Roda de Viola do SESC Campo Limpo merecia mais tempo e tratamento melhor

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Ricardo Vignini, Índio Cachoeira, Levi Ramiro, Paulo Freire e Rodrigo Zanc (Foto de Marcelino Lima)

O ditado “tudo o que é bom acaba logo” nunca foi tão mais apropriado na tarde de 9 de julho para quem esteve no SESC do Campo Limpo, no começo da tarde. Para marcar as atividades de inauguração da nova unidade, cujas portas se abriram ao público há pouco mais de um mês apenas, a direção da entidade programou uma roda de viola com cinco bambas paulistas das músicas regional e caipira. Assim, para um encontro inusitado e inédito, juntaram-se no picadeiro do Circo Zanni Ricardo Vignini, Índio Cachoeira, Levi Ramiro, Paulo Freire e Rodrigo Zanc. Como todos têm expressivas carreiras em estradas próprias, a plateia presente nas arquibancadas esfregou as mãos esperando curtir sucessos de cada um, além de clássicos das duas vertentes.

 

Paulo Freire
Paulo Freire (Marcelino Lima)

Em parte, a expectativa foi, sim senhor, magistralmente satisfeita. As violas entrosadas no calor do momento pontearam com perfeição e já pareciam íntimas desde que ainda eram cedros ou madeira de outra árvore nobre. Vignini, Cachoeira, Levi, Freire e Zanc também cantaram como quem prática uma atividade cotidiana modas consagradas há décadas pelo gosto popular, ora em duplas, ora em trios, ou ainda coletivamente. Não se quer dizer aqui que tocaram e cantaram de qualquer jeito, na base do improviso, ora esta, ora vá! É que cantaram e tocaram como quem nem precisa ensaiar, pois carregam tudinho guardado lá dentro de si, puxam do peito o que verbalizam e executam, exteriorizam eivado de delicadeza, de respeito e de lisura nossos patrimônios musicais . Com a propriedade de quem estuda, pesquisa, envolve-se, apresenta-se pelo prazer, pela oportunidade de reencontrar o parceiro, ou compartilhar um tesouro ou um causo pitoresco que tanto pode fazer chorar, como sorrir o anônimo que os escuta; com a devida simplicidade de saber que em reuniões assim não há mestres ou alunos, todos são iguais perante a plateia e às cordas dos instrumentos: a categoria é tamanha que basta um olhar entre eles para que cada nota saia devidamente encadeada, emparelhadinha com a do colega da direita, da esquerda, de acolá, nenhuma antes da hora ou precisando por sebo nas canelas trilhos atrás do troço que acabou de passar pela estação.

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Índio Cachoeira (Marcelino Lima)

Ah, então não há do que reclamar, os moços deram conta do recado! Deram, sim, uai, mas vai ouvindo, vão ouvindo e beeeeeeemmmm atento, pois de uma hora para outra, já acabou: a cantoria não equivaleu à metade do tempo que na véspera sofremos dançando quais baratas tontas naquele baile alemão regido por uma maldita sinfonia de uma bizarra nota só! O SESC Campo Limpo, nada generoso e sem avaliar direito os currículos de quem convidou, dedicou aos músicos míseros quarenta minutinhos para mostrarem um repertório que poderia ser bem mais rico e extenso, para revelar a quem não os conhecia não apenas o talento que estava evidente, bem como pelo menos uma canção de cada um, uma marca única que os identificasse e fosse capaz de despertar ali, no ato, mais um admirador, provocar uma interação ainda mais calorosa, receptiva, nunca efêmera.

 

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Ricardo Vignini (Nalu Fernandes)

Apesar da pressa da entidade, os cinco marcaram a tarde fria do feriado dedicado à memória dos revolucionários de 1932 relembrando os clássicos “Pagode em Brasília”, “La Paloma”, “Triste Berrante”, “Canto Brasileiro”, “Cuitelinho”, “O Homem e a espingarda”, “Empreitada Perigosa”, “Cálix Bento”, e como bis, “Saudades de Minha Terra”. Paulo Freire ainda contou em seu jeito característico como se deve dominar uma onça quando a pintada surpreende alguém que está no mato sem ter ao menos um canivete para encarar a encrenca. E ficamos assim, e sem muita conversa posterior com o público porque nova atração já estava ali às portas, era preciso desmontar e recolher os trens, ligeiro como quem ainda está com a prisunha nos calcanhares. Quem quisesse prosear, apertar a mão dos músicos, dar neles um abraço, guardar um retrato como lembrança… que fosse para o terreiro, oh deselegância pai d’égua!

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Levi Ramiro (Nalu Fernandes)
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Rodrigo Zanc (Nalu Fernandes)

 

Cinco ases da viola marcam inauguração do SESC Carmo

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Da direita para a esquerda: Rodrigo Zanc, Ricardo Vignini, Índio Cachoeira, Paulo Freire e Levi Ramiro

O SESC de São Paulo vai inaugurar nesta quarta-feira 9 de julho a unidade do bairro paulistano Campo Limpo, situada na Rua Nossa Senhora do Bom Conselho, 120. Quem estiver disposto a curtir o feriado que relembra a Revolução Constitucionalista de 1932 comparecendo ao local poderá curtir a partir das 15 horas e sem pagar ingresso a roda de viola ao ar livre com Paulo Freire, Rodrigo Zanc, Levi Ramiro, Ricardo Vignini e Índio Cachoeira, entre outras atrações e atividades. A proposta é reunir violeiros de diferentes gerações e estilos de modo descontraído e informal para apresentar ao público o instrumento que em seu bojo guarda várias peculiaridades da cultura e da música regional brasileira. O Barulho de Água Música conferirá para posteriormente contar aos leitores e amigos como se desenrolou a prosa entre as 50 cordas e os cinco ases.

 

Duo Catrumano abre em julho projeto do SESC Osasco de valorização da viola caipira

 SESC de Osasco divulgou as atrações que o público poderá curtir nas noites de quinta-feira do mês de julho pelo projeto “Caldos com Sabores Brasileiros”, cujas apresentações ocorrem no Deck da Cafeteria, a partir das 19 horas. A lista começa com uma dupla formada por Rodrigo Nali e Elias Kopack, que integram o Duo Catrumano, programado para o dia 3. Nali e Kopack foram alunos de Ivan Vilela e, regidos pelo mestre, compuseram a Orquestra Filarmônica de Violas de Campinas, uma das mais premiadas do gênero.

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Capa do primeiro álbum, de 2010, premiado em 2013

Antes da entrada de Kopack, o Duo Catrumano contava com a participação de Anderson Batista. Com o novo integrante, veio em 2010 a gravação do primeiro álbum, batizado com o nome artístico e que rendeu aos autores o troféu de um dos três melhores discos instrumentais de 2013, conferido pelo Instituto Brasileiro de Viola Caipira, promotor em junho do 3º. Prêmio de Excelência de Música de Viola. 

A estatueta não foi entregue à toa, em noite memorável para quem esteve no Memorial da América Latina. O Duo Catrumano procura neste trabalho  explorar as possibilidades da viola caipira ao máximo. A utilização do instrumento que guarda estreita relação com a brasilidade e ao mesmo tempo soa universal proporcionou arranjos e interpretações refinadas dos clássicos da música de raiz brasileira. Nali e Kopack souberam aproveitar as múltiplas influências do rico universo da dama de dez cordas para realizar arranjos de sonoridade única. 

 O ouvinte delicia-se ao por o álbum para tocar, nota o requinte das linhas melódicas de cada uma das 12 faixas que valorizam ritmos e ricas harmonias do cancioneiro brasileiro, todas apresentadas por meio de uma ampla diversidade de texturas e nuances. O repertório conta com interpretações de composições de Tião Carreiro, Almir Sater, Ivan Vilela, Levi RamiroUlisses Rocha, Zeca Collares, e Renato Andrade, entre outros.

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Elias Kopack e Rodrigo Nali receberam o troféu do Prêmio Rozini no Memorial da América Latina (Foto: Marcelino Lima)

Em uma das páginas do encarte, Ivan Vilela escreve sobre o contentamento que sentiu ao curtir o Duo Catrumano. “Uma das coisas mais gratificantes da vida é ver os amigos crescerem e caminharem cada vez mais adiante”, observou Vilela. Em outro trecho do depoimento, o mestre apontou que “é também mágico observar como devolvem ao mundo com gratidão, através da música, todas as impressões que fixaram no tempo de aprendizado”.

Os pupilos, prossegue Ivan Vilela, foram eficazes em buscar “a nota certa, o som exato, a expressão adequada”. Por fim, ele considera o primeiro trabalho de Nali e Kopack “uma madura interpretação de ambos” de uma seleção de músicas bem escolhidas, composições densas, arranjos onde não sobra e não falta nenhuma nota, todas na medida exata. “São quatro mãos em ofício de encantamento (…) qual irmãos, encantados numa só busca, a de quem soma e com isso inebria a quem ouve.”

Programação do “Caldos com Sabores Brasileiros”, sempre a partir das 19 horas, com entrada franca. O SESC de Osasco fica na rua Sport Club Corinthians Paulista, 1.300, jardim das Flores, ao lado do campus da Universidade Federal

3 de julho – Duo Catrumano
10 de julho – Trio Carreiro
17 de julho – Anderson e Rodrigo Nali
24 de julho – Paulo Freire
31 de julho – Levi Ramiro
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A dupla do Duo Catrumano vai abrir a programação de julho do projeto do SESC Osasco “Caldos com Sabores Brasileiros” apresentando músicas do primeiro disco(Foto: Giancarlo Gianelli)

 

De Cuiabá, Daniel de Paula, uma talentoso sopro de viola de cocho

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Daniel de Paula recebeu do IBVC uma das estatuetas da edição de 2013 do Prêmio Rozini (categoria “Outras Vertentes) pelo álbum que gravou tocando viola de cocho (Foto: Marcelino Lima)

Para a galera que curte música de viola, o Barulho d´Água Música apresenta Daniel de Paula, nascido em Tangará da Serra (MT), mas desde muito cedo residente na capital do estado, Cuiabá . Daniel de Paula toca viola de cocho, instrumento tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) produzido na região da bacia do rio Paraguai, baixada cuiabana e Pantanal, incluindo os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Singular quanto à sua forma e sua sonoridade, produzida de forma artesanal com matéria prima encontrada no ecossistema regional, a confecção se processa a partir de um tronco de madeira esculpido a seu formato peculiar e escavada na parte que vem a ser a caixa de ressonância. Em geral possui cinco cordas de nylon, em particular linha de pesca de vários diâmetros, cuja afinação varia entre os sistemas “canotio preso” e “canotio solto” “rio acima” e “rio abaixo”.

A habilidade de tocar este instrumento rendeu a Daniel de Paula uma das estatuetas do 3º Prêmio Rozini de Excelência de Música de Viola, em reconhecimento à gravação do disco  Lufada em Viola de Cocho, entregue em 17 de junho de 2013 no Memorial da América Latina pelo Instituto Brasileiro de Viola Caipira. O álbum foi agraciado na categoria Outras Vertentes e tem entre as faixas Papo de Viola, destacada para compor uma das obras primas do paulista  Levi Ramiro, Prosa na base do Ponteio. O mato-grossense também emplacou Curva de Rio entre os finalistas do 2 º Prêmio Syngenta de Música Instrumental de Viola, de 2006, e a própria  Lufada em Viola de Cocho no Prêmio Syngenta anterior.

Confira nos linques abaixo como é o som da viola de cocho executada pelo próprio Daniel de Paula, cujo endereço para contato é danielvioladecocho@gmail.com

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Wilson Dias apresenta “Mucuta” no Teatro Anchieta, do SESC Consolação

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Wilson Dias toca com simplicidade, mas tem técnica apurada e com a viola em mãos parece se elevar e trazer lá de dentro toda sua força e espiritualidade

 Olá amigos e seguidores!

Estou adicionando  ao Barulho d’Água Música por meio dos linques abaixo dois vídeos em que Wilson Dias, de Olhos d’Água (MG), apresenta toda a sua técnica de violeiro que transita entre o tradicional e o moderno, tocando com sensibilidade e entrega músicas de sua autoria as quais, em vários momentos, soam como peças de composição clássica de rara beleza. Em ambos há informações e depoimentos sobre a carreira que já resultou em seis discos gravados, as dificuldades do começo da vida pessoal em uma cidade do Vale do Jequitinhonha onde faltava na infância água e luz elétrica e ele precisava caminhar 16 quilômetros para ir à escola, por exemplo, e o envolvimento desde pequeno com a preservação da natureza e a divulgação da cultura do norte mineiro, motivado pelo ambiente familiar no qual a música e elementos da religiosidade,  os costumes e o comportamento típicos de um sertanejo que luta com tenacidade pela sobrevivência e sua afirmação no mundo sempre regavam as descobertas e apontavam os caminhos que o menino, mais tarde, viria a  seguir.

O primeiro vídeo, de pouco mais de 25 minutos, produzido pelo SESC para o programa “Passagem de Som”, mostra Wilson Dias em três ocasiões, nas quais em duas está em companhia do amigo e também violeiro Levi Ramiro. Em Campinas, ambos haviam acabado de encerrar um show do Projeto Café com Viola, no SESC local, quando começaram uma agradável prosa com Luís Franco, conhecido no meio por “Candeeiro”. Na sequência, Wilson e Levi aparecem narrando histórias pessoais e pitorescas no apartamento localizado em São Paulo do cardiologista e igualmente violeiro Júlio Santin. Os três revelam curiosidades como a alegria de ver chegar à casa da avó o primeiro lampião a gás (“que iluminava mais do que a lamparina”), os primórdios da música caipira em São Paulo (cuja origem se localiza no triângulo formado por Botucatu, Piracicaba e Sorocaba, cidades nas quais se encontram os primeiros registros fonográficos deste gênero em todo o Estado) e a inspiração para seguir a mesma trilha do pai, esteio e ídolo para o qual um deles afinava a viola utilizada em cantorias durante as quais este filho também tinha a oportunidade de ver a mãe cantar, acompanhando o marido festeiro.

O terceiro momento, ainda do primeiro vídeo, traz imagens do  bate-papo e do ensaio de Wilson Dias e dos músicos que o acompanhavam, cujas imagens foram captadas horas antes  da apresentação deles no projeto “Instrumental SESC Brasil”, coordenado por Patrícia Palumbo,  no palco do Teatro Anchieta, do SESC Consolação (SP). A gravação na integra daquela edição do SESC Instrumental realizada em 12 de agosto de 2013 é o que se poderá curtir assistindo ao segundo vídeo, durante cuja exibição valerá a pena prestar bastante atenção à narração de Patrícia.

“Neste show relembro cada momento que eu vivi na roça, cada música é uma fotografia da minha vida”, informou Wilson Dias ao público presente. Eu estava na plateia naquela fria noite em que após sofrer as agruras de andar de trem e de metrô em pleno horário de rush noturno, e entrar no Teatro atrasado, com a apresentação já rolando, tive a grata oportunidade de conhecer pessoalmente  Wilson Dias, Augusto Cordeiro (violão), Gladson Braga (percussão), André Siqueira (flauta e violão), e Pedro Gomes (baixo).  Depois viramos amigos, o que é uma satisfação, pois além de talentoso com a viola caipira nas mãos, Wilson Dias é descontraído e, como todo mineiro, tem aquele jeito brejeiro, acolhedor, doce e simpático. Como escrevi acima, algumas das músicas do “Mucuta” tocadas no Teatro Anchieta são verdadeiros concertos, revelam todo o apuro e excelência de Wilson Dias e do seu time que tem a esposa Nilce Gomes sempre atenta e dedicada nos bastidores e no qual a participação do professor da Universidade de Londrina (PR), arranjador e multi-instrumentista  André Siqueira, também merece destaque.  Siqueira é produtor de vários discos do mineiro, entre os quais “Lume”, lançado em novembro do ano passado, com participações de Déa TrancosoNá Ozetti e do poeta e jornalista João Evangelista Rodrigues, senhor compositor que assina várias belezuras do Wilson Dias e de outros bambas como Pereira da Viola.

 

Linques para ver os vídeos:

http://passagemdesom.sesctv.org.br/artistas/wilson-dias/programa-passagem-de-som-em-15-julho-2013

http://www.instrumentalsescbrasil.org.br/artistas/wilson-dias

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Da dir. para a esq.: Siqueira, Pedro Gomes, Wilson Dias, Patrícia Palumbo, Augusto Cordeiro e ao fundo,Gladson Braga (Fotos de Marcelino Lima)

 

Luiz Salgado empunha a bandeira de defesa das belezas e fé dos povos do Cerrado

Luiz Salgado canta as belezas do cerrado e as tradições de um povo cuja fé torna as pessoas mais fortes (Fotos de Nalu Fernandes)

“Eu sou salgado como o mar, calmo como rio em dia de cheia/sou forte como o carcará, eu sou jequitibá que não titubeia”

Luiz Salgado, em“Raízes”, do álbum Trem Bão

Luiz Salgado é cantor e compositor nascido em Pato de Minas, atualmente residente em Araguari (MG). De acordo com a própria forma de se apresentar, procura revelar a alma simples do povo ao tocar e cantar  suas modas. Para tanto, costura seus estandartes com elementos simples e ao mesmo tempo relevantes, característica que se soma à irreverência pessoal, ao bom humor e a profícua capacidade de recolher e contar causos. A preservação do bioma cerrado e de toda fauna e flora, assim como das culturas mineira e brasileira, é outra meta deste expoente da viola caipira que integra o Projeto 4 Cantos ao lado de Cláudio Lacerda, Rodrigo Zanc e Wilson Teixeira. O mais recente trabalho, em parceria com Katya Teixeira, o álbum “2 Mares”, esteve cotado para receber o troféu de melhor da música neste ano na categoria regional.

“A cultura é um canal transformador e criador”, declara Luiz Salgado. “Meu trabalho é fincado na expressão musical arraigada no Brasil profundo, eleva a música que emana das tradições e das festas populares, da Folia de Reis, do Congado e da viola caipira”. Com acordes, ponteados e versos que ilustram poeticamente as belezas do cerrado, as criações dele acabam por se constituir em uma atitude protagonista e militante, uma ferramenta e um brado de resistência e de combate — como é, por sinal, bravo e obstinado o próprio meio que ele retrata.

“O cerrado tem uma particularidade encantadora: mesmo em uma região que aparentemente está totalmente árida, sempre há uma flor vicejando, por menor que seja”, conta. “O mais fantástico é presenciar como, em pouco tempo, da aparente desolação é brota o verde de novo, colocando diante dos olhos lugares de pura exuberância”.

O folclore de Minas Gerais e todo o fervor religioso dos povos do sertão também encontram na obra de Salgado um pujante defensor e estão presentes em sua discografia. A lista começa por “Trem Bão”, tem “Sina de Cantadô”, o dvd “Noite e Viola” e “Navegantes”, este dedicado ao público infantil, além do “2 Mares”. Entre as faixas desta profícua e doce cesta de frutos dos mais variados, há parcerias dele com Consuelo de Paula, Cátia de França, Orquestra de Viola Caipira do Cerrado, Viola de Nóis, Trem das Gerais, Pena Branca & Manuvéi, Levi Ramiro e João Bá.

Recentemente, Salgado apresentou-se no SESC de Araraquara. Em 6 de julho, ao lado de Katya Teixeira e Carol Ladeira ele será atração de mais uma edição do “Arreuni”, projeto de João Arruda realizado sempre no Centro Cultural Casarão, em Campinas. O show está marcado para começar às 19 horas. Ao lado dos companheiros do 4 Cantos, em agosto de 2013, gravou participação no programa Sr.Brasil, de Rolando Boldrin, quando cantou “Carcará, guardião do cerrado”. É um dos ganhadores do 3o. Prêmio Rozini de Excelência de Viola Caipira, entregue em junho de 2013 pelo Instituto Brasileiro de Viola Caipira , no Memorial da América Latina (SP).

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Com Katya Teixeira, o cantor mineiro produziu 2 Mares, que tem canções e cantigas das culturas do Brasil e de Portugal (Marcelino Lima)

Às margens do Ipiranga, a viola plácida de Levi Ramiro

Puxe a cadeira, estique as pernas, acomode-se: quando Levi Ramiro toca ele é orgânico, os sentidos se aguçam. É possível ouvir o correr sereno de um regato, traz o cheiro do mato nas cordas da viola e se sente na pele o arrepio do vento cortando invernadas.

Levi Ramiro, SESC Ipiranga,  Roberto Correa, Ricardo Vignini e Zé Helder,Orquestra Paulistana de Viola Caipira, Wilson Dias, Paulo Freire, João Arruda, Luciano Queiróz e Katya Teixeira.

Sob a mesma “nuvem” raízes, pássaros e cantadores

Eita que dentro do novo disco do Levi Ramiro, “Capiau“, a frase “os dispostos se atraem”, do Fernando Anitelli, de “O Teatro Mágico”, consumou-se a mais pura verdade! Não é, moço, que na “alma” daquela esfera e no livreto do encarte couberam uma mata inteira de passarinhos variados, além de uma constelação de gente boa que transita no universo caipira e regional da música de raiz? Começa que as ilustrações do álbum em papel reciclado brotaram da pena da Katya Teixeira. E ela ainda solta aquela voz poderosa em duas das 15 faixas! Uma delas, “Encantado”, é dedicada a São Dércio Marques, cujo homem outrora encarnado já emplumou e, mais do que uma estrela, hoje se tornou imensa nuvem que arreúne muitos seguidores, envoltos em agradável sombra.cd-capiau

As letras de “Capiau”, quando não são do próprio Levi Ramiro (que enquanto canta e dedilha as próprias violas, próprias não por serem objetos dele, apenas, mas por ter sido ele mesmo quem as artesanou!) têm assinatura do poeta e jornalista João Evangelista Rodrigues, ou, ainda, de ambos em combinação. Se falha uma o parceiro é Wilson Dias, mineiro que de vez em quando me enche os olhos de água e que no disco também nos encanta em duas cantorias.

Vamos adiante porque a prosa e as modas prosseguem com participações de Carlinhos Ferreira, Marcos Azevedo, Carlinhos Campos. E fecha com aquele irrequieto e criativo menino de Campinas, o pequeno notável João Arruda! E está achando que pára por ai? Ah, pois vai ouvindo, vai ouvindo: você ainda vai dar por ali com o mestre Paulo Freire, Adriano Rosa, Gustavo Guimarães, Júlio Santin, Luciano Queiroz, Bilora Violeiro, Rodrigo Delage, Thadeu Romano e o bom amigo que está sempre a festejar conosco, Cláudio Lacerda.

Olha, aqui, vamos combinar uma coisa, amigo (a)? Nesta lista ainda há um monte de nomes a serem mencionados e não quero deixar ninguém sem o reconhecimento do seu mérito. Então, faça assim, oh: entre em contato com o Levi Ramiro, encomende o seu exemplar do “Capiau”, e aguarde pelo carteiro. De posse da caixinha, dê umas esfregadas nas mãos, leve o poeta para um cantinho sossegado da sala, ou do quintal. Acomode-se em sua cadeira preferida debaixo daquela árvore que te dá sombra e frutos, munido de um recém-coado bule de café, ou de um pouco daquela boa que te trouxeram das Gerais, de Goiás, da Bahia, do Piauí e de onde quer que seja estava reservada para uma ocasião especial. Antes de por o disco para rodar, leia todas as informações, prestando bastante atenção ao alerta do Evangelista e nas ilustrações da Katya Teixeira; isto, assim mesmo, sem afobação, com o passo das águas de um regato que corta os fundos de um sítio ou chácara e não precisa de pressa para correr, como sabiá que pousou no galho da laranjeira e não quer mais bater asas dali. Então, simplesmente escute e ouça…

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O violeiro e compositor Levi Ramiro reúne pássaros de vários timbres no álbum “Capiau”, que tem encarte preparado por Katya Teixeira, letras de João Evangelista Rodrigues e homenagem a Dércio Marques (Marcelino Lima, Campinas, março de 2014)

 

 

Tião Mineiro comemora 50 anos de estrada

Tião Mineiro será homenageado pelo show "Acordar com os passarinhos"
Tião Mineiro será homenageado pelo show “Acordar com os passarinhos”

Neste domingo, 15 de junho, uma cantoria para lá de especial, marcada para começar por volta das 17 horas, à beira do rio Atibaia, no distrito de Sousas, em Campinas, está programada para festejar os 50 anos de carreira do mestre Tião Mineiro, o querido Sebastião Vitor Rosa. Vai ter viola , sanfona, batuque, folia de reis e presenças ilustres como dos violeiros João Arruda e Levi Ramiro, entre outros convidados para abrilhantar o show “Acordar com os passarinhos”. Parabéns ao mestre!

Katya Teixeira e João Arruda cantam em Mogi das Cruzes

Katya Teixeira e João Arruda,  cantores e compositores de São Paulo e de Campinas, respectivamente, estiveram no palco do II Festival de Arte Popular do Alto Tietê, montado na Praça Oswaldo Cruz, na cidade de Mogi das Cruzes. A apresentação ocorreu em 17 de maio. Ambos cantaram canções da carreira solo e dos álbuns que já gravaram, como “2 Mares”, que Katya Teixeira lançou recentemente com Luiz Salgado, e “Ventamoinho”, em que João Arruda tem a participação dela e de expoentes como Levi Ramiro Silva. João Arruda também é autor, entre outros trabalhos, de “Celebra Sonhos”, e coordena o projeto “Arreuni”, que mensalmente ocorre no Centro Cultural Casarão, em Barão Geraldo, Campinas. Katya tem na biografia os discos “Katxerê”, “Lira do Povo” e “Feito de Corda e Cantiga”, participações em discos diversos de expoentes como João Bá e Luis Perequê, além de estar na estrada com o “Projeto Dandô – (Circuito de Música Dércio Marques), que percorre o país.

O anfitrião e promotor do show, o músico Déo Miranda, além do percussionista Fernando Tocha (Grupo de Pífanos Flautins Matuá) também dividiram o palco com Katya Teixeira e João Arruda. Encerrada a participação da dupla no Festival de Arte Popular do Alto Tietê, Katya e João seguiram para o SESC de Santo Amaro, na Capital, onde os aguardava o público de mais uma Virada Cultural Paulista.

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Legenda: João Arruda, Katya Teixeira, Déo Miranda e Fernando Tocha

Texto e foto: Marcelino Lima