Música começaram hoje, 16 de janeiro do verão do pandêmico 2021, em São Roque (SP), pelo disco Antonio Brasileiro– álbum lançado três dias depois da passagem do autor, o saudoso Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, maestro Tom Jobim, a 11 de dezembro de 1994. O também compositor, pianista, cantor, arranjador e violonista carioca morrera dia 8, curiosamente na mesma cidade dos Estados Unidos da América, Nova Iorque, e data do assassinato do beatle John Lennon, 14 anos antes. Bem fora do combinado e prestes a completar 68 anos, Jobim sofreu duas paradas cardíacas após uma cirurgia na bexiga. Ainda em vida, ele já era considerado o maior expoente de todos os tempos da música popular brasileira na avaliação da revista Rolling Stone, com contribuições como a criação do movimento da Bossa Nova ao lado de Vinícius de Moraes e de João Gilberto, entre outros.

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1336 – Graziela Medori e Alexandre Vianna lançam disco dedicado à obra do Clube da Esquina

#MPB #ClubeDaEsquina

Nossas Esquinas, que a Kuarup já disponibiliza nas plataformas virtuais e também sairá no formato físico, revisita composições dos dois antológicos álbuns do grupo musical mineiro, um dos mais famosos de todos os tempos no país

O Clube da Esquina nasceu de um encontro de artistas que agitava a confluência das ruas Divinópolis com Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte.(MG), promovendo forte junção entre músicos e compositores mineiros, mas acima de tudo, da amizade entre eles, que foi o maior dessa geração de artistas que descobria a música uma forma de se expressar. Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges, Fernando Brant, Nelson Ângelo, Ronaldo Bastos, Beto Guedes, Toninho Horta e Wagner Tiso, dentre outros, contribuíram para a criação de uma sonoridade única que reúne influências forte da banda britânica The Beatles, da música latino-americana, dos negros e dos índios com o canto das igrejas, com letras cujos temas abordam a importância da amizade genuína e revelam momentos políticos vividos na década dos anos de 1970, fincadas em raízes ancestrais e no sentimento coletivo de amor e perseverança.

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1252 – Ouça clássicos brasileiros, de Violeta Parra e dos Beatles em disco de Ulisses Rocha com cello, baixo elétrico, trompete e viola caipira

Destacado violonista e compositor carioca que integrou o D’Alma é um dos mais influentes da atual geração brasileira, admirado por um estilo inconfundível que transita entre os mundos da música brasileira,da música erudita e do jazz 

O Quinteto, álbum instrumental de Ulisses Rocha, lançado em 2017, abriu as audições matinais que promovemos todos os sábados aqui no boteco do Barulho d’água Música, em São Roque (SP), neste dia 26 de outubro. Gravado com 10 faixas que são releituras de clássicos universais de músicos de diversos estilos — de João do Valle e Luiz Vieira a John Lennon e Paul McCartney, passando por Violeta Parra, Heitor Villa Lobos, Luizinho e Teddy Vieira e chegando a Milton Nascimento — O Quinteto reúne, além de Ulisses Rocha: Raïff Dantas Barreto (cello), Vitor Loureiro (baixo elétrico), Walmir de Almeida Gil (trompete) e Ivan Vilela (viola caipira), oferecendo um mini-concerto que poderá ser apreciado tanto no portal eletrônico do autor, quanto em várias plataformas digitais nas quais estão disponíveis, ainda, várias outras joias da discografia de Ulisses Rocha, trabalho que totaliza 16 discos e inclui os produzido ainda como integrante do extinto grupo D’Alma, fora as participações em álbuns de amigos e parceiros de estrada.

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1250 – Walter Franco(SP) embarca numa boa brisa e, sempre diamante, ascende para provocar outros céus

Gênio para alguns, maldito para outros, ambos para muitos, mas incontestavelmente marcante para todos, gostassem dele ou não, tanto nos palcos, como fora dele: Walter Franco embarcou numa vela aberta e se afastou pelo mar rumo à Serra do Luar na madrugada desta quinta-feira, 24/10, na cidade de São Paulo, viagem que torna mais banzaró nosso anseio por navegar e, quando possível, com a mente quieta e a espinha ereta por águas mais tranquilas, equilibradas, justas e artisticamente mais ricas.

Sofrendo uma dor que dilacera enquanto canalhas de plantão metem fogo na mata (e no cabaré) e à base de canetadas esvaziam árduas conquistas, a cultura brasileira está mais uma vez de luto, desta vez pela passagem, aos 74 anos, do cantor e compositor que agitou a cena dos primeiros festivais, ganhando um dos certames — na opinião da plateia e parte dos jurados como Nara Leão, Júlio Medaglia, Rogério Duprat e Roberto Freire, antes de eles serem defenestrados e emudecidos –, só que não — de acordo com a palavra final da ditadura, da milicaiada e dos censores que ferviam, dentro e fora do ginásio do Maracanãzinho (RJ), que os organizadores chapas brancas acataram com as calças nas mãos.

Walter Rosciano Franco estava internado desde o começo do mês, após sofrer um acidente vascular cerebral que o deixou inconsciente desde então. O filho, Diogo, foi quem trouxe a mensagem às redes sociais. “Agradeço a todas as orações e boas vibrações nesses últimos dias, mas sinto dar a notícia de que nosso Walter Franco partiu tranquilamente”, escreveu. Tranquilamente, como sempre foi, apesar de polêmico, inovador, provocativo, transgressor e se sabe lá quantos mais rótulos nele tentaram pespegar e ele, de fato, tenha encarnado, embora não admirasse o de “maldito”. Pois o paulistano pai de Diogo, controvérsias à parte em sua biografia, consolidou-se como um dos expoentes da vanguarda brasileira, legando ora petardos contra as conveniências e a subserviência do período, cutucando com suas letras, arranjos e voz comportamentos e mentes  da corruptela e apaniguados dos anos de chumbo, ora baladas mais suaves, o que fazia dele para outros tantos apenas um rapaz… boa praça, bem educado, no fundo difícil de enquadrar em esteriótipos.   

A mídia e a indústria do entretenimento gostam de rótulos, mas Walter Franco paira acima de todos os esteriótipos e ficará na história da MPB pelo conjunto da obra que, no início de sua trajetória, abriu os caminhos para consagra-lo

Cabeça, Canalha, Me Deixe Mudo, Vela Aberta, Mamãe d’água, entre outros, estão entre alguns dos seus sucessos mais virais; outros diriam “mais virulentos”, talvez. Inicialmente apontada como favorita a vencedora (juntamente com Nó na Cama, de Ari do Cavaco e Cesar Augusto), Cabeça causou furor, despertou reações acaloradas, temperadas com vaias, sopapos e ameaças ao final do Festival Internacional da Canção, de 1972, o último da Era dos Festivais que, consumado em “marmelada”, acabou consagrando (seguindo os votos de um júri novo, formado nos bastidores, apenas por estrangeiros) como vencedora Fio Maravilha, de Jorge Ben, interpretada por Maria Alcina – ambos, é bom que se registre, nada têm a ver com isso.

Um ano mais tarde, a canção em tela  integrava Ou Não, álbum de estreia de Walter Franco e que deixou a crítica trocando par ou ímpar para — conforme apontou Thales de Menezes em artigo da Folha de São Paulo que escreveu no dia da morte do autor — ficar estabelecido qual seria o disco mais experimental e inovador da época, se Ou Não ou Araçá Azul, de Caetano Veloso. Com apenas uma mosca na capa, as composições não passaram batidas por conter, entre outros elementos, pitadas de poesia concreta e psicodelia, algumas das tendências estéticas que vigoravam na época trazidos, inicialmente, nas boas ondas da Tropicália.  

Em uma de suas apresentações, ainda no palco, Walter Franco é cercado por fãs (Foto: Marcus Preto)

Walter Franco, entretanto, botou para quebrar, mesmo, em 1975, ano em que trouxe para o baile Revolver, seu segundo álbum, tema da atualização 1138 deste Barulho d’água Música, publicada em 26 de dezembro de 2018. Revolver contem, entre outras faixas, Eternamente, Feito Gente, Mamãe d’água, Cachorro Babucho e Pirâmides, gravadas em um “estilo mântrico”, que sugere flertes com o zen budismo, conforme também apontou Thales, e remete, ainda ao lendário Abbey Road (1969), dos The Beatles, em cuja capa o quarteto mais famoso que Jesus Cristo caminha sob uma faixa pintada na célebre avenida londrina, com John Lennon, todo de branco, puxando a fila; pois Walter Franco, embora sozinho em sua capa, também vem todo de branco e cabeludo  tal qual Lennon, sem contar que a faixa 3, Mamãe D’água, lembra em alguns momentos Lucy In  the Sky With Diamonds, do Seargent Pepper’s… (1967). Nos anos seguintes, a discografia de Franco aumentou com Respire Fundo (1978), Vela Aberta (1979), Walter Franco (1982) e Tutano (2001), com a participação do titã Arnaldo Antunes.

No sentido horário, as capas dos álbuns de Walter Franco, em ordem cronológica

Mesmo sem jamais cair no ostracismo, já tiozão optar pela reclusão em um sítio cercado de árvores frutíferas e açude piscoso, sem dependurar as chuteiras, do último disco em diante Walter Franco fez apenas alguns shows esporádicos — todos sempre coalhados de gente, nos quais o repertório entremeava músicas contestadas com os sucessos menos agressivos — como Serra do Luar, regravado por Leila Pinheiro e que se notabilizou pelo verso viver é afinar o instrumento/De dentro pra fora/De fora pra dentro. O ex-cabeludo daqueles tempos nos quais também despontaram Sérgio Sampaio como figurinha carimbada do mesmo álbum dos “malditos” matinha uma banda desde 2015 e cantava sempre acompanhado por Diogo, um dos quatro herdeiros. Thales de Menezes informou que Walter Franco estaria preparando um novo disco, que seria o sétimo da trajetória.

O corpo de Walter Franco, após o velório na Bela Vista, foi cremado em Vila Alpina, ambos bairros paulistanos. A toda hora, a todo o momento, entretanto, que sua obra seja lembrada pela originalidade, pela coragem, pela ousadia de quem soube inovar e andar à frente de seu tempo quando o bicho [que julgávamos morto e enterrado] pegava por aqui.

Leia sobre e ouça a música Cabeça neste texto de Elisa Oieno, publicado em 25 de julho de 2017, clicando na palavra em destaque!

1242 – João Bá: uma dádiva que não se apagará, uma facho de fogo que seguirá apontando os caminhos a seguirmos

Poeta, cantador, compositor, ator, violonista, homem de bondade e de sabedoria irrefutáveis, agora transmutado em estrela, o Bacurau Cantante sobe para o Plano Elevado deixando um legado que o aproxima de São Francisco de Assis e o transforma em em sinônimo de Humanidade

Lidar com e aceitar a morte costuma ser para a maioria das pessoas um desafio, doloroso, sobretudo no hemisfério católico-cristão, que a associa à perda, ausência, fim. Pessoalmente e à medida que envelheço e ficamos mais próximos, venho tentando me esforçar para Encará-la como São Francisco de Assis a considerava, uma Irmã redentora; ao mesmo tempo, exercito o esforço pra internalizar a convicção kardecista que preconiza a reencarnação — ou seja, a volta do espírito que um dia abrigou um corpo à matéria, credor de novas oportunidades de aprendizado que o levem à evolução até que, ao final de um ciclo, mereça residir em alto grau de felicidade e perfeição em planos mais elevados e sublimes.

Esta reflexão, mais uma vez, alcança-me nestas últimas horas em que tentamos aceitar que o querido amigo, cantor e compositor João Bá foi brincar no mar — justamente ele, o  menino que nós todos que o conhecemos (e o amaremos sempre) assim julgávamos, e, brincávamos, de fato, seria: eterno, invencível, resistente ao passar do tempo, á chegada do inexorável definhamento e do esgotamento dos órgãos e da mente, aos tombos do palco, uma espécie de alma de sete gatos, de entidade que pairaria acima deste desfecho pela força de sua personalidade risonha, generosa, poética, lúcida, abundante em luz e em sabedoria.

Fui acordado pela companheira Andreia Regina Beillo nas primeiras horas da manhã da sexta-feira, 4, com a notícia da passagem dele, lá em Caldas (MG), onde residia. Ainda estava meio imerso nas brumas do sono e demorei a processar e a apreender a informação, mas enquanto sob o impacto do anúncio tentava por meus circuitos para funcionar, a própria Andreia já se corrigia afirmando, com um tom de gratidão: “Notícia triste, na verdade, não totalmente, porque, claro, embora o João Bá nos fará falta, neste instante ele deve estar feliz pela vida que teve e pelo que nos legou, repleta de amigos, de encontros, de contribuições para o bem e para a nossa cultura, notadamente a popular”. Era o momento em que depois de alguns segundos e incredulidade a minha ficha caía. Eu até concordei com a Andreia quanto a sua sensata observação, mas no mesmo instante não consegui conter um suspiro profundo e soltei um “puta, que merda!”

Não encontramos informações sobre a causa do encantamento, mas, de fato, acredito que isto pouco interessa, olhando pelo prisma da Andreia. Melhor mesmo (não por amarga resignação, mas por fé e maturidade), é perceber que João Bá seguirá sendo uma dádiva inesgotável, um mimo enquanto por aqui estivermos arreunidos, um facho de fogo candeeiro a apontar o caminho que devemos seguir trilhando: pela música, pela cultura popular, por nossas tradições, pela humanidade. Agora que ele é todo passarinho, deixemos que os do Alto o aninhem no lugar em que merece, já plenamente completo, encantando com seu jeito de baiano-mineirim quem por ventura Lá também tenha merecido pousar. E como ele mesmo dizia que no Céu não há marmelada, vocês conseguem imaginar a festa que estão fazendo entre as nuvens Pixinguinha, John Lennon, Elis Regina, Beethoven, Tom Jobim, Bibi Ferreira, Ariano Suassuna, Mário Quintana, Manoel de Barros, Marília Pêra, Bach, Villa-Lobos, Gonzaguinha e Gonzagão? Posso até ver o comunicado que São Pedro mandou Dércio Marques ler:

Em virtude da superlotação do nosso Teatro Celestial para a apresentação de boas-vindas do Bacurau Cantante, Jesus pede para avisar que promoveremos mais quantas sessões do show forem necessárias até que todas as almas que Aqui no Mundo Perfeito se encontram e queiram aplaudir nosso companheiro consiga seu lugar na plateia.”

Lido o comunicado, até Deus voltará inúmeras vezes à fila de entrada e, mesmo Todo Poderoso, tentará descolar selfies e autógrafos da atração após cada cantoria, ô, se vai!

Amigo carinhoso, alegre e de coração humilde

Fato raro quando o artista que morre é um João, mas Bá, não Gilberto, pelo menos um veículo da grande mídia nacional, o Correio Braziliense, tirou o chapéu para repercutir a viagem astral do cantador. Também a versão online do Correio do Sul, de Poços de Caldas (MG), informou o fato aos seus leitores, lembrando que em julho recente ele e o seu pupilo João Arruda, de Campinas (SP), participaram do projeto Composição Ferroviária, promovido naquela cidade mineira pelo casal Jucilene Buosi e Wolf Borges, e que teve, ainda, Déo Lopes em cena.

Uma das mais tocantes homenagens e lembranças, entretanto, foi escrita pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), que publicou a seguinte nota de falecimento em sua página virtual:

João Bá foi um menino que dedicou toda sua vida à cultura popular e ao povo brasileiro. Nascido no sertão baiano, em Crisópolis, Bá é filho de lavradores. Ele contava que começou a trabalhar ainda criança, quando caiu o primeiro dente. Seu pai decidiu que ele estava pronto para ir à lavoura. Foi ajudando a família que ele começou a observar a natureza, grande motivo de inspiração para toda sua obra.

Aos 12 anos ele também já era cantor e compositor. Durante a trajetória, compôs mais de duzentas músicas, gravadas por artistas celebrados no cenário popular como Hermeto Pascoal, Almir Sater, Diana Pequeno, Dércio Marques, entre outros. Mas para o coração do povo Sem Terra a principal gravação é O menino e o mar, realizada junto com as crianças sem terrinha de Itapeva (SP), para o CD Plantando Ciranda 3.

João Bá esteve presente em muitos momentos de luta e de construção da cultura do MST. Ele participou dos Encontros de Violeiros, do II Festival Nacional de Arte e Cultura da Reforma Agrária, do Encontro com o Saci, em São Paulo, dos Festivais da Reforma Agrária em Minas Gerais, sempre alegrando e colocando as crianças mais adultas para brincar com suas canções.

Observado pelo olhar carinhoso e atento do filho Danilo Marques Oliveira, João Bá em abril de 2015, quando fez apresentação no Sesc Interlagos, da cidade de São Paulo, voltando á ativa depois de meses de internação e recuperação de problemas urinários (Foto: Marcelino Lima/Acervo Barulho d’água Música)

A música de João Bá é expressão de poesia, vida, natureza e luta. Ele foi o pioneiro na construção do lugar protagonista da cultura popular, do sujeito povo, que como criador de cultura e nas suas composições, que ele mesmo definia como orgânicas, por serem ligadas organicamente à natureza. A estética simples, mas intensa, despertava o senso crítico e retratava a luta de forma sensível e simples. João nos deixa um legado de humanidade, de fazer artístico e olhar sensível. De falar da luta como se fala da vida.”

Este texto do MST deixa de forma inequivocamente clara qual foi a opção preferencial de João Bá enquanto esteve encarnado: ao lado do povo, dos humildes, dos explorados de toda sorte.

Outro singelo tributo veio do violeiro natural de Salinas (MG) e radicado em Belo Horizonte Joaci Ornelas, um dos muitos músicos com quem João Bá conviveu. Ornelas escreveu, em forma de poema, o texto que segue:

O encantado se encantou!

Era menino feito de passarinhos
de anuns, araras, andorinhas e bacuraus
Era feito de rios e correntezas
Jequitinhonha e São Francisco
de barco e leme
calmaria do igarapé…
Era feito de areia, de mar e estrelas
de arvoredos e de matas
de uruçus e borboletas
Era feito de cerrado e sertão
de vales, sertanias!.

Era feito de brisa e ventania
de versos e melodias
de João, José e Hermeto
de Rosa e Severininha
Era feito de sonhos
de esperança
da mais pura alegria

João… o encantado se encantou!

Também mineiro e violeiro, Gustavo Guimarães comparou João Bá a São Francisco de Assis, santo cujos maiores louvores são promovidos justamente no dia em que João Bá torna-se luz:

Hoje é mesmo um dia especial, dia que é lembrado pela passagem de São Francisco de Assis e dia que o nosso querido João Bá também segue a sua viagem em direção a uma nova vida.

João foi uma espécie de São Francisco para nós e para nossa cultura, um amigo carinhoso, alegre e de coração humilde, poeta, sábio e professor. Um homem cheio da presença de Deus, que sempre procurava colocar o amor acima de tudo. Obrigado e siga em paz João, vá menino, brincar no mar do amor de Deus. No coração tudo permanece.”

Vale a pena, ainda, reproduzir o artigo do Correio do Sul, que observou

João Bá (…) reunia diversos talentos artísticos, como atuar, contar histórias, cantar e tocar violão. Como violeiro, começou a participar de shows e festivais em 1966, como o Festival da TV Tupi, no qual teve uma de suas músicas, Facho de Fogo, como destaque do evento. A canção foi composta em parceria com Vidal França. Seu primeiro disco, Carrancas, trouxe diversas participações especiais, como Hermeto Paschoal e Osvaldinho Acordeom. Sua discografia é composta também por Carrancas II, Ação dos Bacuraus Cantantes, Pica-Pau Amarelo (e o último, Cavaleiro Macunaíma, com o qual em 2014 ele festejava 80 anos] ¹.

Soma mais de 200 composições musicais. Teve seus trabalhos usados na trilha sonora de documentários como Entre o Mar e o Sertão, de 2007, sobre Gláuber Rocha, e Nas Terras do bem-virá, de Alexandre Rampezzo. Três músicas do disco Pica-Pau Amarelo foram inseridas na coletânea italiana Aruanã, sendo que a faixa Bicho-da-seda também foi usada no documentário Sindicato Operário Bolonha (Itália). Entre outras participações, João Bá também subiu ao palco do Conexão Vivo em 2009, como convidado do grupo Lavadeiras de Almenara.

Se o mundo precisa redescobrir o significado da palavra Humano, que estudem João Bá”, escreveu o produtor do programa Sr. Brasil, Lenir Boldrin, sobrinho do apresentador Rolando Boldrin. “João Bá, em um mundo em que ouvimos e conhecemos o poder e a destruição que pode causar o ego, sempre comentei que foi nele que aprendi o que pode ser a força e o poder da humildade, a riqueza de ser gente, de ligar o verdadeiro elo da humanidade.”

João Bá também atuou no cinema como autor e foi protagonista da sétima arte em um documentário de 60 minutos da Itoby Filmes há pouco mais de três anos.

Leia outros conteúdos sobre João Bá ou a ele relacionados aqui no Barulho d’água Música clicando no linque abaixo!

https://barulhodeagua.com/tag/joao-ba/


¹Também integram a discografia de João Bá: 50 Anos de Carreira (2004), Aruanã – Amigos da Orchestra do Mundo(2005) e Amigo Folharal (2010). Comprar os CDs do João Bá é possível enviando mensagem para Nanah Correia pelo endereço virtual nanahcorreia22@yahoo.com.br.

http://www.itobyfilmes.com.br/equipe-fitipaldi-1

https://quadradadoscanturis.blogspot.com/2014/01/joao-ba-discografia-para-download.html

https://www.mst.org.br/2019/10/04/joao-ba-foi-brincar-com-as-estrelas-do-mar.html

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2019/10/04/

http://correiodosul.com/regiao/morre-aos-87-anos-o-cantor-e-compositor-joao-ba/

1219 – Ivan Vilela lança disco com Orquestra do Mato Grosso reunindo clássicos da música caipira  

Com regência do maestro Leandro Carvalho, álbum A Força do Boi, da Kuarup, traz clássicos da música regional, do The Beatles e a serenata para cordas do inglês Edward Elgar

A produtora e gravadora Kuarup está lançando um novo disco, agora reunindo em 9 faixas instrumentais a Orquestra de Mato Grosso (OEMT), sob regência do maestro Leandro Carvalho, e Ivan Vilela, em um trabalho que evidencia a versatilidade da viola caipira acompanhada por instrumentos de uma orquestra de câmara. Todo instrumental, A Força do Boi traz temas como Tristeza do Jeca e Eleonor Rigby (faixa disponível somente no álbum digital) com nova roupagem por meio de arranjos ousados e criativos. O encontro de Ivan Vilela com a OEMT ocorreu em novembro de 2014, em Mato Grosso, quando eles apresentaram conceitos e entraram em estúdio para registrar o resultado. 

Ivan Vilela é um dos principais instrumentistas brasileiros da atualidade e referência no estudo, pesquisa e composição para viola caipira. Professor doutor da Universidade de São Paulo (USP), foi um dos idealizadores do primeiro curso de bacharelado de viola caipira no país. Este é seu primeiro álbum em parceria com uma orquestra e um exemplar do disco está rolando agora na vitrolinha aqui no boteco do Barulho d’água Música enquanto escrevemos esta atualização. O disco nos foi enviado, gentilmente, por Rodolfo Zanke, diretor cultural da Kuarup, ao qual e à toda equipe somos mais uma vez gratos!  .

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1215 – Divulgados homenageados e datas de realização do 5º Prêmio Profissionais da Música, em Brasília (DF)

Cerimônia de entrega do troféu Parada da Música aos vencedores das 67 categorias de 3 modalidades está marcada para 3 de novembro

Os organizadores do 5º Prêmio Profissionais da Música (PPM) conseguiram driblar os efeitos das canetadas que cortaram recursos anteriormente garantidos à promoção dos eventos e à cerimônia de premiação dos finalistas, inicialmente planejadas para abril, e anunciaram que tudo será realizado entre 1º e 3 de novembro, em Brasília (DF). Os homenageados desta edição também foram divulgados: Ronaldo Bastos (Criação), Genildo Fonseca (Produção) e Claudio Santoro (Convergência), as três modalidades que concentram as 67 categorias dos finalistas, que juntas, envolvem 492 artistas e profissionais (selecionados a partir de mais de 1500 inscrições de todo o país que se submeteram às três etapas de votação ao longo do primeiro semestre de 2019). O Barulho d’água Música é finalista pela segunda vez consecutiva da categoria Canais de Divulgação de Música/Convergência e já confirmou que estará presente na capital federal.

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